quinta-feira, 2 de abril de 2026

Dupond, Dupond e o Pote

 

Passos Coelho regressou. Montenegro governa. E os comentadores políticos deliciam-se a analisar as diferenças, as nuances, os desacordos subtis entre os dois homens que supostamente representam visões distintas da direita portuguesa. É teatro. Puro teatro para entreter os distraídos enquanto ambos fazem exatamente a mesma coisa: governar para os mesmos interesses, com os mesmos objetivos, partilhando a mesma cumplicidade essencial com o Chega.

A Lei da Nacionalidade é apenas o mais recente exemplo dessa cumplicidade. Montenegro apresenta-a, Passos Coelho apoia-a dos bastidores, Ventura aplaude. Os três comungam da mesma visão: Portugal para os "verdadeiros" portugueses, fronteiras fechadas, estrangeiros como ameaça, cidadania como privilégio a conceder parcimoniosamente. Muda a retórica — Montenegro finge moderação, Passos veste-se de estadista, Ventura berra abertamente — mas a substância é idêntica.

Para os portugueses, o que separa Passos de Montenegro pouco deve importar. Porque pensando exatamente o mesmo, destruindo os mesmos serviços públicos, precarizando o mesmo trabalho, favorecendo os mesmos interesses económicos, só os divide uma questão: quem deve estar na posse do "pote". Quem controla o partido, quem distribui os cargos, quem manda na máquina. O resto é cosmética para consumo mediático.


Neste sentido, como não pensar nos personagens de Dupond e Dupond do Tintin? Os gémeos inseparáveis, vestidos de forma idêntica, com os mesmos bigodes, as mesmas bengalas, dizendo as mesmas coisas com ligeiras variações sintáticas. "Diria mesmo mais" — a frase que os caracteriza — resume perfeitamente a falsa oposição entre Passos e Montenegro. Um diz "vamos destruir os direitos laborais", o outro acrescenta "diria mesmo mais: vamos aniquilá-los completamente". Um propõe "dificultar a nacionalização", o outro emenda "diria mesmo mais: torná-la quase impossível".

São o mesmo. Sempre foram. A diferença está apenas na disputa pelo protagonismo, pela liderança, pelo controlo do aparelho partidário. Passos julga-se o grande estadista da austeridade, o homem que "salvou" Portugal (leia-se: destruiu os serviços públicos e empobreceu a população para pagar aos credores). Montenegro julga-se o hábil tático que finalmente devolveu o poder à direita. Mas olhando para as políticas, para as escolhas, para as cumplicidades — são indistinguíveis.

E aqui reside uma ironia amarga: para fazer esta comparação com Dupond e Dupond, tenho de recorrer a um autor que, pela xenofobia e ultracatolicismo que atravessam a sua obra, não poderia estar mais de acordo com o trio de cúmplices — Passos, Montenegro e Ventura. Hergé, o criador de Tintin, tinha simpatias fascistas bem documentadas, colaborou com publicações pró-nazis durante a ocupação da Bélgica, encheu as suas histórias de estereótipos racistas que hoje fazem corar qualquer leitor minimamente atento.

Os congoleses retratados como selvagens infantilizados. Os judeus caricaturados com todos os clichés antissemitas disponíveis. Os árabes como vilões unidimensionais. A visão imperial europeia como norma civilizacional inquestionável. Hergé seria hoje militante confortável do Chega — talvez até seu ideólogo cultural, fornecendo aos seguidores de Ventura a justificação pseudointelectual de que tanto precisam para disfarçar o ódio primário.

Mas as personagens de Dupond e Dupond captam tão perfeitamente a essência da falsa oposição Passos-Montenegro que vale a pena usar a referência, mesmo reconhecendo a toxicidade do seu criador. Porque Hergé, conscientemente ou não, retratou na dupla de detetives incompetentes algo de universal: a ilusão da diferença onde só existe repetição, a encenação do desacordo onde reina o consenso, a farsa da oposição onde há apenas divisão de espólio.

Passos e Montenegro encenam desacordos para a comunicação social. Trocam farpas calculadas, deixam filtrar "tensões" entre as suas equipas, alimentam narrativas de "correntes" diferentes dentro do PSD. E depois, quando é preciso votar, quando é preciso governar, quando é preciso escolher entre proteger os trabalhadores ou servir o patronato, entre defender o SNS ou entregá-lo aos privados, entre integrar imigrantes ou criminalizá-los — votam igual, governam igual, escolhem igual.

A Lei da Nacionalidade é cristalina neste sentido. Podiam ter optado por facilitar a integração, por reconhecer que Portugal precisa de imigrantes não apenas economicamente, mas também demograficamente, por aceitar que a nacionalidade não é prémio de mérito mas direito de quem aqui vive e contribui. Podiam. Não quiseram. Porque tanto Passos como Montenegro partilham com Ventura a mesma visão essencial: Portugal como clube exclusivo, cidadania como privilégio, estrangeiros como ameaça.

Ventura di-lo aos berros. Montenegro embrulha em tecnicalidades jurídicas. Passos reveste de linguagem pseudoestadista. Mas dizem o mesmo. Querem o mesmo. Servem os mesmos interesses e os mesmos medos.

E aqui está a grande fraude da política portuguesa contemporânea: fazem-nos discutir se preferimos Passos ou Montenegro, se achamos melhor o "estadista" experiente ou o "tático" oportunista, se a direita deve ser mais europeia ou mais atlantista. Enquanto isso, ambos executam a mesma agenda, destroem os mesmos direitos, protegem os mesmos privilégios, alimentam os mesmos preconceitos.

Dupond e Dupond perseguem criminosos e capturam inocentes. Causam desastres em cadeia enquanto se julgam competentes. Repetem as mesmas parvoíces com ligeiras variações. E no final, quando tudo corre mal, culpam outros pelos seus próprios erros.

Passos e Montenegro destroem serviços públicos e culpam os utentes por os usar. Precarizam o trabalho e culpam os trabalhadores por não serem "competitivos". Dificultam a integração de imigrantes e depois culpam-nos pelos "problemas de integração". E enquanto fazem isto, encenam divergências para entreter a plateia, discutem quem deve ter o pote, fingem que representam visões diferentes quando representam apenas os mesmos interesses com retóricas ligeiramente distintas.

A verdade é simples e brutal: para quem sofre as consequências — para quem perde direitos laborais, para quem vê o SNS colapsar, para quem enfrenta rendas impossíveis, para quem tenta integrar-se num país que o trata como intruso — tanto faz se é Passos ou Montenegro a governar. O resultado é o mesmo. A dor é idêntica. A política não muda.

E quando Ventura se junta à fotografia — quando o fascista explícito colabora com os fascistas envergonhados, quando o xenófobo declarado vota com os xenófobos dissimulados — já nem sequer se pode fingir que há diferenças que importem.

Dupond, Dupond e Ventura. Um trio de cúmplices que encenam oposições para melhor partilhar o pote enquanto servem a mesma agenda. Hergé ficaria orgulhoso. E nós, que somos obrigados a viver as consequências desta farsa, ficamos com a certeza de que a única oposição real não está entre Passos e Montenegro.

Está entre todos eles — os três, os cúmplices, os encenadores da falsa diferença — e nós, que pagamos o preço da sua identidade essencial disfarçada de pluralismo democrático.

1 comentário:

  1. Tadinho do PS que deixou fugir o pote. Não admira que o congresso de Viseu estivesse às moscas. Se não há cantina não há PS.

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