quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - VIII. Sebastião, o Ubíquo

 


Há políticos que cabem num só lugar. Sebastião Bugalho recusa-se a esse desperdício de espaço: está em Bruxelas e em Lisboa, é eurodeputado e porta-voz, fala pelo Parlamento Europeu e pelo governo português, tantas vezes sem que ninguém lho tenha pedido.

Nasceu em 1995, o que lhe dá a vantagem estatística de ter tempo para tudo e a desvantagem moral de já querer tudo antes de tempo. Foi, ou tem sido, comentador, cabeça de lista às europeias, eurodeputado, vice-presidente, porta-voz — uma escalada tão vertical que dá vertigens a quem apenas assiste, quanto mais a quem sobe.

O talento maior não é a ambição, que é banal em política, mas a incapacidade de a disfarçar. Outros escondem-na sob modéstia performativa; ele publica-a em fotografias com legendas de duas estrelas, respondendo a quem lhe recorda não haver protagonismos no partido. É uma ambição sem pejo, quase honesta na imprudência — o que a torna, ironicamente, mais suportável do que a dos hipócritas do costume.

O problema é a distância entre o cargo e a voz. Fala de imigração como quem decide políticas migratórias, intima antigos primeiros-ministros como quem tem esse poder, comenta o Chega com a autoridade de quem o vai extinguir por decreto — e é, na verdade, apenas o porta-voz de um partido, ele mesmo dependente de outros para tudo o resto. Confunde amplificação com jurisdição, e a confusão rende-lhe tanto aplausos como gargalhadas, por vezes na mesma frase.

Garante ser "demasiado irrequieto" para esperar a vez, o que é a explicação para o simples facto de ter pressa. Corre entre Bruxelas e Lisboa como quem julga que a ubiquidade ainda não foi inventada apenas porque ninguém a tinha tentado com suficiente convicção.

Há nele qualquer coisa do jovem impaciente que quer ser tudo antes dos trinta e descobre, entre uma sessão plenária e uma conferência de imprensa, não haver tempo para ser mais do que a soma impaciente dos cargos.

Um dia, talvez, pare — não por sabedoria, mas por esgotamento de títulos disponíveis no PSD. Até lá, continuará a falar em nome de instituições que não o mandataram, com o entusiasmo de quem acredita, sinceramente, que a ligeireza é uma forma de competência.

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