quinta-feira, 9 de julho de 2026

Cinco Figurões num Dia

 


Há dias em que as notícias se organizam sozinhas. Basta olhar para os figurões que as protagonizam e o retrato compõe-se.

Comecemos por Ancara, onde Donald Trump foi à cimeira da NATO fazer o que faz melhor: destratar os aliados. Declarou-se "muito dececionado", ameaçou retirar as tropas americanas da Europa, anunciou que o cessar-fogo com o Irão está "acabado" e chamou "escumalha" aos negociadores iranianos. Pelo meio, reafirmou a velha ambição imperial de anexar a Gronelândia, porque a Dinamarca, coitada, não a sabe aproveitar. É o estilo: chega-se a uma aliança militar e trata-se dos aliados como inquilinos em atraso com a renda. A Gronelândia, entretanto, respondeu pela boca da primeira-ministra dinamarquesa que não está à venda — mas Trump nunca deixou que um "não" lhe estragasse uma fantasia.

E aqui entra o segundo figurão, este da nossa lavra. No mesmo corredor de Ancara, Luís Montenegro foi questionado sobre se Trump tinha rancor à NATO. Respondeu que não, que "não me parece que haja razão para dizer isso" — precisamente no dia em que o homem ameaçava anexar território de um Estado-membro e retirar as tropas do continente. É preciso um talento especial para a cegueira diplomática assim tão bem calibrada. Montenegro viu Trump destratar a aliança e concluiu que estava tudo bem. Deve ser o mesmo par de olhos com que vê a educação e os incêndios cá em casa.

Terceiro: Nigel Farage, o eterno favorito a primeiro-ministro britânico, subitamente emudecido. Suspendeu as conferências de imprensa semanais de que tanto gosta desde que rebentou o caso dos milhões que recebeu de um bilionário das criptomoedas sediado na Tailândia e que se esqueceu de declarar. Cinco milhões de libras que eram, garante, um "presente pessoal" para a sua segurança. Agora vitimiza-se, ameaça processar jornais e considera-se perseguido. O populista que prometia limpar o sistema descobre que o sistema tem regras — e que elas, contrariamente ao que julgava, também se aplicam a ele.

Quarto: Marine Le Pen, condenada por desvio de fundos do Parlamento Europeu, a fazer contas à própria coerência. Prometera que, se chegasse às eleições de pulseira eletrónica, não se candidataria. Agora desdiz-se. A dignidade era condicional e a condição revelou-se inconveniente. É o padrão da extrema-direita europeia: intransigente com a corrupção alheia, flexível com a própria.

Quinto e último: Fernando Alexandre, ministro da Educação e da Ciência, que continua inexplicavelmente no lugar depois do caos nos exames nacionais que tutela. Convocatórias a professores mortos, plataformas inacessíveis, notas adiadas, negações sucessivas seguidas do inevitável recuo. Noutro país teria pedido a demissão. Neste, mantém-se, talvez à espera de que o esquecimento faça o trabalho que a vergonha recusa.

Cinco figurões, um só dia. Cada um à sua maneira, todos com o mesmo traço comum: a certeza inabalável de que as regras, a coerência e a vergonha são coisas para os outros.

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