quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A necessidade de votar contra o fascismo

 

Votei a contragosto em António José Seguro na primeira volta. Continuo a considerá-lo um homem de direita quando medido pela matriz histórica do Partido Socialista, esse que um dia acreditou na transformação social e não apenas na gestão competente do capitalismo. Mas na segunda volta votarei nele sem rebuços, sem hesitações, sem o nariz tapado que outros precisam. E fá-lo-ei mesmo "acompanhado" de tanta gente de quem me sinto abismalmente afastado ideologicamente — dos liberais da Iniciativa Liberal aos sociais-democratas de sempre, passando por toda essa fauna política que normalmente combato.

A questão agora em equação não admite sofismas nem finuras teóricas: trata-se de escolher entre democracia e fascismo. Escrevo democracia com minúscula porque a Democracia com maiúscula — essa que transformaria radicalmente quem detém os meios de produção e de expressão do pensamento livre — é outra coisa completamente diferente, um horizonte que permanece distante e talvez inatingível nestas coordenadas históricas. Mas mesmo esta democracia imperfeita, burguesa, limitada, vale infinitamente mais do que o fascismo que André Ventura representa sem disfarces.

Manuel Loff tem razão quando pergunta se não são fascistas. São. Ventura e os seus não precisam de usar camisas negras ou desfilar com tochas para serem reconhecidos pelo que são. A retórica adaptada ao século XXI, os aliados internacionais, a base social, os métodos — tudo remete para o fascismo clássico atualizado para os tempos das redes sociais e da pós-verdade. Quem ainda nega este perigo, ou está cego por conveniência ideológica, ou é cúmplice consciente da catástrofe que se avizinha.

Montenegro, ao optar por não decidir entre Seguro e Ventura, não está apenas a estabelecer uma equivalência moral obscena entre democracia e fascismo. Está a normalizar o inaceitável, a tornar palatável o que deveria repugnar qualquer pessoa minimamente decente. Pedro Adão e Silva acerta ao diagnosticar o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo. Em poucos anos passámos de um país que se julgava imune ao populismo para um onde a direita tradicional namora abertamente com o fascismo ou, na melhor das hipóteses, se demite de o combater.

O que custa é a primeira vez, diz Adão e Silva. E tem razão. Os eleitores que agora votam em Ventura pela primeira vez podem nunca mais voltar. Cada voto normaliza, cada abstenção facilita, cada equidistância covarde da direita moderada pavimenta o caminho para a barbárie.

Neste contexto, a operação da Polícia Judiciária contra o grupo neonazi liderado por Mário Machado só peca por tardia. Não faltavam provas incriminatórias contra estes indivíduos — sinistras caricaturas do que devem ser os seres humanos — que faziam da violência xenófoba o seu programa político e da intimidação racial a sua prática quotidiana. Durante demasiado tempo deixámo-los agir, organizar-se, recrutar, agredir. E agora descobrimos que entre os 37 detidos estão um polícia e um militar, que há ligações a grupos organizados de claques de futebol, que existe uma estrutura hierárquica estabelecida que opera há anos em plena luz do dia.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime hediondo continuam ativos na mesma lógica de violência racista. Isto não é apenas falha policial — é falha civilizacional. É o resultado de décadas de complacência com o discurso de ódio, de normalização da xenofobia, de tolerância com a intolerância. Quando a extrema-direita passa de marginal a mainstream, quando políticos eleitos legitimam o racismo com eufemismos sobre "segurança" e "identidade nacional", não nos podemos surpreender quando aparecem milícias neonazis a agredir imigrantes nas ruas.

E aqui chegamos ao terceiro elemento desta equação: a luta sindical que a CGTP liderará — pela habitual falta de comparência da UGT — contra o pacote laboral de Montenegro. Esta será outro momento fundamental da luta pela democracia. Porque os "direitos" remanescentes concedidos por esse projeto de lei a quem trabalha só se enquadram nos regimes autocráticos onde os trabalhadores são mercadoria descartável e os sindicatos são domesticados ou abolidos.

Montenegro pode anunciar acordos plurianuais com a UGT e dar a ideia de que a CGTP está isolada. Mas a verdade é que um pacote laboral que precariza ainda mais as relações de trabalho, facilita os despedimentos, reduz direitos conquistados ao longo de décadas, não é apenas uma questão técnica de gestão económica — é um ataque frontal à dignidade de quem trabalha. É a preparação do terreno social para o autoritarismo político.

Porque o fascismo não chega ao poder apenas pelo voto. Decorre da erosão prévia das condições materiais de vida das pessoas, pela destruição das redes de proteção social, pela precarização permanente. E da insegurança económica tão insuportável que as pessoas aceitam qualquer promessa de ordem, mesmo que seja a do chicote.

Por isso a luta contra o pacote laboral não é apenas uma luta sindical — é uma luta antifascista. E por isso votar em Seguro contra Ventura não é apenas escolher o menor de dois males — é escolher a possibilidade de continuar a luta pela Democracia com maiúscula, mesmo dentro dos limites apertados da democracia com minúscula.

Não teço ilusões. Seguro não será o presidente que transforma Portugal num país mais justo. Não desafiará o poder económico, não questionará a NATO, não porá em causa o capitalismo. Mas garantirá — e já não é pouco — a continuação do respeito pelas liberdades constitucionais que permitem continuar a lutar por algo melhor. Ventura, esse, fecharia definitivamente essa possibilidade.

Entre a náusea de votar num candidato de direita e a necessidade de travar o fascismo, não há dúvida possível. A náusea passa. O fascismo, uma vez instalado, demora gerações a ser derrotado. E o preço dessa derrota mede-se em sangue, tortura, campos de concentração, vidas destruídas.

Votarei em Seguro sem entusiasmo mas sem vergonha. Porque às vezes a dignidade política não está em votar naquilo em que se acredita, mas em impedir aquilo que se combate. E o fascismo, mesmo vestido de fato e gravata, mesmo falando a linguagem do século XXI, continua a ser o inimigo absoluto de tudo aquilo em que acredito.

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