terça-feira, 7 de abril de 2026

Os burgessos da Manosfera

 

Um artigo recente do Público evocou o quanto é séria a ameaça da manosfera, esse universo digital onde rapazes frustrados cultivam ódio às mulheres, ressentimento social e fantasias de violência. O fenómeno indica uma tremenda frustração de muitos jovens com o medíocre presente e com o saberem quão problemático lhes será o futuro — sem perspetivas de emprego estável, sem possibilidade de casa própria, sem os privilégios que as gerações anteriores tiveram.

Mas, ao invés dos que pedem contenção a respeito das razões sociológicas que os tornam assim — como se compreender fosse desculpar, como se explicar fosse justificar — mantenho a convicção de confrontá-los com o quão burgessos são e o quanto poderiam ter melhor rumo se tentassem contrariar essa condição em vez de se afundarem nela.

Sim, o sistema é injusto. Sim, o capitalismo neoliberal destruiu as perspetivas de ascensão social que gerações anteriores tiveram. Sim, a precariedade é estrutural e a frustração é legítima. Mas nada disto justifica transformar as mulheres em bodes expiatórios, cultivar o supremacismo masculino, alimentar a violência misógina.

E há precedente histórico para lidar com isto. Durante anos houve muitos racistas e fascistas entre nós. Sabíamo-los encapotados, envergonhados, escondidos — porque tinham consciência de quão desmascarados e humilhados seriam se ostentassem publicamente o que pensavam. A vergonha social funcionava como travão. Não eliminava o racismo nem o fascismo, mas impedia que se normalizasse, se tornasse aceitável e contaminasse o espaço público.

É fundamental que os burgessos da manosfera voltem a essa clandestinidade, batendo de frente com a constatação da sua misoginia não ser opinião legítima num debate de ideias, mas patologia que merece repúdio social. Que sintam vergonha — não da frustração legítima com o sistema, mas da forma cobarde e destrutiva como escolhem canalizá-la.

Compreender as causas sociológicas não implica tolerância com as consequências. E confrontar a estupidez dos burgessos não é falta de empatia — é recusa de normalizar o inaceitável.

1 comentário:

  1. Vimos recentemente um bom documentário sobre o assunto chamado "Inside The Manosphere" por Louis Theroux. É incrível a falta de escrúpulos e duplicidade desses "influencers". Aqui está o link do trailer, para quem estiver interessado: https://youtu.be/Ms23FeJWvKU?si=vHqmu-FhErxlhXUO

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