domingo, 28 de agosto de 2016

A fraude dos estágios nas empresas

Basta a notícia da extorsão das bolsas dos estagiários, que foram coagidos pelas empresas a receberem menos do que aquilo a que tinham direito, e a pagarem todos os encargos com a Segurança Social, para justificar a cessação de funções dos responsáveis pelo IEFP nomeados pelo governo de Passos Coelho e que, inconformados com esse afastamento, recorreram aos tribunais. Foi à pala das diretrizes e procedimentos por si tomados, que foram possíveis os abusos agora denunciados. Por muito que o atual Presidente do Instituto minimize corporativamente essa realidade, ninguém acredita que a fraude se limite aos três casos já conhecidos desde que o Conselho Nacional da Juventude lançou o alerta.
É nestas alturas, que se lamenta a crise de sindicalização, que grassa em Portugal, porque, quarenta anos atrás, quando concluí o meu curso, comecei por inscrever-me na organização de classe, que ainda me representa, e só depois tratei de contactar a empresa onde garantiria o primeiro emprego. Dessa forma o meu primeiro contrato de trabalho já contava com o respaldo do Sindicato.
Que pena não ser essa a preocupação prioritária dos jovens universitários, que concluem os seus cursos e demandam o mercado do trabalho. É que seriam bem melhor salvaguardados dos vigaristas em forma de empresários que olham para a legislação e para os programas de apoios oficiais para os orientarem da forma que melhor sirvam os seus interesses.
Entregues a si mesmos os jovens obrigados aos estágios profissionais calam-se perante os abusos a que são sujeitos por medo de ficarem sinalizados em ambientes profissionais muito fechados e onde tudo se acaba por saber. Daí que, embora informalmente se conheçam muitos mais casos, incluindo os que foram sendo verbalmente denunciados aos técnicos do IEFP, que os desprezaram, a fraude agora denunciada só contempla três queixas.
A verdade é que os estágios serviram ao governo PSD/CDS para obter taxas de desemprego menores do que as reais, permitindo ao mesmo tempo que patrões sem escrúpulos substituíssem trabalhadores vinculados a remunerações e direitos mais garantidos, por estagiários imersos no mundo da flexi-insegurança.
Explica-se assim que, quase com o ciclo eleitoral à porta, Passos Coelho tenha  feito o país gastar mais de 70 milhões de euros por ano em estágios profissionais nos anos de 2014 e 2015, um valor correspondente a 60% das verbas para políticas ativas para o emprego inscritas no Portugal 2020.
O que significa que, para alcançar efetivos resultados numa maior empregabilidade dos jovens no mercado do trabalho, só restam 40% desses apoios comunitários aos governos que existirem nestes quatro anos. Os outros 60 foram perdulariamente gastos pela direita com objetivos exclusivamente eleitoralistas.

sábado, 27 de agosto de 2016

Como se não tivesse sido nada com eles

Valha-nos a honestidade de um direitista convicto, como o é Pedro Marques Lopes, para lembrar aos mais ingénuos espectadores da SIC, que é preciso ter lata para andar como a líder do CDS a considerar tardia a resolução da crise na Caixa Geral de Depósitos.
Não pertenceu a referida senhora ao governo que andou anos a atirar os problemas para debaixo do tapete para neles não se sentir comprometido? Causa, pois, indignação que ande agora a armar-se em modelo de virtudes e a criticar quem cuidou de os resolver o melhor que foi possível.
Compreende-se mal uma certa inação da esquerda em criar as condições para um efetivo apuramento de todas as malfeitorias da direita no setor bancário, ora nele agindo ativamente com dolo como se verificou no antro de cavaquistas, que era o BPN, ora pecando por total e negligente inação como ocorreu no BES e no Banif.
Num país onde as responsabilidades fossem devidamente apuradas e implicassem consequências, poucos dirigentes do PSD ou do CDS mereceriam continuar na política ativa. Mas, como vivemos onde a culpa continua a morrer solteira, a direita tudo fará para se eximir dos males causados e explorará até à náusea as pretensas divergências na Geringonça, que mais não são do que o reflexo daquilo que ela não sabe fazer: negociar, concertar, implementar.
Como se viu durante os quatro anos da sua desgovernação, a direita só se sente confortável a receber orientações de fora para delas se mostrar aluno aplicado e muito obediente. É por isso que vê-los usar os símbolos nacionais, como se deles fossem intrépidos defensores, não pode suscitar senão um enorme asco...

Mais um ataque ao Ministério da Educação

Neste regresso às aulas está a acontecer um fenómeno natural, mas também revelador das dificuldades que a esquerda terá em alterar os comportamentos instituídos por anos de hábitos há muito instalados. Refiro-me, é claro, à questão dos manuais escolares.
Esta é a primeira vez que esses livros serão gratuitos para todos os alunos do ensino básico, tão-só os Encarregados de Educação se comprometam a devolvê-los no fim do ano letivo para virem a ser reutilizados no seguinte. É que se tenta colocar, igualmente, em prática a legislação destinada a garantir que o tempo de vida útil de cada manual seja de seis anos, pondo fim às habilidades das editoras para, fazendo mudanças de pormenor, impossibilitarem que, por exemplo, sejam reutilizados posteriormente por familiares ou amigos.
Vendo o enorme negócio, em que são monopolistas, a ser posto em causa, a Porto Editora e a Leya iniciaram uma campanha mediática destinada a contestar estas novas medidas, considerando que os próprios Encarregados de Educação têm preferido comprar os livros para os filhos do que utilizarem os que lhes possam ser dados. E, neste aspeto, não será propriamente uma coincidência que Marques Mendes já tenha anunciado como remodelável o ministro da Educação que, nas sondagens, até é dos que colhe maior favor popular.
Nesta guerra - que não tardará a ser acolitada pela peste amarela de meses atrás - o que essas empresas e a direita em geral quererão evitar é a mudança de cultura, invocando argumentos falaciosos como o da “liberdade de escolha” ou o da utilização plena dos livros feitos para serem riscados, sublinhados, amarfanhados, manchados, etc.
Nalguns casos colherão apoio, mas a tendência será a de virmos a imitar os suíços que, por nem sequer considerarem a necessidade de se fazerem trabalhos de casa, mantém os manuais nas escolas para serem escrupulosamente utlizados em salas de aula. E não consta que a economia suíça passe pelas dificuldades ainda constatáveis na portuguesa.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Crise? Que crise?

Em 2012 a revista «Spectator», - que tantos orgasmos virtuais garante a muito direitista da nossa praça e teve como chefe de redação entre 1999 e 2008 o grande «herói» do Brexit, Boris Johnson! - anunciava em parangonas que nunca na História da Humanidade se havia conhecido tanta prosperidade e tanta paz.
Nem os cenários distópicos dos miseráveis que vão morrer à beira do Ganges ou as malfeitorias das diversas seitas fundamentalistas de inspiração islâmica conseguiam demover os autores de tal diagnóstico que, com números, demonstravam um recuo nas vítimas da subnutrição a nível mundial, um aumento exponencial na produção de alimentos e uma redução das vítimas de conflitos armados.
Quase líamos em tal diatribe o entusiasmo de Pangloss, o personagem voltariano que, mesmo durante o terramoto de Lisboa, achava que vivia no melhor dos mundos possíveis.
Nessa mesma linha de pensamento Matt Ridley publicou um ensaio intitulado «O Otimista Racional» em que verberava a atitude comum de temer pelo futuro: “por muito que  as coisas melhorem em relação ao que estavam anteriormente, as pessoas ainda se agarram à ideia de que o futuro não será outra coisa que não um desastre.”
Imbuído da sua curiosidade quanto à possibilidade de nos estarmos a aproximar de um devir utópico, o filósofo esloveno Slavoj Žižek  aceitou o convite para dar aulas em Seul de forma a observar in loco o extraordinário desenvolvimento da economia e da sociedade sul-coreana.
Confirmou, de facto, esse desempenho económico de topo capaz de garantir ás população um consumo frenético. Mas, em contraponto, viu-a comprometida com ritmos de trabalho insanos e com sérios problemas de solidão, se não mesmo de desespero. Razão para a inquietante taxa de suicídios aí constatada.
Žižek  pôde assim conjeturar que, depois de ter constituído inspiração para ver o seu modelo económico e social replicado noutras latitudes, a Europa perdeu esse atrativo e está a ser substituída por uma Ásia capitalista onde se secundariza a importância dos valores democráticos.
Aqueles que eram tidos como os conservadores do passado reciclaram-se nos defensores de um tipo de capitalismo mais eficiente ao qual complementam com condimentos destinados a criarem a ilusão de uma coesão social. Nesses condimentos ganham particular relevância as confissões religiosas ou formas incongruentes de nacionalismo.
Perante a aparente Utopia, que tinha um tão óbvio reverso distópico, Žižek  concluiu que as pessoas não se revoltam quando as coisas estão mesmo mal, mas quando veem frustradas as suas expetativas. Os egípcios que encheram a Praça Tarhir o Cairo para derrubarem Mubarak ou os brasileiros que os imitaram em 2014 em protestos contra os custos com a Copa e com os Jogos Olímpicos, viviam bem melhor do que uma década atrás. Muitos deles, se não mesmo a maioria, até tinham vivido ou ansiado por uma ascensão social, que anteriormente não tinham acreditado como possível. Terá sido paradoxal que, protestando por quererem ainda mais e mais depressa,  tenham perdido muito do que haviam ganho…
Hoje é mais do que evidente a correlação entre o progresso e as instabilidades e antagonismos decorrentes de expectativas insatisfeitas.
A cavalo dessa insatisfação os mais lunáticos defensores do mercado livre procuram convencer quem os ouve de que a crise de 2008 nada teve a ver com a desregulamentação anterior, mas com o facto dela não ter sido tão ampla quanto pretendiam. Continuando a apostar numa «verdadeira» economia de mercado, sem os atilhos do Estado-Providência, defendem uma tal «pureza» do capitalismo, que são resolutamente cegos à contínua dança dos opostos.
Se hoje as esquerdas têm de aprender alguma coisa com as últimas décadas é a necessidade de se dissociarem dos que Marx apressadamente classificou de lumpemproletariado, por, não tendo trabalho, ficarem à parte do movimento dos explorados contra ao roubo das mais-valias pelo capital.
Tendo em conta a precariedade dos empregos e a dimensão social atingida pelos que anseiam por respostas para a sua sobrevivência, todas as movimentações políticas à esquerda têm de ser inclusivas não só dos que são explorados por trabalharem, quer dos que também o são por o não conseguirem fazer. E sobretudo há que libertarmo-nos dos habilidosos discursos das direitas em que tanta importância assume o que dizem, como o que intencionalmente deixam por dizer.
Voltando aos artigos  do «Spectator» estamos muito distantes de viver no melhor dos mundos possíveis, mas também não adotamos a “conveniente” depressão que nos deixaria suficientemente abúlicos para engolirmos todas as pastilhas austeritárias, que nos queiram servir. Se nos mantemos otimistas não é por termos chegado até aqui, mas pelo que será possível cumprir para chegarmos a um Além mais próspero e igualitário ainda no prazo de validade das nossas vidas.

A História começa dia 29!

Pelo menos é essa a convicção que Lula da Silva tem manifestado a diversos órgãos de comunicação social sobre o que se seguirá à mais do que provável destituição de Dilma Rousseff. E o antigo presidente, que é raposa experiente, sabe bem do que fala, primeiro que tudo por quanto se revelarão infernais os 28 meses em que o usurpador Temer estará no Palácio do Planalto.
Enfraquecido no Governo, o Partido dos Trabalhadores recuperará a força na oposição às políticas, que prejudicarão a grande maioria dos brasileiros para beneficiarem a tal elite branca do Rio e de São Paulo, desejosa de abocanhar ainda maior quinhão da riqueza do país.
Não fazia, pois, qualquer sentido a aprovação de um plebiscito para a realização de eleições a curto prazo: haverá que dar tempo para que o desgaste dos conspiradores seja efetivo e grandes protestos de rua os confrontem com a ilegitimidade dos seus atos.
Para quem classificou de “impressionantes” as manifestações dos últimos anos, quando se contestaram as despesas com os Jogos Olímpicos em detrimento dos investimentos com escolas, hospitais e transportes públicos mais acessíveis, o futuro dirá que ainda não terão visto o suficiente. É que os que, então, se mostravam desagradados - mesmo sem perceberem como já andavam a ser arregimentados pela direita conspiradora! - continuarão a ter motivos para engrossarem os movimentos de desagrado, ao mesmo tempo que as revelações sobre a corrupção dos que passaram a deter o poder não conhecerão tréguas, só exponenciando a predisposição para serem contestados.
Os próximos tempos serão de justificada atenção ao processo político brasileiro, porque ele elucidar-nos-á factualmente como é possível infletir uma dinâmica ganha momentaneamente pelos inimigos do povo, mas que os fragiliza o suficiente para serem mais duradoura e sustentadamente derrotados...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Uns mágicos trafulhas

Nos anos imediatos à Revolução de 25 de abril as bancas dos jornais e os escaparates das livrarias, começaram a ser inundados de publicações, que afiançavam a existência de realidades muito para além do que conseguíamos divisar.
Um livro, «O Despertar dos Mágicos», tornou-se num incrível best seller  e atrás dele surgiram os de Robert Charroux e de outros esdrúxulos autores, que nos pretendiam fazer crer na possibilidade de serem reais os mais imaginativos dos cenários ulteriormente desenvolvidos em séries como os «X Files».
Quando toda a atenção deveria estar concentrada nas lutas laborais nos campos ou nas cidades, um conjunto de argutos conjurados decidiram pôr imensa gente a olhar de nariz para o ar para detetar eventuais discos voadores ou punham outros crédulos a acreditar em teorias excêntricas sobre a Atlântida ou as civilizações extraterrestres, que explicariam as arquiteturas das pirâmides do Egito, dos Maias ou os traços alegadamente só visíveis do céu situados algures no Peru.
Como nada escapava a essas mistificações, também os Templários, as estátuas da Ilha de Páscoa ou as ruínas de Stonehenge eram convidadas para a festa, normalmente direcionada para a rejeição das explicações mais racionais em proveito das que só encontravam lógica nas desmioladas cabeças dos seus proponentes,
Não nos disseram na altura, mas muitos desses «cientistas» do paranormal tinham atrás de si conivências mais do que suspeitas com movimentos de extrema-direita, se não mesmo nazis.
A explicação para a profusão de tão abundante literatura estava na necessidade dos suspeitos do costume em afastarem tanta gente quanto possível da consciência da luta de classes. Enquadravam-se numa estratégia mais lata, que incluía a chegada de prosélitos de múltiplas seitas, desde as evangélicas às mórmons, dos cientologistas aos manás, todos eles dotados de lautos orçamentos, sabe-se lá financiados por quem, mas todos eles apostados em criarem seguidores, que se desinteressassem dos sindicatos e de outras organizações conotadas com a esquerda.
Desde essa época que, quando ouço  denúnicas de teorias da conspiração fico, por natureza desconfiado, embora a criação de casos como o da Casa Pia (sobretudo na fase inicial, quando a intenção passava por lançar suspeições sobre dirigentes socialistas!) ou a da Operação Marquês me façam vacilar nesse ceticismo. Admito que sejam exceções de uma regra, que manda desconfiar seriamente de tão abstrusas teses.
Uma delas, a dos traços de condensações deixados pela queima de combustíveis dos aviões a jacto, tem alimentado as mais inusitadas campanhas de denúncia de demoníacas intenções governamentais, mas foi agora denunciada como uma das mais comuns vigarices em que muitos acreditam. Segundo tal abordagem, uma em cada seis pessoas interrogadas, está convencida da tese de distribuição de produtos químicos na atmosfera para envenenar quem permanece no solo ou para alterar as condições meteorológicas.
A equipa de investigadores da Universidade de Calgary desmontou a argumentação dos defensores da conspiração, embora ciente de que eles jamais se darão por vencidos: é que, quem envereda pelas explicações desmentidas pelos cientistas, facilmente conota estes últimos com quem comanda o condicionamento da realidade, dando-os como cúmplices da conspiração.
Na realidade esse tipo de trapaça intelectual mais não faz do que o jogo de quem aposta na ignorância obscurantista.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Humilhante? Diz o roto ao bem apessoado!

Na «Acção Socialista» de ontem Correia de Campos desvalorizava o que correu mal a nível do governo durante as últimas semanas, porque  “a política também se aprende”. Por isso mesmo incentivou à necessidade de se analisar seriamente onde as coisas se complicaram e deram desnecessários trunfos à direita para que pusesse em causa a eficácia e a competência da equipa liderada por António Costa.
Independentemente deste sábio conselho também nos cabe repudiar ativamente nas redes sociais o despudor de Passos Coelho ou Assunção Cristas, quando classificam de «humilhante» para o país o que foi o relacionamento com o BCE para conseguir a sua aceitação da estratégia para a Caixa Geral de Depósitos.
Humilhante? Com que falta de vergonha vêm eles alegar tal argumento para quem esteve quatro anos na conhecida postura da fotografia de Gaspar e de Schäuble? Como podem tal invocar os que só em Lisboa, e graças à sua maioria parlamentar, conseguiam falar grosso e, tão só apanhavam o avião para Bruxelas ou Berlim e logo se punham a rastejar vergonhosamente?
Nas redes sociais temos denunciado insuficientemente o que foi a vergonha que, enquanto portugueses, passámos durante toda a governação da direita por a saber com o mesmo tipo de comportamento dos colaboracionistas franceses quando tinham o seu país ocupado pelos nazis.
De entre o que de muito bom trouxe o governo de António Costa aos que nele se reconhecem, uma das melhores foi o reconquistado orgulho de o sabermos capaz de bater o pé a quem nos quer condicionar os rumos para alcançarmos um futuro melhor.
Quanto a estas tricas com o BCE mais não são do que isso mesmo: ainda que reconhecendo como deploráveis as declarações do secretário de Estado na semana passada, tudo quanto sucedeu mais não é do que o reflexo de um processo negocial onde, manifestamente, não há os que mandam e os que obedientemente se curvam aos seus desígnios. O que resultou em todo este processo mais não foi do que o equilíbrio entre as posições de um e outro lado.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A “reforma” que Passos Coelho lamenta não ter feito

Nos seus pesadelos mais tenebrosos é crível que Passos Coelho se veja invetivado por quem dele se serviu como marionete, por não ter levado por diante a “reforma” na Segurança Social. É que, se muitos dos que trabalham foram aliciados a subscrever títulos de poupança e reforma, o que os respetivos emissores conseguiram nada mais significaram do que peanuts em comparação com o verdadeiro filet mignon correspondente ao volume global da receita anualmente conseguida pela Segurança Social.
Estivessem essas verbas à guarda de quem as soubesse rentabilizar!”, afiançam os mais entusiastas dos neoliberais. É por isso que, ontem, hoje e amanhã, o tema da Segurança Social constitui daquelas modas escolhidas pela direita para todas as estações.
No entanto, vale a pena olhar para a luta agora em curso nas ruas das principais cidades chilenas, onde milhões de trabalhadores lutam pelo fim do sistema imposto pela ditadura de Pinochet, a mando dos Chicago boys, e em que esse modelo foi aplicado em primeiro lugar. Na altura a promessa era basicamente esta: uma vida de descontos para os fundos privados (AFP) encarregados de vir a propiciar as pensões de reforma aos contribuintes, garantir-lhes-ia um mínimo de 70% de remunerações comparativamente com o que tinham deixado de receber na vida ativa.
No entanto, agora confrontados com a realidade, eles veem-se, na melhor das hipóteses a auferir de 35%, ou seja quase apenas um terço do que estavam acostumados e, em muitos casos, abaixo do salário mínimo regulamentado.
Não surpreende a indignação desta revolta e a exigência para que a presidente Michelle Bachelet a ela ponha cobro. No entanto quem terá agora força para tirar a esses grupos privados todo o dinheiro, que roubaram ao longo de todos estes anos?
A lição a tirar é óbvia: nem na mais ínfima parcela se pode permitir que os interesses privados se apossem do bolo da Segurança Social.