sexta-feira, 3 de julho de 2026

Os Deploráveis e o Espelho IV. O Caminho de Regresso

 

Em junho de 2026, Portugal parou. Duas greves gerais, milhares de trabalhadores nas ruas, e uma lei laboral que facilitava despedimentos atirada para o caixote do lixo parlamentar.

Não foi um discurso que a derrotou, nem um argumento bem construído, sequer uma tese sobre a dignidade do trabalho. Foi a paragem concreta de um país concreto, gente que deixou de produzir para fazer ouvir o que tinha a dizer. A lei caiu porque contra ela mostrou-se força, não porque a razão se explicou.

A fortaleza emocional onde o populismo prende os seus não se conquista pela porta da razão, trancada por dentro. Conquista-se por outra via: a da presença, a da solidariedade vivida, a da luta que produz resultados visíveis na vida de quem luta.

A esquerda perdeu o território profundo quando deixou de o habitar, ao trocar o sindicato pela tertúlia, a coletividade pela conferência, a presença quotidiana pela visita de véspera eleitoral.

Reconquistá-lo não se faz com campanhas de esclarecimento — nunca ninguém foi esclarecido para fora de um preconceito por quem lho aponta com o dedo. Faz-se estando. Na aldeia que perdeu a escola, no bairro que perdeu o centro de saúde, na fábrica prestes a fechar. Estando nos anos intermédios, os anos sem eleições, quando ninguém filma e ninguém conta votos.

Porque a mentira reconfortante do populismo tem uma fraqueza decisiva: não cumpre. Promete e não entrega, nomeia culpados e não resolve nada, e a vida de quem nela acreditou continua a piorar.

Esse desengano é a abertura, que não basta — pode atirar para a abstenção, para o cinismo, para uma radicalização ainda maior.

Precisa de encontrar do outro lado alguém que estava lá antes, durante e depois. Alguém que, quando a fábrica fechou, não explicou a globalização — ajudou a ocupar a fábrica.

A greve geral mostrou que isto é possível. As pessoas reconhecem quem está do seu lado quando o veem a lutar a seu lado, não quando o ouvem a teorizar à distância. Tiago Oliveira emocionado nas galerias do parlamento valeu mais, para a reconquista de um eleitorado, do que mil ensaios sobre o desvio populista.

Não há, então, deploráveis. Há pessoas abandonadas que votaram em quem ao menos fingiu reparar nelas. A esquerda não precisa de as convencer de que erraram. Precisa de deixar de as desprezar e voltar a merecer-lhes o voto — com obras, com presença, com luta.

O espelho que Clinton não quis olhar mostra, afinal, uma verdade simples: quem quer mudar o voto dos outros começa por mudar o olhar com que os vê.

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