Um
artigo recente do Público evocou o quanto é séria a ameaça da manosfera, esse
universo digital onde rapazes frustrados cultivam ódio às mulheres,
ressentimento social e fantasias de violência. O fenómeno indica uma tremenda
frustração de muitos jovens com o medíocre presente e com o saberem quão
problemático lhes será o futuro — sem perspetivas de emprego estável, sem
possibilidade de casa própria, sem os privilégios que as gerações anteriores
tiveram.
Mas,
ao invés dos que pedem contenção a respeito das razões sociológicas que os
tornam assim — como se compreender fosse desculpar, como se explicar fosse
justificar — mantenho a convicção de confrontá-los com o quão burgessos são e o
quanto poderiam ter melhor rumo se tentassem contrariar essa condição em vez de
se afundarem nela.
Sim, o sistema é injusto. Sim, o capitalismo neoliberal destruiu as perspetivas de ascensão social que gerações anteriores tiveram. Sim, a precariedade é estrutural e a frustração é legítima. Mas nada disto justifica transformar as mulheres em bodes expiatórios, cultivar o supremacismo masculino, alimentar a violência misógina.
E há precedente histórico para lidar com
isto. Durante anos houve muitos racistas e fascistas entre nós. Sabíamo-los
encapotados, envergonhados, escondidos — porque tinham consciência de quão
desmascarados e humilhados seriam se ostentassem publicamente o que pensavam. A
vergonha social funcionava como travão. Não eliminava o racismo nem o fascismo,
mas impedia que se normalizasse, se tornasse aceitável e contaminasse o espaço
público.
É
fundamental que os burgessos da manosfera voltem a essa clandestinidade,
batendo de frente com a constatação da sua misoginia não ser opinião legítima
num debate de ideias, mas patologia que merece repúdio social. Que sintam
vergonha — não da frustração legítima com o sistema, mas da forma cobarde e
destrutiva como escolhem canalizá-la.
Compreender
as causas sociológicas não implica tolerância com as consequências. E
confrontar a estupidez dos burgessos não é falta de empatia — é recusa de
normalizar o inaceitável.

Vimos recentemente um bom documentário sobre o assunto chamado "Inside The Manosphere" por Louis Theroux. É incrível a falta de escrúpulos e duplicidade desses "influencers". Aqui está o link do trailer, para quem estiver interessado: https://youtu.be/Ms23FeJWvKU?si=vHqmu-FhErxlhXUO
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