domingo, 25 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 2 - A Cobardia no Poder

 

A cobardia não se esgota nas milícias de rua. Manifesta-se também, com consequências potencialmente mais graves, no topo do poder político.

Luís Montenegro decidiu não tomar posição sobre a segunda volta das presidenciais. Nem apoia Seguro, nem condena Ventura. A justificação oficial é a neutralidade institucional. A realidade é o cálculo político: Montenegro não quer alienar os eleitores do PSD que estão disponíveis para votar em Ventura, mas também não quer assumir publicamente essa cedência ao fascismo. O resultado é a equidistância — essa forma particularmente insidiosa de cumplicidade que se disfarça de prudência.

Esta não-decisão tem efeitos concretos. Normaliza Ventura como opção democrática legítima. Dá cobertura moral aos eleitores da AD que hesitam. Aprofunda o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo que Pedro Adão e Silva identifica corretamente: em poucos anos, o eleitorado que outrora rejeitava liminarmente a extrema-direita passou a considerá-la uma opção possível.

Montenegro julga-se hábil. Pensa que pode gerir esta ambiguidade sem custos, que pode beneficiar eleitoralmente da aproximação ao Chega sem se comprometer publicamente com ele. É a mesma ilusão que levou tantos políticos europeus ao desastre: a ideia de que se pode instrumentalizar o fascismo para fins próprios. A História documenta exaustivamente o resultado dessa ilusão. Montenegro terá o seu momento de aprendizagem.

Paulo Rangel representa a mesma lógica aplicada à política externa. Quando Trump rapta Maduro e anuncia a apropriação do petróleo venezuelano, seis países — Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha — emitem um comunicado conjunto de condenação. Portugal, que partilha língua e história colonial com vários desses países, que experimentou décadas de ditadura, fica de fora.

Rangel não protestou, não condenou, não se juntou aos que manifestaram indignação. Escolheu o silêncio atlantista, a submissão automática a Washington, a genuflexão preventiva perante o poder imperial. É a mesma lógica de Montenegro aplicada a outra escala: não tomar posição clara porque isso poderia ter custos, fingir que a neutralidade é uma virtude quando é apenas cobardia calculada.

A diferença entre prudência diplomática e capitulação moral mede-se precisamente aqui: na capacidade de reconhecer quando uma violação do direito internacional é tão flagrante que o silêncio se torna cumplicidade. Rangel falhou esse teste. E ao falhar, transformou Portugal num país vassalo que abdica de voz própria para não desagradar ao império.

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