sábado, 24 de fevereiro de 2018

As diferenças insanáveis entre o Ser e o Parecer


Nos últimos dias as boas notícias sobre o desempenho da economia portuguesa continuaram, invariavelmente, a suceder-se: um relatório demonstrou que as receitas turísticas em 2017 cresceram 19,5% em relação ao ano anterior; a colocação de 800 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro no mercado foi conseguida com a taxa média negativa de 0,417%, confirmando a atração dos investidores por este produto financeiro, que até pagam para ter nos seus portfolios; o FMI voltou a fazer um balanço positivo do que encontrou no âmbito da sexta avaliação da troika; e Mário Centeno, homem prudente, que não costuma fazer anúncios destes, sem estar bem convicto do que diz, considerou não se surpreender se Bruxelas rever em alta a estimativa de crescimento da economia portuguesa deste ano para 2,2%.
Tudo isto vai sucedendo enquanto o principal partido da oposição vai alimentando animados jogos florais entre os seus deputados, com vaticínios substantivos em como a corda tenderá a partir para o lado dos refratários da atual liderança, que parecem não ter aprendido nada com as sucessivas vitórias alcançadas por Rio na cidade do Porto contra forças bem mais fortes, que se lhe opunham (muitas delas com plena justiça!). No «Expresso», Ricardo Costa comenta: “com todo o respeito pelo grupo parlamentar, não vejo naquelas cadeiras nada que se assemelhe ao poder de fogo de Pinto da Costa”.
À esquerda discutem-se as vantagens e os perigos de uma improvável aproximação entre o PSD e o PS. Além de Francisco Assis, que parece não compreender o quão desajustado está da realidade social do país e dos militantes do (ainda) seu partido, há quem olhe para essa hipótese como uma forma de recentramento do PS no espaço político português como se esse não tivesse sido conquistado com o atual acordo parlamentar e com as direitas teimosamente remetidas à radicalidade extremista, que tem sido a sua. Não admira que, internamente, quase todas as vozes ouvidas tenham subscrito as palavras de Pedro Nuno Santos quando considerou que “a esmagadora maioria do PS quer pontes à esquerda e não à direita.” Tanto mais que os dois anos de governação já foram prenhes em resultados indubitáveis quanto à sua bondade.
E que essa aproximação será intensivamente contrariada por Marcelo Rebelo de Sousa, assim o confirma a sua oficiosa porta-voz no «Expresso» (Ângela Silva), que explica o interesse de Belém em ver o PPD a afrontar seriamente o governo, sob pena de se criarem condições ainda mais propícias para a maioria absoluta dos socialistas nas próximas legislativas. O que equivaleria a privar Marcelo do seu principal talento - o de intriguista - devolvendo-o àquilo a que merece ficar reduzido: à condição de «corta-fitas».
Mas se a aproximação entre o PS e o PSD de Rio se revela inexequível é por este último continuar igual a si mesmo no que defende e acredita. E foi isso que Pedro Filipe Soares resumiu, de forma muito sintética e incisiva, no Parlamento num dos debates desta semana: “Continuou a narrativa sobre a insustentabilidade da Segurança Social, na Educação mostrou saudades das reformas de Crato e atacou os avanços conseguidos por esta maioria na Saúde defendendo que não se deve diabolizar o lucro, quando ele é conseguido à custa do Serviço Nacional de Saúde. Temos aqui três exemplos de como Rio, no fundo, quer consensos novos com políticas velhas.”
E, de facto, alguém no seu juízo acreditará que António Costa aceitaria cortar nas pensões, chamar Crato de volta ou prosseguir o esforço de destruição do Serviço Nacional de Saúde em que tanto porfiaram Passos, Portas & Cª? Há um enorme abismo a separar as ideias de um e de outro em questões fundamentais, que fazem parecer divergências comezinhas às que, à esquerda, se mantém sobre a União Europeia ou a Nato.
Perspetiva-se longa vida a esta maioria parlamentar, mesmo depois do escrutínio de 2019!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

À espera de um Godot, que não lhes virá garantir a salvação

A votação para líder parlamentar do PSD, que correspondeu a uma verdadeira humilhação para o eleito e para o novo presidente do partido, vem ao encontro da tese relativa a uma expetável quebra nas legislativas de 2019, que tornem transitória a atual liderança. Mas a crise no PSD promete ser duradoura e prolongar-se pela próxima década adentro, se é que não implicará o seu fracionamento, já que Santana Lopes poderá sempre resgatar do sótão a velha ideia de um Partido dito Liberal apenas feito para satisfação do seu ego.
Compare-se a situação atual com a de há dez anos atrás, quando a crise financeira começava a dar sinais de vir a ocorrer , embora sem se julgar possível a dimensão verificada a partir de 15 de setembro desse ano, quando a Lehman Brothers abriu falência.
Na altura os grandes empresários já se tinham desafeiçoado de José Sócrates, que haviam louvaminhado como sendo o governante ideal para o país, quando lhes parecera permeável às suas pretensões. Bastou que muitos deles vissem frustrados os seus projetos de avultados negócios (e ainda mais lautos lucros) para que o transformassem no inimigo de estimação pronto a abater, como ocorreu com Belmiro de Azevedo, frustrado na ambição de monopolizar as telecomunicações e desde logo com o «Público» a servir-lhe de veículo de denegrimento constante do então primeiro-ministro.
 Por essa altura essa classe social já estava a promover Passos Coelho como sua almejada marioneta. Sabiam-no cábula enquanto estudou, mas tinha boa figura (o que poderia adoçar o eleitorado feminino, que o rival socialista houvera seduzido!) e tinha umas megalómanas ideias, que eram como o melhoral, não faziam bem, nem mal. O frustrado barítono pretendia mudar a Constituição como se ela fosse problemática para as negociatas do universo BPN & Associados e manifestava uma admiração beatífica pela Singapura do ditador Lee Kuan Yew. Replicar o «sucesso» desse tigre asiático nesta cantinho à beira Atlântico plantado figurava nas intenções do títere, como se as circunstâncias fossem replicáveis.
A conquista do poder por essas direitas políticas e dos negócios também andava bastante bem lançada com a campanha de marketing trapaceiro, que visava meter no imaginário coletivo as ideias, que bem caras viriam as revelar-se aos tontos, que nelas acreditaram como se fossem dogmas papais: que a gestão privada é sempre melhor do que a pública, que desnacionalizando serviços eles ficariam bastante mais baratos e com uma qualidade irrepreensível. E, porque havia que dar cabeças-de-cartaz para a excelência dos gestores privados essa foi a época de ouro de Zeinal Bava, de Paulo Teixeira Pinto, de António Mexia e outros que tais, cujos obscenos salários faziam corar de vergonha os mais talentosos craques do nosso futebol.
Houve até o caso caricato de João Rendeiro, presidente da Administração do BPP que, na semana de lançamento do seu livro encomiástico em que se dava como possuidor de um toque de Midas, foi preso e dado como fraudulento com direito a prisão. Esse exemplo não bastou para que os inocentes abrissem os olhos e evitassem oferecer o pescoço à degola, prosseguindo nesse crescente fervor por Passos Coelho.
Quando chegou o seu momento de glória o mais que tudo dos restaurantes finos de Lisboa não encontrou problema em disfarçar o vazio ideológico, que lhe varria a mente, porque a troika trazia um programa político-económico pronto a aplicar. O entusiasmo foi tanto, que ao grito de mata, logo ele gritou esfola, condenando o pobre do contribuinte a enormes aumentos de impostos, a cortes em ordenados e pensões e ao desaparecimento súbito de milhares de empregos. Convencido de que os portugueses mereciam a punição por serem os madraços do sul da Europa, que os alemães e holandeses zurziam a bel-prazer, Passos Coelho sentiu-se na pele de um pregador a quem o Deus todo poderoso da finança internacional entregava a tarefa de convencer os que teimavam em não lhe serem devotos.
Vem toda esta evocação para lembrar que há dez anos as direitas políticas e dos negócios tinham tudo pelo seu lado: uma crise económico-financeira em que poderiam surfar para defenestrar os socialistas, um político visualmente jeitoso, que ficasse bem nos cartazes eleitorais e nas televisões e todo um programa assente em desregulamentações e privatizações devidamente almofadado numa série de ideias feitas, que se pretendiam irrefutáveis, mas se viriam a revelar trágicas no seu logro.
Dez anos depois o que lhes resta? Onde estão os grandes empresários capazes de causarem admiração aos tolos que os não viam na sua essência de se interessarem exclusivamente pelos seus lucros? Onde andam os gurus, que levavam as revistas do tipo «Exame» a dar-lhes capas e a proclamar-lhes a genialidade? Onde anda a Igreja Católica na época ainda capaz de arregimentar votos de acordo com as instruções dos padres curas? Onde andam os líderes políticos capazes de enunciar uma ideiazinha, mesmo que pequenina, para o melhoramento da vida dos portugueses?
Dirão os mais avisados, que as televisões e os jornais andam a pelar-se por que chegue o Godot, que tire essas direitas das angústias existenciais em que vai vegetando. Mas espera-os o vazio, esse terrível nada, que tanto horror suscita a quem o pressente...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O mesmo querer por caminhos diferentes


O post intitulado «Quod erat demonstrandum!» suscitou um comentário do nosso leitor Jaime Santos que, há há alguns meses que não nos privilegiava com a sua opinião crítica. É claro que, embora sejamos ambos apoiantes da atual solução governativa, há um enorme abismo entre a sua posição social-democrata e o meu reiterado pendor socialista. Por isso mesmo a questão que aqui se coloca é entre a impossibilidade constitucional de renacionalizar empresas, que nunca deveriam ter sido privatizadas ou a exequibilidade de o vir a fazer num novo quadro político, que torne exequível tal mudança. Imaginemos, por exemplo, que os indicadores continuamente positivos da economia e a crise das direitas reduzem-nas a menos de 1/3 dos deputados. Quem impediria essa Assembleia da República de alterar o articulado constitucional?
Claro que o Jaime Santos andará nesta altura a dizer algo do género «in your dreams, buddy!». Certo! Mas como diria o outro, eu sei que sou um “dreamer, but I’m not the only one!”. A História dos homens está recheada de muitos exemplos de sonhos, que vieram a converter-se em realidades. E, ao contrário do nosso estimado leitor, não me admiro nada com a forte probabilidade de ver Corbyn como próximo ocupante do 10 da Downing Street.
Aqui fica, pois, o comentário discordante do Jaime Santos, com um abraço sincero:
Há um pequeno problema, levantado pelo insuspeito Larry Elliot no Guardian, na última campanha eleitoral. Elliot, que apoia Corbyn, chamou-lhe 'a sleight of hand' (um truque de prestidigitação), eu chamo-lhe outra coisa, demagogia pura e simples. É que Corbyn não consignou um penny para as privatizações, que só no caso das utilities (águas e eletricidade) custariam, estimava Elliot, 50 mil milhões de libras.
Quero lá saber que isto seja popular, se a demagogia não fosse popular, os demagogos não recorreriam a ela. Quero é saber como Mariana Mortágua tenciona pagar as nacionalizações que defende, se não alinha, como eu espero que não alinhe, na demagogia de Corbyn. Não será com certeza recorrendo aos lucros das empresas, como defendeu Catarina Martins no debate com Costa em 2015, porque levaria muitos anos até conseguir-se isso.
Eu gostaria de lembrar às pessoas de Esquerda que a CRP, que tanto gostam de invocar, proíbe o confisco, pelo que não haverá expropriações como em 1975... A não ser que, claro, defendam a subversão da ordem constitucional... Portanto, ou mostram o jogo, ou tenho que concluir que isto não passa de mais um fogacho retórico para o BE se demarcar do Governo e parecer que não votou a favor, sem exceção, de todos os orçamentos de um Governo com um programa absolutamente centrista (nem sequer é social-democrata, como Mortágua bem frisa).
A diferença entre Costa e Centeno por um lado e Corbyn pelo outro é que os primeiros sabem bem que não podem recorrer a esta espécie de argumentos. Corbyn pode fazê-lo porque provavelmente nunca será eleito para implementar o seu programa e se o for, não o fará…
Já agora, quanto à crise do SPD que abordou noutro sítio, a Esquerda está em minoria na Alemanha pelo que não se coloca a questão do SPD governar com os Verdes e o Linke. E depois, as baixas intenções de voto refletem mais o caos interno que a coligação com a CDU... Uma casa dividida cai…!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quod erat demonstrandum!

1. Ferreira Fernandes aborda a campanha ignóbil que a imprensa tabloide inglesa anda a alimentar contra Jeremy Corbyn com a ajuda de obscuro (mas decerto bem remunerado) crápula, que procurará servir de muleta para impedir o que se torna incontornável no futuro próximo: a vitória trabalhista em eleições, que arredem definitivamente os conservadores e os fascistas do UKIP. Eis o que de substantivo se relata em tal texto: “A esquerda trabalhista britânica volta a ser alternativa para governar. Talvez isso possa explicar o surto de notícias sobre alegadas ligações dos serviços secretos da então comunista Checoslováquia, na década de 1980, com o atual líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Um antigo espião checo - Ján Sarkocy, expulso da Grã-Bretanha, em 1989 - diz que Corbyn foi pago por si para dar informações.”
2. No “i” Joana Mortágua responde a Pedro Nuno Santos a respeito do texto da semana transata sobre os desafios colocados à decadente social-democracia. Porque, no essencial, concordo com o texto da dirigente bloquista aqui ficam os três parágrafos mais esclarecedores:
“Num mundo globalizado de offshores e patrões internacionalizados, as ameaças de deslocalização da produção e de fuga de capitais são sempre quem ganha o braço-de-ferro entre privado e público. A política de redistribuição da social-democracia assenta na capacidade do Estado de recolher impostos suficientes para financiar serviços públicos universais. Mas como praticar uma política redistributiva eficaz quando as grandes empresas fogem para a Holanda em busca de borlas fiscais? (…)
Estes desafios agora lançados ao PS para resgatar a social-democracia não respondem à pergunta principal: como se protege o Estado social do saque permanente dos mercados financeiros numa economia de casino global. A resposta está na robustez do setor público, e o contraste pode ser feito com Jeremy Corbyn, que não tem saudades das regras europeias e dá sinais de querer um setor público significativo. Talvez por isso o Partido Trabalhista esteja em contramão também no apoio eleitoral.
Só o controlo público dos bens e setores estratégicos permite ao Estado intervir na economia e garantir serviços públicos fortes. Porque territorializa uma boa parte do investimento e do capital que as privatizações ofereceram aos mercados. Porque garante que empresas importantes não são desmanteladas, como aconteceu com a PT, nem saqueadas, como está a acontecer com os CTT. Porque dá ao Estado poder para impor outros fatores de competitividade que não a desvalorização salarial e a competição fiscal. E porque o setor público não foge para a Holanda para não pagar impostos.”
Apesar de vir de um partido diferente do meu, limito-me a assinar por baixo.
Quod erat demonstrandum!

Cordialidade, lobbying e números elucidativos

1. Pode-se dizer que sabe a pouco, mas constitui mudança assinalável a boa educação, que volta a vigorar entre os líderes dos dois principais partidos nacionais, capazes de dialogarem sem arrogâncias nem despeitos, apenas pensando no que melhor poderá servir o interesse dos cidadãos. E dada como definitivamente morta e enterrada a malfadada fórmula do «arco da governação» torna-se natural que acordos alargados de regime interessem a todos os partidos e não apenas aos que costumavam ser tidos como os que neles deveriam ser implicados. Algo que Marcelo Rebelo de Sousa parece ainda não ter intuído, porque preocupado em apenas comprometer o do governo (hélas!) e o da sua particular estimação. Mas há coisas que nem com milhentos abraços ou selfies lhe conseguem traduzir os desejos em realidade...
2. Um dos antecessores de Rio na presidência do PSD - Durão Barroso - anda agora nas bocas do mundo por causa do efetivo lobbying em Bruxelas, junto da Comissão Europeia a quem prometera nunca tal vir a fazer. Mas, sendo exemplo típico do medíocre que, à custa de inesgotável arrivismo, conseguiu alcandorar-se muitos patamares acima do que justificavam os talentos, em que poderia justificar o ordenado da Goldman Sachs senão fazendo render a sua agenda de conhecimentos? Como comentava Rui Tavares no «Público» de hoje, essa sensação de nada de melhor ter a dar ao patrão senão o exercício da «cunha», mesmo que mais sofisticada, “ o mínimo que podemos dizer é que foi mais forte do que ele. Com Durão Barroso, é sempre mais forte do que ele.”
3. Um estudo da OCDE, citado por Nuno Serra no blogue «Ladrões de Bicicletas», mostra que, entre 2013 e 2015, Portugal era um dos piores países para trabalhar, tão elevada era a insegurança do mercado do trabalho e tão parcas as remunerações. O documento revela-se particularmente pertinente por responder eloquentemente aos insultos de Ferraz da Costa, quando se andou a carpir de sermos um país de madraços em que os pobres patrões se esforçam por encontrar alguém de jeito para trabalhar nas suas empresas.
Redarguia Marco Capitão Ferreira no «Expresso»: “os nossos trabalhadores são reconhecidos quando emigram, contratados cá pelas melhores empresas do Mundo. E não somos, não somos mesmo, um povo de pessoas que não querem trabalhar. Faltam-nos é patrões de jeito.”
O referido Nuno Serra não deixou de prever o conteúdo da próxima intervenção do antigo patrão da CIP, hoje à frente de um forum injustificadamente apaparicado pela imprensa e pelo inquilino de Belém: “perorar, muito preocupado, sobre o declínio demográfico e a quebra da natalidade em Portugal, apontando desta vez o dedo aos jovens casais pelo facto de não quererem ter filhos e, com o seu egoísmo, se recusarem a contribuir para a disponibilidade de mão-de-obra (de preferência barata), numa Europa demograficamente cada vez mais competitiva.”

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Os despojos do dia (internos e externos)


1. Mais do que campeonatos da Europa desta ou aquela modalidade, importa é levar o país a ganhar troféus com substância naqueles que têm a ver com o bem estar das populações, e não apenas com a autoestima de alguns. Por isso se se aponta como positivo o facto de Portugal figurar nos vinte primeiros lugares dos países onde há menor probabilidade de um bebé morrer no primeiro mês de vida, esse 17º lugar não nos deverá contentar assim tanto. Bom, bom, será quando também aí subirmos ao pódio.
2. Quer António Costa, quer Pedro Marques já saudaram a disponibilidade do novo PSD para consensos em reformas para o país, mas muito corretamente reafirmaram a importância de para elas serem convocados os demais partidos da maioria parlamentar. E com a linha vermelha devidamente sublinhada na discussão sobre o futuro da Segurança Social: que ninguém volte a propor cortes nas pensões.
Num contexto em que as coisas correm bem ao governo a eventual colagem do PSD ao esforço investido num país melhor na próxima década poderá isolar o CDS no radicalismo extremista, que caracteriza Assunção Cristas & Cª. Reduzindo-o novamente à dimensão do partido do táxi.
3. Continua a proliferar na opinião publicada em jornais ou comentada nas televisões o elogio a um político do CDS por ter saído do armário.
Tenho-me eximido de referir o assunto, mas vejo-o tão badalado, que me apetece adotar uma máxima anarquista com quase meio século e considerar que se a homossexualidade de Adolfo é um facto, o problema é dele e de quem com ele privar.
4. Os nuestros hermanos continuam a ter da noção de vizinhança uma conceção muito egoísta, como se o lixo do seu quintal não seja problema, mesmo quando extravasa para o nosso. Inteiramente justificados, pois, os protestos sobre a exploração a céu aberto em Retortillo a 40 quilómetros da nossa fronteira. Até porque deste lado já se conhece de ginjeira o hábito de as concessionárias ficarem com o lucro do negócio e deixarem para os prejudicados os encargos com a limpeza dos danos ambientais que causam.
5. Excelente notícia a do iminente acordo das milícias curdas de Afrin com Bashar al Assad, que isola ainda mais Erdogan numa altura em que este julgaria contar com a Rússia e com o Irão para lhe salvaguardarem as costas dos arrufos com Trump.
Nunca considerei natural a cumplicidade dos curdos com os EUA, mas não imaginei provável este realinhamento, que tende a clarificar a consolidação do regime sírio e a perda de influência da NATO num espaço geográfico, que não deveria ser sequer o seu. Aliás, bem vistas as coisas, a NATO, tal qual sucedeu com o Pacto de Varsóvia, já nem deveria existir...
6. Potencialmente determinante poderá ser a revolta estudantil norte-americana contra Donald Trump e a National Riffle  Association após o mais recente massacre numa escola secundária. Se o lobby  das armas é fortíssimo será bom que contra ele se erga uma forte oposição geracional, que tenda a denunciá-lo como perverso que é.
Num ano em que há eleições parciais para o Senado e para o Congresso esta súbita militância antirrepublicana poderá virar do avesso os mais recentes desequilíbrios políticos nas terras do tio Sam.
7. Perigosa é por outro lado a indigitação do ministro espanhol da Economia para suceder a Constâncio na vice-presidência do BCE tendo em conta que Guindos sempre foi um austericida entusiasta. E se Draghi vier a ser substituído por um alemão da pior estirpe, Centeno bem poderá sentir dificuldades acrescidas à frente do Eurogrupo.
8. De Espanha e da Alemanha vêm, entretanto, as notícias políticas mais inquietantes: a queda do fraco governo de Rajoy ainda não encontra uma oposição de esquerda suficientemente forte para lhe servir de alternativa, ainda vigorando o ilusório encanto de muitos com a receita liberal do Ciudadanos. Sanchez, Iglesias e Garzon estão obrigados a trabalhar bem mais para que as coisas mudem do estado letárgico, que tem existido desde que Zapatero se revelou um indesculpável flop.
Dececionante, igualmente, a mudança de Martin Schulz do Parlamento Europeu para a política interna do seu país: uma sondagem credível dá o SPD atrás da extrema-direita continuando a afundar-se em mínimos históricos. A receita implementada por António Costa tarda em ser adotada nos países onde mais sentido faria vê-la replicada...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um ostensivo cheiro a chantagem


O descaramento dos procuradores do Ministério Público já atingiu tal dimensão que não constitui propriamente uma surpresa a notícia de ter bastado Rui Rio anunciar a disponibilidade para acordos de regime sobre a Justiça, para que os apaniguados de Joana Marques Vidal logo anunciem uma investigação a Elina Fraga no dia seguinte a saberem-na designada vice-presidente do PSD.
A mensagem é óbvia: os responsáveis pela inaceitável politização do poder judicial, há quinze anos  - com a corrupta investigação sobre a  pedofilia na Casa Pia - a tentarem prejudicar continuamente o Partido Socialista de forma a perenizar a direita no poder, constituindo-se ela numa barriga de aluguer para a proclamada intenção de transformar a República portuguesa numa ditadura dos magistrados.
A História tem-nos ensinado - quer em Itália, quer no Brasil - que a judicialização da política tem criado as condições ideais para a emergência de um fascismo ordinário que empobrece os respetivos povos, os torna presa fácil dos demagogos mais insanos.
É só uma questão de comparar o investimento feito nestes últimos anos nas investigações (em tempo e em muito, mas mesmo muito dinheiro!) contra Armando Vara, José Sócrates, José Magalhães, Conde Rodrigues, ou mesmo Mário Centeno, com as avançadas contra o grupo cavaquista do BPN (incluindo Dias Loureiro), Duarte Lima e, sobretudo, Paulo Portas. Quantos dias de prisão, mesmo sem provas que os fundamentassem, para políticos socialistas e quantos para os dos partidos das direitas, esses sim com comprovativos indisfarçáveis das suas corruptas atividades?
 Não surpreende que, nas direitas, se exija com tão intenso vigor a renovação do mandato da Procuradora Geral: ela tem sido o seguro de vida para que os interesses vinculados às direitas sejam acautelados sem que ninguém os belisque. Ainda este fim de semana a múmia de Boliqueime veio acrescentar gás (por certo fétido) a tal esforço.
O que o grupo que conspira ativamente contra a prevalência dos valores republicanos na Justiça não pode aceitar é que o seu braço político mais forte se vire contra si. A intenção manifestada por Rui Rio para alterar os desequilíbrios acumulados nos últimos anos e traduzidos em indignas violações do segredo de Justiça, foi oralmente expressa por Paula Teixeira da Cruz, que não hesitou em considera-la uma traição. Daí esta tentativa ostensiva de chantagear a nova direção do PSD instando-a a não se afastar do trilho dos últimos anos. Acaso o façam ficam sujeitos a também se verem na via sacra da devassa da vida privada devidamente transposta para o vómito matinal em forma de uma coisa que tentam considerar um jornal.
Resta saber se Rui Rio se acobarda ou se se juntará a quem, conhecendo bem por dentro o antro donde saiu para exercer as funções de Ministra, estará em condições de proceder ao devido saneamento.
Apesar das pressões de Marcelo em contrário, importará começar pela caducidade do mandato da testa-de-ferro do grupo em causa tão só termine o mandato daqui a nove meses, oferecendo ao sucessor uma boa barrela com que comece a tratar das manchas que conspurcam a instituição.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O segundo capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana


No texto anterior já víramos como o congresso laranja tinha todas as condições para se converter numa tragicomédia em que poderiam coexistir as evidências de uma direita incapaz de ter uma ideia, mesmo que ténue, para  melhorar a vida dos portugueses, e, ao mesmo tempo, as cenas risíveis de uma coisa tida por séria, de súbito transformada em involuntário (pelo menos para os proclamados vencedores) gag burlesco.
Do lado da tragédia não pontifica apenas esse vazio ideológico, apenas cingido à fértil intriga de quem anda na política para cuidar o melhor possível da vidinha pessoal. Acrescem, igualmente, afirmações a roçarem o grotesco de tão descabidas, como a de se viver em clima de PREC ou a de António Costa ser o último dos moicanos de um Partido Socialista rendido aos encantos da «extrema-esquerda».  Que quem disse tais alarvidades o tenha conseguido fazer sem se escangalhar a rir, denotando acreditar na probabilidade de ser levado a sério, revela bem o grau zero a que chegou o principal partido da oposição. Mas entrou-se no reino da comédia, quando Rio convenceu Santana a formarem listas conjuntas para os principais órgãos do Partido, querendo assim demonstrar uma grande unidade interna, e não conseguiu sequer alcançar a maioria dos votos, ficando-se por 1/3 para o Conselho Nacional e por menos de metade para o Conselho de Jurisdição.
Percebia-se nesse conjunto de resultados a razão porque as televisões decidiram subalternizar as notícias do flop laranja no alinhamento das notícias, dando a primazia à vitória retumbante do émulo de Kim Jong-un em Alvalade. Paulo Dentinho, Ricardo Costa e Sérgio Figueiredo terão percebido que os tempos próximos não serão pródigos para quem gostariam de ver afirmar-se como alternativa viável à maioria de esquerda. E o primeiro sinal surgiu, logo, na sessão de abertura, quando se compararam as palmas atribuídas a Passos Coelho na despedida com as do agora chegado Rui Rio. Por muito que este fizesse profissão de fé no realinhamento do partido ao centro, os ali presentes reafirmavam a adesão plena à extrema-direita seja lá o que isso signifique para cada um deles. Qualquer observador de fora via claramente que o futuro prenuncia o PS a ocupar plenamente o centro político e muito mais próximo dos extremos situados à sua esquerda do que dos assumidos muito, mas mesmo muito, para a sua direita.
Passos Coelho saiu consolado do Centro de Congressos, porque, mesmo despejado para o caixote do lixo da História, teve direito a um suplemento de alma, que poderá dar-lhe melhor inspiração para o prometido livro com que imitará Cavaco no mistificado balanço quanto ao que julga ter feito (destruindo mais umas pobres árvores, que não têm culpa nenhuma da vaidade do presumido escrevinhador) e para as aulas  a lecionar nas universidades de que supostamente já terá recebido convites para mostrar a sua, até agora, desconhecida sapiência. Curiosa a dualidade de critérios da comunicação social, que tanto se insurgiu contra o currículo académico de José Sócrates e agora anuncia, sem levantar dúvidas, que um cábula com uma licenciatura arrancada a ferros, e a más horas, se arme agora em doutor!
O Congresso acabou por só ter algum interesse pela marcação do terreno dos que se assumem como querendo ser os senhores que se seguirão. Nesse sentido as apostas de Relvas e Marques Mendes ( Miguel Pinto Luz) ou de Marcelo Rebelo de Sousa (Carlos Moedas) passaram despercebidos face à prosápia de Montenegro, que talvez se engane na ideia de ganhar notoriedade mediática no comentário político para assaltar o arruinado castelo de que decidiu desertar. Será nessa vertente da história, que os próximos capítulos mais prometem ser palpitantes. Ou limitar-se-ão a ser igualmente entediantes?
Sentindo a fraqueza da nova liderança Nuno Morais Sarmento invocou a ajuda de Marcelo para que este a ajude com um comportamento mais impositivo face a António Costa. Há melhor confissão de impotência, que essa estratégia logo condicionada pelo facto de o narcísico recetor da mensagem estar bem mais preocupado consigo mesmo do que com o partido, que vê feito em cacos?
Indiferente a esse apelo Marcelo continua a ser Marcelo: elogia Passos Coelho  - para quando a distinção com a Grã-Cruz da Ordem dos me(r)díocres com palma e duas orelhas (de burro)? - e preocupa-se, sobretudo, com a sua tão querida brasileira de Pedrógão, que vê dela fugir a sete pés os que conseguira iludir para a Associação pensada para a sua afirmação pessoal e não para os fins inicialmente proclamados. A exemplo do universo laranja também as pequeninas cortes marcelistas vão dando sinais de se estarem a deslaçar.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O primeiro capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana


Há quem faça gala em dizer-se incapaz de ler o «Expresso», não só para escusar-se a contribuir para o negócio da família Balsemão, mas também por sempre nele adivinhar textos capazes de lhes suscitar justificada indignação ao situarem-se invariavelmente muito à direita.
Discordo claramente desse posicionamento, mais emotivo do que racional. Não constitui regra imprescindível das teorias militares que se procure saber o que se passa no outro lado da trincheira? Como se pode vir a ser eficaz no combate a quem nela se situa se não se lhe conhecerem as estratégias?
A publicação em papel desta semana traz muitas matérias a merecerem o nosso comentário e por isso serão tratadas em mais do que um texto.
A começar temos a colaboração regular, que mais costuma merecer a minha atenção: o cartoon de António, normalmente capaz de por si mesmo substituir mil palavras. É o caso do que se passa esta semana com o calvário de D. Manuel Clemente, subitamente confrontado com o quão disparatada terá sido a mediática opinião sobre o sexo entre recasados. Por isso arranjou forma de tentar corrigir o erro, fazendo-se entrevistar pelo próprio diretor do semanário. Afinal  não teria querido dizer propriamente o que terá saído da sua pena. Pelo contrário nós é que somos culpados da situação, porque o teremos interpretado mal. Pondo-se no papel de vítima incompreendida, o cardeal quer sair bem no filme, mas foi tão evidente o seu ultramontanismo, que nem pintando-se de que cor fosse, conseguiria apagar mais uma significativa mancha no seu já escuro currículo.
Chamado também para assunto de capa veio Cavaco Silva de quem se publica extensa entrevista na Revista. Sem prejuízo do que sobre ela virei a comentar fica já sublinhado o grande objetivo dos editores, que dela selecionaram como tema preferencial o da renovação do mandato de Joana Marques Vidal. O que vai ao encontro do que se tem ouvido a vários participantes no Congresso do PSD: para a direita será fundamental que as coisas continuem tal qual estão no reino corrupto do Ministério Público. Quanto temem que, com a saída da Procuradora-Geral, a Justiça se manifeste menos zarolha e, em vez de parecer cingir-se politicamente ao que lhes convirá explorar, se passe a dar maior atenção a casos até aqui desprezados como os dos submarinos ou o da Tecnoforma!
É igualmente curiosa a preocupação do principal órgão de comunicação enfeudado às direitas em dar voz à sinistra múmia, que tanto mal causou a milhões de portugueses, apesar de por eles ter sido sucessivamente guindado aos principais cargos da República (o que nos fez, amiúde, desconfiar da sua sageza!). Será que querem preparar-lhe um vistoso funeral de Estado, quando alguém for suficientemente persuasivo para o informar de estar há muito morto e ninguém lhe ter dito nada? Se o filho do gasolineiro ainda tem alguma ilusão quanto a ser homenageado na mesma dimensão em que o foram Mário Soares e, sobretudo, Álvaro Cunhal, bem pode tirar o cavalinho da chuva. Nem a persistência dos seus tenazes admiradores bastará para que a cerimónia venha a ser pouco mais do que privada.
Saindo dos assuntos trazidos para a capa do primeiro caderno entramos na segunda página e, finalmente, Martim Silva consegue pôr António Costa a encabeçar os Altos da sua coluna sobre quem está em evidência pelo que ele ajuíza serem bons ou maus motivos. Nem o esforçado Martim consegue ignorar “o maior crescimento real deste século (…) em convergência real com a Europa.” Tal reconhecimento confirma que, na redação do «Expresso», se adivinham tempos difíceis para quem lhes vai no coração, politicamente falando. E isso é óbvio no tom lastimoso de Pedro Santos Guerreiro, diretor do jornal, no seu editorial. Pressente-se-lhe a angústia de constatar um Congresso laranja marcado pelo cinismo de quem aplaude Rio “com as mãos moles e a ponta e mola no bolso.” E, logo identifica quem se apresta a conspirar contra o novo líder: “São os da corte ameaçada, são os patinadores no gelo que nunca passam das ameaças e são as máquinas de calcular futuros, os seus próprios futuros. Ouve-se o barulho do acelerador mas cheira a embraiagem. Para meter a próxima mudança.” Pode-se não apreciar o que lhe vai na alma, mas tem de se reconhecer o bom estilo!  E acaba com um apelo lancinante: “[Rio] ganhou o direito de ser apoiado pelo partido que, antes dele, já sofria de raquitismo político, intelectual - e eleitoral”.
Na mesma página outro dos jornalistas mais conotados com a direita no semanário (Filipe Santos Costa) alinha as áreas sobre as quais seriam desejáveis acordos do Bloco Central e a que insiste em chamar «reformas estruturais»: a Justiça (ou seja dar ainda mais força aos que querem dela servir-se para conseguirem que a vontade expressa pelos eleitores  possa impedir coisas esdrúxulas como foi exemplo a investigação a Mário Centeno), o sistema político (ou seja o favorecimento de condições para maiorias absolutas de direita e limitações engenhosas às que se possam formar à esquerda), a descentralização (ou seja a criação de muitos cavaquistões) e a Segurança Social (ou seja privatizando-a e cortando a eito na “peste grisalha”). Por muitas ilusões que as direitas tenham quanto à exequibilidade de tal projeto não contará com o beneplácito de um Partido Socialista que, pela voz de Pedro Nuno Santos já veio esta semana expressar outra interpretação para o que considera reformas necessárias para o país.
Ficámos ainda assim a saber que, nem sequer entre os seus, Rio consegue ter garantidos apoios para as armadilhas internas, que lhe estenderão passo a passo, contando, ainda assim, na sua equipa com um valete cavaquista do gabarito de Nunes Liberato, que em Belém terá assistido e quiçá participado em muitas inventonas contra José Sócrates. Tratando-se de um notório cortesão da já referida múmia podemos depreender que o sentido da expressão «diz-me com quem andas…» faz todo o sentido para quem da política se cola a ajudantes de caudilhos tão pouco recomendáveis…