domingo, 23 de julho de 2017

As perigosas aproximações entre os extremos ideológicos

Uma das evidências mais óbvias do que tem ocorrido em torno da candidatura de um simpatizante fascista à Câmara de Loures é a tentação da direita laranja em testar a recetividade dos eleitores nacionais a um tipo de discurso politicamente incorreto, mas com apoiantes garantidos nalguns estratos sociais. Tal como nas eleições de 2015 recorreu a um marketeiro brasileiro para utilizar estratégias indignas, mas com resultados quase vitoriosos, o PSD anda a ensaiar novas táticas passíveis de infletirem a tendência sugerida por todas as sondagens.
Que esse discurso consegue garantir simpatias constato-o com pena nalguns dos meus amigos do facebook, que o subscrevem com entusiasmo apesar de se considerarem de esquerda. Como se viu em França, com a passagem de muitos eleitores do Partido Comunista para a Frente Nacional, consegue ser muito ténue a linha de separação entre os valores radicais das esquerdas e das direitas. Não gostaria de o reconhecer, mas os factos vão-me confrontando com a conclusão da proximidade perigosa entre os extremos ideológicos.
Os estudos entretanto invocados por quem rejeita liminarmente as atoardas do referido candidato demonstram nele imperar a lógica das fake news. Não é verdade que a maioria dos ciganos viva à conta do RSI, nem usufruem de direitos negados a outros requerentes, que não os pertencentes à sua etnia. Há, igualmente, a comprovação da relação causa-efeito entre a atribuição desses apoios e a progressiva integração dessa comunidade nos valores e comportamentos da sociedade em que se vão diluindo.
O que espanta nos amigos subitamente afeiçoados a esse tipo de fascismo larvar é a sua distração do que mais os deveria indignar: os esbulhos que os antigos Donos Disto Tudo fizeram, com rombos significativos nas nossas carteiras, sem que a justiça pareça interessada em responsabilizá-los por tais atos. Não é preciso ler Sun Tzu para considerar que nunca deveríamos desfocalizar-nos dos inimigos principais, quando nos tentam atirar para combates secundários. É que perdendo-nos nessas tricas irrelevantes ficamos bem mais frágeis para nos empenharmos a sério nas lutas principais.
O que a direita laranja ensaia com este candidato é lançar areia para os olhos, suscitando injustificada repulsa por quem até é mais humilhado e ofendido do que os demais explorados pelo sistema económico que continuamos a suportar.
Ser inteligente nesta altura equivale a não perdermos o rumo aos nossos objetivos principais - construir uma sociedade mais justa, capaz de aumentar a riqueza nacional e distribui-la mais equitativamente! - para nos deixarmos iludir por raivosos lobos escondidos por baixo de peles de carneiro. 

sábado, 22 de julho de 2017

Entre eurofilias e eurofobias

Há tanta coisa má na União Europeia que, amiúde, justifica-se questionarmo-nos se ela terá algum conserto. Começando por ser eurocético antes de Mário Soares nos ter a ela vinculado, acabei por me render quando constatei a rapidez com que, graças aos apoios generosamente prodigalizados durante o cavaquismo (um logro só mascarado pelos rios de dinheiro então atribuídos para encherem os bolsos das suas clientelas), havia uma aparência de aproximação aos níveis de vida europeus.
Nos anos mais recentes, sobretudo quando se destacaram Schäuble e os seus cortesãos como sádicos apostados em infernizarem a vida dos portugueses, retomei o pendor eurodescrente. Não chegando ainda ao nível dos comunistas, mas já sem os frívolos entusiasmos de Rui Tavares ou Francisco Assis.
Iludi-me uns tempos com a possibilidade de ver os socialistas reconquistarem a perdida importância política dos anos finais do século passado. Mas a experiência portuguesa não dá sinais de ver-se replicada no espaço europeu. Predominam os que se revelaram imperdoáveis traidores, apossados das lideranças para melhor destruir as esperanças mais igualitárias. Se Corbyn surgiu como outra demonstração da melhor estratégia a adotar para pôr cobro ao esgotado receituário neoliberal, abundam os Vernizelos, Renzis, ou Djesselbloems, que grupusculizaram os seus partidos na Grécia, na França ou na Holanda.
Sanchez, aqui ao lado, abre novas expetativas, mas conseguirão a Península Ibérica e o dissociado Reino Unido impor a correção de um rumo há muito perdido?
Por agora vamos assistindo à deriva fascizante da Polónia, sem que Bruxelas reaja com o vigor expetável para quem se diz tão respeitador dos princípios fundamentais de uma democracia. Alemães vão sendo aprisionados na Turquia pelos mais fúteis motivos e não se constata mais do que o encolher de ombros de quem se julga de mãos atadas para tomar medidas concretas de acosso da ditadura de Erdogan. E que dizer do que se passa na Hungria, onde Orban silencia as vozes dissonantes, procurem elas manifestar-se nos jornais, nas artes ou, até mesmo, no espaço público?
Seria necessário que a União se tornasse politicamente mais progressista para deixar de se cingir à lógica mais ultra economicista, ademais segundo os preceitos de gurus desacreditados: os que já viram falhados os efeitos dos seus axiomas fundamentais - a superioridade da liberdade dos mercados na criação da riqueza, a excelência dos gestores privados sobre os do setor público, a redução deste último à sua mínima expressão, etc. - mas continuam a perorar dos seus púlpitos como se continuassem prenhes de razão.
Por tudo isto mantenho-me moderadamente eurocético. Sem ainda apostar nas vantagens de implodir os edifícios de Bruxelas, Frankfurt ou Estrasburgo onde se acoitam os burocratas (ou burrocratas?) para recriar a ideia a partir de um novo princípio, mas não descartando a possibilidade de tal se vir a revelar inevitável… 

A tentação nacionalista no Japão

Há muito que tenho a noção de, a existirem alienígenas entre nós, serem os japoneses os candidatos mais prováveis para como tal virem a ser reconhecidos. Nos contactos com os povos daquela região, quase todos me pareceram bem humanos nos defeitos e virtudes, por muito que se afastassem do nosso modelo caucasiano. Os japoneses, pelo contrário, sempre os senti à parte, não por ter sido por eles destratado - pelo contrário, vi-me prodigalizado com inesperadas mostras de gentileza! - mas por nunca ter sentido a empatia de elos comuns, que estabelecessem uma verdadeira ponte no nosso diálogo.
A comunicação mais complicada aconteceu-me na Ilha de Okonawa onde, apesar - ou se calhar por causa! - da base norte-americana, as autoridades não sabiam (ou fingiam não saber) uma simples palavra em inglês. Isso significou uma reunião divertida com os seus representantes a analisarem os certificados e outros documentos do navio em que estava, questionando-nos ou comentando o que iam achando em japonês, e o nosso lado a procurar responder-lhes em inglês.
À distância arrependo-me de não ter adotado o português para tal «diálogo de surdos». É que terei testemunhado, sem de tal suspeitar, o exemplo prático da afirmação nacionalista nipónica, apesar da sua condição de protetorado norte-americano numa área geográfica, onde os inimigos espreitam por todo o lado.
Com os russos disputam as ilhas Curilhas, Os chineses têm-nos como um dos maiores obstáculos para o controlo mais facilitados dos mares do Pacífico Ocidental e não esquecem o massacre de Nanquim. Os coreanos detestam-nos por causa do meio século em que se viram por eles ocupados, colonizados.
Até Trump chegar à Casa Branca os governos japoneses confiavam no guarda-costas imperialista, por muito que evoluísse a ameaça nuclear de Pyongyang. Mas como acreditar num «aliado» tão instável como o caprichoso presidente norte-americano?
A tentação é grande para que a Constituição seja revista no sentido de lhe extirpar o primado pacifista imposto pelos ocupantes logo após a derrota militar na Segunda Guerra e possibilitar o forte investimento na criação de forças armadas dissuasoras de eventuais tentações alheias. Foi essa a razão porque Shinzo Abe, atual primeiro-ministro, foi eleito com os dois terços dos votos necessários para mudar a Lei Fundamental do país sem recorrer a qualquer aliança com outras forças políticas. Mas há quem veja esse passo em frente como o retorno ao militarismo das primeiras décadas do século passado, que tão graves consequências teve para o conjunto da nação nipónica.
Face à intenção do poder em dissociar-se de Washington e criar as condições para responder por si mesmo aos previsíveis perigos, há a oposição a reclamar quanto isso pode vir a significar o retorno ao abismo sentido em 1945, quando a humilhação da derrota poupou o arquipélago a uma devastação ainda maior destrutiva. Nos próximos meses valerá a pena ir acompanhando como evoluirá essa tentação nacionalista num Japão com razões para se sentir acossado. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A malignidade de uma certa forma de ser português

Em poucos dias um certo portugalzinho venal - tão presente no discurso das oposições de direita ao atual governo - veio ainda mais ao de cima com o episódio de racismo na esquadra de Alfragide, a homofobia manifestada pelo médico Gentil Martins ou as declarações trumpistas de um candidato à Câmara de Loures.
Se somos capazes do melhor, quando nos excedemos nas virtudes, conseguimos ser abjetos, quando estão em causa os defeitos. E, de facto, queremo-nos politicamente corretos, quando nos comovemos com os afogados do Mediterrâneo, ou iludimo-nos com o nosso cosmopolitismo ao fingirmos nada transparecer perante dois homens a beijarem-se na boca ou duas mulheres de mão dada, ali a nosso lado no metropolitano. Mas, mesmo quando queremos prevalecer os nossos valores ideológicos aos preconceitos de uma educação donde os laivos salazarentos ainda tardam em extirpar-se - basta a presença nefasta das religiões para que essa «herança» persista! - há algo nessas notícias, que travam a indignação, quase nos levando a aceitá-las como «naturais». E é esse o caldo de cultura em que se tornam possíveis os Berlusconis, os Trumps, os Orbans ou os Erdogans deste nosso insatisfatório presente.
É pelos perigos implícitos nas suas palavras e atos, que deveremos manifestar o mais veemente desacordo com essa gente sórdida. Porque, se os aceitamos como parte da paisagem em que nos situamos, depressa a veremos toldada pelos mais cinzentos tons. Aqueles que são acompanhados da sensação de, depois de presos e silenciados uns e outros, também chegar a vez de nos virem buscar. Pelo que pensamos, pelo tipo de sociedade que ambicionamos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

De vendedor do que não era seu a cantor pimba

Nos últimos dias uma das notícias, que passou quase despercebida, mas ilustra bem o tipo de trabalho autárquico dos eleitos do PSD, é o embargo da construção de um hotel na praia de Monte Gordo, por ocorrer em área não pertencente à Câmara Municipal, que não a poderia pois ter vendido.
Sobretudo preocupado com a satisfação dos impulsos narcísicos, Luís Gomes conseguiu transformar Vila Real de Santo António num enorme parque de estacionamento pago a céu aberto e pretende acabar o seu último mandato com a transformação de todo o litoral do seu município com hotéis a taparem quase todos os acessos ao mar. Não admira que os conterrâneos já suspirem de alívio graças à certeza de o verem pelas costas.
O pior é ele prometer-lhes, que se vai dedicar à música, pelo que haverá ali intenção de chegar a cantor pimba ao estilo tony silva. Preparem-se, pois, os tampões para os ouvidos!
Embora já em 2010 o governo de José Sócrates o tivesse avisado da ilegitimidade de se apossar de uma faixa de território, que pertence ao domínio público nacional e não pode ser ocupado com equipamentos permanentes, o autarca sentiu-se suficientemente protegido pelo executivo de Passos Coelho para levar a sua intenção avante e se pusesse a vender aquilo que não era seu. Com que objetivos pessoais, deveria caber ao Ministério Público investigar. Porque está em causa um comportamento muito mais grave do que uma mera deslocação ao futebol. 

domingo, 16 de julho de 2017

Face à maioria parlamentar, o resto vai sendo paisagem

1. Uma exigente obra de ligação da rede de gás portuguesa à espanhola arrisca-se a causar danos importantes na paisagem do Douro vinhateiro. A responsabilidade pela infraestrutura cabe à REN, mas a empresa indevidamente privatizada, não cuidou de informar atempadamente a Unesco nem as instituições nacionais incumbidas de apreciar o seu impacto.
Uma vez mais coloca-se a contradição entre a racionalidade económica e os efeitos perversos numa paisagem protegida e crismada de Património da Humanidade. Para os responsáveis da REN as potenciais consequências parecem ser coisa de somenos importância.
2. A sondagem da Aximage confirma as tendências anteriores, mormente as ilustradas pela da Eurosondagem na semana anterior. Apesar da colaboração da maioria dos órgãos de comunicação social e do chinfrim verborreico dos seus principais dirigentes, as direitas vão-se afundando no favor dos portugueses, que lhes dariam a conhecer o sabor de uma derrota histórica se as eleições legislativas fossem hoje.
Ciente dessa realidade, António Costa dá sinais de pretender impulsionar a segunda metade do seu mandato com políticas fundamentais para as classes médias, nomeadamente no que ao direito  à habitação diz respeito. É esse o sentido mais evidente da minirremodelação governamental  desta semana.
3. Embora tenha sido um ministro nulo na sua importância durante o governo anterior, Poiares Maduro parece ter vindo para ficar, mesmo que o seu «contributo» para a situação  política atual pareçam ser os textos plagiados pelo seu líder para parecer que diz algo com alguma substância. Mas os jornais dão, igualmente, conta da censura a António Costa a respeito das críticas à Altice numa altura em que está em causa a aprovação, ou não, da compra da TVI.
As direitas, que nunca tiveram imprensa hostil, porque toda ela é propriedade de empresários, que lhe estão obviamente vinculados, fica nervosa quando pressente a possibilidade de perder essa vantagem. Na época de Sócrates fez uma guerra enorme quanto à possibilidade de ver a PT comprar essa mesma TVI, agora quer repeti-la por ver os socialistas a colocar reservas a essa mesma compra.
Elas não conseguem compreender que, mesmo com tanto apoio em jornais e televisões, o  seu isolamento vai crescendo exponencialmente. É que os eleitores vão-se apercebendo que os publicitários das direitas pecam por tal exagero, que perderam qualquer pingo de credibilidade.
4. Os fascistas do PNR decidiram fazer uma  manifestação de desagravo junto à esquadra da PSP de Alfragide. Como de costume eram pouquíssimos, mas todos eles sinistros na aparência e no que lhes vai nas turvas mentes.
Para a instituição policial, se se colocam consistentes suspeitas na possível infiltração por alguns elementos da organização extremista, a manifestação só vai no sentido de lhe dar maior credibilidade. É que a corja pareceu reagir em defesa dos «seus», com a determinação das virgens ofendidas.

sábado, 15 de julho de 2017

Abutres, remodelações, sururus e negas a Deus

1. O maior problema dos negócios da Altice em Portugal até nem é a compra da TVI: esta estação televisiva tem uma linha editorial tão anti-governo que dificilmente conseguirá piorar na forma como deturpa e manipula a informação.
O que está em causa, e mais preocupa o governo, é a prática dos abutres financeiros, que acorrem aos mercados fragilizados por políticas fanaticamente privatizadoras de tudo quanto cheire a setor público, e pegam em empresas, outrora sólidas e dotadas de uma cultura própria, destruindo-as através da criação de sucursais satélite, mais tarde ou mais cedo vendidas com obscenas mais valias, tratando de, em tal percurso, lançar no desemprego a maioria dos colaboradores originais.
Patrick Drahi, o patrão da empresa, não inventou a pólvora, limitando-se a replicar a estratégia de muitos «heróis» do capitalismo selvagem, que aproveitaram as condições propiciadas pela Administração Reagan e pelo governo Thatcher para potenciarem as propostas de Milton Friedman a partir dos anos 80.
O que a Altice está a intentar em território luso não seria possível sem toda a revisão das leis laborais concretizada pelo governo de Passos Coelho nos quatro anos em que, para nossa desdita, o tivemos de suportar. Daí que, para além de travar as manobras da empresa na medida  do possível, importa reverter muitos dos direitos perdidos nesse período, reequilibrando a relação legal entre o capital e o trabalho.
2. A ser verdade o que se ficou a saber das razões para a substituição de Margarida Marques à frente da secretaria de Estado dos Assuntos Europeus - a autossuficiência em relação ao aparelho administrativo, só dialogando com os assessores e colaboradores mais diretos, e a indução de uma desnecessária confusão no primeiro-ministro relativamente aos requisitos para a localização da Agência Europeia do Medicamento - a sua substituição justifica-se.
Quase por certo os seus conhecimentos sólidos das matérias, que tutelou, poderão ser utilizados  com melhor proveito na atividade parlamentar doravante assumida enquanto deputada.
3. Enquanto jornais e televisões desenvolvem intriga sem justificação a respeito do relacionamento entre a exonerada Margarida Marques e Augusto Santos Silva ou António Costa, melhor fariam em olhar para o grupo parlamentar do PSD onde a entronização do bacoco Hugo Soares como líder parlamentar está a suscitar sururu nas filhas mais recuadas da bancada.
Passos Coelho vai mantendo um núcleo fiel cada vez mais exíguo, tendo dificuldades em silenciar quem já o condena ao tal caixote do lixo donde não se volta a sair.
4. Sinal inequívoco do declínio das religiões - embora não tão rápido quanto eu desejaria, convicto da sua natureza opiácea em relação ao despertar da inteligência popular! - a Teologia foi um dos cursos superiores que ficou sem alunos nos dados agora distribuídos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Vão faltando vocações para assegurar a continuidade de uma idiossincrasia, que os tempos modernos vão tornando progressivamente absurda...

Um bufo a apresentar-se como subdiretor do «Público»

Leitor quotidiano do «Público» desde o primeiro número, tornei-me seu assinante, quando me reformei dada a frequência com que visito familiares noutros países europeus. Essa condição permite-me, mesmo que à  distância, acompanhar os acontecimentos da nossa realidade  política, complementados pelos programas televisivos igualmente acessíveis na net.
Não sou, porém, um leitor satisfeito. Se nos tempos de direção de Vicente Jorge Silva ou no curto período da liderança de Nicolau Santos, ainda vá que não vá, assim todas as outras fases, sobretudo as conduzidas por José Manuel Fernandes e por David Dinis, levam-me a questionar-me amiúde sobre se devo continuar a financiar um tipo de jornalismo cuja deontologia é continuamente enviesada pela intenção de beneficiar os partidos mais à direita. Da última vez que decidi renovar a assinatura ainda ponderei seriamente nas vantagens poucas e nas muitas desvantagens de manter tal financiamento. Acabando, ainda por mais um ano, a priorizar as primeiras.
Nesta fase mais recente o diretor David Dinis não  se limitou a vir comandar os jornalistas da casa. No projeto trouxe consigo alguns cúmplices do teapartidizado «Observador» a quem atribuiu as responsabilidades de diretores adjuntos. Todos eles autores de prosas insossas ou tendenciosas, que passei a «ler» na diagonal, confirmando o quão desinteressantes sempre se revelam.
Mas se quem é de direita enuncia os argumentos com alguma honestidade intelectual podemos respeitar-lhe o esforço e entender onde pretende chegar por muito que com ele não concordemos. Pior se afigura, quando à falta de honestidade intelectual se soma um comportamento crapuloso. E esse foi o assumido por um desses subdiretores, um tal Diogo Queiroz de Andrade, que se comportou como um BUFO no que isso tinha de pior no tempo da ditadura fascista. Apesar de saber que os dois gestores da página de facebook «Os Truques da Imprensa Portuguesa» pretendiam conservar o anonimato, decidiu identifica-los numa das edições do jornal,  violando o direito de ambos manterem a intenção de darem relevância aos conteúdos e nenhuma a quem os escreve ou seleciona.
De facto, que importa a identidade dos dois provedores se nos importa exclusivamente a desmistificação das «fake news» disseminadas com ínvios propósitos nos jornais e nas televisões? Que interesse tem em se chamarem Pedro ou João, e não Joaquim ou José?.
O tal Diogo não se ficou por aí, decidindo-se a denunciar aquilo que designou por «factos» que mais não foram do que deturpações das biografias dos dois visados.
Que pretendia ele? Seguramente a intimidação suficiente para que esse esforço de denúncia da má qualidade da nossa imprensa não prosseguisse. Enganou-se porém: se julgava calar duas vozes incómodas, acabou por apanhar como ricochete a indignação de milhares de leitores das redes sociais, que cuidaram de denunciar a canalhice. E hoje, mais do  que nunca, o tal Diogo pode estar certo de que, sendo lido por uma parcela provavelmente pouco significativa dos que compram a edição do «Público» em papel ou são assinantes da sua versão digital, multiplicam-se por muitas vezes mais os leitores decididos a acompanhar diariamente os posts da referida página do Facebook. Em comparação com esta última, os leitores desse Diogo não lhe evitam a sensação de se sentir a tagarelar na Travessa do Fala Só.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma minoria par(a)lamentar

Por muito que as circunstâncias me vão deixando apartado da vida política mais do que gostaria - a distância priva-me de minudências, que incrementariam a fina aferição de muitos sinais, que vão chegando sobretudo pela net e pelos jornais! - há linhas de força a definirem-se e a consolidarem-se num futuro mais ou menos próximo. Mesmo havendo gente a viver numa espécie de realidade virtual feita de cenários e personagens nada consonantes com a realidade.
Ontem, por exemplo, sabia estar a decorrer o debate sobre o Estado da Nação e, no intervalo dos afazeres, cliquei na Antena 1 para ouvir o que se estava a passar em direto. Dou então com Raul Vaz, que sei desde sempre eivado dos preconceitos da direita mais conservadora, a elogiar a intervenção de Passos Coelho e a dar de António Costa uma ideia de desgaste. Mais à noite, quando tive tempo para ver em diferido o essencial do debate, perguntei-me o que estaria a sentir o opinador em causa sabendo-se que boa parte do discurso do seu adorado líder, era plagiado de um post de Miguel Poiares Maduro? Terá sentido a noção do ridículo por tecer loas a quem, nem para dizer as esgotadas fórmulas do mofo argumentário da sua área política, consegue criar um discurso verdadeiramente seu?
O debate foi o que esperava: desmentindo qualquer veleidade de se viver uma crise política, António Costa manifestou a convicção e determinação do costume para responder aos interlocutores dos vários partidos, conciliador com os da esquerda, denotando a vontade de continuar a com eles contar para a transformação do país, esmagador com os da direita: fosse o grosseiro Montenegro, fosse a farsante Cristas, levaram pela medida grossa saídos do Plenário a lamberem as feridas. Muito embora ainda houvesse quem os conseguisse superar no grau zero da decência: Telmo Correia confirmou ser um biltre capaz de suscitar vómitos a quem até conta com  estômagos rijos.
Falta de sentido de Estado e de respeito a quem deveria merecer o mínimo de cortesia, se sobrasse algum pingo de inspiração democrática naquelas cabeças, é a conclusão que se retira ao assistir ao triste espetáculo dado pelas direitas na ocasião.
Compreende-se que as sondagens apontem para uma evolução significativa da decadência das direitas e a uma consolidação dos votos nos partidos da maioria parlamentar. É que uns procuram vigarizar a realidade a ver se ela melhor se ajusta aos seus interesses, enquanto no lado contrário habita uma maioria séria e competente, capaz de devolver o país ao que ele tem de melhor nas qualidades e competências.
Se Almada Negreiros aqui aterrasse numa viagem pelo futuro compreenderia facilmente que o veredicto de terem os compatriotas todos os defeitos imagináveis, só  lhes faltando as qualidades, aplicar-se-ia que nem uma luva aos da área política a que sempre esteve ligado. As tais qualidades que lhes faltariam estão cada vez mais evidentes em muitos dos que, no governo, no parlamento, nas autarquias e no dia-a-dia das escolas, empresas, hospitais e outros espaços de afirmação das instituições do Estado dão a cara por novas políticas passíveis de encaminharem o país para o futuro que, quase todos, almejam.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Seria risível se não fosse lesivo dos interesses coletivos

Até mesmo os maiores opositores do atual governo nos media têm dificuldade em encontrar alguma sensatez na resolução do Ministério Público, que obriga António Costa a uma mini remodelação ministerial. Como é  possível que um caso risível se transforme numa momentânea crise política, embora se salde com a saída de cena de três secretários de Estado de demonstrada competência nos dossiers que geriam? Como podem os procuradores do ministério público recuperar alguma da sua já lastimável reputação, quando continuam dar mostras de uma evidente parcialidade em todas as acusações, que transformam socialistas em arguidos?
Daniel Oliveira põe a questão nestes termos: ou há  justiça ou pagam todos, inclusivamente os próprios magistrados, que tiveram o seu mais recente Congresso patrocinado por bancos privados. O cronista do «Expresso» conclui o texto de ontem com esta pergunta, cuja pertinência salta à vista: “se é para sermos puristas comem todos: os líderes parlamentares (atual e próximo) do PSD que aceitaram bilhetes e foram a correr pagar quando a coisa se soube, os órgãos de comunicação social que têm como hábito aceitar viagens pagas e os magistrados Ministério Público que aceita patrocínios de empresas para os congressos do seu sindicato quando os seus associados estão envolvidos em processos contra essas empresas. Estão todos dispostos a seguir este novo caminho de moralização ou a ética é só para os “malandros dos políticos socialistas”? “
A mesma questão de dois pesos, duas medidas, também surge no texto do insuspeito Ricardo Costa: “Quando a Galp tiver que revelar em tribunal a lista completa de convites para jogos da seleção dos últimos 15 anos o que vai fazer o Ministério Público? Dedicar uma mega equipa a isto? Processar todos os envolvidos em “jogos e viagens” que não tiverem passado o prazo de prescrição? Ou achar que estamos perante uma prática useira e costumeira? Vai ser o julgamento do século e seguramente um dos mais ridículos.”


Não é todos os dias que me ponho aqui a elogiar Marcelo

Não é frequente dar a mão à palmatória, sobretudo, quando se trata de prestar justiça a gente com quem antipatizo pelas posições ideológicas, contrárias às que defendo. Mas, em vésperas de somar mais um aniversário à conta, que já se vai alongando significativamente, deu-me para usar de particular complacência e aqui assumir elogios quer a Marcelo Rebelo de Sousa, quer a Mário Vargas Llosa. Como se verá adiante, a recuperação deste último não me impede de pôr outro a pagar as favas...
No primeiro caso eu insinuara a possibilidade de um dos generais demissionários deste fim-de-semana estar sintonizado com o Presidente, que o nomeara em março de 2016 como seu elemento de confiança no Conselho Superior da Defesa. Alguns «jornalistas» já  relinchavam de prazer perante a possibilidade de verem sentados na mesma mesa o referido general e aquele de quem ele dissera pior que Maomé do toucinho na sua carta de solicitação de passagem à reserva. A leitura, que então fiz, foi a de Antunes Calçada se sentir com as costas suficientemente quentes para assumir uma posição que, mais do que estritamente militar, assumia uma intenção claramente política.
Hoje soube-se que Marcelo Rebelo de Sousa exonerou quem antes nomeara, deixando-o isolado no azedume de quem abandona a carreira militar sem glória  nem honra.
Quanto a Vargas Llosa sempre me posicionei do lado de Garcia Marquez no célebre litígio, que os transformou de amigos muito próximos em inimigos fidalgais. Ora, foi para explorar esse lado mais coscuvilheiro do caso, que um jornalista terá tentado pressionar o peruano a dar a sua versão dos acontecimentos de 1976, data da referida rutura.
Mostrando uma elevação, que não era por certo a do entrevistador, Llosa relatou como conhecera Garcia Marquez, de como lhe admirara «Ninguém Escreve ao Coronel» e, sobretudo, «Cem Anos de Solidão», alimentara com ele uma caudalosa correspondência epistolar e como  até o convidara, a ele e à esposa Mercedes, a serem padrinhos de um dos seus filhos.
Sim, mas a rutura?, pressionava o «jornalista». Llosa escusou-se a responder-lhe, alegando tratar-se de assuntos sem interesse público.
Este bom exemplo deveria alertar o invejoso Lobo Antunes que, instado a falar de José Saramago, tem dito coisas execráveis, ditadas pelo despeito de vê-lo consagrado com o Nobel, que aspirara conquistar para si. Porque tenho pelo autor do «Memorial do Convento» uma admiração irredutível, não só pelo inquestionável talento literário, mas pela personalidade reconhecidamente generosa, ganhei um ódiozinho de estimação por um escrevinhador, que começou por entusiasmar-me bastante com «Memória de Elefante»,  mas me foi gradualmente desagradando em consonância com o vil feitio, que foi revelando.
A atitude inteligente de Llosa é capaz de me convencer a retomar os seus romances, até por sempre neles ter encontrado razões de agrado. Ao ressentido luso já há muito mudei os muitos romances por ele assinados para as filas traseiras das estantes da minha biblioteca. Desculpo Llosa, não tenho nenhuma pachorra para Lobo Antunes...

terça-feira, 11 de julho de 2017

Conspirações e sabotagens

O «Expresso» de ontem trouxe um artigo de opinião muito interessante, assinado pelo major-general Carlos Blanco, que qualifica de «conspiração, traição e sabotagem» a atitude dos dois tenentes-generais em foco nas notícias durante o fim-de-semana por pedirem a passagem à reserva em assumido confronto com o Chefe do Estado Maior do Exército.
No texto reitera-se o que já se sabia: Antunes Calçada e Faria Menezes “nunca aceitaram ser preteridos na escolha para CEME”, no ano passado, razão para terem apoiado “discretamente os promotores de uma manifestação sediciosa de entrega de espadas nas suas exortação à revolta”.
A denúncia indignada de Carlos Blanco terá por certo menos impacto mediático do que as atitudes golpistas dos que denuncia. Quanto faltará para que a imprensa escrita e audiovisual seja efetivamente equilibrada e dê a devida importância ao que merece tê-la. Ora o comportamento pré-insurrecional dos dois generais em causa deveria ter sido desprezado, reduzido à dimensão efetiva do seu intuito ressabiado.
Na mesma edição do «Expresso», Nicolau Santos ecoa o espanto de tanta gente com a seletividade do Ministério Público relativamente aos arguidos, que decide constituir:
“Esperemos, então, que o Ministério Público revele o tal “recebimento indevido de vantagens” que o levou a abrir o processo contra estes membros do Governo (que deve ser o pagamento da viagem, o bilhete do jogo e a estadia). Parece, contudo, uma investigação um bocadinho irrisória para ocupar os doutos investigadores do Ministério Público. Deve ser por causa de dossiês importantes como este que depois não conseguem formular a acusação, essa sim verdadeiramente grave, contra o ex-primeiro-ministro, José Sócrates e que, pelos vistos, vai ser de novo adiada desta vez para Outubro, furando todos os prazos admissíveis e aceitáveis para o desfecho do caso.”
Se precisássemos de mais alguma demonstração  do carácter visivelmente antissocialista da instituição ainda comandada por Joana Marques Vidal mais este exemplo dispensaria qualquer outra: para os magistrados do Ministério Público é preferível derrubar três competentes secretários de Estado, que até comentadores de direita reconhecem importantes para os bons resultados conseguidos neste último ano e meio pelo país para os acusar de algo fútil, que morrerá de ridículo nas salas dos tribunais.