Durante décadas, militantes de esquerda na Europa gastaram rios de tinta e oceanos de palavras tentando demonstrar a verdadeira natureza do poder norte-americano. Escreveram livros densos sobre o imperialismo, organizaram manifestações contra as guerras no Vietname e no Iraque, documentaram golpes de Estado patrocinados pela CIA, expuseram as torturas em Abu Ghraib e Guantánamo. E, no entanto, a mitologia persistia: os Estados Unidos como farol da democracia, terra das oportunidades, guardião das liberdades fundamentais.
Donald Trump conseguiu em poucos anos aquilo que gerações inteiras de críticos do imperialismo nunca alcançaram: desmascarar, sem qualquer pudor, a verdadeira face da "democracia" americana. Não através de denúncias ou de análises marxistas — mas simplesmente sendo ele próprio, agindo sem disfarces, dispensando as cortinas de fumo retórico que tradicionalmente envolviam a brutalidade do poder imperial.
A operação na Venezuela é apenas o episódio mais recente desta pedagogia involuntária. Trump não invocou a defesa da democracia, não fingiu preocupação com os direitos humanos, não fabricou complexas narrativas sobre ameaças à segurança nacional. Disse simplesmente: vamos lá buscar o petróleo. As nossas empresas vão administrar os recursos venezuelanos. Ponto final. É o capitalismo predador sem verniz, o imperialismo sem eufemismos, a rapina colonial apresentada com a naturalidade de quem descreve uma transação comercial.
Mas a lição não se esgota na política externa. Internamente, Trump está a demonstrar com clareza brutal o que sempre foi a relação do Estado norte-americano com a dissidência: tolerância zero para quem ousa contestar o poder. As rusgas contra manifestantes, as ameaças de deportação em massa, o discurso cada vez mais explícito sobre o uso da força contra opositores — tudo isto não é novidade na história americana. A novidade é que agora se faz à luz do dia, sem os costumeiros apelos retóricos à liberdade de expressão e aos valores democráticos.
Os que protestam contra Trump não são tratados como cidadãos exercendo direitos constitucionais, mas como inimigos internos a serem neutralizados. As cowboiadas já não se limitam a matar índios nas fronteiras do império — estendem-se agora a qualquer um que se atreva a gritar demasiado alto na própria metrópole. E a possibilidade de acabar engaiolado numa prisão salvadorenha, esse modelo de brutalidade carcerária que Trump tanto admira, deixou de ser apenas uma ameaça vaga para se tornar perspetiva concreta.
Esta é talvez a ironia mais amarga: Trump está a fazer aquilo que bibliotecas inteiras de teoria crítica nunca conseguiram — está a curar os europeus (e não só) da sua ilusão americana. Durante gerações, milhões sonharam com a emigração para essa pretensa terra das oportunidades, compraram o mito do self-made man, acreditaram que do outro lado do Atlântico existia uma sociedade verdadeiramente livre, onde o mérito triunfava e a justiça prevalecia.
Essa ilusão está a desfazer-se em tempo real. Os que ainda alimentavam fantasias sobre a superioridade moral do modelo americano veem agora o que sempre esteve lá: uma sociedade profundamente desigual, estruturalmente violenta, onde a justiça tem cor e classe social, onde as liberdades fundamentais são concessões revogáveis conforme a conveniência do poder. A ameaça de deportação violenta, de prisão arbitrária, de repressão brutal deveria devolver aos iludidos a sensação de realidade que nunca cultivaram quando se tratava de mitificar as virtudes ianques.
O paradoxo é doloroso: Trump, esse produto tóxico do capitalismo terminal, está a fazer o trabalho pedagógico que a esquerda europeia nunca conseguiu completar. Não por virtude, obviamente, mas por pura falta de hipocrisia. Ele não precisa de fingir — o poder está suficientemente consolidado para se apresentar nu. E nessa nudez obscena revela-se finalmente o que a América sempre foi: não uma democracia assente em regras de justiça e respeito pelas liberdades fundamentais, mas uma plutocracia imperial sustentada pela força, pela rapina e pela capacidade de impor a sua vontade através da violência.
Os liberais americanos, esses que ainda acreditam poder salvar a alma da nação através de procedimentos eleitorais e apelos constitucionais, não parecem compreender a dimensão do desastre. Trump não está a corromper um sistema saudável — está apenas a revelar a podridão que sempre lá esteve, escondida sob camadas de retórica sobre checks and balances e rule of law. O império não se tornou predador com Trump; apenas deixou de fingir que era outra coisa.
Para os europeus que ainda olhavam para os Estados Unidos com inveja ou admiração, a lição é dura mas necessária. Aquilo que tomavam por modelo é afinal um aviso. A célebre frase de que "a América é o futuro" ganha agora um significado sinistro: se deixarmos, este futuro de brutalidade desavergonhada, de desigualdade grotesca, de poder sem freios nem máscaras, pode também ser o nosso.
Trump está a prestar um serviço involuntário à consciência política mundial. Está a rasgar os véus, a despir as ilusões, a mostrar o império tal como sempre foi. Resta saber se teremos a inteligência de aprender a lição antes que seja tarde demais. Porque o que Trump demonstra não é apenas a verdade sobre a América — é também a verdade sobre o que acontece quando o poder se sente suficientemente forte para dispensar qualquer aparência de decência.

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