Estamos num país onde os patos bravos dos anos sessenta não desapareceram. Continuam por cá, prosperando, embolsando todos os subsídios disponíveis, construindo tão barato quanto possível, vendendo tão caro quanto o mercado aguenta, empregando um exército de emigrantes por salários miseráveis associados a nenhuns direitos. Mudaram de geração, talvez de fato, certamente de retórica — mas a lógica é exatamente a mesma: lucro máximo, investimento mínimo, o resto que se lixe.
As consequências das tempestades dos dias mais recentes vieram demonstrar essa situação no seu esplendor. As linhas elétricas e as das comunicações móveis continuam a passar por via aérea em vez de enterrada — porque enterrar custa mais, demora mais, exige mais planeamento. Os materiais de construção revelam-se frágeis para ventos mais fortes — porque materiais resistentes custam mais, reduzem a margem de lucro, complicam a execução rápida. A urbanização em leitos de cheia com impermeabilização dos solos a montante resulta em situações como as de Gaia ou de Alcácer do Sal — porque construir onde não se deve é mais barato do que respeitar condicionantes ambientais, e impermeabilizar é mais rápido do que preservar capacidade de absorção natural.
Não é incompetência. É escolha. Uma escolha deliberada, sistemática, protegida por décadas de cumplicidade entre quem constrói e quem licencia, entre quem lucra e quem fiscaliza, entre quem faz obra e quem distribui dinheiro público.
Quando as linhas elétricas caem à primeira rajada de vento forte, não é falha técnica — é consequência direta de décadas de opção por soluções baratas em vez de soluções adequadas. Quando as casas ficam sem telhado, não é porque o vento foi excecionalmente forte — é porque os materiais e as técnicas de construção foram excecionalmente medíocres. Quando bairros inteiros ficam inundados, não é porque choveu muito — é porque se construiu onde não se devia e se impermeabilizou o que deveria ter ficado permeável.
E depois vêm as declarações de solidariedade, as promessas de reconstrução, os apoios de emergência. Tudo pago com dinheiro público, naturalmente. Reconstruir o que foi mal construído à primeira, reparar o que nunca deveria ter sido danificado se tivesse sido bem feito, compensar as vítimas de decisões que enriqueceram outros.
É o ciclo perfeito: os patos bravos constroem barato, vendem caro, embolsam os lucros. Quando a construção falha — e falha sempre, mais cedo ou mais tarde — é o Estado que paga a reconstrução. E quem reconstrói? Os mesmos. Com os mesmos métodos. Para os mesmos resultados. Até à próxima tempestade.
Precisávamos de quem pensasse o futuro numa lógica preventiva, mesmo investindo mais do que a cultura dos tais patos bravos pressupõe. Precisávamos de linhas enterradas que não caem com o vento. De materiais de construção que resistem a tempestades previsíveis. De planeamento urbano que respeita leitos de cheia e capacidade de absorção dos solos. De fiscalização que fiscaliza a sério, de licenciamento que condiciona a sério, de penalizações que doem a sério quando se constrói mal.
Mas quem tem o poder e distribui o dinheiro público enjeita o provérbio popular sobre sair caro o que parece ser barato. Porque para eles não sai caro — sai barato e rende muito. E quando finalmente se prova caro, quem paga não são eles. São os que ficam sem luz, sem comunicações, sem casa, sem segurança.
Os patos bravos dos anos sessenta ficaram ricos construindo mal e rápido. Os patos bravos de hoje continuam a ficar ricos exatamente da mesma maneira. A única diferença é que agora têm acesso a fundos europeus, a programas de desenvolvimento regional, a incentivos à construção. Mais dinheiro público para embolsar. Mais oportunidades para construir barato e vender caro. Mais lucros privados extraídos de investimento público.
E quando a tempestade vem — e a tempestade vem sempre — somos nós que pagamos. Duas vezes: primeiro quando financiamos a construção barata através de subsídios e fundos públicos, depois quando financiamos a reparação dos estragos que essa construção barata inevitavelmente provoca.
Os patos bravos nunca morreram. Apenas evoluíram. E enquanto continuarem a ter quem lhes distribui dinheiro público sem exigir qualidade, quem lhes licencia obras sem fiscalizar execução, quem lhes permite construir em leitos de cheia e impermeabilizar à vontade, continuarão a prosperar.
E nós continuaremos a pagar. A conta da ganância alheia. Como sempre.

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