domingo, 26 de fevereiro de 2017

Os antídotos para as pós-verdades

É uma fatalidade histórica: os políticos mentem desde os alvores da Humanidade. Como poderia ser de outra forma, se a mentira corresponde a uma das características humanas mais vulgarizadas?
Tão só haja dominadores e dominados, os primeiros sempre tentarão legitimar-se através de mistificações, que tornem os segundos conformados com a sua condição. O que aconteceu com os que, contra os próprios interesses, se deixaram sugestionar pelos argumentos de quem os pretendia mobilizar para causas como o Brexit ou a eleição de Trump, foi revelarem-se particularmente permeáveis aos rumores e mentiras, mesmo quando elas contradisseram os factos confirmados pelos meios de comunicação tradicionais. Essas pessoas priorizaram as emoções contra os atos e os números que desmentiam as suas convicções. Daí que haja a crescente sensação de ver perigada a Democracia. Sobretudo, porque as redes sociais tendem a baralhar as noções do que é verdadeiro e do que é falso. Em contraponto com o seu potencial para democratizar a informação e torná-la pretexto para ser objeto de discussão participada. Ou até servir para lhe desconstruir os dogmas através do humor.
O que estamos a constatar é uma evidência já recolhida do marxismo:  tal como as novas tecnologias aplicadas aos meios de produção, implicaram transformações políticas e sociais importantes, também na forma de comunicar isso se torna mais e mais óbvio. Por muito que haja quem lamente os efeitos perniciosos das redes sociais elas vieram para ficar e, ou se aprende a utilizá-las de acordo com as nossas conveniências, ou deixamos que outros o façam por nós.
A insuficiência das esquerdas deu às direitas a momentânea primazia por recorrerem mais eficazmente a essas ferramentas. Quando nos nossos dias participamos em reuniões a nível local e ouvimos dos principais responsáveis as propostas de agitação e propaganda, que têm permanecido quase imutáveis nos últimos quarenta anos e se comprovaram esgotadas, estamos a permitir o sucesso dos que já se decidiram a superar esses métodos.
Ao contrário do passado, quando havia quem emitisse informação e quem a recebesse, transitámos para um novo padrão em que todos somos emissores. Se anteriormente cada pessoa podia aceder a dezenas, ou mesmo centenas de mensagens informativas, hoje elas multiplicaram-se por muitos milhares. Não se pode esquecer a rapidez com que a informação circula e o seu alargado universo.
Essa realidade engendra um contexto darwiniano: há uma competição intensa por quem é capaz de transmitir uma determinada informação em primeiro lugar porque, seja ela verdadeira ou falsa, gerará receitas. E quem a antecipar colherá maior fatia do bolo em comparação com quem a reproduzir ou a tratar em décimo ou centésimo lugar. É esta a lógica do capitalismo selvagem aplicada à informação, também ela transformada numa mercadoria transacionável. Estamos na era da pós-verdade, palavra muito justamente considerada a mais significativa do ano pelo respeitado The Oxford English Dictionary, que traduz a tendência para confiarmos em grande parte no que se revele conforme com a nossa opinião enquanto tendemos a ser cegos e surdos ao que a contradiga.
Esta propensão não é nova, pois assim se explica a sobrevivência de tanto preconceito na maioria das pessoas. Mas o que se tornou novidade foi a capacidade revelada pelos populistas para manipularem habilidosamente a emissão e divulgação da informação de forma a concentrá-la num número muito restrito de conceitos, que pretenderam transformar em axiomas coletivos. Ao mesmo tempo conseguem anular a importância do que deveria prevalecer: a revelação do ignóbil machismo de Trump suscitou efeito durante um par de dias e logo foi esquecido como se nunca tivesse existido. Em contraponto surgiu o esclarecedor caso do «Pizzagate»: um grupo organizado de militantes divulgou nas redes sociais, de forma sistemática, a informação em como existiam práticas de pedofilia na campanha de Hillary Clinton como o atestariam mensagens com pedidos de pizzas de queijo, que corresponderiam a crianças para usufruto de práticas sexuais. A perversidade da manipulação chegou à sofisticação de fotografarem a suposta pizzaria, que serviria de entreposto dessas práticas, significando os seus produtos (croissants, pão-de-alho, etc) outros tantos códigos sobre o tipo de variante pretendida nesse «produto». O objetivo foi claro: se não podiam esconder a mensagem sobre por onde Trump se gabava de abordar as mulheres, “denunciava-se” algo de ainda mais condenável no campo contrário por envolver crianças.
É para este grau de sofisticação, que as esquerdas têm de procurar o antidoto. Sobretudo, porque não podem ignorar como está fragmentado o universo dos leitores ou espectadores.
Estamos distantes do tempo em que a grande maioria da população via o mesmo noticiário das vinte horas ou lia os poucos matutinos ou vespertinos disponíveis. Embora a imprensa escrita e audiovisual possa estar controlada quase toda pelo mesmo setor de opinião - veja-se o que acontece entre nós, com a sintonia de tais meios convencionais contra o governo e as esquerdas - a pluralidade trazida pelas novas tecnologias obriga a atentar e a produzir informação para todos quantos a constituem.
Outra questão, que casos mediáticos por coincidência, quase sempre focalizados em políticos de esquerda, têm demonstrado até à exaustão, é a amplitude garantida pelos tribunais ao conceito da «liberdade de informação» ou a «liberdade de expressão de pensamento», que tem varrido as fronteiras da decência e possibilitado a difamação, o assassinato de carácter. E se nos media tradicionais atinge-se dimensão que fere a deontologia a que estariam obrigados, nas redes sociais, onde esse pressuposto ético não existe, as campanhas populistas tornam-se ignóbeis nos insultos, que comportam.
Possivelmente o caminho mais correto será a aposta na divulgação de documentos concretos, cuja existência possa ser comprovada, erradicando-se todas as possíveis falsificações. Porque se analisarmos as mistificações criadas pelos populistas, todas elas mais não são do que interpretações de informações voláteis, que nada têm de concreto. A criação de uma cultura assente na valorização desses documentos reais e disponíveis ao mais largo espectro da população, será o início de um combate eficaz às estratégias manipuladoras, que se revelaram venenosas nos últimos meses.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Como se vão apagando na Rússia os valores da Revolução de há cem anos

Oleg é um espertalhão. Já casado e pai de filhos, decidiu reciclar-se em sacerdote da Igreja Ortodoxa de que até então se dizia devoto. Alcançou, assim, o melhor de três mundos possíveis: manter os privilégios da conjugalidade, arranjar emprego certo e usufruir de invejável estatuto social junto dos crentes. Ademais, porque cossaco e anticomunista primário, pode colaborar ativamente na intenção autocrática do poder de estilhaçar décadas de ateísmo como dogma do Estado.
A lenta transformação do regime russo numa forma aproximada do fascismo tradicional vai-se consolidando. Após a confusão lançada por Ieltsin para possibilitar o enriquecimento vertiginoso dos amigos, tornados oligarcas, Putin pareceu duvidar se regressava à ideologia em que se formara como espião se a substituía pelo modelo criado para a destruir. Pedra-de-toque a definir-lhe a opção entre uma e outra tem sido o favorecimento do clero ortodoxo no dia-a-dia dos cidadãos, a lembrar o quanto Mussolini, Franco ou Salazar utilizaram a Igreja Católica e o «regresso às tradições» como instrumentos fundamentais da consolidação dos respetivos poderes.
A questão da descriminalização da violência doméstica vai nesse sentido ao menorizar as mulheres na sociedade russa, sonegando-lhes a importância outrora conferida por quem as considerava iguais em direitos e deveres. O regime masculiniza-se sob a égide da imagem trabalhada do líder, que para tal se difundem as fotografias do seu torso nu em cima de um cavalo. Tal imagem remete para o imaginário cossaco em cuja cultura os equídeos sempre desempenharam relevância primordial. A sua cavalaria foi fundamental para que os czares esmagassem revoltas populares e invadissem vizinhos fragilizados e viria a integrar as forças dos russos brancos, que tentaram, em vão, derrubar o poder bolchevique.
Olhando para os últimos dois séculos esses cossacos, que habitam entre os rios Don e Volga, estiveram sempre do lado errado da História, porque, apesar da propaganda soviética tê-los dado como intrépidos combatentes na batalha de Estalinegrado, a verdade manda reconhecer que eram mais os que alinhavam com os invasores nazis do que do lado comunista.
Oleg, que conhecemos através de um documentário apresentado no canal ARTE, revela-se orgulhoso com a missão a que se passou a dedicar, bem sintetizada por um dos seus cúmplices: apagar tudo quanto ainda resta da revolução de há cem anos e impor os valores (mais propriamente os preconceitos!) da sua etnia no que eles se traduzem em misoginia, xenofobia, homofobia e outras manifestações de intolerância para com quem deles difere.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A espantosa viagem do pardal de garganta branca

No primeiro capítulo do seu livro,  Jonathan Crary revela o interesse dos militares norte-americanos nas capacidades do pardal de garganta-dourada, que todos os anos fazem milhares de quilómetros entre o Alaska e o norte da costa mexicana do lado do oceano Pacífico para cumprirem os ciclos das migrações, que transportam nos genes.
O que tanto motiva a fileira militar da indústria norte-americana, associada às universidades a quem incumbem dos respetivos estudos, é o que explica a espantosa resistência dessas pequenas aves, capazes de se manterem em ativa vigília de sete dias e noites antes de chegarem aos seus destinos.
Se, relativamente ao ser humano, já se manifestaram tantos fracassos nas soluções químicas, genéticas e eletromagnéticas para o salvaguardar das consequências nefastas de longos períodos de privação de sono, o objetivo é o de encontrar nesses pardais a especificidade genética, hormonal ou outra, que os habilitam a tão desafiante viagem.
Não nos faltam testemunhos dos que, durante a ditadura fascista, sofreram horrores na tortura da estátua, que os levava até patamares de alucinação, que nunca julgariam possíveis. É esse tipo de efeito, que o Pentágono pretende evitar em missões dos seus comandos em zonas de conflito.
Se os industriais veem os robôs como alternativa aos instintos contestatários dos seus trabalhadores, os militares não conseguem substituir soldados por drones em todas as situações. Daí o interesse do braço armado do capitalismo ter ganho a obsessão de vencer o sono, de erradicar do género humano esse que ainda persiste em ser um dos seus direitos mais básicos.

Explorados 24 horas por dia, 7 dias por semana

Volto à Conferência de Sampaio da Nóvoa no Teatro da Trindade a propósito de um livro por ele referido duas vezes e cuja importância se confirma no merecimento da sua sintética abordagem no editorial de hoje do L’Obs: «24/7» de Jonathan Crary.
O tema é muito simples: o capitalismo vende-nos hoje a água que bebemos, a comida que ingerimos, a casa onde habitamos, o ensino em que nos formamos, a saúde em que nos curamos e até o amor, o diálogo e as amizades passam pelo crivo do sistema sob as mais variadas formas de nele gastarmos os rendimentos auferidos por um trabalho de cujas mais-valias somos espoliados. E o autor dedica o ensaio à última fronteira, que falta ser assaltada pelos que detém o capital: o sono.
Hoje em dia quase constitui pecado inconfessável dizer-se que se dorme excelentemente  e por muitas e longas horas. O contrário é tido como motivo de admiração: não se promoveu o atual presidente da República à conta das escassas horas em que se rendia a essa inevitabilidade para dispor de mais tempo para as suas leituras? Não constitui motivo de invetiva nas empresas a expressão “você anda a dormir demais!”?
O capitalismo desejaria transformar aqueles cujo trabalho explora em homens-máquina, sempre prontos a trabalharem com a mesma argúcia cognitiva, sem cederem ao cansaço. É na falta dessa possibilidade de aumentarem a produtividade dos seus explorados, que os donos dos meios de produção apostam na robótica, na automação e em algoritmos, que erradiquem o lado, para eles negativo, do fator humano na sua produção.
O problema que se lhes colocará num prazo mais ou menos curto é a irrefutabilidade do paradoxo um dia levantado por um sindicalista americano ao administrador de uma das fábricas da Ford, então exultante por lhe facultar visita guiada à nova linha de produção inteiramente automatizada e sem qualquer participação de trabalhadores de carne-e-osso.
- Está a ver, meu caro? Com estes trabalhadores não existe dia, nem noite, horários de trabalho, salários ou subsídios de refeição!
Antevendo o quanto tinha de desinteressada essa apresentação das novas tecnologias perante a iminência da discussão contratual, o interlocutor respondeu-lhe:
- É impressionante, deveras! Mas, permita-me uma pergunta: quando todas as fábricas forem assim a quem irão os senhores vender os vossos carros?
Esta história é edificante e merece acompanhar-nos quando entramos numa discussão com quem nos quer convencer da impossibilidade em encontrar alternativa a esta organização social baseada na utilização intensiva do comércio livre e da privatização universal de todos os bens transacionáveis.
Sobre a TINA (there is no alternative) estamos conversados: quer entre nós com o governo apoiado pela maioria parlamentar das esquerdas, quer pelo resto da Europa, com o fracasso sucessivo das estratégias austeritárias, constatamos a falência ideológica de um sistema cuja sobrevivência se vai assemelhando a sucessivos estertores de um moribundo. Perante a anunciada contestação avassaladora de uma globalização, que só serviu para tornar os ricos ainda mais ricos, e todos os outros mais pobres, Trump e outras extremas-direitas apostam no regresso ao protecionismo, como se o sistema pudesse voltar para trás e retomar fôlego onde ele significou deslocalização de fábricas, abandono de minas e a aceleração na irreversível quebra do volume de empregos disponíveis.
Na Conferência do Chiado, Sampaio da Nóvoa comparava o questionar do sistema ao que se dizia dos bancos há dez anos, tidos como demasiado grandes para declararem bancarrota. A realidade mostrou o que valia esse falso axioma. Com o sistema, que tudo nos vende desde que acordamos até que nos voltamos a deitar, sucede o mesmo: aparenta ser demasiado grande e poderoso, mas mostra-se dia-a-dia com pés de barro. Incapaz de se regenerar, de se recriar imaginativamente numa qualquer solução miraculosa, retoma as velhas, e mais do que gastas, receitas para encontrar inexistente saída no beco em que se enclausurou. Encurralado por quem o detesta e o quer ver substituído por alternativa mais humana e justa, mantém força bastante para nos causar gravoso dano, mas o enterro já lhe está encomendado.
Cabe às esquerdas o imperativo de lhe apressarem a agonia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um punhado de areia em frente à pirâmide

Existem épocas da História em que se torna assaz intenso o combate entre o velho e o novo. 1871 foi, nesse aspeto, um ano lapidar. Enquanto Paris se incendiava por conta da luta dos revolucionários da Comuna, a monarquia lusa tremia perante o que se começou a discutir sob a capa das Conferências do Casino. Viviam-se tempos de impasse nas várias geografias e sobrava muita vontade em sacudir a letargia e dar espaço para a afirmação de novas formas de pensar, agir, organizar e, em última instância, governar.
No ensaio, que ontem apresentou no Teatro da Trindade, o Professor Sampaio da Nóvoa relembrou esse esforço de Antero e seus companheiros para dar asas a uma nação tolhida pela incompetência e preconceito de quem nela insistia em mandar. Apesar da repressão e das proibições, promovia-se a mudança, a transformação, por muito que faltassem quase quarenta anos para ela se concretizar.
O sentido maior das palavras do antigo candidato à Presidência da República foi o dever de nos escusarmos a desculpas por nos sentirmos demasiado pequenos face ao que temos como tarefa: reduzir as iníquas relações entre quem nada tem, sujeitando-se à pobreza e à precariedade, e quem acumula riqueza de forma tão escandalosa, que oito indivíduos conseguem concentrar em si tanto dinheiro quanto a metade mais desfavorecida da população mundial. Lembrando Borges cego perante as pirâmides, já teremos feito alguma coisa se nos esforçarmos por mudar a posição de um punhado de areia no conjunto do deserto.
Importa ainda adotarmos um comportamento de abertura perante o que de novo se vai produzindo. Nas artes, nas ideias, na economia, na política. Podemos estar tão formatados em cristalizadas certezas, que nos fechamos a alternativas com potencialidades tidas por inexequíveis. A mesma História, que vai avançando no confronto dialético entre quem dela não quer sair e quem nela anseia por irromper, está cheia de exemplos de anunciadas impossibilidades depois concretizadas numa qualquer fulgurante manifestação de contrapoder, depressa convertido em novo poder.
Um dos alertas explícitos deixados pelo conferencista teve a ver com o que une muita gente das esquerdas e das direitas: os tempos idos não voltam para trás. Por muita nostalgia, que sintam, os modelos de sociedade e de valores, entretanto ultrapassados por outros, não podem ser reconstruídos. Quem anseia pelo regresso ao salazarismo só poderá vê-lo refletido nas suas versões atualizadas (Passos Coelho é disso um exemplo), mas que não são mais as mesmas. Quem julga possível regressar à pureza dos regimes soviéticos, só pode sentir-se incomodado pela persistência criminosamente quixotesca do atual líder norte-coreano.
O impasse em que hoje vivemos é o de um capitalismo sem respostas para as monstruosidades sociais, que criou. E, sobretudo, para as que pretende dar vida na descontrolada corrida para o próprio fim. A desenfreada busca do lucro e da acumulação de capital em número cada vez mais exíguo de mãos, não chegará ao desenlace previsível de uma disrupção apocalítica. O instinto coletivo pela sobrevivência tomará conta da derrapagem antes que se torne ainda mais desvairada.
Como? Caber-nos-á encontrar resposta pela problematização constante do desafio, na discussão intensa e aprofundada do que ele implica, sem chegar ao extremo de repetir-se o erro dos que, perante o cerco de Constantinopla, teimavam em prosseguir a discussão sobre o sexo dos anjos. É, nesse âmbito, que faz todo o sentido olhar para os jovens, para aqueles que, um dia, na Praça do Rossio, em Viseu, terão dito a Sampaio da Nóvoa que estavam verdadeiramente interessados na política e até dela tinham conhecimentos insuspeitados para o então candidato - tentado a proferir-lhes discurso paternalista e moralizador sobre a importância de se entregarem aos deveres da cidadania! - mas que afirmavam a convicção de ainda não ser este o seu tempo. E essa é outra questão que a realidade nos está a sugerir: há quarenta anos, quando tínhamos a frescura da juventude, avançávamos, destemidos, para os grandes combates políticos, porque a esperança de vida nos consideraria velhos aos cinquenta, aos sessenta anos. Hoje, perante a forte possibilidade de chegarem a octogenários, os jovens têm menos pressa de se chegarem à frente do palco, dão-se tempo e espaço para viverem a intensidade dos afetos e das experiências radicais, sem descurarem a atenção para esse mundo onde, mais tarde ou mais cedo, sentirão a inevitabilidade de empunharem o testemunho.
Numa conferência, que seria possível abordar por tantos outros aspetos, pois foram múltiplas as pistas de reflexão, que Sampaio da Nóvoa deixou, talvez a maioria dos presentes tenha saído tão pessimista perante o futuro quanto para ali entrou. Mas para os que não se conformam com este impasse e continuam apostados em substitui-lo por novas formas de aproximação à Utopia, as ideias enunciadas para Projetar Portugal fizeram todo o sentido e deram alimento ao otimismo de tudo continuar a ser possível. Andamos tão poluídos com as tropelias dos Trumps do nosso espaço mediático, que nos esquecemos de quão perecíveis são. E como, em alternativa, vão-se pressentindo sinais encorajadores, ainda incapazes de se tornarem mais do que isso. Bernie Sanders, por exemplo, poderia ter subido à ribalta como cabeça-de-turco dessa irrupção do que estará para vir sob a forma de novos valores, novos costumes, novos comportamentos para com os outros, e nomeadamente para com este planeta exaurido, que tanto exige ser respeitado.
Neste cantinho atlântico da Europa esse prenúncio do que será o futuro já se manifesta através da convergência das esquerdas. E por isso tudo está a mudar - na Economia, na atitude mais descontraída das pessoas, nas perspetivas do que poderá vir a ser o país. Talvez sirva de exemplo para que seja o punhado de areia enunciado por Borges, pondo em movimento a aparente imutabilidade deste deserto global.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O prazer de voltar a ouvir um dos nossos melhores sábios

Há sábios, que nunca nos cansamos de ouvir, porque cada oportunidade  de voltarmos a contactar com o muito que nos têm a transmitir, dão-nos a sensação de enriquecermos um pouco mais, de ganharmos múltiplas pistas para tentarmos vencer a incultura, que não adivinhávamos tão grande. Porque atendo-nos à definição de Cultura por Millor Fernandes ela é “aquilo que amplia a nossa ignorância.”
Numa conferência subordinada ao tema  "Projetar Portugal - Quem decide sobre as nossas vidas?", o professor Sampaio da Nóvoa lembrou aquela frase de 2008 sobre existirem bancos demasiado grandes para que pudessem falir. Afinal o Lehman Brothers demonstraria o contrário. Por isso, e tendo em conta nada existir de tão grande, que possa obstar a que o discutamos, esteve em causa a forma de superar a alienação (conceito tão importante dos anos 70 e que valeria a pena ressuscitar!) contraída das redes sociais e não só, que tendem a confundir-nos das questões essenciais, causando um tal ruído que nos distraímos facilmente com questões comezinhas sem nos pensarmos, nem reinventarmos. Porque esse é o grande problema com que nos defrontamos: numa época em que o capitalismo está no seu crepúsculo e o emprego tende a tornar-se em algo de raro, poderemos conformarmo-nos com o revoltante crescimento das desigualdades e com os vários níveis de precariedade vividos pelos mais novos?
Como se se tratasse de uma sonata em três andamentos a conferência evoluiu da impossibilidade de voltarmos para trás no tempo - como certas direitas e certas esquerdas desejam em vão! -, e encontrarmos respostas para ganharmos os desafios do futuro. O que só pode acontecer com uma aposta decidida no conhecimento, ou nos conhecimentos, porque tanto importam os já testados por múltiplas experiências, como os nunca ensaiados e apenas figurando como hipóteses.
Ao contrário do que costumamos pensar, não faltam aos jovens informações nem competências, que possam oferecer para a criação de uma sociedade mais avançada. Segundo o Prof. Sampaio da Nóvoa há algo que lembra a ficção científica na forma como gerações distintas ocupam o mesmo lugar e não conseguem comunicar umas com as outras. Como se estivessem noutras dimensões, noutros vetores da conjunção espaço-tempo. Um dos motivos do aparente impasse em que nos encontramos tem a ver com essa difícil interação,
Outro problema tem a ver com o que se passa nas Universidades, que perderam a função de investigarem e produzirem saberes inovadores, cristalizadas em metodologias ultrapassadas e inibidoras da inovação, do arriscar direções ainda não trilhadas por mais ninguém.
Na conclusão da sua apresentação-ensaio, o orador lembrou um pequeno texto sobre o encontro de um Jorge Luís Borges quase cego com as pirâmides do Egipto: A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide inclinei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou a modificar o Saara. O ato era insignificante, mas as palavras nada engenhosas eram justas e pensei que fora necessária toda a minha vida para que eu pudesse pronunciá-las.”
É com essa ousadia em transformar o deserto, e ao mesmo tempo com a humildade de nos sabermos capazes de mudar apenas um punhado de areia, que nos devemos situar em relação ao futuro. Fazendo todos os possíveis por o discutir, sobre o questionar sempre que para tal tivermos possibilidades. E esse é o melhor desafio, que o prof. Sampaio da Nóvoa nos veio lançar.

O caso que está mesmo a pedir uma Comissão Parlamentar

A notícia de que 10 mil milhões de euros desapareceram em offshores no período entre 2011 e 2014 tem todos os condimentos para se tornar no novo escândalo mediático nacional e agora a embater fortemente nas direitas, que têm usado e abusado da novela dos sms para porem em causa o governo.
Essa fuga de capitais equivaleu a mais de 1/8 do valor adiantado pela  troika em 2011 e, acaso, tivesse permanecido em bancos nacionais funcionaria como importante paliativo para os apertos então conhecidos.
Para já existe á um rosto com direito a pelourinho: Paulo Núncio, a «estrela» do CDS, que tutelava a área fiscal do governo de Passos Coelho e ainda há dias perorava no programa de José Gomes Ferreira sobre os pecados de Centeno. É inaceitável que um responsável político que, voluntariamente ou por mera negligência, prejudica assim o país, ainda mereça tempo de antena no nosso espaço mediático!
A história, porém, não fica por aqui: provavelmente por sentirem que o fartar vilanagem estava prestes a acabar, 2015 foi o ano do record de transferências de dinheiro, quase sempre de empresas portuguesas para outras nos paraísos fiscais: 8885 milhões de euros. Baamas, Hong Kong e Panamá foram os destinos mais procurados, ou seja aqueles onde a cooperação com as instituições internacionais destinadas a conhecer a identidade dos possuidores dessas contas se revela mais obstaculizada.
Que tal uma Comissão Parlamentar de Inquérito a sério para esclarecer quem andou a branquear capitais, a fugir ao fisco e, dentro do governo de Passos Coelho, andou a assobiar para o lado?

Marx antes de descobrir a vocação

Embora possa haver quem julgue ter sido Karl Marx o criador do socialismo e do comunismo, a verdade é que esses conceitos já existiam antes dele os ter reformulado, e continuariam a ter vida própria se ele nunca houvesse aparecido. E, convenhamos, que isso até teria sido muito possível, pois dos oito irmãos de Karl, apenas três chegaram aos 25 anos.
Com «O Capital» e outros textos de referência para a futura luta dos povos pela sua emancipação, Marx é só o mais importante de um grupo significativo de historiadores e filósofos de que Michelet fora um dos pioneiros, e Lenine viria a ser quem de tais contributos faria a mais consistente síntese.
São essas as conclusões principais da biografia  de Gareth Stedman Jones, publicada pela Harvard University Press, e que adota uma perspetiva com a qual estou em total desacordo: a de situar historicamente no seu tempo, e nele compreender o seu pensamento, sem lhe reconhecer qualquer pertinência na definição do nosso futuro. A exemplo de outros esquerdistas, que se reciclaram em autores de reflexões teóricas muito conservadoras, Jones já se considera distante do tempo em que se considerava socialista revolucionário. E, no entanto, a abordagem da vida de Marx até é feita de forma equilibrada, permitindo-nos aceder a informações pouco conhecidas.
Comecemos pelo nascimento, ocorrido em 5 de maio de 1818 em Trier, cidade da Renãnia alemã, onde o pai convertera-se ao dominante catolicismo como forma de lhe ser permitido o exercício da advocacia. Razão para ter mudado o nome próprio do comprometedor Herschel para Heinrich.
Contratado como jurista no tribunal local, ele garante à família uma qualidade de vida bastante confortável.  O jovem Karl viveu nesse contexto burguês e julgou-se talhado para a poesia. 
Aos dezoito anos ei-lo tomado de paixão assolapada por uma jovem quatro anos mais velha, Jenny von Westphalen, que lhe retribuiu o afeto, mas não teve autorização para se mostrar recetiva ao noivado com quem não se lhe equiparava no estatuto social. Tiveram por isso de esperar sete anos para que o pai dela morresse e ficassee assim removido um incontornável obstáculo à felicidade de ambos. Não adivinhariam as muitas dificuldades e doenças que os esperariam e, sobretudo, o desgosto pela morte de vários filhos.
Por essa altura, Marx ainda não era o agitador político, nem mesmo o escritor arguto de teses revolucionárias. Enquanto frequentou a Universidade de Bona preferiu dedicar-se à boémia e aos duelos. A mudança verificar-se-ia com a sua transferência para a universidade de Berlim.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um homem pequeno que, decididamente, não é bailarino!

De Marques Mendes já sabíamos tratar-se de um bufo no que a expressão tinha de mais pejorativa no tempo do fascismo. Apresentando-se como tendo bons contactos, utiliza a prestimosa colaboração dos que por ele andam com o olho nas fechaduras alheias ou a ouvirem conversas que não lhes eram destinadas.
Também o sabíamos especialista em truques e jogadas sujas, pois só alguém disso capaz conjetura intenções na demora da publicação de diplomas, cuja explicação era bem mais simples. Mas, como, no capítulo das “virtudes”, mostra ser um bom julgador, hipóteses desse tipo tornam-se clarividentes para quem delas era capaz. O arauto de Fafe pergunta-se: o que faria se estivesse do lugar de quem critico? E vai de lhes atribuir comportamentos e intenções, que seriam as suas.
Ontem ficámos a conhecer mais um traço do seu mau caráter: vingativo. Porque, pondo-se na pele de António Domingues, ele imaginou-o tomado de desejo de retaliação por quem ter-se-á sentido prejudicado.
Para o comentador de Balsemão que, como o «Expresso» anunciou esta semana, anda em animados jantares com Passos Coelho e Montenegro, não se coloca a questão das exigências exorbitantes do antigo administrador, nem o interesse nacional, que mandaria travar de vez a novela da Caixa Geral de Depósitos. Interessa-lhe, sim, fazer o jogo dos adoradores do Diabo que, sentindo-lhe a falta, tudo farão para o ressuscitar, assim se lhes não esgotem as poções nem as mezinhas.
Um último aspeto ainda a  aguçar a nossa curiosidade: tenho em conta a sua assumida condição de porta-voz oficioso das intenções da  especulativa Lone Star seria interessante constatar por que escritório de advogados se faz ela representar no negócio pela compra do Novo Banco. É que, como Gustavo Sampaio já denunciou num dos seus livros («Os Facilitadores»), Marques Mendes e esses seus cúmplices, são dos mais ativos lobistas dos interesses estrangeiros no nosso país.
Tendo em conta a sua prática dolosa continuada e a própria intervenção de Lobo Xavier no sentido de prejudicar os interesses da Caixa Geral de Depósitos, só não compreendo porque tardam as esquerdas em promulgar uma legislação anti-lobistas, que, a exemplo dos tempos de antena, sempre antecedidos pela identificação de quem os utiliza, também obrigue a SIC a anteceder os seus programas de comentários políticos de ambos os seus colaboradores com o anúncio dos negócios a que estão vinculados e ali supostamente a serem por eles defendidos...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ando curioso com a imaginação dessa gente!

1. Passado este fim-de-semana em que a luta política amainou por conta do futebol, importa constatar o subterfúgio utilizado pelas direitas para manterem em lume brando uma fogueira onde sentem a progressiva falta de lenha. Com Marcelo e Costa a darem o assunto da Caixa Geral de Depósitos por encerrado, com as esquerdas unidas na decisão quanto à dispensabilidade de uma nova comissão de inquérito, que assunto pode ser agarrado para distrair o país dos excelentes resultados da economia? Défice abaixo de 2,1%, crescimento de 1,9% no último trimestre, criação líquida de empregos, aumento das exportações, investimento a subir.
Admita-se que, na Lapa e no Caldas, os mais imaginativos dos seus inquilinos andarão com a cabeça à volta para criar o «facto alternativo» seguinte. Buscaram-no no desaparecimento das pistolas na PSP, mas o assunto tem pouco glamour para merecer a atenção de quem pretendem captar. E o pior vem aí a seguir: os indicadores do primeiro trimestre de 2017 deverão prosseguir na mesma ordem de tendências.
Que dirão então os arautos das direitas? Que o país está com menos turistas em fevereiro do que em julho ou agosto? Ou que a canção portuguesa terá repetido classificação miserável na Eurovisão?
Pessoalmente sinto-me curioso quanto ao resultado das efabulações dessa gente!
2. Há dois factos, que têm andado nas entrelinhas das notícias e julgo não estarem a ser devidamente compreendidos pelo grande público: o primeiro tem a ver com a demissão de Matos Correia da presidência da Comissão Parlamentar que dirigia.  Ora o que motiva essa atitude é a negação dos partidos das esquerdas em acederem à exigência de documentos privados, constitucionalmente protegidos como tal, e que se referem a atos relacionados com a Caixa em … 2016.
Ora Matos Correia deveria saber que a sua Comissão foi formada para analisar o sucedido nesse banco público entre 2000 e  … 2015!
Como alertava Carlos César, ele parecia desconhecer o âmbito do que lhe incumbia dirigir.
O outro facto tem  a ver com a  exigência de Passos Coelho exigir para os administradores da CGD um vencimento máximo correspondente a uma percentagem do do primeiro-ministro.
A tal ser aprovado, e sendo impossível tal pressuposto ter aceitação do BCE, que hoje superintende todas as instituições bancárias europeias, Passos conseguia maquiavelicamente o objetivo de a  privatizar, pois, só dessa forma se contornaria essa limitação: a CGD deixaria de ser pública, não porque esse seria o que o interesse do país (que o não é!), mas porque só dessa forma os administradores poderiam ser remunerados de acordo com as regras europeias.
3. A vinda de Benoît Hamon a Lisboa para aprender as virtualidades da maioria das esquerdas é um prenúncio do que não tardará a produzir-se: a assumpção de mais líderes da esquerda europeia quanto ao modelo português de demonstrar os méritos desta alternativa ao austericídio.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Passarinhos e passarões

1. Uma das notícias mais importantes da semana foi a do anúncio do novo aeroporto no Montijo para o qual Marcelo já sugeriu um nome incontornável: Mário Soares.
Trata-se, porém, de um remendo para solucionar um problema tido como incontornável na época do governo de José Sócrates e para o qual se inventaram mil e um obstáculos para que não fosse por diante. Quem pode esquecer os urubus, muitos dos quais ainda por aí andam como comentadores encartados, que diziam extemporânea essa necessidade, porque a Portela ainda poderia bastar por muitos e bons anos?
Viu-se o resultado: cinco anos depois não há como encaixar nas disponibilidades do atual aeroporto todos os voos potencialmente previstos para nele aterrarem ou dele partirem.
O país não se consegue livrar dos resquícios do salazarismo, que fizeram travar a Ponte sobre o Tejo por décadas e igualam tal feito com o novo Aeroporto. Porque ir-se-ão gastar quase 600 milhões de euros numa obra que mitigará o problema, mas o não resolverá a médio prazo. E quando o  novo aeroporto custaria mil milhões de euros!
Esta última hipótese gorou-se, porque Passos Coelho privatizou a ANA e deu aos franceses da Vinci a gestão de todos os aeroportos nacionais por 50 anos, tornando-os parte fundamental da solução para novas instalações portuárias. Ora esse concessionário cuidará de garantir o mais rapidamente possível o retorno do seu investimento - existem contas a provar que ao fim de dez anos já o terá recuperado, sendo os demais quarenta de lucros líquidos! - e de minimizar todas as intervenções a que está obrigado por contrato. Por isso nem lhes passaria pela cabeça investirem num novo aeroporto se têm uma solução mais baratinha como a agora gizada.
Se isto não comprova o autêntico crime cometido pelo governo anterior contra os interesses nacionais, que mais seria necessário para o comprovar? Mas para quem tiver dúvidas podem-se pegar em todos os demais exemplos - REN, CTT, etc. - que são eloquentes exemplos de como Passos Coelho não tem qualquer razão para usar o pin na lapela, tão antipatrióticas se revelaram as suas políticas!
2. Nunca encontro grandes motivos para elogiar Marcelo Rebelo de Sousa, mas este fim-de-semana encontrei a exceção para confirmar a regra: os comentários venenosos contra Cavaco Silva a propósito do vómito em forma de livro por este apresentado na quinta-feira. Constituem crítica mais contundente do que a defesa da honra intentada por José Sócrates. É que se o texto do principal visado pela prosa cavaquista poderá ter escapado a muitos dos que o condenaram apressadamente sem provas, as palavras de Marcelo terão caído fundo na atenção da maioria dos portugueses.
3. Mas, porque de Marcelo mais vale não deixar latente apenas o elogio, insista-se numa dúvida pertinente: sendo Marques Mendes e Lobo Xavier seus conselheiros, como entendê-lo ilibado da atividade anti-CGD a que eles se vêm dedicando há vários meses?  Que sentido têm a suas afirmações de apoio à  estratégia de recapitalização se os seus diletos amigos insistem em sabotá-la?
4. O último comentário tem Assunção Cristas como protagonista já que o «Expresso» anunciou o seu pedido de audiência a Fernando Medina. Para quê, não se sabe! Mas podemos adivinhar: se há algumas semanas andou a pedir aos munícipes, que lhe dessem ideias arejadas para o seu programa, será que face à indiferença dos destinatários, irá junto do atual edil à procura daquelas que ele tenha de sobra para lhas dispensar de forma a evitar a vergonha de se candidatar sem nada para propor?