terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 4 - o Tempo da Resistência ao Bully

 

Donald Trump apresenta-se como a encarnação da força sem limites. Rapta chefes de Estado, ameaça invasões, desafia o direito internacional, proclama o regresso da "diplomacia da canhoneira". Toda esta retórica assenta numa premissa: Trump não recua, não hesita, não tem medo.

Os factos contradizem a retórica. Em Davos, recuou — ainda que de forma malcriada — quando lhe explicaram as consequências económicas de uma eventual resposta europeia ao assédio à Gronelândia. Adiou sine die o ataque ao Irão quando lhe previram dificuldades militares incomparavelmente maiores do que as do rapto de Maduro.

O padrão é claro: Trump ataca quando o risco de retaliação é mínimo, recua quando o custo potencial é alto. Bombardeia a Venezuela porque sabe que não haverá resposta militar significativa. Ameaça a Gronelândia mas recua perante a possibilidade de resposta económica europeia. Planeia atacar o Irão mas adia quando percebe que não será como raptar Maduro numa operação relâmpago.

É a mesma lógica dos "valentes" de Aveiras: violência exercida apenas quando a superioridade é esmagadora, prudência quando existe possibilidade de resistência efetiva. A diferença é de escala, não de natureza. Trinta neonazis contra um emigrante. A maior potência militar do mundo contra um país empobrecido por anos de sanções. Em ambos os casos, a "coragem" depende da certeza da impunidade.

Esta constatação tem consequências políticas diretas. Os cobardolas — desde os fascistas de rua até aos líderes imperiais — só precisam de resistência para recuar. Não é necessária força equivalente, não é preciso vencer militarmente. Basta demonstrar capacidade e vontade de impor custos.

Montenegro recuará quando perceber que a equidistância perante o fascismo tem custos eleitorais superiores aos benefícios táticos. Rangel mudará de discurso quando a subserviência deixar de ser politicamente sustentável. Macron endurecerá quando a capitulação começar a ter consequências internas graves. Trump recua sempre que encontra resistência credível.

Este é o tempo dos cobardolas porque é o tempo em que a cobardia se tornou estratégia política viável — desde as ruas até aos gabinetes governamentais, desde os grupos de WhatsApp até aos salões de Davos. Mas pode ser também o tempo da sua derrota, se houver quem se recuse a capitular, quem demonstre que a resistência é possível, quem prove que a força dos cobardes é ilusória.

Os 37 detidos do grupo 1143 não foram apanhados porque a polícia se tornou subitamente mais eficaz mas porque houve vontade política para agir sobre provas que existiam há anos. A mudança não foi técnica — foi política. E o que se aplica ao grupo 1143 aplica-se a todas as outras manifestações de cobardia organizada: só precisam de ser confrontadas para desmoronar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas: 3 - O Cobarde de Óculos Escuros

 

Emmanuel Macron aperfeiçoou a técnica da cobardia performativa. Em Paris, faz discursos sobre autonomia estratégica europeia e resistência ao unilateralismo americano. Apresenta-se como o líder que ousa desafiar Washington, que defende a soberania europeia, que não se curva perante Trump.

Depois envia mensagens privadas conciliatórias, faz gestos diplomáticos de apaziguamento, assegura que as declarações públicas são apenas retórica para consumo interno. Trump, que reconhece imediatamente este jogo, responde com desdém público. Macron engole a humilhação e continua.

Esta duplicidade não é uma falha de carácter pessoal — é a expressão política da condição europeia contemporânea. A Europa ainda precisa de fingir dignidade para a sua própria população, mas já não tem poder suficiente para transformar essa dignidade em atos. Resulta numa política externa esquizofrénica: palavras duras, atos suaves. Retórica de resistência, prática de submissão.

Os óculos escuros que Macron usou recentemente nas suas aparições públicas — essa estética emprestada do cinema de ação americano — simbolizam perfeitamente a farsa. Um líder europeu que precisa de parecer-se com Tom Cruise para projetar força já admitiu implicitamente que não a tem. A pose substitui a substância. A imagem compensa a impotência.

Macron não é uma exceção europeia — é a norma. Representa a classe política continental que ainda usa a linguagem da soberania mas já interiorizou a vassalagem. Que ainda faz discursos sobre valores europeus mas já aceitou que esses valores cedem perante os interesses americanos. Que ainda se apresenta eleitoralmente como independente mas governa como dependente.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 2 - A Cobardia no Poder

 

A cobardia não se esgota nas milícias de rua. Manifesta-se também, com consequências potencialmente mais graves, no topo do poder político.

Luís Montenegro decidiu não tomar posição sobre a segunda volta das presidenciais. Nem apoia Seguro, nem condena Ventura. A justificação oficial é a neutralidade institucional. A realidade é o cálculo político: Montenegro não quer alienar os eleitores do PSD que estão disponíveis para votar em Ventura, mas também não quer assumir publicamente essa cedência ao fascismo. O resultado é a equidistância — essa forma particularmente insidiosa de cumplicidade que se disfarça de prudência.

Esta não-decisão tem efeitos concretos. Normaliza Ventura como opção democrática legítima. Dá cobertura moral aos eleitores da AD que hesitam. Aprofunda o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo que Pedro Adão e Silva identifica corretamente: em poucos anos, o eleitorado que outrora rejeitava liminarmente a extrema-direita passou a considerá-la uma opção possível.

Montenegro julga-se hábil. Pensa que pode gerir esta ambiguidade sem custos, que pode beneficiar eleitoralmente da aproximação ao Chega sem se comprometer publicamente com ele. É a mesma ilusão que levou tantos políticos europeus ao desastre: a ideia de que se pode instrumentalizar o fascismo para fins próprios. A História documenta exaustivamente o resultado dessa ilusão. Montenegro terá o seu momento de aprendizagem.

Paulo Rangel representa a mesma lógica aplicada à política externa. Quando Trump rapta Maduro e anuncia a apropriação do petróleo venezuelano, seis países — Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha — emitem um comunicado conjunto de condenação. Portugal, que partilha língua e história colonial com vários desses países, que experimentou décadas de ditadura, fica de fora.

Rangel não protestou, não condenou, não se juntou aos que manifestaram indignação. Escolheu o silêncio atlantista, a submissão automática a Washington, a genuflexão preventiva perante o poder imperial. É a mesma lógica de Montenegro aplicada a outra escala: não tomar posição clara porque isso poderia ter custos, fingir que a neutralidade é uma virtude quando é apenas cobardia calculada.

A diferença entre prudência diplomática e capitulação moral mede-se precisamente aqui: na capacidade de reconhecer quando uma violação do direito internacional é tão flagrante que o silêncio se torna cumplicidade. Rangel falhou esse teste. E ao falhar, transformou Portugal num país vassalo que abdica de voz própria para não desagradar ao império.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Este é o tempo dos cobardolas 1 - os valentões de Aveiras

 

Este é o tempo dos cobardolas. Dos que só são valentes em grupo, dos que só ameaçam quando têm poder, dos que recuam assim que encontram resistência. Vivemos rodeados de covardes travestidos de homens fortes, e está na altura de os nomear pelo que são.

Comecemos pelos "valentões" do grupo 1143, esses orgulhosos membros de uma milícia neonazi que preparavam-se para repetir a façanha de Aveiras. Recordemos os factos: em outubro entre vinte e trinta "orgulhosos lusitanos" juntaram-se para insultar e agredir um único cidadão emigrante. Um contra vinte. Ou trinta. Eis a medida exata da sua coragem. Ou a dos que filmaram as "proezas" na esquadra do Rato para as partilhar em grupos de WhatsApp com cerca de 70 pessoas, onde se congratulavam mutuamente.

Organizam-se em células, hierarquias, estruturas — toda essa parafernália paramilitar que caracteriza os movimentos fascistas desde sempre. A violência é sempre exercida em superioridade numérica esmagadora, contra alvos isolados e vulneráveis. É o padrão que se repete: na estação de serviço de Aveiras, nas manifestações do 25 de Abril, em todas as ocasiões documentadas pela investigação da Polícia Judiciária.

Mário Machado, o líder desta organização, comanda-os a partir da cadeia. Telefona, dá ordens, instiga crimes — tudo do conforto de uma cela onde está protegido das consequências diretas da violência que promove. Manda os outros para a rua enquanto se mantém a salvo. Os seguidores obedecem, demasiado limitados para perceberem que são fantoches manipulados por quem nem sequer tem a coragem de sujar as próprias mãos.

Entre os 37 detidos na operação da Polícia Judiciária — que só peca por tardia — estão um polícia e um militar. Dois homens que vestem fardas do Estado, que juraram defender a lei e os cidadãos, e afinal integram uma organização dedicada a perseguir e agredir os mais vulneráveis. Usam o poder que o Estado lhes deu não para proteger, mas para aterrorizar. E fazem-no sempre na certeza da impunidade, sempre contra quem não pode replicar, sempre escondidos no número.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime continuam ativos na mesma lógica de violência racista. A operação da PJ documenta uma estrutura hierárquica estabelecida, com distribuição de funções, ligações a grupos internacionais, financiamento através de merchandising. Não são casos isolados nem explosões espontâneas de violência — é uma organização criminosa que opera sistematicamente há anos.

Merecem acabar atrás das grades. E não por vingança, mas porque é o único lugar onde esta lógica de violência em grupo contra indivíduos isolados finalmente se inverte.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A necessidade de votar contra o fascismo

 

Votei a contragosto em António José Seguro na primeira volta. Continuo a considerá-lo um homem de direita quando medido pela matriz histórica do Partido Socialista, esse que um dia acreditou na transformação social e não apenas na gestão competente do capitalismo. Mas na segunda volta votarei nele sem rebuços, sem hesitações, sem o nariz tapado que outros precisam. E fá-lo-ei mesmo "acompanhado" de tanta gente de quem me sinto abismalmente afastado ideologicamente — dos liberais da Iniciativa Liberal aos sociais-democratas de sempre, passando por toda essa fauna política que normalmente combato.

A questão agora em equação não admite sofismas nem finuras teóricas: trata-se de escolher entre democracia e fascismo. Escrevo democracia com minúscula porque a Democracia com maiúscula — essa que transformaria radicalmente quem detém os meios de produção e de expressão do pensamento livre — é outra coisa completamente diferente, um horizonte que permanece distante e talvez inatingível nestas coordenadas históricas. Mas mesmo esta democracia imperfeita, burguesa, limitada, vale infinitamente mais do que o fascismo que André Ventura representa sem disfarces.

Manuel Loff tem razão quando pergunta se não são fascistas. São. Ventura e os seus não precisam de usar camisas negras ou desfilar com tochas para serem reconhecidos pelo que são. A retórica adaptada ao século XXI, os aliados internacionais, a base social, os métodos — tudo remete para o fascismo clássico atualizado para os tempos das redes sociais e da pós-verdade. Quem ainda nega este perigo, ou está cego por conveniência ideológica, ou é cúmplice consciente da catástrofe que se avizinha.

Montenegro, ao optar por não decidir entre Seguro e Ventura, não está apenas a estabelecer uma equivalência moral obscena entre democracia e fascismo. Está a normalizar o inaceitável, a tornar palatável o que deveria repugnar qualquer pessoa minimamente decente. Pedro Adão e Silva acerta ao diagnosticar o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo. Em poucos anos passámos de um país que se julgava imune ao populismo para um onde a direita tradicional namora abertamente com o fascismo ou, na melhor das hipóteses, se demite de o combater.

O que custa é a primeira vez, diz Adão e Silva. E tem razão. Os eleitores que agora votam em Ventura pela primeira vez podem nunca mais voltar. Cada voto normaliza, cada abstenção facilita, cada equidistância covarde da direita moderada pavimenta o caminho para a barbárie.

Neste contexto, a operação da Polícia Judiciária contra o grupo neonazi liderado por Mário Machado só peca por tardia. Não faltavam provas incriminatórias contra estes indivíduos — sinistras caricaturas do que devem ser os seres humanos — que faziam da violência xenófoba o seu programa político e da intimidação racial a sua prática quotidiana. Durante demasiado tempo deixámo-los agir, organizar-se, recrutar, agredir. E agora descobrimos que entre os 37 detidos estão um polícia e um militar, que há ligações a grupos organizados de claques de futebol, que existe uma estrutura hierárquica estabelecida que opera há anos em plena luz do dia.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime hediondo continuam ativos na mesma lógica de violência racista. Isto não é apenas falha policial — é falha civilizacional. É o resultado de décadas de complacência com o discurso de ódio, de normalização da xenofobia, de tolerância com a intolerância. Quando a extrema-direita passa de marginal a mainstream, quando políticos eleitos legitimam o racismo com eufemismos sobre "segurança" e "identidade nacional", não nos podemos surpreender quando aparecem milícias neonazis a agredir imigrantes nas ruas.

E aqui chegamos ao terceiro elemento desta equação: a luta sindical que a CGTP liderará — pela habitual falta de comparência da UGT — contra o pacote laboral de Montenegro. Esta será outro momento fundamental da luta pela democracia. Porque os "direitos" remanescentes concedidos por esse projeto de lei a quem trabalha só se enquadram nos regimes autocráticos onde os trabalhadores são mercadoria descartável e os sindicatos são domesticados ou abolidos.

Montenegro pode anunciar acordos plurianuais com a UGT e dar a ideia de que a CGTP está isolada. Mas a verdade é que um pacote laboral que precariza ainda mais as relações de trabalho, facilita os despedimentos, reduz direitos conquistados ao longo de décadas, não é apenas uma questão técnica de gestão económica — é um ataque frontal à dignidade de quem trabalha. É a preparação do terreno social para o autoritarismo político.

Porque o fascismo não chega ao poder apenas pelo voto. Decorre da erosão prévia das condições materiais de vida das pessoas, pela destruição das redes de proteção social, pela precarização permanente. E da insegurança económica tão insuportável que as pessoas aceitam qualquer promessa de ordem, mesmo que seja a do chicote.

Por isso a luta contra o pacote laboral não é apenas uma luta sindical — é uma luta antifascista. E por isso votar em Seguro contra Ventura não é apenas escolher o menor de dois males — é escolher a possibilidade de continuar a luta pela Democracia com maiúscula, mesmo dentro dos limites apertados da democracia com minúscula.

Não teço ilusões. Seguro não será o presidente que transforma Portugal num país mais justo. Não desafiará o poder económico, não questionará a NATO, não porá em causa o capitalismo. Mas garantirá — e já não é pouco — a continuação do respeito pelas liberdades constitucionais que permitem continuar a lutar por algo melhor. Ventura, esse, fecharia definitivamente essa possibilidade.

Entre a náusea de votar num candidato de direita e a necessidade de travar o fascismo, não há dúvida possível. A náusea passa. O fascismo, uma vez instalado, demora gerações a ser derrotado. E o preço dessa derrota mede-se em sangue, tortura, campos de concentração, vidas destruídas.

Votarei em Seguro sem entusiasmo mas sem vergonha. Porque às vezes a dignidade política não está em votar naquilo em que se acredita, mas em impedir aquilo que se combate. E o fascismo, mesmo vestido de fato e gravata, mesmo falando a linguagem do século XXI, continua a ser o inimigo absoluto de tudo aquilo em que acredito.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Nojo e a questão de fundo: que bestas estão a vestir a farda?

 

Nesta última sexta-feira antes da primeira volta de umas presidenciais, que deixarão de fora os candidatos das esquerdas vindos à boca de cena, será mais pertinente manifestar o nojo pelo comportamento dos polícias da Esquadra do Rato acusados pelo Ministério Público de agredirem, até mesmo violarem, os pobres desgraçados caídos nas suas malhas. E dar razão a Daniel Oliveira quanto à questão subjacente a estes factos: que tipo de bestas estão a contratar-se para serem polícias ao verificarem-se casos de quem se serve da farda para dar livre curso às suas perversões íntimas e preconceitos xenófobos?

David Pontes, no editorial do Público, acerta ao dizer que a notícia atingiu o país "como um murro no estômago". Mas a verdade é que este murro devia ter sido previsto, esperado, antecipado. Não porque casos de tortura e violação sistemáticas dentro de uma esquadra sejam normais — não o são, e nunca o deverão ser — mas porque os sinais de podridão dentro das forças de segurança têm sido abundantes e consecutivamente ignorados.

Os dois agentes acusados torturavam e violavam pessoas vulneráveis — na sua maioria imigrantes, os mais frágeis entre os frágeis — e filmavam as suas atrocidades para partilhar num grupo de WhatsApp com cerca de 70 pessoas, presumivelmente outros polícias. Faziam-no com gáudio, com prazer sádico, com a certeza da impunidade. Durante quase um ano, mais de uma dezena de vítimas foram abusadas sistematicamente no interior da esquadra. E ninguém sabia? Ninguém via? Ninguém ouvia os gritos?

A hierarquia da PSP denunciou o caso, é verdade, e merece crédito por isso. O Ministério da Administração Interna veio a público lamentar "profundamente estes comportamentos" e assegurar que "não representam a generalidade dos profissionais da PSP". Aceitemos que isto seja verdade — a maioria dos polícias não são torturadores nem violadores. Mas esta não pode ser toda a resposta, porque a pergunta de fundo permanece intocada: como é que isto foi possível?

Como é que durante quase um ano, dentro de uma esquadra, no coração de Lisboa, agentes da autoridade puderam transformar o espaço que deveria proteger os cidadãos numa câmara de tortura? Como é que a "generalidade dos elementos dessa unidade" não sabia — ou, pior ainda, sabia e optou pelo silêncio cúmplice em vez da denúncia a que estava legalmente obrigada?

E o que dizer das 70 pessoas no grupo de mensagens que recebiam vídeos de torturas e violações? Também não sabiam? Também acharam que não era com elas? Também decidiram que era melhor calar e fingir que nada se passava?

O silêncio não é inocente. Nunca foi. O silêncio perante a barbárie é cumplicidade ativa, é pacto com os algozes, é traição às vítimas. E se há 70 pessoas num grupo a receber imagens de tortura sem denunciar, então o problema não são dois polícias psicopatas — é uma cultura institucional que permite, tolera e até eventualmente celebra este tipo de comportamento.

Mas há uma dimensão ainda mais sinistra nesta história: a maioria das vítimas identificadas são imigrantes. Não é coincidência. É padrão. Sucessivos episódios — desde a partilha de discurso de ódio nas redes sociais até ao caso de uma milícia neonazi dentro da PSP — mostram que há gente nesta força que convive confortavelmente com o racismo e a xenofobia. Podem não ser todos, podem até ser uma minoria, mas essa minoria está a mais. E o que é pior: essa minoria sente-se suficientemente segura para agir abertamente, para filmar as suas atrocidades, para partilhá-las como troféus.

Isto levanta a questão fundamental que Daniel Oliveira formulou e que o editorial do Público deveria ter desenvolvido mais: que tipo de pessoas estão a ser recrutadas para as forças de segurança? Que filtros — se é que existem — estão a ser aplicados no processo de seleção? Que formação — se é que existe — está a ser dada sobre direitos humanos, sobre respeito pela dignidade das pessoas, sobre os limites éticos e legais do uso da força?

E mais importante ainda: que tipo de cultura institucional está a ser cultivada dentro da PSP que permite que jovens profissionais, acabados de sair da escola de polícia, já se comportem como torturadores convictos? Porque, e isto é o alerta mais sério que se pode retirar deste caso, os dois acusados não são polícias veteranos brutalizados por décadas de trabalho árduo. São jovens. Formados recentemente. O futuro da instituição.

Se o futuro da PSP são jovens que acham normal torturar imigrantes e partilhar vídeos das torturas com os colegas, então o problema não está apenas nestes dois indivíduos — está no sistema que os formou, na cultura que os acolheu, na hierarquia que não os travou a tempo.

A campanha eleitoral que nos distrai nestes dias faz desta questão mais um tema para declarações indignadas e promessas vazias. Mas quando as urnas fecharem e os votos forem contados, esta realidade permanecerá: há pessoas com farda e arma ao serviço do Estado que usam esse poder para dar livre curso às suas perversões mais íntimas e aos seus preconceitos mais abjetos. E há dezenas, talvez centenas de outras pessoas também com farda que sabem, veem, e calam.

O Ministério pode lamentar profundamente, a hierarquia pode classificar de gravíssimo, os comunicados podem multiplicar-se. Mas enquanto não houver uma limpeza radical desta podridão, enquanto não se investigarem e punirem todos os cúmplices silenciosos, enquanto não se reformular por completo o processo de recrutamento e formação dos polícias, enquanto não se erradicar a cultura de impunidade e camaradagem perversa que permite estas barbaridades, continuaremos a ser atingidos por murros no estômago.

E cada murro destes deveria servir de lembrete: quando o Estado contrata bestas e lhes dá farda, arma e poder sobre os mais vulneráveis, não está a garantir a segurança dos cidadãos. Está a armá-las para a caça aos indefesos.

Calar isto, como bem diz David Pontes, é ser cúmplice com os culpados. E a cumplicidade, neste país, já vai demasiado funda e demasiado alta na cadeia de comando para que possamos continuar a fingir que se trata apenas de maçãs podres isoladas. A podridão é sistémica. E enquanto não a enfrentarmos como tal, os murros no estômago continuarão a chegar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre o Sufoco e a Urgência: Votar Contra o Abismo

 

A primeira volta das presidenciais coloca-me perante uma escolha clara: votarei num dos três candidatos das esquerdas verdadeiras — e nenhum deles é António José Seguro, que só por piedade ou distração se poderá classificar como "centro-esquerda", seja lá o que isso signifique em tempos de tanta confusão programática. Na segunda volta, farei o que for necessário para travar Ventura, ainda que isso implique votar em Seguro, Marques Mendes ou até Cotrim. Seguirei, se necessário, o conselho histórico de Álvaro Cunhal quando mandou os comunistas votarem em Mário Soares contra Freitas do Amaral: com o nariz tapado, mas votando.

Porém, e aqui Pedro Adão e Silva tem toda a razão no texto hoje inserido na última página do Público: as circunstâncias são radicalmente diferentes de 1986. O que então estava em jogo era a consolidação de uma democracia ainda frágil contra os restos do autoritarismo salazarista. O que está em jogo agora é a defesa daquilo a que chamam "democracia liberal" — eufemismo contemporâneo para o que outrora se designava honestamente como "democracia burguesa" — contra o fascismo puro e duro que Ventura representa sem disfarces.

E aqui reside o nó górdio desta eleição: os mileiristas de Cotrim, esses arautos do ultraliberalismo que fantasiam um Estado mínimo onde apenas sobrevive quem tem capital, estão objetivamente de braço dado com o despudor autoritário de Ventura. Não por coincidência ideológica explícita, mas porque ambos partilham o mesmo desprezo pelos mais frágeis, a mesma indiferença perante a miséria alheia, a mesma vontade de desmantelar o que resta do Estado social. A indistinção entre a base militante do Chega e a da Iniciativa Liberal nas redes sociais não é acidente — é revelação de uma cumplicidade profunda que apenas se envergonha de si própria quando as câmaras estão ligadas.

Cotrim pode declarar o que quiser sobre apoiar Ventura numa segunda volta. A verdade é que o seu projeto político já apoia Ventura todos os dias ao defender políticas que empurram os portugueses para o desespero do qual o fascismo se alimenta. É isto que Cláudia Santos - num artigo do mesmo Público -demonstra de forma irrefutável no seu texto sobre a insegurança real dos portugueses.

E aqui subscrevo totalmente a sua análise: a verdadeira insegurança que assola o país não tem nada a ver com a criminalidade — essa é apenas o biombo conveniente que Montenegro e Ventura usam para esconder a devastação que provocam. A insegurança real tem nome e morada: chama-se desgoverno, chama-se desmantelamento do Estado social, chama-se abandono dos mais vulneráveis.

Treze horas numa urgência hospitalar não são insegurança estatística — são a prova de que o Estado abandonou a sua função primordial de proteger os cidadãos. Não saber onde nascerá o seu bebé não é ansiedade abstrata — é a certeza de que a saúde pública foi sacrificada no altar da austeridade. Um homem que morre no Seixal esperando três horas por uma ambulância não é uma fatalidade — é um homicídio por negligência institucional.

E quando o Governo de Montenegro substitui políticas sociais por políticas punitivas, quando finge resolver problemas inexistentes (a criminalidade não aumentou significativamente, nem tem relação com a imigração) para ocultar os problemas reais que não resolve (saúde, habitação, emprego precário), está a fabricar ativamente as condições para o caos social que depois usará como justificação para mais repressão.

A história de Nem da Rocinha que Cláudia Santos evoca é o espelho do nosso futuro se continuarmos neste caminho: um pai que se torna criminoso porque o Estado o abandonou quando a filha adoeceu. Quantos portugueses estão hoje a um passo desta mesma encruzilhada? Quantos pais desesperados, quantos doentes sem tratamento, quantos jovens sem futuro, quantos trabalhadores precários estão a ser empurrados para a margem do abismo pela indiferença calculada de quem governa?

Montenegro escolheu a segurança como bandeira, mas apenas a segurança performativa das operações policiais espetaculares e das conferências de imprensa em horário nobre. Enquanto isso, a insegurança real — a de não ter casa, a de não ter emprego digno, a de não ter acesso a saúde — cresce exponencialmente. E é precisamente esta insegurança real que alimenta a violência delinquente que depois serve de pretexto para mais Estado policial e menos Estado social.

O círculo vicioso é perfeito: destroem-se as redes de proteção social, empurram-se as pessoas para o desespero, aguarda-se que o desespero se transforme em violência, usa-se essa violência para justificar mais repressão e menos apoio social. É o warfare a substituir o welfare, é a guerra contra os pobres disfarçada de guerra contra o crime.

E por isso, quando vou votar na primeira volta num candidato de esquerda verdadeira, não estou apenas a escolher um programa político — estou a recusar este caminho de barbarização social que nos querem impor. E quando votar, se necessário, contra Ventura na segunda volta, mesmo que seja em Seguro, não estarei a defender uma democracia liberal que me satisfaça — estarei apenas a tentar evitar que o fascismo explícito substitua a violência sistémica que já nos governa.

É pouco? É pouco. Mas entre o sufoco quotidiano da democracia burguesa e a asfixia total do fascismo, há ainda uma diferença que justifica o esforço de tapar o nariz e votar. Não por esperança, mas por recusa do pior. E porque, como Cunhal sabia, há derrotas estratégicas que se aceitam para evitar catástrofes definitivas.

O drama é que esta eleição não nos oferece a possibilidade de vencer — apenas a possibilidade de adiar a derrota. E isso, por mais miserável que seja, ainda vale o esforço de ir às urnas.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Involuntária Pedagogia de Trump

 

Durante décadas, militantes de esquerda na Europa gastaram rios de tinta e oceanos de palavras tentando demonstrar a verdadeira natureza do poder norte-americano. Escreveram livros densos sobre o imperialismo, organizaram manifestações contra as guerras no Vietname e no Iraque, documentaram golpes de Estado patrocinados pela CIA, expuseram as torturas em Abu Ghraib e Guantánamo. E, no entanto, a mitologia persistia: os Estados Unidos como farol da democracia, terra das oportunidades, guardião das liberdades fundamentais.

Donald Trump conseguiu em poucos anos aquilo que gerações inteiras de críticos do imperialismo nunca alcançaram: desmascarar, sem qualquer pudor, a verdadeira face da "democracia" americana. Não através de denúncias ou de análises marxistas — mas simplesmente sendo ele próprio, agindo sem disfarces, dispensando as cortinas de fumo retórico que tradicionalmente envolviam a brutalidade do poder imperial.

A operação na Venezuela é apenas o episódio mais recente desta pedagogia involuntária. Trump não invocou a defesa da democracia, não fingiu preocupação com os direitos humanos, não fabricou complexas narrativas sobre ameaças à segurança nacional. Disse simplesmente: vamos lá buscar o petróleo. As nossas empresas vão administrar os recursos venezuelanos. Ponto final. É o capitalismo predador sem verniz, o imperialismo sem eufemismos, a rapina colonial apresentada com a naturalidade de quem descreve uma transação comercial.

Mas a lição não se esgota na política externa. Internamente, Trump está a demonstrar com clareza brutal o que sempre foi a relação do Estado norte-americano com a dissidência: tolerância zero para quem ousa contestar o poder. As rusgas contra manifestantes, as ameaças de deportação em massa, o discurso cada vez mais explícito sobre o uso da força contra opositores — tudo isto não é novidade na história americana. A novidade é que agora se faz à luz do dia, sem os costumeiros apelos retóricos à liberdade de expressão e aos valores democráticos.

Os que protestam contra Trump não são tratados como cidadãos exercendo direitos constitucionais, mas como inimigos internos a serem neutralizados. As cowboiadas já não se limitam a matar índios nas fronteiras do império — estendem-se agora a qualquer um que se atreva a gritar demasiado alto na própria metrópole. E a possibilidade de acabar engaiolado numa prisão salvadorenha, esse modelo de brutalidade carcerária que Trump tanto admira, deixou de ser apenas uma ameaça vaga para se tornar perspetiva concreta.

Esta é talvez a ironia mais amarga: Trump está a fazer aquilo que bibliotecas inteiras de teoria crítica nunca conseguiram — está a curar os europeus (e não só) da sua ilusão americana. Durante gerações, milhões sonharam com a emigração para essa pretensa terra das oportunidades, compraram o mito do self-made man, acreditaram que do outro lado do Atlântico existia uma sociedade verdadeiramente livre, onde o mérito triunfava e a justiça prevalecia.

Essa ilusão está a desfazer-se em tempo real. Os que ainda alimentavam fantasias sobre a superioridade moral do modelo americano veem agora o que sempre esteve lá: uma sociedade profundamente desigual, estruturalmente violenta, onde a justiça tem cor e classe social, onde as liberdades fundamentais são concessões revogáveis conforme a conveniência do poder. A ameaça de deportação violenta, de prisão arbitrária, de repressão brutal deveria devolver aos iludidos a sensação de realidade que nunca cultivaram quando se tratava de mitificar as virtudes ianques.

O paradoxo é doloroso: Trump, esse produto tóxico do capitalismo terminal, está a fazer o trabalho pedagógico que a esquerda europeia nunca conseguiu completar. Não por virtude, obviamente, mas por pura falta de hipocrisia. Ele não precisa de fingir — o poder está suficientemente consolidado para se apresentar nu. E nessa nudez obscena revela-se finalmente o que a América sempre foi: não uma democracia assente em regras de justiça e respeito pelas liberdades fundamentais, mas uma plutocracia imperial sustentada pela força, pela rapina e pela capacidade de impor a sua vontade através da violência.

Os liberais americanos, esses que ainda acreditam poder salvar a alma da nação através de procedimentos eleitorais e apelos constitucionais, não parecem compreender a dimensão do desastre. Trump não está a corromper um sistema saudável — está apenas a revelar a podridão que sempre lá esteve, escondida sob camadas de retórica sobre checks and balances e rule of law. O império não se tornou predador com Trump; apenas deixou de fingir que era outra coisa.

Para os europeus que ainda olhavam para os Estados Unidos com inveja ou admiração, a lição é dura mas necessária. Aquilo que tomavam por modelo é afinal um aviso. A célebre frase de que "a América é o futuro" ganha agora um significado sinistro: se deixarmos, este futuro de brutalidade desavergonhada, de desigualdade grotesca, de poder sem freios nem máscaras, pode também ser o nosso.

Trump está a prestar um serviço involuntário à consciência política mundial. Está a rasgar os véus, a despir as ilusões, a mostrar o império tal como sempre foi. Resta saber se teremos a inteligência de aprender a lição antes que seja tarde demais. Porque o que Trump demonstra não é apenas a verdade sobre a América — é também a verdade sobre o que acontece quando o poder se sente suficientemente forte para dispensar qualquer aparência de decência.