terça-feira, 23 de maio de 2017

O egoísmo é incontornável?

Desde que lhe comecei a identificar as virtudes e os defeitos, sempre desejei contribuir para a mudança da sociedade. Por isso mesmo em dois terços dos sessenta anos vividos sempre militei em partidos políticos cujo objetivo final era o de se alcançar uma sociedade mais justa e igualitária, mobilizada o mais possível para os valores impostos pela Revolução Francesa de 1789: a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade.
Se alturas houve em que acreditei tangível o objetivo de ainda me presenciar nesse tipo de viver coletivo, noutras dele me senti demasiado afastado, situando-o num indefinido futuro utópico.
As décadas recentes têm trazido frequentemente essa consciência de o futuro não vir a ser já hoje, dado o veneno destilado pelo neoliberalismo nas mentes das maiorias. Passou-se a privilegiar a competitividade em vez da solidariedade, convertendo-se o egoísmo numa grande vantagem para quem quiser ter sucesso. Para os defensores desta perspetiva continuamos a ser os primitivos primatas apenas motivados pelos instintos. Porque até buscam legitimidade em Nietzsche, que encarava o remorso e a compaixão como obstáculos ao cumprimento do potencial de cada um. Razão para que José  Saramago afirmasse ser o egoísmo a doença mortal do homem.
Para o filósofo alemão terá sido um contrassenso deixarmo-nos convencer pela tradição judaico-cristã, que sempre conotou o egoísmo com um pecado venal. Não incitava São Marcos, que amássemos tanto os outros como a nós mesmos?
Quando usam de maior argúcia tentam até utilizar em seu proveito os argumentos alheios. Por exemplo, tendo em conta os previsíveis benefícios no Além de uma conduta altruísta não seria o seu cultor um indisfarçável egoísta?
Os filósofos que fazem do egoísmo o objeto do seu estudo acabam por dividir-se em dois campos antagónicos: há os que veem o narcisismo como uma característica essencial em cada um de nós por facilitar a criatividade e a relação positiva consigo mesmo, forma indispensável de ver facilitado o relacionamento com os outros. E há os que verberam o narcisismo coletivo, que é exemplarmente representado pela sociedade norte-americana, causa da solidão deprimida de muitos e de tantos problemas sociais a ela ligados.
Estaríamos assim fadados a esquecer a empatia como característica imprescindível para garantirmos a sobrevivência? Ou deveríamos seguir os conselhos do autor de «E Assim Falava Zaratustra», que incentivava a astúcia do egoísta em colocar-se na pele de outrem para melhor compreender a sua essência, elaborando a partir dela a melhor estratégia para a utilizar em seu exclusivo proveito?
O desequilíbrio entre os benefícios dos egoístas em relação aos altruístas manter-se-á, ou agravar-se-á enquanto persistirmos numa sociedade acriticamente normalizada na aceitação da exploração do homem pelo homem? A inflexão dessa inevitabilidade só pode ser conseguida num outro quadro político, que ostracize demagogos e arrivistas em proveito dos que vejam o exercício de cargos públicos como um dever ético na concretização de políticas passíveis de nos reaproximarem dos tais valores associados à Tomada da Bastilha. O que implica acreditar mais na entreajuda, na solidariedade do que no esforço individualista para colocar a cabeça uns centímetros acima dos demais. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A mentira que Marcelo alimenta

Quem me lê sabe bem o quanto antipatizo com o atual inquilino do Palácio de Belém. Não tanto quanto execrei o antecessor, mas ninguém espere ver-me alguma vez juntar ao coro dos seus aduladores. Daí que passe ao lado do personagem, sempre que possível, só a ele voltando quando as suas asneiras me tiram do sério. Como sucedeu esta manhã, tão só procurei nos noticiários as reações dos suspeitos do costume à notícia da posição da Comissão Europeia a respeito da saída de Portugal da lista negra dos países sujeitos a constrangimentos por apresentarem défices excessivos.
Que Passos Coelho apareça a exigir que o governo não atue de acordo com calculismos eleitorais já nem escandaliza. A desvergonha de quem andou todo o ano de 2015 a empurrar para debaixo do tapete todas as situações comprometedoras no sistema bancário para chegar às eleições com indicadores manipulados, mas tão bons quanto o possível, já não espanta. Homem sem qualidades, Passos vai confirmando a sua condição de quem tem quase todos os defeitos.
Que José Gomes Ferreira quase tenha de morder a língua para dizer bem deste sucesso, mesmo deixando implícitas as críticas do costume quanto à falta de «reformas estruturais» - que na sua enviesada mente só quer dizer cortes e mais cortes a reformados e funcionários públicos - já se desconta por conta de um tonto, que chegou a publicar um programa de governo na mira de cavalgar alguma onda populista, e se vai conformando com o papel de entertainer num regular programa de anedotas às quartas-feiras à noite.
Que Bernardo Ferrão mantenha aquele esforço de parecer mais papista que o Papa na esperança de vir a colher do patrão as prebendas por agora usufruídas por Ricardo Costa, também está na linha do que já dele sabemos: é o típico arrivista capaz de tudo fazer por um lugarzinho na ribalta.
A quem não posso desculpar é a Marcelo por ter inteligência suficiente para saber o que está efetivamente a fazer e cujos parabéns a Passos Coelho pela decisão de Bruxelas soa a indignidade, que os portugueses não merecem.
Porque, na realidade, que fez o antigo primeiro-ministro  para merecer a distinção? Que sentido faz secundar-lhe o argumento segundo o qual os êxitos deste governo, dele são, enquanto o que eventualmente corresse mal, só a António Costa seriam devidos?
Julgará Marcelo que os portugueses são lorpas e não associam este êxito ao governo socialista e à maioria parlamentar que o apoia? Então, porque insiste em considerar Passos Coelho corresponsável pelo que tem sido obra exclusiva de quem mudou o paradigma da governabilidade em novembro de 2015?
Se Marcelo quer dar aos parabéns a quem os merece antes dessa data, atribua-os ao Tribunal Constitucional cujas decisões impediram o governo anterior de implementar medidas de austeridade ainda mais gravosas. A relativa viragem da curva negativa do rendimento médio dos portugueses no final do governo de Passos Coelho explica-se pela conjugação de dois fatores: o tal calculismo eleitoral que ele diz existir nas esquerdas, mas só faz sentido em quem por si julga os demais, e por esse travão aos cortes das pensões, que logo possibilitou um pálido recobro no então moribundo consumo interno.
Ao atribuir méritos a quem os não merece, Marcelo vai comprovando o que dele sabemos: tão só as circunstâncias lho permitam e ele revelará o carácter faccioso, que lhe vai na alma.

domingo, 21 de maio de 2017

O PSOE elegeu líder, que toma António Costa como referência

Não é que acredite numa mudança tão rápida quanto possível no país vizinho, mas fiquei satisfeito com a vitória de Pedro Sanchez sobre Susana Diaz nas primárias deste fim-de-semana, que definiram quem será o próximo líder socialista. De nada serviu à andaluza boicotar e organizar o golpe interno, que derrubara o rival: as bases deram-lhe agora o devido troco.
A exemplo do que vem sucedendo em muitos dos países da União Europeia os socialistas viam-se em Espanha confrontados com o dilema, que os tem condicionado nos tempos mais recentes: deveriam abandonar de vez os seus princípios e almejarem a uma gestão tão eficiente quanto possível de um capitalismo que lhes não dá qualquer possibilidade de controle sobre as operações financeiras, ou regressar aos seus valores originais, buscando em coligações à esquerda a solução para o seu recente definhamento.
Susana Diaz, a exemplo de Manuel Valls em França ou Matteo Renzi em Itália, personificava a primeira opção, que tem significado a perda sucessiva de eleitorado e a aparente condenação dos partidos socialistas à irrelevância.
Sanchez afirma ter aprendido o exemplo português e apresenta-se disposto a estabelecer pontes, quer com o Podemos, quer com a Izquierda Unida, para pôr cobro ao longo consulado de Mariano Rajoy.
Para os socialistas europeus prossegue o combate entre o velho e o novo, que perspetiva resultados promissores a médio prazo.
A exemplo do sucedido recentemente em França ou em Inglaterra, os militantes mais velhos acumulam derrotas ao apostarem no mais do mesmo, que já deu os conhecidos fracassos na Grécia ou na Holanda. Pelo contrário, os mais jovens, os que representam o futuro de ambos os partidos, já revelam força suficiente para prevalecerem nas eleições internas, mas ainda não conseguem extrapolar-lhes os resultados para as da globalidade dos cidadãos dos respetivos países. Muito provavelmente, porque os líderes a quem garantiram as recentes vitórias (Corbyn, Hamon) não possuem as características adequadas para convencerem os eleitorados: nenhum deles tem a capacidade e a inteligência estratégica de António Costa, nem a argúcia e a aparência jovem do canadiano Justin Trudeau ou do holandês Jesse Klaver.
Ao contar com o apoio de todos os antigos líderes do PSOE - desde Felipe Gonzalez a Zapatero - Susana Diaz não compreendeu que as bases do partido não acreditam nas velhas receitas, que o conduziram às sucessivas derrotas. Querem algo novo e Pedro Sanchez - porque já se comprovou a sua inépcia - poderá ser o líder de transição para um outro, da sua geração ou mais novo, que devolva ao socialismo espanhol a tradição combativa em defesa de maior justiça e igualdade.
Pela forma como as coisas andam a evoluir, o Partido Socialista português ainda terá de, por algum tempo, aguentar-se isoladamente como o farol, que ilumina o caminho a ser percorrido pelos seus congéneres europeus.

Polémicas estimulantes (III)

A concluir este ciclo de polémicas com os leitores temos o comentário de Jaime Santos a respeito do texto em que manifestava apreço e fazia votos de longa vida para a atual maioria parlamentar.
Eis o conteúdo do comentário do nosso leitor:
Há infelizmente um perigo neste tipo de discurso. As desavenças entre as Esquerdas são programáticas. As diferentes Esquerdas acreditam em causas bem distintas. Dentro da Direita Democrática, todos aceitam de uma maneira ou de outra o primado da liberdade individual, a Economia de Mercado e o Parlamentarismo. Nas Esquerdas, isto não acontece. O programa ideológico e de governação do PS (refiro-me ao que está escrito, não ao virtual que poderá estar na cabeça dos militantes do PS), por exemplo, está bem mais próximo do do PSD (do que está escrito, não da prática política de um Passos Coelho, por exemplo) do que dos programas de BE e PCP-PEV que são anti-capitalistas (e Marxista-Leninista, no caso do programa ideológico do PCP).
O pragmatismo das diferentes Esquerdas não nos deveria fazer esquecer isto. Não se tente amalgamar tudo com o risco da perda de identidade de cada um dos Partidos que constituem a nossa improvável coligação. É que, tarde ou cedo, quando as coisas voltarem a correr mal (porque voltam sempre) estas divergências virão de novo bem ao de cima...
Uma vez mais tenho de situar a minha divergência de princípio com Jaime Santos, porque ele próprio reconhece que os programas escritos dos vários partidos não coincidem obrigatoriamente com o pulsar dos militantes ou com as visões estratégicas dos dirigentes. E o que atualmente une as esquerdas - o favorecimento dos que estão nos percentis dos menores rendimentos - é cimento bem mais solido do que os fatores que podem desagregar a coligação parlamentar. Até porque o conceito de Liberdade tem de ser bem escalpelizado, porque vem sendo usado e abusado por quem dela tem feito argumento oportunista para melhor cumprir os seus desígnios (vide como é abusivamente utilizada para dar cobertura às fugas fiscais ou para mostrar violações em supostos programas de informação!).
Confesso que tenho estado a ver sucessivamente comprometido o calendário de mudança qualitativa capaz de devolver às esquerdas europeias a capacidade de iniciativa necessária para infletir o jogo de forças políticas a nível europeu.
Será provável que o Labour inglês e o Partido Socialista francês averbem derrotas significativas nos escrutínios das próximas semanas e que o SPD de Martin Schulz regresse à Oposição após a eleição de setembro. Mas derrotas em batalhas, não significam a perda da guerra. E, na realidade, as lutas de classes manifestar-se-ão com vigor acrescido tão só prossigam as agendas das direitas para acelerarem o ritmo das desigualdades entre os plutocratas e a generalidade dos cidadãos.
A História é rica em exemplos de súbitos incêndios incendiarem repentinamente as plácidas pradarias. Não foi isso que sucedeu há quase meio século em França, quando no início de maio o «Le Monde» identificava o clima social como entediante para logo chocar de frente com tudo quanto se seguiu nas semanas seguintes?
Como diz o Brecht “aquele que está vivo não diga nunca Nunca!” E eu alimento a esperança de ainda voltar a viver dias claros e manhãs límpidas como as pressentidas em abril de 1974.

Vamos conhecendo os factos, mas onde estão as consequências?

Os Panama Papers souberam-nos a pouco e não terão correspondido ao terramoto que nos fora prometido. Se esperávamos que os foragidos fiscais iam levar tal coça, que quem os quisesse imitar pensaria duas vezes antes de seguir por diante ou que as sociedades de advogados, especializadas nesse tipo de operações, veriam restringida a liberdade de ação nessa atividade venal, depressa compreendemos que a montanha parira um rato. O circo chegara à cidade com grandes trombetas, mas o espetáculo revelara-se curto, frouxo e inconsequente.
Por isso mesmo somos obrigados a ser bem mais prudentes na gestão de expetativas, quando o mesmo semanário vem agora com a notícia sobre a  presença de empresários portugueses no paraíso fiscal de Malta. Os nomes dos envolvidos não nos surpreendem, porque neste tipo de festanças aparecem sempre as mesmas Donas Constanças. Gente que fez grandes calotes na banca nacional e já pôs a bom recato os milhões de que habilidosamente se apossou. Sabemos bem demais quanto nos têm custado todas essas trapaças, seja com as verbas investidas na recapitalização de bancos, ou nas suas vendas com graves prejuízos, sem esquecer a elevada carga fiscal, que leva as classes médias a suportarem os custos, que deveriam ser melhor distribuídos com a participação dos que se apossam dos lucros, mas não querem vê-los taxados de acordo com o  eticamente expectável.
Não resulta, pois, ponderar na necessidade de apertar ainda mais a malha da Autoridade Tributária, porque muitas dessas fugas são feitas a coberto de «leis» primorosamente criadas pelas tais sociedades de advogados que, para tal, garantem a presença dos seus na Assembleia da República ou no próprio governo (como acontecia com Paulo Núncio no anterior).
Importa, pois, alterar a legislação, fazendo aquilo que as Confederações patronais não hesitarão em condenar, por temerem a “excessiva regulamentação”. Nessa previsível guerra política lá virá o velho chavão dos entraves à competitividade, que vale tanto quanto outros eloquentemente desmistificados nos anos mais recentes.
E, a nível europeu, será fundamental a luta por uma uniformização fiscal, que elimine os paraísos fiscais e as zonas francas dentro do seu espaço económico e geográfico, ao mesmo tempo que se criem as condições para melhor proteger os interesses das suas economias em relação a outras concorrentes globais onde vigoram tenebrosas condições de trabalho, que explicam os  custos de produção obscenamente baixos.

Polémicas estimulantes (II)

Embora reagisse a texto publicado no blog gémeo deste (Tempos Interessantes) aproveito para aqui abordar a reação de Maria João Metello ao que escrevi sobre o filme «Fátima» de João Canijo, em que reiterava o meu ateísmo e a correspondente incapacidade para ver explicada a razão de uma tão empenhada devoção pelos milagres dos pastorinhos.
Assumidamente crente a nossa Amiga respondeu com um belo texto, que explica a sua fé e esperança. Mesmo não partilhando das emoções, que expressa - o António Damásio suspeita que a fisionomia dos cérebros explica a diferença entre quem é religioso e quem o não é! - só tenho de manifestar um profundo respeito pela forma como ela partilha connosco as convicções espirituais:
O Ritmo da VIDA. Tudo na vida vive e brilha na sabedoria do dia e na majestade da noite. Nós e a pedra somos um só. as diferenças estão nas batidas do coração. O nosso bate um pouco mais depressa, mas não é tão tranquilo. O ritmo é outro. pudéssemos nós sondar a profundeza da nossa alma e escalar o espaço e chegar às estrelas, só ouviríamos uma melodia quiçá em uníssono entre a pedra e a estrela. Quando as nossas palavras não são entendidas, basta esperar um novo amanhecer. Podemos tropeçar na pedra e até blasfemar. Mas há-de chegar o dia em que apanharemos pedras e estrelas, como a criança colhe os lírios do vale, e ficamos enfim a saber que todas as coisas são vivas legítimas e fragrantes........

Polémicas estimulantes (I)

Ausente da atividade bloguista durante um par de dias, alguns dos textos mais recentes mereceram comentários incisivos de alguns leitores, que justificam que a eles reaja.
Um deles vem assinado pelo realizador Edgar Pêra, de quem muito tenho admirado a obra e o seu admirável cometimento de já contar com mais de quarenta títulos na filmografia apesar de quase todos eles condicionados por orçamentos mais do que exíguos. Por isso ele tem sido o melhor exemplo, que encontro para demonstrar como a imaginação e o talento conseguem contornar os obstáculos mais intimidantes.
«O Barão», por exemplo, foi dos melhores filmes de produção nacional dos últimos anos, mesclando em simultâneo o universo do romance de Branquinho da Fonseca com o dos filmes de terror, tendo o conde da Transilvânia como óbvia inspiração.
Compreende-se que andando a revisitar algumas das obras de Pêra - sobre as quais aqui anotarei algumas impressões nas próximas semanas - não me surpreendesse com aquele que, até agora, mais ambíguo me parecera: «A Arquitectura de Peso». A razão invocada era uma certa interpretação populista do investimento em infraestruturas relevantes (CCB, Expo 98, Estádios de Futebol e Casa da Música) facultada por um cantor popular, cujo vernáculo era o do lúmpen incapaz de perspetivar o impacto que esse tipo de obras poderia ter significado para o crescimento da economia e para a redução do desemprego no país nesses idos pré-troika.
O meu texto refletia o quanto me desagradam os discursos dos demagogos que, nessa época, subscreviam os propósitos de Nel Monteiro, e agora reciclam os intentos em coisas igualmente execrandas como as proferidas pelos Tinos de Rans, pelos Paulos Morais, pelos Henriques Netos e outros figurões, que aspiraram chegar a lugares do poder a cavalo dos mais fáceis de por eles manipular.
O comentário de Edgar Pêra é muito elegante situando as circunstâncias em que o filme fora realizado, e que podem explicar a ambiguidade que me confundira. Eis então o texto do realizador:
“Nunca respondo a críticas dos meus filmes, mas este post parece-me particularmente útil dado que lança o debate sobre um tema que explorei em Arquitectura de Peso. O filme foi uma encomenda da Trienal de Arquitectura e na altura da estreia do filme, em 2007 (pré-crise) esperava que surgisse alguma polémica quando dei “tempo de antena” a Nel Monteiro e a sua canção Puta Vida Merda Cagalhóes, - um vox populi musical sobre os grandes investimentos arquitectónicos dos últimos 25 anos, todos eles geridos pelo bloco central, simbolizado no filme por Soares e Cavaco projectados sobre as paredes do CCB. Nada. Talvez porque a crise só surgiria um ano depois...
É verdade que fiz uma leitura irónica do texto de Nel Monteiro sobre o “despesismo público”, mas ao mesmo tempo, fui revelando, através de uma entrevista, o seu passado e os seus pontos de vista, porque não queria que o seu ponto de vista fosse alvo de chacota. Penso que, mesmo que não se concorde com os seus pontos de vista estéticos e políticos (apesar de que, quando se trata dos estádios do Euro 2004 estou de acordo com Monteiro, abrindo uma excepção para o estádio de Braga) não podemos ignorar as vozes que se levantam contra a forma como se gerem os dinheiros públicos - ignorando os mais desfavorecidos. Não acredito que os ar
gumentos de Nel Monteiro sejam idiotas. Tendo em conta o nível de educação do povo português (e de outros países mais “evoluídos”), são mais do que expectáveis. Cabe aos outros, mais informados - e em busca de uma alternativa mais justa - oferecer outros modelos de investimento público. Penso que o filme exige um resposta, mas não é o seu autor que a tem de dar. Raramente faço filmes com um único ponto de vista e este não é uma excepção. Uma das vantagens de Arquitectura de Peso não ser um filme de propaganda (também já os fiz) é a de poder conter dentro de si contradições e ambiguidades (estéticamente a imagem diz o contrário do som,), que permitem ao espectador discorrer sobre os temas do filme. Sinto que isso aconteceu (dez anos depois!) com este post, que lança o debate. Finalmente o filme já não me pertence. Obrigado. Assinado: Edgar Pêra.
(PS: na realidade só me arrependeria de uma piada do filme, mas não tem nada a ver com o discurso do Nel Monteiro, foi apenas o revelar de um “tesouro deprimente” da televisão estatal: uma entrevista a um dos responsáveis da Casa da Música, que, aliás, não teve absolutamente culpa nenhuma da situação ridícula em que o colocaram, mas não resisti a mostrar até que ponto os media podem ser acéfalos....)
No fundo as questões aqui levantadas levam-me a corroborar o que venho sentindo há muito tempo: as esquerdas têm acumulado sucessivas derrotas, porque não só se alheiam das aspirações dos que deveriam representar, como nada fazem para lhes irem ao encontro e conseguirem interagir com dois objetivos fundamentais: retirar espaço e desmascarar o oportunismo dos demagogos e demonstrar como as soluções por si propostas são as melhores para garantirem um futuro mais esperançoso, mesmo para os que continuam vergados pelas frustrações dos becos sem saída em que se sentem socialmente bloqueados.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A propósito desta esperançosa maioria

A estória é contada pelo Gonçalo M. Tavares numa entrevista sobre o seu mais recente romance: à noite, quando ocorre um corte na eletricidade, começamos por sentir-lhe a estranheza. Estamos tão habituados às nossas rotinas, que a privação de um programa na televisão ou da iluminação necessária para nos pormos a ler um bom livro, incomoda-nos, ficamos sem sabermos o que fazer.
No entanto, se se prolonga começamos a habituar-nos a ela, a perceber que temos ao lado com quem conversar numa disponibilidade há muito perdida por causa dos nossos afazeres. E até concluímos que existe encanto nessa alternativa, que consideráramos dispensável.
O desafio lançado pelo escritor é este: conviria que saíssemos dos nossos padrões de pensamento habituais e testássemos outros, porventura desafiantes, mas passíveis de descobertas, de outras sensações. É a velha questão de pensar fora da caixa, rejeitar o instinto dos carneiros enfileirados para o redil, a tentação de não bater palmas a quem se é instado a fazê-lo, desconfiando das razões das maiorias.
Somos bombardeados continuamente com ideias-feitas, que levam demasiado tempo a desmascarar. Quando os suspeitos do costume quiseram privatizar todas as empresas nacionalizadas, porque sabiam delas vir a ganhar obscenos lucros, andaram a convencer a tal maioria de que os gestores privados eram mais competentes e os serviços básicos doravante facultados seriam mais baratos e com maior qualidade. Ao mandarem vir a troika conseguiram inculcar em muitos a ideia de terem vivido acima das suas possibilidades e que deveriam priorizar o pagamento aos credores, mesmo à custa da própria sobrevivência. Apesar de todas as evidências em contrário - mas cujo escândalo nunca chega ao nosso universo mediático! - ainda há quem acredite que, por exemplo na Alemanha, as obras são todas concluídas no prazo previsto e pelo valor previamente orçamentado.
E muito fácil manipular as maiorias para que acreditem no que contra elas logo se vira tão só deem o poder a quem as trapaceou. Trump ou o Brexit são exemplos recentes dessa quase lei social. Mas toda a História dos povos tem sido pródiga nessa sucessão de equívocos que os explorados nunca chegam a traduzir em consistentes lições para o futuro. E o grande problema colocado  às esquerdas é o de perderem demasiado tempo e energias a digladiarem-se em estéreis disputas, dando azo a verem-se quase sempre derrotadas pela convergência das direitas. O que custou para que, entre nós, concluíssem quanto às vantagens dos mínimos denominadores comuns  e transformassem um país desesperançado num outro, bem mais otimista, que até acredita ter futuro.
Importa que essa convergência não esmoreça, não se deteriore. Porque, desdizendo o costume, as esquerdas adotaram postura contrária à que nos tinham habituado. E por uma vez dá vontade de bater palmas a esta esperançosa maioria...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Atrás de tempos, tempos vêm

1. Ao constatarem-se os palpos de aranha em que se veem Donald Trump, Michel Temer ou Aécio Neves sinto justificado o meu inabalável otimismo, mesmo quando os acontecimentos poderiam empurrar-me para uma tendência depressiva, derrotista. Sendo certo que alguns crápulas morreram sem sentir os custos dos seus atos - e lembro-me inevitavelmente de Franco ou de Salazar! - a maioria acaba mesmo por compreender o tipo de julgamento, que lhes reservará a História.
Por isso mesmo confio que hoje são estes, amanhã serão os Erdogans, os Dutertes ou os Orbans a verem desmoronar-se as frágeis fundações em que têm assente o seu aparente poder absoluto.
É a velha regra do «atrás de tempos, tempos vêm!».
2. Outro assunto que tende a dar a justa paga à prosápia de um tiranete local é o caso Selminho. Torna-se cada vez mais óbvia a tentativa da família de Rui Moreira em aumentar o património à custa de terrenos efetivamente pertencentes à Câmara do Porto. A denúncia da irregularidade, mesmo que silenciada durante tempo demais, já não sairá do espaço público até às eleições locais.
Sem sujar as mãos em tal assunto caberá à equipa proposta por Manuel Pizarro contextualizar o desequilíbrio de forças, que foi criado intencionalmente pelo ainda presidente da Câmara, e reverte-lo a favor dos socialistas. É que o bom trabalho, reconhecido por muitos portuenses, quanto ao concretizado nos últimos quatro anos muito deve aos vereadores eleitos pelo Partido em 2013. Trata-se agora de fazer render em votos essa evidência.
3. Não vi, não procurei ver a posteriori, nem verei em nenhumas circunstâncias o filme exibido pelo canal televisivo do pasquim da Cofina.  Nunca será à minha conta que essa gentalha embolsará um cêntimo de publicidade por lhe ter fornecido momentânea audiência. Mas, se o relatado na imprensa e nas redes sociais é verdadeiro, estamos perante um escândalo, que exige uma resposta oficial digna de um Estado de Direito. O crime que, em nome de um falacioso direito a  informar, esse vómito mediático perpetrou não se compadece apenas com multas impostas por um qualquer tribunal. Nem basta o boicote, que muitos propõem e outros tantos há muito cumprem.
Há decisões que não configuram censura à liberdade de imprensa, porque se cingem a um mero ato de higiene pública.
4. As mais recentes sessões na Comissão Parlamentar, que tem questionado as práticas da Autoridade Tributária, quando Maria Luís Albuquerque e Paulo Núncio nela mandavam, têm sido interessantes quanto à dificuldade das direitas em explicarem as estranhas coincidências  formuladas pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores de tal área estatal.
Uma vez mais confirma-se a inação de Joana Marques Vidal em mandar investigar suspeições, quando estão em causa políticos da sua área ideológica. Sobretudo comparando com a rapidez com que sempre se mostrou tão lesta em fazer arguidos na área socialista.
O Ministério Público também há muito anda carecido de uma boa barrela... 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

As golpadas e as correspondentes vacinas

1. As direitas andam ansiosas por mudar os sistemas eleitorais, agora que ficou demonstrada a possibilidade de se escapar ao fatal e defunto «arco da governação».
Semanas atrás Luís Montenegro veio com a ideia de se premiar com 50 deputados adicionais a força política que conseguisse ter mais votos nas legislativas. Compreende-se a esperteza saloia: com esse artifício o primeiro-ministro atual seria Passos Coelho em vez de António Costa. Ademais, como é mais fácil a formação de listas conjuntas do PSD e do CDS do que as dos partidos das esquerdas, em situações futuras seriam as direitas a terem maiores hipóteses de se perenizarem no poder.
Agora surgiu um antigo reitor da Universidade Católica a pretender o mesmo objetivo por outras vias, com falsa aparência de serem mais inteligentes, e por isso mesmo com acrescida perigosidade.
Manuel Braga da Cruz quer dividir o Parlamento em duas Câmaras com um argumento tolo: por ser tradição. Como se esse fosse motivo para alterar substancialmente os equilíbrios estabelecidos pela atual Constituição.
Invoca igualmente o suposto afastamento dos cidadãos em relação à política, mas constitui a essa luz um contrassenso que o Presidente da Republica deixasse de resultar do voto direto dos eleitores, e que governo e parlamento não se sujeitassem à possibilidade de serem dissolvidos. 
Ele gostaria de acabar com a representação das forças políticas mais pequenas,  estabelecendo um patamar de 3% como mínimo para garantir presença parlamentar. O que teria impedido o Bloco de ter deputados em 1999 e calaria o PAN da atual Assembleia.
E, reclamando contra os partidos, que consideraria albergue de gente pouco qualificada, pretenderia pessoalizar os votos em círculos uninominais - coisa esdrúxula, pasto dos mais ignóbeis caciquismos! - considerando bastar à Democracia a válvula de escape traduzida na colocação de um voto em urna de quatro em quatro anos.
Todas as propostas de Braga da Cruz só merecem um destino, o caixote do lixo, mas sinalizam a preocupação das direitas em encontrar formas de voltar a ganhar o pote mesmo que em truques de secretaria. Importa estar atento a essas insidiosas tentativas…
2. Torna-se cada vez mais evidente a vantagem de deixar Donald Trump ir corroendo a sua base social de apoio do que ansiar pela sua rápida impugnação. As trapalhadas quase diárias têm tido uma dimensão tão grotesca, que será lícita a esperança numa inversão significativa das relações de forças no Senado e na Câmara dos Representantes nas eleições intercalares do próximo ano.
Pode ser um risco calculado tendo em conta o ameaçador poder destrutivo de uma fera consecutivamente alvejada, mas ainda com capacidade para causar danos, seja sob a forma de bombardeamentos inesperados, seja na de decisões lesivas dos interesses coletivos, quer económicos, quer ambientais. Mas, se contidos os efeitos mais nefastos, quão útil poderá revelar-se este introito para tornar os eleitorados mais prudentes em relação às manipulações com que os demagogos os tentam arregimentar.

Os verdadeiros párias da política nacional

Embora militante socialista reconheço o quanto os excelentes resultados da atual governação têm de ser partilhados com quem os possibilitou: os parceiros da maioria parlamentar.
Não existisse uma convergência de objetivos  muito concreta e bem oleada graças à permanente comunicação entre Pedro Nuno Santos e os seus interlocutores no PCP, no Bloco e nos Verdes, e dificilmente António Costa teria conseguido vencer todos os desafios, que até agora se apresentaram.
Creio igualmente que, neste momento histórico, há muito mais a separar o PS dos partidos das direitas que daqueles com quem se enfatizam as divergências a respeito da Europa e da reestruturação da dívida. Bem tentam os suspeitos do costume manter a tese de se tratarem de questões de insanável resolução, que realmente no fundamental - a regularização dos precários, o aumento do salário mínimo, a revisão das tabelas do IRS, etc.  - partilham-se os objetivos, aposta-se na sua concretização, apenas se ajustando a vontade de uns avançarem mais depressa e outros, prudentemente, alargarem-lhes o  calendário.
É por isso asquerosa a contínua intenção dos que falam pelas direitas em continuarem a tratar o PCP ou o Bloco como se fossem párias, ora acorrentados por Costa para lhes limitar a ferocidade, ora pérfidos na forma como estariam a exercer o poder sem que a maioria desse por isso.
Há muito se justificaria que se transferisse para o PSD e para o CDS esse ostracismo, tendo em conta o quanto se colocam à margem das aspirações e da defesa dos interesses da grande maioria dos portugueses. Eles constituem o vírus que, se reinoculado, causaria nova agudização da mais grave doença nacional: a da descrença nas suas competências e capacidades.  Ora os portugueses estão a gostar deste clima de confiança em que um melhor futuro parece vir a ser possível. E pretendem que ele perdure por muitos e bons anos...

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Arquitetura de peso e os argumentos que as esquerdas tardam em encontrar

Há precisamente dez anos o grande debate público, que estava a corroer o governo de José Sócrates, tinha a ver com as grandes superestruturas planeadas para alavancar o crescimento do país. O TGV, uma nova autoestrada Lisboa-Porto e o futuro Aeroporto.
Que o último fazia todo o sentido tem-se constatado à medida que a Portela se revela insuficiente para o movimento de passageiros, que dela partem ou a ela chegam, constituindo o Montijo um paliativo, que custará quase tanto como uma estrutura de raiz e com óbices ecológicos ainda por apurar na plenitude.
Quanto às outras duas propostas o tempo se encarregará de demonstrar como elas faziam todo o sentido e, mais tarde ou mais cedo, se hão-de voltar a impor na sua pertinência.
Recorde-se que, nessa época, era a própria Comissão Europeia a emitir orientações para que o investimento público aumentasse como forma de potenciar o crescimento de um espaço europeu em riscos de estagflação. Demasiado imbuído do espírito do «porreiro, pá!», o então primeiro-ministro exagerava na viabilidade de tudo fazer acontecer ao mesmo tempo.
Sempre detestei o espírito mesquinho dos que tendem a apoucar-nos como se, conscientes do seu pouco talento e ambição, impusessem essa resignação a todos os compatriotas. Embora prestando-se a interpretações mais complexas do que esta leitura simplista, a figura do Velho do Restelo, que busca tolher os demais, quando os move objetivos mais ambiciosos, é uma das características de uma certa (falta de) Arte de Ser Português.
Vem isso a propósito de uma curta-metragem de Edgar Pêra intitulada «Arquitetura de Peso». Rodada precisamente em 2007 dava expressão a um cantor pimba que, com vernáculo à mistura, criticava a construção do CCB, da Expo 98, dos estádios de futebol do Euro 2004 e da Casa da Música, com argumentos idiotas, mas convincentes para o público-alvo a que se dirigia. O tema «puta vida cagalhões merda» para além de excitar o lado escatológico dos mais ignorantes, punha esta questão: para quê gastar tantos milhões de contos, ou de euros, em obras de tal dimensão, quando poderiam ser melhor aplicados a reduzir, ou mesmo eliminar a pobreza por todo o país?
Seria expectável que a maioria dos seus potenciais espectadores rejeitasse o argumento mediante a lógica de, existindo obras, criar-se-iam empregos e resgatar-se-iam muitos portugueses dessa miséria. Mas,  recordando esse período, foram os futuros promotores de Passos Coelho, e entusiastas da vinda da troika, a matraquearem os argumentos de não haver dinheiro para tanta obra. A austeridade, que depois os levaria a cortar pensões e ordenados, já estava bem imbuída em quem tinha por objetivo afastar os socialistas do poder e, não o conseguindo com urdiduras sórdidas (toda a trama em torno da pedofilia na Casa Pia), souberam aproveitar a oportunidade suscitada pelo rebentamento da bolha imobiliária nos Estados Unidos para cumprirem os seus intentos.
O que me preocupa nesta altura é a capacidade desses mesmos conspiradores em mobilizarem os mais pobres a seu favor. A “canção” de Nel Monteiro, que Edgar Pêra promoveu em forma de filme, mostra como os mais desfavorecidos podem ser facilmente mobilizados para agendas contrárias aos seus interesses. É o que têm tentado, e conseguido com algum êxito, as extremas-direitas ocidentais (Trump incluído), captadoras de milhões de votos de quem lhes será completamente indiferente tão só cheguem ou se aproximem do poder.
Se os vinte e três minutos de filme de Edgar Pêra são esteticamente interessantes - como quase sempre sucede nos seus projetos! - a ambiguidade mais do que suspeita do seu anarquismo ideológico obriga a pensar quão urgente é importante que as esquerdas encontrem modelos de comunicação eficazes para ouvirem e falarem com aqueles, que aspiram a representar.
A transferência de votos de muitos antigos apoiantes dos Partidos Comunistas e Socialistas europeus para as extremas-direitas (particularmente evidentes em França, em Itália ou no Reino Unido), mostram a importância de combater a demagogia dos argumentos simplistas de forma inteligente, mas sem a arrogância de ter todas as respostas e as pretender impor a quem está encolerizado, frustrado, desesperançado. Até pela eficácia com que os terão entretido com futebóis e milagres de Fátima, ao mesmo tempo que lhes inculcaram a tese de ser a política algo que devem execrar ou desprezar.
Sobreviver a Trump, aos muitos Trumpes que proliferam nas várias latitudes, exige essa preocupação em desmascarar-lhes o fraudulento oportunismo e voltar a conquistá-los para visões de futuro credíveis e em que quase todos tenham a ganhar. Enquanto tal não suceder continuaremos a ver sucessivos governos de direita ganharem eleições em França, na Alemanha e noutros países da União Europeia, fazendo do de António Costa uma exceção destinada a ser “normalizada” tão depressa quanto possível. Porque para isso trabalham todos os dias os Schäubles e todos que lhe servem de cúmplices.