A
indigitação de Luís Neves como ministro da Administração Interna é mais uma
demonstração do carácter de Luís Montenegro: um chico-esperto sem ideias de
como governar o país, mas capaz de cartadas táticas destinadas exclusivamente a
preservar-se no poder. Não há estratégia de longo prazo, não há visão de
Estado, não há projeto político coerente — apenas sobrevivência política
imediata, gestão de crise mediática, tentativa desesperada de recuperar uma
imagem pública em queda livre.
A
unanimidade em torno do indigitado merece-me profunda desconfiança. E essa
desconfiança nada tem a ver com as objeções do Chega — essas são previsíveis e
instrumentais. Tem mais a ver com a conhecida boutade de Groucho Marx,
que se dizia indisponível para aceitar ser sócio de um clube que o convidasse
para tal. Quando toda a gente aplaude, quando o consenso é tão amplo, quando a
figura vem ungida numa quase imagem de santidade, alguma coisa não bate certo.
Não
ponho em causa a competência técnica de Luís Neves. Ponho em causa a leitura
política que faz dele um salvador providencial. E ponho sobretudo em causa como
essa imagem de integridade imaculada se coaduna com a aceitação de
cumplicidades governativas com gente tão poluente quanto Nuno Melo ou Leitão
Amaro. Ou Luís Neves é ingénuo ao ponto de não perceber em que Governo está a
entrar, ou é suficientemente pragmático para aceitar conviver com aquilo que
publicamente todos reconhecem como mediocridade e oportunismo. Em qualquer dos
casos, a santidade atribuída parece-me excessiva.
Mas
percebe-se o que Montenegro pretende com esta nomeação. Quer afastar a má
imagem pública deixada pela forma desastrosa como reagiu à catástrofe que as
sete tempestades seguidas provocaram em Coimbra, Leiria e outras zonas do país.
A incompetência foi tão evidente, a ausência de liderança tão gritante, a
incapacidade de resposta tão manifesta, que até os media habitualmente
amigáveis tiveram dificuldade em disfarçar o desastre.
E aqui
confirma-se aquilo que dizíamos durante os governos de António Costa na época
dos incêndios estivais ou da pandemia: "ainda bem que não é a direita a
estar ao leme". Mais do que se confirmou. Demonstrou-se de forma
inequívoca que se trata de gente estruturalmente incompetente. Não é falta de
sorte, não é azar conjuntural, não são circunstâncias excecionais — é
incompetência de base, incapacidade orgânica para governar em situação de
crise.
Quando
havia incêndios com António Costa no poder, a direita acusava-o de tudo: de
falta de prevenção, de má gestão de meios, de incapacidade de coordenação.
Agora que é Montenegro a enfrentar catástrofes naturais, descobre-se que afinal
governar em crise é difícil, que coordenar múltiplas entidades é complexo, que
a prevenção tem limites. A diferença é que Costa, com todas as suas falhas,
tinha pelo menos capacidade de liderança visível. Montenegro tem apenas a
capacidade de desaparecer quando é preciso aparecer e de aparecer quando já
nada há para fazer senão distribuir declarações de solidariedade vazias.
Até
agora os amigos da comunicação social vêm-no poupando na medida do possível.
Notícias breves, sem seguimento, rapidamente enterradas por outros temas. Mas
até quando o conseguirão? A menos, claro, que Montenegro tenha na Polícia
Judiciária e na Procuradoria-Geral da República os amigos necessários para
sonegar a verdade dos factos ou para garantir que certos processos não avançam,
certas investigações não se aprofundam, certos documentos não aparecem.
Montenegro
sabe que perdeu o imerecido estado de graça de que beneficiou durante os
primeiros meses de governação. A eleição presidencial demonstrou quão volátil
está o seu eleitorado, quão frágil é a sua base de apoio, quão rápido pode
desmoronar-se a ilusão de competência que conseguiu vender inicialmente. Seguro
chegou a Belém com legitimidade superior à que Montenegro tem em São Bento. E
isso muda o equilíbrio de poder, limita as margens de manobra, obriga a
recalcular estratégias.
Daí a
cartada Luís Neves. É a tentativa de recuperar credibilidade por associação, de
colar a imagem de competência técnica de outro a um Governo que a perdeu, de
usar uma nomeação consensual como escudo perante críticas crescentes. É, em
suma, a tática típica de Montenegro: sem substância estratégica, mas com
habilidade para o golpe político imediato que pode adiar problemas sem os
resolver.
E a
prova cabal da incompetência estrutural deste Governo está no propagandeado
Plano de Recuperação e Resiliência Revisto (PTRR). Promete em ambição aquilo
que lhe falta em substância. São milhares de milhões anunciados, projetos
megalómanos descritos, transformações revolucionárias proclamadas — e zero
capacidade demonstrada de executar seja o que for com eficácia.
O PTRR
de Montenegro é a metáfora perfeita do seu governo: muito powerpoint,
pouca realidade; muita propaganda, pouca execução; muitos anúncios, poucos
resultados. É governo de comunicação social, não de governação efetiva. E
quando as tempestades chegam — literais ou metafóricas — descobre-se que os powerpoints
não seguram telhados, as apresentações não evitam inundações, os comunicados
não governam país algum.
Por isso
Montenegro precisa de Luís Neves. Não para governar melhor — para parecer que
governa melhor. Não para resolver problemas — para adiar o momento em que terá
de admitir que não os sabe resolver. Não para fazer o trabalho — para dar a
ilusão de que o trabalho está a ser feito.
É a
cartada do chico-esperto que ficou sem cartadas a sério. E quando um
primeiro-ministro chega a este ponto é porque já perdeu o essencial: a
capacidade de governar.
Montenegro
pode continuar a fazer cartadas táticas, a nomear figuras consensuais, a gerir
crises mediáticas com habilidade de curto prazo. Mas não governa. Apenas
sobrevive. E um país não se governa com sobrevivência política. Governa-se com
visão, competência e coragem.
Três coisas que Montenegro nunca demonstrou ter. E que Luís Neves, por muito competente que seja, não lhe conseguirá emprestar.

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