segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Foi bonita a festa!

No fim da tarde desta segunda-feira o auditório do Caleidoscópio encheu-se com alguns dos maiores entusiastas do projeto SNAP, que foi a votos na eleição presidencial de 24 de janeiro de 2016.  Foi o encontro de amigos forjados na luta pela afirmação de uma candidatura que acreditavam ser a melhor para o Portugal do tempo novo anunciado pelo então recém-empossado governo.
Apesar de não se alcançar a vitória, estou certo de todos comungarem da ideia de terem saído das muitas semanas de campanha mais enriquecidos enquanto pessoas e com novos amigos para a vida, até então desconhecidos.
Um dos objetivos deste reencontro era o de anunciar as 17 instituições de apoio social, cultural e ambiental contempladas com as verbas remanescentes da campanha eleitoral, que lhes possam mitigar algumas das dificuldades com que se debatem diariamente para concretizarem a sua admirável atividade.
O outro era ouvir do Prof. Sampaio da Nóvoa uma declaração em forma de balanço sobre a evolução do país desde então. Começando por apelar à participação de todos nas próximas eleições autárquicas como renovação do compromisso com a democracia, elogiou o papel do atual Presidente da República na revitalização da sua função, “devolvendo-lhe a sua importância, sobretudo na relação com os cidadãos”, ao afirmar-se através do sentido de independência, de imparcialidade, de equidistância. “
Entrou depois na parte do discurso, que mais apreciei por enfatizar uma expressão feliz: «É preciso dar futuro ao presente».
Segundo as suas palavras “nos últimos quinze meses, recuperámos muito do que havíamos perdido em quatro anos. Desde logo, o direito ao presente. Mas só isso não chega para resolver os nossos problemas de fundo.
Os acordos de governo abriram novas possibilidades, alargando o campo da política e da liberdade. Só posso desejar que se tornem mais sólidos, e que venham a ser capazes de construir um horizonte de estabilidade e de futuro para Portugal.
A política é sobre o futuro, nunca é apenas, nem só, sobre o presente.
A nossa geração tem a obrigação de deixar aos jovens uma organização do país que fortaleça, de uma vez por todas, os dois pilares do nosso desenvolvimento: o conhecimento e a economia.”
Conquistar esse futuro significa prepará-lo melhor “para a incerteza e para a imprevisibilidade, para os novos modos de vida e de trabalho, para as mudanças na economia e na tecnologia, na mobilidade e na comunicação.
De pouco nos servem as fórmulas do passado, mas se olharmos com atenção para as novas gerações - na relação com a vida, com o trabalho, com o ambiente, com o consumo, com a mobilidade ... - veremos os sinais que nos permitem preparar melhor o país e tirar partido de tantas vantagens que Portugal tem no mundo globalizado dos nossos dias.”
Pessoalmente tenho pena que o SNAP tenha tido o seu epílogo com esta cerimónia. Porque o Prof. Sampaio da Nóvoa é daquelas personalidades que fazem impreterível falta ao país. Daí que lamente não o ver mandatado para, num dos muitos cargos possíveis para o efeito, colaborar ativamente na criação desse futuro no presente.
Nostalgicamente só posso reconhecer que, lembrando a canção de Chico Buarque, foi bonita a festa enquanto ela durou!

domingo, 22 de janeiro de 2017

Um ano de marcelismo

1. Um ano depois da vitória nas presidenciais, Marcelo Rebelo de Sousa deu a primeira entrevista na função, confirmando a habilidade para o discurso ambíguo, nele cabendo todas as leituras possíveis consoante a predisposição de quem o ouviu.
Quem apoia Costa fica confortado com o aparente respaldo. Quem está com Passos contenta-se com a legitimação para que se mantenha à frente do PSD até ao fim da legislatura. Quem está nas outras esquerdas parlamentares ficou com a quase explicita convicção quanto à necessidade da reestruturação da dívida. E os entusiastas de Cristas ter-se-ão sentido aliviados com a desaprovação à nacionalização do Novo Banco.
A necessidade de Marcelo em fazer-se-amar continua a ser tal, que ajusta as palavras de forma a tornarem-se empáticas com as diversas opiniões do eleitorado.
Eu continuo a não me marcelizar e não é pelo despeito de não ter tirado nenhuma selfie com ele. Até lhe elogio isso: ao contrário do que aqui previ há alguns meses, ainda não o vi bater-me à porta para tirar esse testemunho fotográfico a pretexto de, entre os 10 milhões de habitantes, ser o único a faltar-lhe na coleção. O que não está excluído, que venha a acontecer!
Em 24 de janeiro de 2016 votei em Sampaio da Nóvoa e teimo em considerar que tratava-se do candidato mais conveniente para os tempos imprevisíveis em que vivemos. Infelizmente não foi esse o veredito dos portugueses que preferiram quem, a seu tempo, demonstrará os verdadeiros intentos do projeto para que se ajeitou com prevenida antecedência.
2. Não tendo particular entusiasmo pela descida da TSU, embora lhe tenha compreendido o propósito, continuo a apontar Passos Coelho como o único culpado da sua provável inviabilização.
Os patrões que, em entrevistas e outras intervenções públicas, andam a atribuir a culpa às esquerdas, estão a confirmar a equiparação ao célebre escorpião da fábula: está-lhes na natureza atacarem os seus fidalgais inimigos. Por isso em vez de confrontarem o seu testa-de-ferro no parlamento com as posições ideologicamente estapafúrdias, alinham com ele no objetivo fundamental: dificultar a governação de António Costa na expetativa de o ver embrulhado em desacordos insanáveis com os demais partidos da esquerda parlamentar. Lá no íntimo continuam à espera do Diabo, que lhes tem trocado as voltas, sem nunca aparecer.
É avaliarem mal - como aliás lhes vem sendo habitual - a capacidade do primeiro-ministro para virar as adversidades a seu favor e transformá-las em oportunidades de maior afirmação dos inesgotáveis dotes de negociador. Como concluía Daniel de Oliveira na crónica no «Expresso»: “Costa tem um problema que obviamente ultrapassará. Passos, aprofunda um problema que o começa a ultrapassar”.
3. Nas primárias socialistas para definir o candidato à eleição da próxima primavera, Benoit Hamon conseguiu ficar à frente de Manuel Valls, desmentindo uma vez mais a previsão das sondagens.
Tratando-se daquele em quem votaria se também o pudesse ter feito, sobram poucas dúvidas, que confirmará a sua liderança na segunda volta. Pode-se lamentar que não vá a tempo de criar a vaga de fundo propícia à vitória final, mas será ele o mais indicado para devolver ao Partido a matriz socialista, que Hollande e Valls quiseram declarar extinta.
Um a um, os patrocinadores da Terceira Via no movimento socialista europeu vão sendo confrontados com a indigência das suas estratégias, conhecendo sucessivas, e esperemos que irreversíveis, derrotas!

O tempo dos vândalos

A melhor peça jornalística sobre a tomada de posse do 45º presidente norte-americano veio da lavra de Luís Afonso que pôs o seu barman a comentar o assunto com um cliente, levando este a perguntar-lhe: “Como está a reagir o mundo?”
Resposta do inquirido, e com o qual todos nós nos identificamos: “Espera com impaciência a tomada de posse do 46º presidente!”.
É certo que há quem cante «I Will Survive», ou o próprio Obama considera uma mera vírgula na História dos EUA este quadriénio ameaçador, mas o discurso inaugural de Trump constituiu tal declaração de guerra a todos quantos nele não votaram (e lembre-se que Hillary, apesar de tudo, teve mais três milhões de votos!), que os próximos meses irão ser particularmente animados. E a reação da gigantesca manifestação ontem ocorrida em Washington, muito para além da dimensão esperada pelos organizadores, mostra como surge, desde o primeiro dia, uma oposição forte nas ruas.
Há quem preveja um primeiro ano tranquilo com o aparente cumprimento de algumas das mais emblemáticas medidas anunciadas durante a campanha, mas a autossuficiência de Trump poderá encontrar imediata oposição do próprio Partido Republicano, mormente por parte dos tais políticos por ele zurzidos como integrando a tal elite responsável pelo quase apocalipse vivido pelos operários, mães solteiras e outros estratos de que se arroga provedor.
O que sucederá quando o Senado lhe negar os tais sessenta votos para levar por diante as prometidas reformas? E quando o Congresso lhe atrasar a aprovação de diplomas, que desejaria prontamente implementados?
O clima do planeta conhecerá com ele acrescidas ameaças. Neste altura os cientistas estão particularmente inquietos com a iminente desagregação de um icebergue na Antártida com a dimensão do nosso Algarve.  Veremos se o agravamento da situação não gerará furacões violentos nas cidades e vilas da Costa Leste e devastadores tornados nos estados interiores donde vieram parte substancial dos votos, que o elegeram. Perante tais previsíveis catástrofes os serviços federais com os meios minguados para que os mais ricos paguem ainda menos impostos, poderão ter acrescidas dificuldades em reagirem eficientemente. Recordemos que o Katrina expôs à saciedade a incompetência da Administração do Bush filho.
Há, porém, um objetivo do novo presidente com que estamos todos de acordo: acabar com o Daesh. E, de facto, as notícias vindas de Palmira, recentemente retomada pelos terroristas, justificam a urgência de os esmagara: não só regressaram as execuções públicas pelos mais fúteis motivos como dois dos monumentos mais icónicos, que tinham sobrevivido à sua primeira passagem por ali - o Teatro Romano e o Tetrápilo - foram estilhaçados em irrecuperáveis fragmentos.
Da Casa Branca a Palmira podemos considerar ser este o tempo dos Vândalos!

sábado, 21 de janeiro de 2017

A lógica do vale tudo

1. Há jornalistas do «Expresso» de opiniões tão ditadas por preconceitos ideológicos que, ao criticarem alguém só podemos ler-lhes as prosas como elogiosas para os visados, sucedendo exatamente o contrário, quando se multiplicam encómios para quem os não merece.
Um desses casos é Martim Silva, que vem ultimamente assinando a coluna dedicada aos Altos & Baixos da semana. Hoje de quem se lembrou para tecer louvores? Obviamente de Francisco Assis, cujas opiniões alinham na perfeição com os que se opõem à atual maioria governativa.
Promovem-no, pois, a oráculo dos raios e coriscos, que não tardarão a cobrir de negro as cordatas relações do Partido Socialista com as demais esquerdas parlamentares numa  variante da tese do Diabo: tal qual Passos Coelho, a malévola criatura, se não chegou por via da economia, acabará por vir através das divergências – por ele tidas como insanáveis! - entre os atuais parceiros da maioria.
Talvez seja devido a essa pequenina luz de esperança, que o PSD enceta este ano com a recauchutagem da estratégia de há um ano atrás, dispondo-se a votar tudo quanto Bloco, PCP e PEV decidirem promover contra o governo. Depois da TSU prometem agora inviabilizar as parcerias privadas na Saúde, uma vez mais escusando-se ao papel de representarem os interesses dos patrões apenas por tacticismo político.
Há dias alguém nas redes sociais ironizava quanto à possibilidade de, em breve sairmos do euro, da União Europeia e da Nato, porque tão-só os partidos à esquerda do PS proponham tais medidas na Assembleia da República e verão Passos & Cª aprová-las.

Para a direita laranja chegou-se à fase do vale tudo, mesmo que ao arrepio de quanto antes defendera e tinha como matrizes identitárias. E o mesmo está a passar-se com um dos seus mais desesperados «compagnons de route», o tal Assis a quem o semanário de Balsemão dá, igualmente, honras de primeira página com um insulto soez a Pedro Nuno Santos.
De cabeça perdida o ainda deputado europeu entrou, também ele, na fase do vale tudo.
2. O semanário de Balsemão dá, igualmente, ênfase a mais uma fase da campanha destinada a demonstrar aquilo que os milhões de euros, ingloriamente gastos pelos investigadores, não permitiram provar: que José Sócrates se deixou corromper enquanto esteve em funções governativas.
Seria interessante auditar quanto, em ordenados e verbas a eles associadas dos procuradores, especialistas da Autoridade Tributária, juízes e polícias, nos custaram essas investigações ao longo de mais de três anos? Ora aí está um número, que muitos gostariam de conhecer e ver estampados em «cachas» das primeiras páginas dos jornais!
Os propagandistas da tese insistem igualmente em não darem ênfase àquilo que, isso sim, está bem comprovado: para diabolizarem quem pretendiam manchar definitivamente na reputação, houve quem não hesitasse em manter preso um suspeito durante nove meses apesar das provas serem então ainda mais risíveis do que as atuais conjeturas.
Após o fracasso das investigações relativas ao Parque Escolar, às casas na Venezuela, a Vale do Lobo e a outras mistificações, que de tal não passaram, a curiosidade residirá em perceber por quanto tempo perdurará esta nova teoria, que associa Ricardo Salgado ao antigo primeiro-ministro. Também nalguns setores da Justiça portuguesa persiste a lógica do vale tudo!

Até quando aguentará o ditador turco?

Um dos palpites, que me saíram furados no ano transato foi o de Erdogan não chegar à frente da Turquia neste início de 2017. Ainda assim vi-lhe esboroar-se fragorosamente a ambição de se tornar no líder temido do mundo muçulmano sunita. Se mantém o poder à custa de milhares de oposicionistas nas prisões e afastados dos seus empregos, ou de um controle férreo na comunicação social, onde só sai o que lhe for favorável, a fraqueza é tal, que não consegue disfarçar a capitulação face à poderosa aliança russo-iraniana.
Nos seus planos chegou a conjeturar-se a possibilidade de expandir a influência turca a toda a extensão do antigo Império Otomano, o que implicaria apossar-se, ou ter governos fantoches, no Iraque, na Síria, no Líbano e na Jordânia. As Primaveras árabes ainda mais lhe aumentaram a ambição, porque, a seu reboque, os Irmãos Muçulmanos tomaram o poder, ou quase o conseguiram, no Egito, na Tunísia, em Marrocos ou na Líbia. De repente parecia exequível regressar ao passado anterior a 1918. Erdogan não olha para a Primeira Guerra Mundial como um conflito entre potências europeias, mas como uma agressão coligada contra um Império dotado da “missão” de unificar todos os povos muçulmanos.
Um dos atuais problemas têm a ver com os jiadistas do Daesh a quem facilitou a penetração na Síria. De aliados, converteu-os em inimigos ao tomá-los como alvos dos seus ataques, quando os sentiu fracos demais para ajudarem a derrubar Bachar al Assad ou eliminarem a insurreição curda. Poderão já não causar grande mossa, mas mantém a capacidade de promover atentados tão mediáticos como o perpetrado na discoteca de Istambul na noite da passagem do ano.
O outro problema foi-lhe criado pelos aliados sírios, aqueles que, apesar de não terem semelhanças com meninos de coro, o Ocidente insiste em apontar como respeitáveis opositores contra Assad. Em 18 de julho de 2012, organizaram um mortífero atentado em Damasco, que vitimou algumas figuras de proa do regime, entre as quais o cunhado do presidente. No dia seguinte, a aviação despejou milhares de bombas no território ocupado pelos opositores e Assad eximiu-se de controlar todo o território curdo, estrategicamente menos importante para os objetivos de controlar todo o litoral.
Gozando de total autonomia nesse Curdistão sírio, os guerrilheiros do PYD (Partido da União Democrática, gémeo do PKK) lançaram as bases de um Estado independente, que reivindicará parte substancial do território turco. Um dos maiores pesadelos que podem assombrar as noites de Erdogan.
Ele é o exemplo paradigmático da expressão popular de ter mais olhos do que barriga: julgando-se capaz de ser um gigante, converteu-se num pequeno líder regional a quem Putin dá provisoriamente a mão como forma de fragilizar a Nato, mas que apressadamente abandonará, quando o sentir mais incómodo do que prestável.
Com a economia em crise, nomeadamente pela quebra de receitas no setor turístico, dificilmente Erdogan conseguirá travar o descontentamento dos que se fartarem com promessas incapazes de cumprir. Tendo resistido mais do que o julgaria possível, nem sequer lhe valerá a ajuda de Trump, cujo enleio no seu próprio labirinto o enredará nos seus próprios problemas sem tempo para em ajudar a resolver os dos ditadores da sua simpatia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Trump, dia um

Donald Trump sempre foi muito sensível à opinião que de si os outros fazem. Por isso mesmo, quando a equipa de assessores desvaloriza a importância das sondagens, que o dão como o único presidente norte-americano a perder popularidade entre a eleição e a tomada de posse, está a exprimir desejos por realidades. Na verdade, embora o que se passa na cabeça do novo inquilino da Casa Branca seja um enorme ponto de interrogação, podemos conjeturar até que ponto ele não perderá algo da sua soberba, quando as dificuldades começarem a tornar mais pequena em influência uma América, que ele prometeu tornar ainda mais forte.
É que, ao contrário dos seus falidos negócios, ele chega aos palcos da política nacional e internacional com interlocutores muito diferentes dos empregados e empreiteiros a quem prejudicou com rotundos calotes. Ele que se meça com Xijinping, o presidente do país, que tem em seu poder parte substancial da dívida norte-americana, para entender como os jogos de negociação em que sempre se julgou invencível, lhe podem ser desfavoráveis.
A ideia de arrebatar riqueza e poder aos outros só porque tem mais armas nucleares e porta-aviões pode ser tentadora, mas essa mera ameaça tenderia a criar-lhe uma tal oposição, que o impeachement seria uma realidade.
Há quem faça apostas quanto à possibilidade de tal instrumento vir a ser utilizado para, a exemplo de Nixon, nem sequer a acabar este primeiro mandato. Os conflitos de interesses são tão evidentes que, desde o primeiro dia, justificariam a abertura do respetivo processo tão inconstitucional é a continuidade no controle dos negócios, mesmo que por suposta delegação nos filhos, ou a nomeação do genro para a Casa Branca.
Mas quem possa pensar numa iniciativa democrata nesse sentido poderá vir a enganar-se: há antes quem aposte no confronto brutal entre o seu populismo e a ideologia fascista do Partido Republicano, que levou os últimos trinta anos a orientar-se continuamente para a direita, assumindo com o Tea Party, a ameaça mais forte a muitas das principais liberdades contidas na Constituição.
Na imprevisibilidade dos tempos que não tardarão a vir, a inquietação de Trump com a impopularidade junto do eleitorado poderá lança-lo em ataques determinados contra alguns dos principais objetivos da agenda republicana, criando as condições propícias para a recuperação de uma das câmaras do Capitólio pelos democratas nas eleições intercalares do final do próximo ano.
Perante tal probabilidade poderá ser esse o motivo para serem os próprios republicanos a dele se pretenderem livrar, até por contarem com um vice-presidente suficientemente fanático a nível dos costumes para com ele prosseguirem a tentativa de imposição do programa ultraconservador.
Essa possibilidade será uma das muitas razões para dar razão a Zizek, quando considerou bastante provável que a investidura de Trump venha a constituir uma daquelas situações em que os males vêm por bem. É que, no entretanto, o presidente incumbido de formar a Administração no mandato entre 2021 e 2025 já contará com uma potência economicamente menos dotada dos meios de dominação, que os tratados comerciais com os países do Pacífico, da América Latina e da Europa garantiriam. E para nós europeus, terá já sido extinto o logro da parceria de defesa atlântica, justificativa da sobrevivência da Nato, essa excrescência da Guerra Fria, que há muito deveria ter sido extinta. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A lamentável solidão do cowboy de pontaria desafinada

Em 2011, quando a derrota do PS nas legislativas, determinou a necessidade de escolher um novo líder, o meu apoio foi para Francisco Assis. Sem entusiasmo, mas porque Seguro representava tudo o que mais detestava no partido onde entrara um quarto de século antes.
Na altura Assis até me era simpático pela forma desenvolta como, enquanto líder parlamentar, soubera contrariar os argumentos da direita contra a governação de José Sócrates.
Não dera então grande importância às argumentações contra os partidos à esquerda na Assembleia até por os considerar idiotas úteis dos intentos do lado contrário, que precisavam da sua persistente ação contestatária nas ruas e no hemiciclo para virem a por cobro ao que restava do espírito da Revolução de Abril na realidade portuguesa.
Os tempos mudaram, tornou-se possível uma concertação de objetivos entre os socialistas e as demais esquerdas, mas Assis ficou preso numa cápsula do tempo donde espreita para a realidade atual, e a não consegue ver senão de acordo com a perspetiva maniqueísta dele característica. Por isso aproveita as crónicas no «Público» para um permanente apelo à rutura do Partido com os que lhe garantem a possibilidade de concretização de boa parte do programa. Porque Assis não quer consciencializar quanto os partidos irmãos definharam com os compromissos com a direita, continuando a bater-se denodadamente pelo regresso à lógica do Bloco Central.
Na crónica de hoje ele conclui o texto com novo apelo a essa rutura acenando com a possibilidade de se conseguirem resultados eleitorais passíveis de libertarem o partido dos seus atuais compromissos com o Bloco e a CDU. Vale a pena lermos esse tipo de argumentário: “o país parece caminhar para um impasse. Na falta das duas maiorias, que seriam simultaneamente complementares e antagónicas, o Governo corre o sério risco de se instalar numa situação de paralisia.
Qual a saída para tão precária situação? Por muitos custos que possa ter, não vislumbro outra que não passe a curto ou médio prazo pela realização de eleições legislativas antecipadas. Curiosamente, se elas se realizassem no curto prazo provavelmente proporcionariam ao PS a possibilidade de obter a legitimidade que agora não tem para agir, de facto, como partido charneira nesta fase da nossa vida democrática.”
Perante isto, e excluindo a possibilidade de se ter tornado lerdo, existe aqui uma estratégia pérfida por parte de Assis, porque imaginemos que seria assim como ele diz, ou seja que a direita não aproveitaria para lançar uma campanha em torno do tópico »nós não dizíamos, que eles não se iam entender?» e que, de súbito, os sindicatos da CGTP não acordavam da aparente letargia para mobilizar quem não estaria disposto a ver novamente os seus direitos revogados e as reformas cortadas?
Com as esquerdas decididas a não embarcarem em novos compromissos com o PS, teria este melhores cúmplices em Passos Coelho ou Assunção Cristas? Alguém no seu estado normal consideraria que, por esse passe de mágica, todos os supostos impasses se resolveriam e nós contaríamos com virtuosas reformas estruturais e flexibilizações - que sabemos sempre a quem doem! - capazes de cativarem investimentos avultados de “honestos” capitalistas para gerarem emprego e crescimento económico a uma dimensão nunca vista?
A evolução ideológica de quem apoiei em 2011 suscitaria comiseração se a não soubéssemos parte de uma estratégia, que explica bem a razão porque tem direito a uma página inteira do jornal da Sonae e a chamada para a primeira página.
Assis desconhece a evolução que tem conhecido o Partido nos últimos anos: sobram nele muitos anticomunistas primários e até gente capaz de se persignar quando se fala em marxismo, mas também sobram muitos que acreditam nas vantagens para o povo português deste entendimento das esquerdas. E que defenderão a continuidade de tal compromisso, mesmo que, nas eleições de 2019, o PS chegue à maioria absoluta.
Porque sobra uma outra certeza: as direitas lusas não acertaram o passo com a História e continuam presas a preconceitos ideológicos cujos efeitos e resultados já se conhecem bem demais.

E depois do Brexit, que se seguirá?

Não é que o facto de ter família próxima na Holanda me dê muito mais sossego do que se a tivesse em Inglaterra como acontecia até há cinco anos atrás. Mas acaso a situação atual se tivesse então verificado seria lesto a aconselhar mudança de ares a quem, ainda ali, espera manter o nível de vida e prestações sociais ainda remanescentes do tempo em que os Trabalhistas eram socialistas (aonde já vão os tempos de Harold Wilson ou James Callahan), definitivamente postas em causa com os projetos de Theresa May.
O discurso de anteontem foi eloquente: se não conseguir um bom acordo com a União Europeia (tipo sol na eira e chuva no nabal) a ameaça é a de converter a Grã-Bretanha num paraíso fiscal onde serão os seus trabalhadores os mais prejudicados. Porque a redução dos custos de trabalho implicará salários mais baixos e impostos à medida dos foragidos fiscais, o que redundará numa redução de receitas tornadas insuficientes para manter o que ainda resta do Estado Social.
Theresa May também verbaliza a ambição de fortalecer o relacionamento com a Escócia, o País de Gales ou a Irlanda do Norte, mas dificilmente evitará que a primeira aposte na independência e as outras ponderem seriamente tal possibilidade.
Trump poderia ser a tábua de salvação, e afirma-se disposto a tal, mas a sua volubilidade e, sobretudo, fraqueza, dificilmente o tornarão em algo mais do que um protetor rico em palavras, mas parco em ações concretas.
Muito embora o meu europeísmo tenha seriamente enfraquecido nos anos mais recentes e até se aproxime de um euroceticismo mais dubitativo do que convicto, o Brexit poderá ser muito positivo para o que virá a seguir. Porque provando o veneno tão intensamente destilado pela sua extrema-direita os ingleses podem confrontar-se com uma súbita consciência do sarilho em que se quiseram meter.  Sem que possam limitar os danos principais, quando se dispuserem a infletir de rumo: quando sentirem a libra desvalorizada sucessivamente de modo a que virem para o Algarve se torne luxo de poucos, minguarem os empregos, muitas das principais animadoras da City se tiverem mudado para Frankfurt e o Reino Unido estiver irreversivelmente desunido, poderão cobrar tais benesses às suas forças mais à direita. O verborreico Farage calar-se-á decerto, cobarde como já se revelou em alturas pouco propícias para exibir a sua detestável autossuficiência.
Caberá então a Corbyn, e a quem lhe suceder, o encaminhamento do país para direções de que muito se afastou, primeiro com Thatcher, e depois com Blair.
Será mais um exemplo histórico de que as fénixes só renascem depois de quase se terem convertido em cinzas... 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Utopias, distopias e outras questões mais concretas

1. 18 de janeiro de 1934 foi a data da revolta da Marinha Grande, que fez tremer o regime salazarista, quando ele ainda mal se consolidara com a implementação da Constituição de 1933.
Infelizmente a efeméride vai sendo cada vez mais esquecida, mas continua a representar a demonstração do princípio de, nas circunstâncias mais difíceis, haver sempre quem seja capaz de dizer Não! Mesmo sob pena de grandes sacrifícios em perspetiva para quem assumisse tal audácia.
Valerá, por isso, mesmo evoca-la como exemplo a não esquecer, quanto mais não seja pelo respeito por quem pretendeu e lutou por um país bem diferente do ocorrido durante os 48 anos de ditadura.
2. Um dos mais eloquentes textos das redes sociais das últimas horas é da lavra de Ricardo Paes Mamede, que olhou ironicamente para o facto de ter havido venda de dívida pública a juros negativos sem que os suspeitos do costume «dessem» por isso:
“Para sabermos se as taxas de juro da dívida pública portuguesa estão a subir ou descer não precisamos de seguir as informações financeiras - basta consultar as redes sociais. Se os juros estiverem a subir, não faltarão alarmes sobre os impactos devastadores que o governo apoiado pelas esquerdas está a ter no país. Se estiverem a descer, os mesmos observadores atentos e preocupados tiram férias das redes sociais. Mas, afinal, por que variam as taxas de juro sobre a dívida portuguesa?”
3. Um dos críticos mais frequentes deste blogue é o Jaime Santos que, a propósito do texto sobre valer ou não a pena o medo pelo futuro, escreveu o seguinte:
“Mas com base nessa crença os ditos bolcheviques transformaram o Socialismo em Despotismo em nome do Comunismo e sujaram as mãos de (muito) sangue no processo. O meu caro não quer perceber que as Utopias são todas distópicas, porque colocam o amanhã à frente da preservação das vidas dos seres humanos do presente.”
Estas palavras lembram-me o poema do Brecht em que os poderosos diziam aos humilhados e ofendidos, que não valeria tentarem o impossível, porque “as coisas continuarão a ser como são”.
A desvalorização, que o Jaime Santos faz da Utopia como argumento mobilizador da transformação é a melhor desculpa para nada fazer.
É verdade que acena sempre com os benefícios colhidos pelas sociedades, quando ensaiaram as receitas ditas “social-democratas”, mas nunca conseguiu responder à questão de saber como repetir modelos, que só fizeram sentido, quando existia o medo dos «paraísos soviéticos» a motivar os patrões a serem menos exploradores do que passaram a ser depois da queda do muro de Berlim. Ou como poderão ser concretizáveis tais modelos num tipo de economia global e digital, onde a financeirização se substituiu à da produção de bens transacionáveis.
As condições materiais, que tornaram possíveis os Trinta Gloriosos Anos, onde já vão elas!
A tendência para a diabolização das receitas falhadas da aplicação do socialismo em diversas latitudes, durante o século XX, prende-nos ao raciocínio da tendência conformista muito própria da arte de ser português a respeito do «sempre foi assim».
Apetece, pois dizer-lhes que pode de facto ter sido sempre assim até agora, mas nada impede que possa vir a ser diferente. Daí que as Utopias façam sentido, porque não nos contentamos com menos do que com os impossíveis. E eles, surpreendentemente, acabam por acontecer, muitas vezes em nosso desfavor, mas aqui e além dando-nos as alegrias das revoluções capazes de propiciarem novos rumos à História dos povos.
4. Emmanuel Macron: não simpatizo nada com o seu tipo de bétinho convencido, que Valls contratou para o governo dito socialista, mas com a função de nele aplicar todo o cardápio da lógica neoliberal. E, no entanto, aposto - a menos de quatro meses de distância! - que será ele o próximo presidente francês, porque as campanhas dos principais rivais vão definhando e esta é a única em notório crescimento junto do eleitorado.
Infelizmente os debates das primárias do Partido Socialista só serviram de tiro de partida para a definição da sua futura liderança, que pertencerá a um dos representantes da sua ala mais à esquerda (Montebourg ou Hamon), que não conseguiram recriar a dinâmica potencialmente vencedora, personificada por Bernie Sanders no outro lado do Atlântico.
Não duvido que Macron depressa constituirá um erro de casting por se mostrar disposto a respeitar o austeritarismo já esgotado nas experiências levadas a cabo noutros países do sul da Europa. Mas talvez as esquerdas gaulesas necessitem de um intervalo para resolverem os ódiozinhos de estimação, que as impede de unirem-se em torno de um programa comum, e surgirem mais eficazes e inteligentes daqui a cinco anos.
Macron será, a esse respeito, o mal menor...

Valerá a pena ter medo do futuro?

Será fatal o predomínio dos fatalistas, quando se trata de falar do futuro próximo, aquele em que os avanços tecnológicos causarão a eliminação de muitas das profissões ainda hoje existentes e a redução dos empregos?
Estaremos condenados a um devir feito de uma casta ínfima de privilegiados e uma imensa multidão de escravos?  Virão aí guerras ainda mais horrendas do que as duas crismadas de mundiais? Serão inevitavelmente mais pobres, quer os nossos filhos, quer os nossos netos?
Todas estas hipóteses foram enunciadas como possíveis no debate promovido esta terça-feira numa das habituais sessões da «Res Publica», dinamizadas por Reinaldo Ribeiro para dar substância a um dos objetivos fundamentais da Associação Gandaia da Costa da Caparica: a ação cívica de promover a discussão de temáticas de interesse para o exercício da cidadania.
Sinceramente não tenho grande apreço por previsões distópicas, condicionadas pelo medo perante o novo. Em vez de contribuírem para encarreirar as transformações pelo caminho almejado por quem delas tem uma perspetiva republicana, podem limitar-se a autocomiserações estultas, sem intervenção ativa no impedimento  á concretização dos seus piores receios.
Porque fica a questão: se o capitalismo não transformar os explorados de ontem nos consumidores de amanhã, como poderá sobreviver?
Utilizando a metáfora da bicicleta, o sistema baseado na exploração do trabalho pelo capital parece acelerar no rumo que toma desde a Revolução Industrial, tendo alcançado o limite do seu potencial com a globalização. A curto prazo tende a derrapar no seu aparente desconcerto, sobretudo com o sério risco de se ver parado, impedido de andar. A bicicleta ameaça atirar o ciclista ao chão.
 Impedido de maior expansão geográfica - as viagens interplanetárias ainda não saíram dos limites da ficção científica!, - a estagnação no seu crescimento tem posto os nervos em franja aos responsáveis pelo Banco Central Europeu, pela Reserva Federal dos Estados Unidos e outras autoridades financeiras, que vêm procurando soluções para relançar as economias e vencer a estagflação.
A má notícia que assombra o capitalismo é a inexistência de respostas eficientes para impedir essa travagem e inevitável queda.
É por isso que a alternativa parece ser a da distribuição de um rendimento universal, que decorra de uma política fiscal keynesiana, assente na forte penalização dos lucros das empresas como forma de manter a economia a funcionar graças à imparável máquina do consumo interno. Se quiserem evitar guerras, revoluções e outros sobressaltos sociais não resta aos plutocratas outra solução, que não seja essa redistribuição da riqueza com maior equidade, corrigindo-se o escândalo denunciado nos últimos dias sobre oito multimilionários possuírem tanta riqueza quanto metade da população mundial.
Curioso é constatar como estamos a chegar a uma das principais condições previstas por Karl Marx para a exequibilidade de uma sociedade de distribuição equitativa da riqueza produzida. E que, ao contrário do verificado até aqui, em que a experiência comunista foi erradamente implementada onde não existiam as condições materiais necessárias e suficientes para se exequibilizar, a nova revolução tecnológica assente na economia digital e na automação vai coincidir com a previsão do autor do «Capital»: a passagem inevitável do capitalismo, chegado ao limiar do seu máximo potencial, para uma sociedade de tipo novo, mais justa e igualitária, mudança qualitativa e súbita, após sucessivos efeitos quantitativos.
Revelando-nos intimidados com a rapidez dessa evolução, tendemos a não interpretar os sinais em como algo de diferente está a anunciar-se para este século. E em vez de uma distopia, podemos estar à beira de uma Utopia tão exaltante quanto a imaginaram os bolcheviques de um século atrás, quando pensaram estar à beira dos amanhãs cantantes.