Começou num navio de cruzeiro holandês, há semanas, com o hantavírus a lembrar-nos que as doenças viajam de primeira classe. Segue agora o ébola no Congo, que de surto localizado se tornou emergência de saúde pública internacional: mais de mil casos confirmados até final de junho, o terceiro maior surto de sempre, uma estirpe — a Bundibugyo — para a qual não existe vacina nem tratamento. O vírus já cruzou para o Uganda e chegou a Goma, cidade de fronteiras porosas e intensa circulação. Está longe. Mas "longe", no mundo dos aviões, é uma distância que se percorre em horas.
Recordemos
o que sentimos há seis anos. Quando a covid chegou, muitos respirámos de um
alívio paradoxal: ao menos apanhou-nos com António Costa no governo e Marta
Temido na Saúde. Havia a convicção — não infundada — de que com Passos Coelho
ao leme, depois de anos a desmantelar o SNS em nome da troika, a pandemia teria
encontrado um serviço de saúde exangue e um governo sem vocação para o
proteger. A gestão da covid teve falhas, como todas as gestões de todas as
pandemias. Mas houve Estado. Houve resposta. Houve a noção de que a saúde
pública é um bem coletivo e não uma despesa a cortar.
Hoje
pedimos à sorte que não nos coloque à prova. Porque a amostra de que dispomos
não tranquiliza.
Meses
atrás, um comboio de tempestades atravessou o país. A resposta do governo de
Montenegro foi de tal ordem que o próprio Presidente da República, em relatório
da Presidência Aberta, apontou "insuficiências de coordenação",
"excesso de improviso" e pagamentos que continuavam por desbloquear.
Se a resposta a tempestades anunciadas pelos serviços meteorológicos com dias
de antecedência foi essa, o que esperar da resposta a uma emergência sanitária,
que não avisa, não agenda e não espera pela regulamentação em decreto-lei?
Um SNS a
quem se retiram sistematicamente receitas — o imposto do tabaco, o das bebidas
açucaradas, desviados para o Orçamento Geral — é um SNS menos preparado para o
imprevisto. Uma saúde gerida na ótica da contenção de despesa é uma saúde
desarmada perante o que exige gasto imediato e maciço. E um governo que trata a
competência como acessório, que multiplica pacotes de propaganda enquanto os
problemas concretos se agravam, não é um governo em que se confie para gerir
uma crise que não perdoa a improvisação.
O ébola, felizmente, transmite-se por contacto direto e não pelo ar, o que limita o seu alcance pandémico. Desta vez, talvez a geografia e a biologia nos protejam. Mas a sorte não é uma política de saúde. E confiar nela é o luxo dos que não têm com que se defender de outro modo.

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