segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Cimeira e os seus Convidados

 


Na semana passada a Figueira da Foz entrou no roteiro internacional da extrema-direita identitária. Chamaram-lhe Remigration Summit — "Cimeira da Remigração" — e reuniram cerca de 500 ativistas, influencers e figuras políticas numa quinta, depois de o Porto ter recusado acolher o evento por falta de espaço disponível para racistas. A organização ficou a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento Reconquista, atualmente investigado pelo Ministério Público por suspeitas de crimes de ódio.

O conceito de "remigração" foi popularizado pelo austríaco Martin Sellner, líder do Movimento Identitário com ligações documentadas ao neonazismo, presente na sala. Significa deportação em massa de imigrantes — e de quem, mesmo tendo nascido no país, não pertença à etnia considerada originária. É uma proposta que, formulada em linguagem de política pública, procura tornar palatável aquilo que, dito claramente, se chama limpeza étnica.

O convidado-surpresa foi Gregory Bovino, antigo comandante da Patrulha de Fronteiras dos Estados Unidos, símbolo da política anti-imigração de Trump — a mesma que produziu a detenção de crianças migrantes e a morte de civis nas fronteiras americanas. Bovino veio mostrar que isto não é teoria: é prática, tem manual e resultados mensuráveis em vidas destruídas.

Os jornalistas foram impedidos de entrar. Os influencers foram autorizados. A distinção é a definição da estratégia: não se quer escrutínio, quer-se amplificação. A mensagem circula nos canais digitais da rede, sem contraditório, diretamente para públicos já mobilizados — o mesmo modelo que transformou o X de Musk num viveiro de radicalismos calibrados por algoritmo.

O que estes homens propõem como solução é o que a administração Trump já está a aplicar como laboratório: fronteiras militarizadas, deportações em massa, erosão das instituições que limitam o poder, desprezo pela lei quando incomoda. O resultado é visível — não como promessa mas como facto: crianças em jaulas, aliados abandonados, instituições esvaziadas, e um país que em três anos de trumpismo perdeu uma guerra, perdeu o controlo do Estreito de Ormuz e perdeu o respeito de quem ainda tinha algum.

Portugal tem uma história comprida com o que acontece quando esta gente chega ao poder. Chama-se Estado Novo e durou quarenta e oito anos. A Figueira da Foz ficará na memória como o lugar onde se reuniram os seus herdeiros espirituais para planearem a sequela.

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