sábado, 10 de dezembro de 2016

Os meliantes das palavras

Uma a uma, as instituições internacionais com que o capitalismo procura condicionar os rumos políticos dos povos, vão dando conta da sua surpresa perante os indicadores económicos e financeiros da governação portuguesa. Desta feita foi o FMI que, em escassas semanas, foi obrigado a reconhecer a incompetência dos seus subirlalls, gaspares  Cª.
As previsões para 2016 e 2017 foram revistas em alta e reconheceu-se explicitamente o desajuste das suas propostas - que mantém no essencial, porque pode alguém ser quem não é? - com uma realidade em que as viram totalmente desprezadas. Afinal não foram precisas as tais “reformas estruturais” - eufemismo para elencar a redução dos custos do trabalho, os cortes nas reformas, ou mais “flexibilização” na legislação do trabalho - para que o défice baixasse a níveis históricos e o crescimento em contraciclo com o resto da Europa se concretizasse.
É claro que, comentando o relatório na SIC, o inevitável José Gomes Ferreira atribuiria este sucesso … ao programa de ajustamento imposto pela troika.  O que prova uma evidência: se o ridículo mata, leva tempo de mais a produzir o esperado efeito. É que a argumentação do pafista-mor da SIC só encontra despudor semelhante na assumpção de Nuno Crato quanto ao seu papel determinante nos resultados da sua bolorenta gestão educativa na evolução do país no recente relatório Pisa.
Esta é a estratégia que resta a quem outros argumentos não tem: atribuir ao governo anterior a razão dos sucessos com este constatados.
Será que se conseguirá manter esta farsa por muito tempo? Não serão os seus autores definitivamente confrontados com a sua desonestidade intelectual de forma a verem-se como vozes cada vez mais enfraquecidas a clamarem no meio de árido deserto?
Somos muitos os milhares os que se insurgem nas redes sociais contra estes meliantes da palavra. Um esforço a prosseguir sem tréguas, porque a capacidade de desinformação de tal gente é inesgotável tão-só continuem a receber as lentilhas de quem deles se serve como altifalantes. 
Armando Alves

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A União Europeia morreu! Viva a Europa!

Aonde já lá vai a simpatia, para muitos autêntico fervor, que a ideia europeia suscitou em nós. A ideia de que a CEE primeiro, a UE depois, constituiria uma sociedade livre e desenvolvida sobre cujo exemplo todos os demais países do mundo encontrariam modelo para replicar, esvaiu-se com a sua transformação num feudo de burocratas, criador de uma moeda única, mas onde se esqueceram os cidadãos.
A ascensão de movimentos fascistas põe em causa a própria conceção da democracia representativa pois, utilizando-a, estão à beira de conseguir os seus fins. Foi assim com Trump do outro lado do Atlântico, com Orban na Hungria, com Erdogan na Turquia e pode muito bem repetir-se em breve na Holanda, na França, quiçá mesmo na própria Alemanha.
Neste contexto a Europa interroga-se sobre a pertinência dos seus valores fundadores, o que ameaça a sua coesão e o que pode ser feito para mudar.
Ulrike Guérot, diretora do Laboratório para a Democracia Europeia, que tem sede em Berlim, e assina o ensaio «Porque é que a Europa deve tornar-se numa República. Uma Utopia Política.», lança o slogan «A União Europeia morreu, Viva a Europa!».
Na sua proposta há que fazer uma rutura total com o monstro em que a União se tornou, havendo que criar um novo recomeço: “Reconstruamos a Europa como uma rede de regiões culturais e históricas, sob um teto republicano comum, que seja a antítese dos fantasmas nacionalistas dos populismos de direita.”
A Europa só não repetirá a história dos nacionalismos se reivindicar para si esse papel de vanguarda da união entre todos os cidadãos do mundo.
“É preciso que nos voltemos a apaixonar pela política”, reconstruindo a Democracia a partir da base, o que passa por uma unidade jurídica comum respeitadora da diversidade cultural, mas em que todos se sintam imbuídos dos direitos republicanos, desde o da Liberdade até aos que a fundamentam através do acesso a uma qualidade de vida digna.
A Utopia proposta por Ulrike Guérot é a de uma República Europeia, espécie de Eutopia, assente no princípio político da igualdade para todos os cidadãos e em que o bem comum sirva de seu principio orientador.

Pretende-se que o continente evolua para se tornar num espaço pós-nacional, verdadeiramente democrático e justo, mediante a participação de todas as gerações.
Nega-se a possibilidade de ressurreição das atuais instituições europeias: a teoria dos sistemas já demonstrou que, alcançado um ponto crítico de complexidade, eles deixam de ser capazes de se renovarem. Por isso não é vã a expetativa de vê-las ruir a curto prazo, desaparecendo para sempre.
O que Ulrike Guérot, e os que como ela pensam, propõem é uma mobilização republicana para dar resposta eficiente a essa crise iminente. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A(s) voz(es) do(s) ilegítimos dono(s)

A entrevista a António Costa na RTP continua a agitar as redes sociais onde lavra justificada, mas impotente, indignação contra a falta de qualidade e de isenção dos jornalistas incumbidos de o questionarem.
Nos tempos do governo de José Sócrates a direita foi assaz bem sucedida quanto à acusação de tentativa de asfixia democrática e de ataques à liberdade de imprensa pelo então governo por, supostamente, ensaiar a compra da TVI.
Como esquecer os aviltantes comportamentos dos merecidamente silenciados Mário Crespo ou Manuela Moura Guedes, cujos conceitos de jornalismo eram similares aos dos criminosos da palavra acoitados na Fox News, ou entre nós, no «Observador»?
O próprio ministério público chegou a ver nos tímidos esforços do antigo primeiro-ministro socialista matéria bastante para adiar por mais algum tempo o inevitável arquivo de tudo quanto diz respeito à Operação Marquês. E, no entanto, não há sobressalto público, nem estruturada manifestação contra tão abjeto condicionamento das consciências com todos os jornais e televisões a soldo dos interesses dos que, politicamente, andam condenados a indigente oposição. A asfixia democrática, a verdadeira, a que silencia quase todas as opiniões oriundas de quem verdadeiramente representa a vontade da maioria dos cidadãos portugueses, é minoritária em tais veículos ativos da desinformação, da moldagem das consciências a interesses outros, que não os seus.
O predomínio quase total das direitas e seus titereiros económicos nos jornais, rádios e televisões é um dos principais óbices a que vivamos efetivamente numa Democracia, já que impera a ditadura das vozes do(s) dono(s)… 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A RTP continua a ser a televisão dos donos do «Observador»

A entrevista dada por António Costa a dois jornalistas da RTP voltou a demonstrar como o nosso jornalismo continua a ser servido por gente medíocre e ideologicamente enfeudada às direitas.
Longe vai o tempo dos grandes nomes da imprensa que, mesmo sob o jugo salazarista, nunca deixaram de impor perspetivas diversas das impostas pelo regime. Até mesmo «A Bola» servia de veículo de informação genuína sobre as realidades internas e externas, que o regime procurava calar.
A grande diferença entre essa geração e a atual é que a maioria dos que, então, trabalhavam e   animavam a boémia do Bairro não tinham formação específica em comunicação social, aprendendo com o que iam vivendo. A atual, quase toda oriunda dos cursos de jornalismo, que se tornaram moda depois do 25 de abril, são socialmente ignorantes e ideologicamente preconceituosos. Assim se entende que deitem a perder uma oportunidade para ouvir António Costa falar do futuro imediato, já que os motivou a coscuvilhice a respeito da anterior administração da Caixa Geral de Depósitos, algo de que daqui a umas semanas ninguém mais se lembrará a não ser a demitida equipa de António Domingues.
André Macedo, aquele que profetizara o fim da televisão pública e agora vive à sua custa, sentia-se tão agastado com a superior conduta do entrevistado em pô-lo na ordem que, às tantas, já queria ver como contratos efetivos aqueles que nunca chegaram a existir, porque travados a tempo pelo governo ao entrar em funções. Bem poderia ouvir a proposta do primeiro-ministro para se investigar (o que anda o ministério público a fazer?) a forma como o anterior governo, muito particularmente Sérgio Monteiro e Pires de Lima, andaram a oferecer as empresas de transportes das grandes metrópoles de Lisboa e Porto a empresas privadas internacionais. 
Conjuntamente com as atas das reuniões do governo de Passos Coelho com a troika, que Pacheco Pereira anda há semanas a exigir conhecer, seria bom que se apurassem os singulares benefícios que iriam auferir os referidos governantes com as benesses a tais «investidores».
Mas a RTP, televisão paga por todos nós, não se ficou por aí quanto à tentativa de maldizer tudo quanto António Costa conseguira transmitir durante a entrevista. Logo a seguir, no programa noturno em que Ana Lourenço prossegue a campanha antissocialista já há muito por si protagonizada na SIC, um painel de horrendas figuras, ligadas no passado ou no presente ao «Observador», cuidaram de encontrar matéria para distorcer, manipular e mentir quanto ao que o entrevistado dissera minutos antes. Juntar em torno da mesma mesa David Dinis, Helena Garrido, João Garcia e  José Manuel Fernandes inviabilizava qualquer dialética na discussão em que todos rivalizavam por um objetivo: apurar qual deles conseguia cascar mais no primeiro-ministro.
Se na hora seguinte a qualidade do painel seria diferente para melhor em objetividade e sabedoria - já que contava com Ricardo Paes Mamede, Pedro Lains, Vítor Bento e Pedro Norton -, quem a essa hora, já tardia, estava disponível para os ouvir?
Como dizia o embaixador Seixas da Costa no twitter a a administração da RTP esqueceu-se de avisar que haveria em canal aberto na rede TDT, mais um absolutamente inesperado: esse «Observador», financiado pelos patrões para servir de altifalante das suas objeções à atual maioria governamental e que tomou de assalto a RTP3.

As lições que andamos a dar

Embora fazer história contra factual seja sempre estulta atitude perante o efetivamente ocorrido, podemos adivinhar uma derrota do candidato do centrão austríaco perante o de matriz nazifascista, se não tivesse surgido Alexander Van der Bellen para propor algo de completamente diferente. A forma como os eleitores reduziram conservadores e sociais-democratas a 20% nos resultados da primeira volta revela bem a falta de apoio para com soluções em que os políticos buscam a convergência nesse mirífico, que abrem espaço para propostas ganhadoras nos extremos.
Nesse sentido impressiona atentar na teimosia quixotesca de um Francisco Assis continuando sozinho no meio de nenhures a procurar moinhos de vento contra que investir. E que outros «socialistas» como Manuel Valls o imitem nessa mesma obstinação de considerarem atraente para o eleitorado que a suposta esquerda se lhe apresente com exatamente o mesmo programa que qualquer político de direita não enjeitaria avocar se esse setor já não tivesse derivado tão para o extremo como sucedeu com Marine Le Pen ou François Fillon.
Desejosos de mudança perante uma realidade que os insatisfaz e lhes sonega qualquer tipo de esperança, os eleitores agarram-se aos Trumps e aos fascistas de diversos matizes, por os ouvirem dizer aquilo que desejam: que irão cercear o conúbio indecoroso entre o poder político e a alta finança e impedir que os empregos se volatilizem por efeito da globalização. A reportagem do futuro presidente norte-americano na fábrica da Career, que impediu de deslocalizar para o México, é um bom exemplo do que leva muitos trabalhadores, não só norte-americanos como europeus, a dizerem para si mesmos, que é esse o caminho certo por nada se poder equivaler à preservação do seu direito ao trabalho.
O problema que os diversos governos da União Europeia estão a ter com os referendos e as eleições, que invariavelmente vão incrementando o medo pelas novas ditaduras, é olharem para a governabilidade como um exercício macroeconómico sem darem a devida atenção às pessoas, que dele se tornam indefesas vítimas. Nesse sentido volta a fazer todo o sentido aquela expressão da proposta governativa de António Guterres segundo a qual as pessoas não são meros números.
A diferença entre Alexander Van der Bellen e os seus rivais dos dois partidos da coligação de governo, que consubstanciam esse centrão sem alma, é que as suas propostas eram, efetivamente, de esquerda e assentavam em devolver às populações expetativa positiva sobre o seu devir. Perante as ameaças do futuro propôs-lhe caminhos em que elas se reconheceram.
Compreende-se, pois, o porquê de não existir em Portugal um movimento de extrema-direita com algum significado. É que, de forma pioneira para toda a Europa, as diversas esquerdas souberam convergir nos máximos denominadores comuns diminuindo a relevância do que verdadeiramente as dividem. O bem comum sobrepôs-se à frívola defesa dos tais princípios que, em tempos, pareciam trincheiras absolutamente inamovíveis atrás das quais se mantinham inflexíveis os seus defensores.
Trata-se de caminho tormentoso, que se vai construindo enquanto se percorre, mas os acontecimentos provam já não existir outro. E que enjeita totalmente o outro, em que se agudizam injustiças e desigualdades.
Esperemos que, por toda a Europa, os que defendem os valores republicanos saibam atentar no exemplo português e o decidam imitar.
Carlos Botelho, «Lisboa e o Tejo»

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O referendo italiano e os populismos

1. A derrota de Matteo Renzi no referendo deste domingo vai possivelmente criar a oportunidade para confrontar mais um partido antissistema - o do palhaço Grillo - com a indigência das suas propostas políticas. Se, um pouco por toda a Europa, os eleitores manifestam a insatisfação por já não compreenderem o mundo em que vivem e abraçam as propostas mais simplistas, as organizações do tipo Movimento 5 Estrelas não conseguem sair da lógica de mero protesto. Não se lhes conhecem alternativas sérias para assegurar a governação do país, pois dão a entender que tudo decidirão através de sondagens à opinião pública.
O problema mais sério decorrente da atual situação é o seu aproveitamento por outras forças mais ideológicas e abertamente fascistas, cujas políticas signifiquem o abandono da participação política e a resignação a uma situação tida como inelutável.
A experiência portuguesa ocorrida entre 2011 e 2015 revela que um governo autocrático consegue tornar abúlicos os eleitores, convencendo-os de serem culpados dos seus próprios sofrimentos, e quase assassinar politicamente os adversários com recurso ao ministério público e à manipulação da informação, quase toda controlada nos jornais e televisões onde terá acautelado a colocação dos amigos nos cargos de decisão.
Quem julgava viável uma forte resposta social e política a eventuais vitórias fascistas bem pode tirar o cavalinho da chuva: o ovo da serpente tem de ser morto enquanto está a ser chocado, porque eclodindo pode já tornar-se demasiado tarde.
2. Sendo evidente que a atual crise das democracias europeias, confrontadas com os seus demónios da extrema-direita, tem origem na teimosia do sr. Schäuble em impor uma estratégia austeritária aos países do sul, logo agudizada pela crise dos refugiados criada pelos governos da França e da Alemanha, quando se mobilizaram para derrubar Bashar al-Assad, as circunstâncias andam a  demonstrar a falta de inteligência dos líderes dos vários países, que preferem soluções típicas do “centrão” às da clara dissociação entre propostas tradicionais de direita e de esquerda.
Perante alternativas dentro do sistema os eleitores seriam tentados a optar por uma delas. Se elas se congregam numa só, irá aproveitar quem dos extremos as contestam. O uso e abuso da instituição referendo tem-se revelado nesse aspeto uma arma de dois gumes, quase sempre mortal para quem a usa, julgando-a ajustada para validar e consolidar o seu frágil poder.
É nesse sentido que ainda não estou totalmente convencido quanto a uma disputa entre Fillon e Marine Le Pen para saber quem substitui Hollande no Eliseu. É que, vindo da tendência mais à esquerda do PS, Montebourg poderá alavancar-se a partir de um triunfo nas primárias de janeiro para ser o candidato, que os iludidos eleitores da direita e da extrema-direita, consigam ouvir e o tomem como a proposta mais consistente para mudar os rumos da França.
Se as sondagens davam Alexander Van der Bellen na eleição austríaca e ele venceu, quem dirá que algo semelhante não irá ocorrer na Holanda ou em França contra os ultras tidos como favoritos?
3. Na sua crónica deste fim-de-semana no «Expresso» Daniel Oliveira constata que, na sua presente fase, o capitalismo já dispensa a Democracia, cujos mecanismos de escrutínio colidem com as lógicas anti-regulatórias pretendidas por quem domina Wall Street, a City ou as demais grandes bolsas mundiais.
Curiosamente os que andarem estes últimos dias a olhar para a grande cerimónia popular de despedida do Comandante Fidel, andam entretidos com fórmulas já sem qualquer sentido (“todas as ditaduras são iguais”, por exemplo) e ignoram que não tarda nada ver a luta política já não dominada pela dicotomia entre Democracia e ditadura, mas entre Capitalismo e Socialismo. Com o crepuscular sistema a significar abandono dos formalismos democráticos e o Socialismo a figurar como a derradeira bóia a que se podem agarrar todos os explorados deste mundo ainda demasiado marcado pelas desigualdades. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

A vitória na Áustria significará o refluxo da maré?

1. Ontem formulara aqui o desejo de que Alexander Van der Bellen, o candidato antifascista às eleições presidenciais austríacas, conseguisse ter um mais do que merecido sucesso. Hoje o desejo transformou-se em realidade: a vitória confortável, que quase nenhuma sondagem sugerira possível, deverá servir de estímulo para quem não pensa inevitável a deriva extremista pressentida pelos mais pessimistas.
Agora que Hofer saiu derrotado, é altura de garantir idêntico destino para Marine Le Pen e Fillon em França, ou para Wilders na Holanda. O que passa por criar um sobressalto democrático suficientemente forte para fazer da política algo de decente em quem a maioria dos eleitores se reconheça.
2. Tem toda a razão o Pedro Marques Lopes no «Eixo do Mal»: deve-se ao PCP o não existir um movimento de extrema-direita em Portugal na dimensão do que existe em França ou noutros países europeus, ao ter conseguido atrair a si os estratos sociais sensíveis a tal tipo de discurso xenófobo e populista.
Basta olhar precisamente para o sucesso de Marine Le Pen nos antigos bastiões do PCF para compreender que fenómeno idêntico se replicaria aqui acaso o partido de Jerónimo de Sousa não soubesse ouvir os anseios da sua base eleitoral e deles tratasse de ser o ativo porta-voz.
3. No Congresso de Almada Carlos Carvalhos veio alertar para o óbvio: é tão volátil a situação da União Europeia e da sua moeda, que mal avisado andará o país, se não preparar previamente o possível desaparecimento do euro.
Compreende-se que o governo tenha de manter o discurso de fidelidade aos tratados europeus e às políticas ditadas dos diretórios de Bruxelas, mas nos bastidores importa encontrar os planos alternativos para quando se revelarem urgentes.
4. Foi precisamente o que António Costa fez com a Caixa Geral de Depósitos: depois de um mês de turbulência em torno da equipa liderada por António Domingues, tirou da cartola o antigo ministro da Saúde de Passos Coelho.
Pessoalmente não tenho a mínima simpatia por tal tecnocrata, mas consegue-se assim calar a voz às direitas até aqui apostadas em sabotarem o processo de recapitalização do banco. Depois de mostrar ser possível negociar com as instituições europeias a sua viabilização, evitando a degradação que tornaria inevitável a sonhada privatização em tempos enunciada por Passos Coelho, o governo corrige o que menos bem aconteceu nestas últimas semanas com esta matéria.
5. Porque sou impenitentemente ateu, quando tenho de assistir a uma missa - a última foi no recente enterro da minha mãe! - coloco-me de pé e em silêncio, as mãos juntas à frente, em sinal de respeito por quem acredita na lengalenga emitida pelo padre de serviço.
Se fosse deputado na Assembleia da República teria sido essa a postura perante o rei espanhol ali convidado a discursar. Assim mo ditaria o sentimento republicano e o respeito pela memoria de quantos morreram durante a Guerra Civil em defesa do regime esmagado pelo sinistro Franco.
Não concordo, obviamente, com a atitude dos deputados do Bloco: não tinham de bater palmas, mas deveriam ter-se levantado e adotado a atitude dos seus vizinhos comunistas.
Mas pior ainda foi o comportamento dos deputados do PSD durante as comemorações do 1º de dezembro. Porque não estava ainda no país, desconhecera o sucedido, mas visto à distância de alguns dias, o que ocorreu com tal decisão de Passos Coelho & Cª nem sequer chega ao nível da indigência mental. É pura e simplesmente estupidez..
6. Igualmente tema a ocupar grande espeço mediático ao regressar a casa, foi a da morte da equipa brasileira de futebol e dos jornalistas, que a acompanhavam a Medellin. Abstraindo-nos dos seus aspetos mais emotivos há algo que não deveremos esquecer: a fase atual do capitalismo - com o que significa em ganância e desprezo pelas consequências humanas das suas decisões de gestão -, assume carácter criminoso. O lucro pelo lucro não pode justificar este tipo de comportamento empresarial. 

Fazer com que lhes saiam furadas as contas...

Regressado de algumas semanas passadas na Holanda leio a crónica de Francisco Louçã no «Público» e questiono até que ponto tem razão, quando nos diz rodeados de “mad dogs”. E alude à hipótese de, hoje mesmo, com a eleição presidencial na Áustria e o referendo na Itália, dois novos cães danados passarem a assombrar  a nossa estabilidade já tão ameaçada por Trump, Erdogan, Orban & Cª.
Há, de facto, uma realidade a instalar-se mesmo em países outrora tidos como exemplares no respeito pelos Direitos Humanos. Em Haia pude constatar alguns sinais indiciadores do anunciado sucesso de Geert Wilders a primeiro-ministro nas eleições de março próximo: é a preferência por holandeses em empregos anteriormente preenchidos por estrangeiros, o responderem-nos na língua local quando nos dirigimos a alguém em inglês, ou a diferença de trato no supermercado, com as empregadas da caixa não europeias a mostrarem-se bem mais simpáticas do que as de alva tez.
Admito que o mesmo se passe nos países onde a ascensão das extremas-direitas tem conhecido uma evolução imparável. Mas, intimamente, tenho alguma expetativa quanto ao resultado a sair da eleição austríaca: será que um sobressalto democrático  perante tudo quanto vem sucedendo nas últimas semanas, não levará todos quantos não se identificam com esses extremismos a irem votar em força no candidato dos Verdes?
A tal suceder poderemos entender que será provavelmente o primeiro sinal do refluxo de um fenómeno recorrente nas políticas europeias e norte-americanas do último século: regularmente surgem movimentos fascistas, que suscitam apoios em multidões e depois se esfumam, seja porque derrotados depois de guerras mortíferas, seja por depressa desiludirem quem neles terão confiado.
Já a derrota de Rienzi em Itália é mais do que merecida:  pretender que um partido com 40% de votos consiga 54% dos deputados, poderia fazer algum sentido décadas atrás, mas não atualmente quando as extremas-direitas valem-se de discursos falaciosos sobre o funcionamento das democracias para poderem, elas mesmas, imitar o ditador turco na assumpção de um poder quase absoluto.
A exemplo de François Hollande, cuja decisão de não se recandidatar se aplaude por ser a única sensata, o primeiro-ministro italiano nunca deixou de ser um erro de casting como líder de uma esquerda, a que era ideologicamente adverso: nunca deixou de ser o democrata-cristão, que ficou sem partido e encontrou momentâneo abrigo na formação resultante do antigo Partido Comunista Italiano.
Vivemos, pois, numa época de grandes incertezas, muito semelhante à vivida no ano de 1931, aquele em que Ödön von Horváth  escreveu a peça «Noite da Liberdade», que o Teatro Municipal de Almada tem em cena durante esta semana. Ou os democratas reagem e forçam os seus partidos políticos a reformularem as suas propostas de modo a resgatar eleitores a essa extrema-direita ou poderemos ver repetida a situação dos finais dos anos trinta, quando os fascismos pareciam expandir-se por toda a Europa.
Alguns dos que rodeiam Trump têm esse desejo como programa político para a Casa Branca. Vamos cuidar de que lhes saem as contas furadas... 

sábado, 3 de dezembro de 2016

O dever de tudo questionar, tudo equacionar

Parece enfim abrandada a fúria anticomunista primária, que animou as redes sociais nos últimos dias, tendo por estímulo a morte de Fidel.
Na «Quadratura do Círculo» Pacheco Pereira diria, com inteira razão, que a maioria dos defensores das teorias sobre todas as ditaduras se equivalerem, só denotavam uma ignorância total da História dos povos sobre que se atreveram a pronunciar apressados juízos maniqueístas.
Na maioria dos casos esses defensores da aparência de democracia, que constituem os regimes ocidentais, esquecem que os direitos conquistados pelos trabalhadores durante todo o século XX resultaram do medo dos patrões quanto a verem replicadas em seu prejuízo as réplicas da Revolução Bolchevique de 1917. E que o persistente ataque a esses mesmos direitos passou a ganhar maior ímpeto com a queda do muro de Berlim.
Quantos dos que se atreveram a dizer disparates sobre as realidades cubanas ou afins não estiveram a dar tiros nos pés por já terem visto e si cerceados muitos dos direitos, que tinham chegado a conhecer com a Revolução de Abril? Quantos precários terão engrossado a turba que se contenta com liberdades formais (regimes multipartidários, suposta liberdade de expressão e de imprensa, na realidade só para quem detém os meios para tal, etc) e se esquece que democracia é também o direito á saúde e à educação, que o ocidente transformou ou quer transformar num negócio?
Às vezes sinto algum constrangimento por ver os meus contemporâneos mais dados ao papaguear o tipo de discurso neles inoculado por jornais e televisões a soldo dos seus respetivos patrões do que a pensarem pela sua própria cabeça, começando por pôr em causa e a questionar todos os lugares-comuns, que se convencem serem de sua lavra. Na maior parte dos casos nem sequer se apercebem que são meras caixas de ressonância de altifalantes, que repetem incessantemente as mesmas mentiras a ver se elas se assumem coletivamente como verdades incontestáveis. 
Mihaly Munkacsy's

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Uns aprendem, outros não

A entrevista com Jerónimo de Sousa, hoje inserida na edição do «Público», é bastante interessante num aspeto concreto: a explicação da assertividade do PCP para a criação da maioria parlamentar de há um ano em função de uma lição duramente aprendida pelos acontecimentos dos quatro anos anteriores: ao contrário do que sugeriria a lógica das lutas sociais, em vez de reagirem combativamente contra o corte de salários e de direitos, os portugueses adotaram uma postura abúlica, como se de cordeiros para a degola se tratassem
Após o sobressalto de 15 de setembro de 2012, Passos Coelho avançou com todas as malfeitorias congeminadas na sua mente, ou nelas inculcadas por quem lhe servia de mentor, e congregou uma máquina de propaganda capaz de fazer crer às vítimas o serem culpadas de quanto iriam sofrer sendo por isso merecedoras de tal destino.
Se estivéssemos numa leitura freudiana veríamos aqui exemplificada a dualidade entre o sadismo do poder político e o masoquismo de quem a ele se subordinava sem o contrariar.
Foi perante o reconhecimento dessa inexistência de um movimento de massas capaz de dar o troco devido a tais políticas, que o PCP fez a devida leitura dos resultados eleitorais de outubro de 2015. É esse o sentido do que diz Jerónimo aos entrevistadores:
“Sempre, mas sempre, definimos que quanto pior nunca melhor. O pior seria pior, porque, mesmo no plano da disponibilidade para a luta, para a participação, para a resistência, os lutadores também precisam de vitórias. E a verdade é que, com a forte campanha ideológica das inevitabilidades, do que tem de ser, do aguentam, aguentam, com tanta vida desgraçada, as pessoas perderam emprego, perderam a sua própria casa, perderam tudo — isso é força de combate.
O desespero, a falta de visão de saída da situação das suas vida e da situação do país não levavam à mobilização, levavam à desmobilização. Por isso, a derrota deste PSD-CDS no Governo foi muito importante. Por isso mesmo é que, tendo em conta este sentimento e o resultado das eleições de 4 de Outubro, consideramos que era preciso afastar esse perigo e, simultaneamente, criar também a ideia de que era possível haver uma saída.”
Na mesma peça jornalística embora apontando ao Bloco de Esquerda, fundamentadas críticas sobre  qual é o seu projeto ou ideologia, o líder comunista não exclui a continuidade do aprofundamento naquilo em que convergem ambos os partidos. Não deixa, porém, escapar o papel de idiota útil que os parceiros de maioria parlamentar revelaram na persistente ação de sabotagem empreendida pelo PSD contra a Caixa Geral de Depósitos e culminada na sua presente indefinição: “O BE marcou neste processo — não sei se bem se mal intencionado, não me cabe fazer juízos de valor — que era mais uma peça deste folhetim que o PSD agarrou, com o objetivo de comprometer a recapitalização da Caixa. Ergueu esta bandeira, filou-a, não a largou, conduzindo a esta situação atual.”
Jerónimo de Sousa não o diz, mas podemos sempre questionar o ressurgimento de Francisco Louçã a substituir-se à liderança do Bloco nesse mesmo assunto, por muito que Mariana Mortágua o viesse depois secundar: não podemos esquecer que terá sido ele a propiciar a chegada de Passos Coelho ao poder através da rejeição do PEC4, mostrando que priorizava a defesa dos princípios às consequências nefastas do que isso acarretaria.
Depois de se afastar o Bloco ganhou credibilidade através da nova imagem dele sugerida por Catarina Martins e expressa nos resultados eleitorais de há um ano.
Oregresso de Louçã à definição quanto ao que o Bloco deve ou não fazer - escolhendo como linha vermelha a tal questão dos princípios em vez da que seria mais lógica, a rejeição a qualquer acordo com a direita para dar acolhimento à estratégia desta - faz crer que se voltou a agudizar nesse volúvel partido parlamentar (ou para lamentar?) a tal doença infantil sobre que um conhecido Vladimir teorizou em 1920, pouco antes de morrer.
Os eventos destes últimos meses demonstram que, apesar de muitos o darem como cristalizado na sua ideologia, o PCP demonstra uma bastante maior capacidade para retirar lições da História do que o Bloco de Esquerda.

Uns States que ainda não esgotaram a capacidade em nos surpreenderem?

As recentes eleições norte-americanas mostraram o quão dividido está o país, entre gerações, entre classes sociais, entre o cosmopolitismo das cidades e os preconceitos de quem vive nas vastidões rurais. Com um Trump a (não) servir de mediador entre tantas contradições, existem dúvidas quanto ao que poderá resultar de tal barril de pólvora. Socorremo-nos, por isso mesmo de Sylvie Laurent, a professora francesa, que leciona nas universidades de Stanford e de Harvard, e consegue ter uma visão distanciada e objetiva do ambiente onde encontrou realização profissional.
Em recente entrevista ao «L’Obs» ela considera que o sobressalto democrático gerado por esta eleição voltou a despertar o fantasma secessionista, que continua a assombrar o país. Apesar de ter acabado há século e meio o rancor dos confederados, então derrotados, continua latente. Mas, uma vez verificado este choque deplorável, ganha relevância o desejo de reapropriação da política.
As últimas décadas, marcadas pela lógica neoliberal, despolitizou as questões sociais e pôs termo à ilusão na suposta existência de uma democracia representativa, de facto espoliada pela deriva plutocrática.
“É irónico e trágico, mas Trump, criatura Frankenstein da época neoliberal, persuadiu 60 milhões de americanos de que poderiam, através de si, recuperar a soberania. A paixão democrática que suscitou, mais da ordem do movimento de massas do que do grito do povo, é inegável. Este movimento visceral não deixa de ser racional, porque importa compreender e dar resposta à sua misteriosa tensão.”
Ao elegerem Trump os americanos cuidaram de dançar sobre o vulcão, mas já surgem muitos dissidentes e progressistas a procurarem retirar conclusões desta inesperada sucessão de acontecimentos para que emerja uma oposição determinada e consequente.
Catorze milhões de eleitores votaram em Bernie Sanders e o Partido Democrata parece disposto a redescobrir a sua esquerda através da combativa Elizabeth Warren.
As associações cívicas sentem-se confrontadas com forte desafio e os defensores das várias igualdades dizem-se prontos para a resistência civil.
Sylvie Laurent acredita que eatamos prestes a assistir a um despertar democrático do outro lado do Atlântico, com potencial para nos surpreender.