terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Montenegro e a Cartada Desesperada

 

A indigitação de Luís Neves como ministro da Administração Interna é mais uma demonstração do carácter de Luís Montenegro: um chico-esperto sem ideias de como governar o país, mas capaz de cartadas táticas destinadas exclusivamente a preservar-se no poder. Não há estratégia de longo prazo, não há visão de Estado, não há projeto político coerente — apenas sobrevivência política imediata, gestão de crise mediática, tentativa desesperada de recuperar uma imagem pública em queda livre.

A unanimidade em torno do indigitado merece-me profunda desconfiança. E essa desconfiança nada tem a ver com as objeções do Chega — essas são previsíveis e instrumentais. Tem mais a ver com a conhecida boutade de Groucho Marx, que se dizia indisponível para aceitar ser sócio de um clube que o convidasse para tal. Quando toda a gente aplaude, quando o consenso é tão amplo, quando a figura vem ungida numa quase imagem de santidade, alguma coisa não bate certo.

Não ponho em causa a competência técnica de Luís Neves. Ponho em causa a leitura política que faz dele um salvador providencial. E ponho sobretudo em causa como essa imagem de integridade imaculada se coaduna com a aceitação de cumplicidades governativas com gente tão poluente quanto Nuno Melo ou Leitão Amaro. Ou Luís Neves é ingénuo ao ponto de não perceber em que Governo está a entrar, ou é suficientemente pragmático para aceitar conviver com aquilo que publicamente todos reconhecem como mediocridade e oportunismo. Em qualquer dos casos, a santidade atribuída parece-me excessiva.

Mas percebe-se o que Montenegro pretende com esta nomeação. Quer afastar a má imagem pública deixada pela forma desastrosa como reagiu à catástrofe que as sete tempestades seguidas provocaram em Coimbra, Leiria e outras zonas do país. A incompetência foi tão evidente, a ausência de liderança tão gritante, a incapacidade de resposta tão manifesta, que até os media habitualmente amigáveis tiveram dificuldade em disfarçar o desastre.

E aqui confirma-se aquilo que dizíamos durante os governos de António Costa na época dos incêndios estivais ou da pandemia: "ainda bem que não é a direita a estar ao leme". Mais do que se confirmou. Demonstrou-se de forma inequívoca que se trata de gente estruturalmente incompetente. Não é falta de sorte, não é azar conjuntural, não são circunstâncias excecionais — é incompetência de base, incapacidade orgânica para governar em situação de crise.

Quando havia incêndios com António Costa no poder, a direita acusava-o de tudo: de falta de prevenção, de má gestão de meios, de incapacidade de coordenação. Agora que é Montenegro a enfrentar catástrofes naturais, descobre-se que afinal governar em crise é difícil, que coordenar múltiplas entidades é complexo, que a prevenção tem limites. A diferença é que Costa, com todas as suas falhas, tinha pelo menos capacidade de liderança visível. Montenegro tem apenas a capacidade de desaparecer quando é preciso aparecer e de aparecer quando já nada há para fazer senão distribuir declarações de solidariedade vazias.

Mas Montenegro procura também, com esta nomeação, libertar-se do embaraçoso caso da sua casa em Espinho. Tudo nesse caso cheira mal. Os valores declarados não batem certo, as explicações são confusas, os timings são suspeitos. E acaso acontecesse com um político de esquerda não faltariam manchetes de

primeira página ou notícias de abertura dos telejornais durante semanas seguidas.

Até agora os amigos da comunicação social vêm-no poupando na medida do possível. Notícias breves, sem seguimento, rapidamente enterradas por outros temas. Mas até quando o conseguirão? A menos, claro, que Montenegro tenha na Polícia Judiciária e na Procuradoria-Geral da República os amigos necessários para sonegar a verdade dos factos ou para garantir que certos processos não avançam, certas investigações não se aprofundam, certos documentos não aparecem.

Montenegro sabe que perdeu o imerecido estado de graça de que beneficiou durante os primeiros meses de governação. A eleição presidencial demonstrou quão volátil está o seu eleitorado, quão frágil é a sua base de apoio, quão rápido pode desmoronar-se a ilusão de competência que conseguiu vender inicialmente. Seguro chegou a Belém com legitimidade superior à que Montenegro tem em São Bento. E isso muda o equilíbrio de poder, limita as margens de manobra, obriga a recalcular estratégias.

Daí a cartada Luís Neves. É a tentativa de recuperar credibilidade por associação, de colar a imagem de competência técnica de outro a um Governo que a perdeu, de usar uma nomeação consensual como escudo perante críticas crescentes. É, em suma, a tática típica de Montenegro: sem substância estratégica, mas com habilidade para o golpe político imediato que pode adiar problemas sem os resolver.

E a prova cabal da incompetência estrutural deste Governo está no propagandeado Plano de Recuperação e Resiliência Revisto (PTRR). Promete em ambição aquilo que lhe falta em substância. São milhares de milhões anunciados, projetos megalómanos descritos, transformações revolucionárias proclamadas — e zero capacidade demonstrada de executar seja o que for com eficácia.

O PTRR de Montenegro é a metáfora perfeita do seu governo: muito powerpoint, pouca realidade; muita propaganda, pouca execução; muitos anúncios, poucos resultados. É governo de comunicação social, não de governação efetiva. E quando as tempestades chegam — literais ou metafóricas — descobre-se que os powerpoints não seguram telhados, as apresentações não evitam inundações, os comunicados não governam país algum.

Por isso Montenegro precisa de Luís Neves. Não para governar melhor — para parecer que governa melhor. Não para resolver problemas — para adiar o momento em que terá de admitir que não os sabe resolver. Não para fazer o trabalho — para dar a ilusão de que o trabalho está a ser feito.

É a cartada do chico-esperto que ficou sem cartadas a sério. E quando um primeiro-ministro chega a este ponto é porque já perdeu o essencial: a capacidade de governar.

Montenegro pode continuar a fazer cartadas táticas, a nomear figuras consensuais, a gerir crises mediáticas com habilidade de curto prazo. Mas não governa. Apenas sobrevive. E um país não se governa com sobrevivência política. Governa-se com visão, competência e coragem.

Três coisas que Montenegro nunca demonstrou ter. E que Luís Neves, por muito competente que seja, não lhe conseguirá emprestar.

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