segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A tempestade que desnudou os politiqueiros

 

A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição que mede-se em casas inundadas, estradas destruídas, vidas arruinadas. Mas deixou também outro tipo de destroços: a evidência crua de quem são os políticos que nos governam e pretendem governar. Quando a catástrofe obriga à resposta imediata, quando não há tempo para preparar discursos nem afinar estratégias, revela-se o carácter. E o que Kristin revelou não é bonito.

Comecemos por Marcelo Rebelo de Sousa, esse mestre da dualidade que ao longo de dez anos tem praticado dois pesos e duas medidas com a destreza de um prestidigitador. Quando António Costa era primeiro-ministro, cada inundação, cada incêndio, cada catástrofe natural servia de pretexto para Marcelo ir ao terreno numa postura de crítica enfática ao Governo. Visitava as zonas afetadas com ar grave, ouvia as queixas das vítimas com expressão consternada, e depois deixava cair declarações que, sem nunca nomearem Costa diretamente, apontavam inequivocamente para a suposta ineficácia governamental.

Agora, com Luís Montenegro em São Bento, a tempestade Kristin mereceu de Marcelo uma indulgência comovente. Nada de críticas veladas, nada de visitas ostensivas às zonas destruídas para contrastar com a (in)ação governamental, nada da pressão pública que tantas vezes exerceu sobre executivos de esquerda. Apenas solidariedade institucional, compreensão pelas dificuldades, reconhecimento dos esforços. É a mesma tempestade, são os mesmos destroços, são as mesmas vítimas — mas o primeiro-ministro é diferente, logo a postura presidencial também é.

Já vai sendo tempo de consensualizar uma tese: Marcelo Rebelo de Sousa concorreu a Belém em 2016 porque as esquerdas estavam com uma força notável após a "geringonça" e ele tudo deveria fazer para infletir a relação de forças a nível político. No que, infelizmente para nós, foi bem-sucedido. Durante dez anos, Marcelo usou a presidência não como magistratura de influência equilibrada, mas como contrapeso sistemático às maiorias de esquerda. E agora, perante um Governo de direita que se revela tão ou mais incompetente na gestão de crises do que qualquer outro, Marcelo transforma-se em protetor paternal.

Esta duplicidade não é falha de carácter — é estratégia política. E deveria ser nomeada como tal, em vez de continuarmos a fingir que Marcelo é o presidente consensual e acima das fações que ele próprio se esforça por parecer.

Passemos a André Ventura, que transformou a tragédia de milhares de pessoas numa oportunidade de campanha eleitoral tão grotesca que até o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, sentiu necessidade de o criticar publicamente. E Lopes tem razão: é indecoroso o aproveitamento da destruição causada pela Kristin para fazer propaganda política. Ventura percorreu zonas afetadas não para ajudar, não para ouvir, mas para ser filmado. Fez declarações incendiárias sobre a incompetência governamental — ele, que nunca governou nada, que nunca geriu nada, que nunca resolveu problema algum.

O espantoso não é que Ventura seja um oportunista — isso já todos sabíamos. O espantoso é que os seus apoiantes, normalmente tão orgulhosos da sua "chico-espertice", da sua capacidade de "não se deixarem enganar pelos políticos", continuem a não ver a vigarice monumental em que embarcaram. Ventura não tem propostas para prevenir inundações, não tem planos para melhorar a proteção civil, não tem soluções técnicas para nada. Tem apenas a capacidade de aparecer nas tragédias alheias com ar indignado e câmaras atrás.

É o populismo na sua forma mais pura e obscena: transformar o sofrimento real de pessoas reais em combustível para a máquina de propaganda. E os que votam nele, convencidos de que finalmente encontraram alguém que "diz as verdades", não percebem que estão a ser manipulados por alguém que usa essas "verdades" apenas como instrumento de ascensão pessoal.

Mas se Ventura deu um espetáculo lamentável, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, conseguiu a proeza de fazer ainda pior. O vídeo que publicou nas redes sociais — e que entretanto foi apressadamente retirado — revelou uma combinação de insensibilidade e estupidez que até para quem já lhe conhecia as limitações intelectuais causou espanto.

Já tínhamos identificado em Leitão Amaro uma inteligência mais do que deficitária, inversamente proporcional à ilusão que ele próprio alimenta sobre os efeitos da sua bravata oportunista. Mas ver essa evidência exposta de forma tão clara, tão irrefutável, tão documentada em vídeo — convenhamos que não o julgávamos tão mentecapto. Publicar conteúdo promocional do Governo enquanto milhares de pessoas estavam sem casa, sem água, sem eletricidade, é de uma falta de tato político que só pode ser explicada por incompetência ou por desprezo absoluto pela perceção pública. Provavelmente ambos.

Leitão Amaro é o exemplo perfeito do político que confunde habilidade tática com capacidade estratégica, que pensa que pequenos golpes de comunicação substituem governação efetiva, que acredita compensar indefinidamente a ausência de substância. Não pode. E Kristin provou-o de forma brutal.

Pelo contrário, o comportamento de António José Seguro durante estes dias tem sido exemplar. Não fez do sofrimento alheio palanque eleitoral, não instrumentalizou a tragédia para atacar o Governo, não aproveitou a catástrofe para se promover. Limitou-se a fazer o que um futuro Presidente deve fazer: manifestar solidariedade genuína, manter a dignidade institucional, separar a campanha eleitoral da resposta à emergência.

É verdade que não me sobram ilusões quanto ao que será a postura de Seguro em Belém. Não replicará para o lado inverso da balança a bem-sucedida estratégia marcelista de usar a presidência como contrapeso político permanente. Seguro será, previsivelmente, o presidente conciliador, que evita conflitos com o poder executivo mesmo quando seriam necessários. Isso é uma limitação, não uma virtude.

Mas nestes dias de tempestade, Seguro mostrou a Ventura algo que este, nem que se esforçasse por mil anos, seria capaz de aprender e replicar: sentido ético. A capacidade de perceber que há momentos em que a decência humana deve sobrepor-se ao cálculo político. Que há limites que não se ultrapassam, mesmo quando poderia obter vantagens eleitorais. Que a dignidade institucional não é apenas uma pose, mas um dever.

Ventura não tem este sentido porque não tem ética — tem apenas ambição. E a diferença entre os dois ficou ainda melhor espelhada durante a passagem da Kristin. Um candidato presidencial comportou-se como estadista, ainda que moderado em excesso. O outro comportou-se como abutre eleitoral, à espera que a tragédia lhe trouxesse mais votos.

A tempestade passou. Os destroços materiais levarão meses, talvez anos, a ser reparados. Mas os destroços políticos — a evidência de quem é Marcelo, de quem é Ventura, de quem é Leitão Amaro, de quem é Seguro — esses ficam registados. E na segunda volta das presidenciais, quando os eleitores tiverem de escolher entre um homem que demonstrou ter limites éticos e outro que demonstrou não ter limite algum, talvez se lembrem de como cada um se comportou quando a água destruía casas e vidas.

Ou talvez não. Talvez a memória seja curta, talvez a indignação passe, talvez o oportunismo continue a vencer. Mas pelo menos ficará registado, para quem quiser ver, que quando a tempestade desnudou os políticos, alguns revelaram-se exatamente como sempre foram. E isso, por si só, já devia bastar para uma escolha informada.

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