terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O vencedor improvável que afinal resultou

 

Pronto. António José Seguro ganhou. E ainda bem. Ainda bem mesmo, apesar de nunca ter tido por ele qualquer simpatia política e, militante do PS, ter apoiado a sua substituição como secretário-geral por representar tudo aquilo que de mais conservador e acomodatício existe na dita social-democracia portuguesa.

Mas a realidade obriga a reconhecimentos desconfortáveis. E a posteriori, posso dar alguma razão a Susana Peralta quando afirmou que Seguro foi "afinal o candidato ideal da esquerda". Sem com isso reconhecer que ele se enquadra nesse campo ideológico ao qual nunca o vi pertencer. Porque uma coisa é ser o candidato que a esquerda precisava nestas circunstâncias específicas, outra completamente diferente é ser um candidato de esquerda.

A distinção não é bizantina. É essencial para perceber o que acabou de acontecer e o que pode vir a acontecer.

Seguro foi o candidato ideal não pelas suas convicções políticas — que permanecem firmemente ancoradas no centro-direita do espectro socialista — mas pelas circunstâncias que o rodearam e pela capacidade que demonstrou de agregar muito para além do seu campo natural. Os números falam por si: duplicou os votos da primeira volta, construindo uma coligação eleitoral que foi das forças esquerdistas aos liberais moderados, passando por uma parte significativa do eleitorado tradicional da AD que não se reviu em Ventura.

Do outro lado, Ventura conseguiu apenas um pífio alargamento da sua base de apoio. Entre as duas voltas, apesar de toda a mediatização, de toda a campanha agressiva, de todo o aproveitamento oportunista da tempestade Kristin, Ventura revelou ter um teto eleitoral muito mais baixo do que os seus apoiantes gostam de admitir. E este é um dado fundamental: dois terços dos eleitores portugueses demonstraram de forma inequívoca que não o querem. Dois terços. Quem é que Ventura pensa enganar quando anuncia que chegará em breve ao poder?

Esta derrota pode, aliás, prognosticar a iminente travagem do crescimento contínuo do Chega. O fenómeno, que durante alguns anos pareceu imparável, pode ter atingido o seu pico e começar agora a definhar — como sempre sucedeu historicamente com este tipo de populismos. São movimentos de moda política, alimentados por conjunturas específicas, que crescem rapidamente, mas que também podem desmoronar-se quando confrontados com os limites da sua própria proposta. Ventura oferece indignação, ressentimento, bodes expiatórios — mas não oferece soluções. E quando os eleitores percebem isso, quando o feitiço se desfaz, estes movimentos tendem a implodir com a mesma velocidade com que emergiram.

Claro que seria ingenuidade pensar que o fascismo desaparecerá sozinho. Não desaparecerá. Mas estas eleições demonstram que tem limites eleitorais que Ventura preferiria ignorar. E essa constatação é, em si mesma, importante.

O resultado tem outra consequência política imediata: Seguro chega a Belém com maior legitimidade democrática do que Luís Montenegro tem em São Bento. E isto não é detalhe processual — é facto político com consequências práticas. Montenegro, na sua habitual miopia estratégica, olhava para os dois terços que, somando Chega e IL aos votos da AD, possibilitariam teoricamente a mudança da Constituição. Fazia os seus cálculos, alimentava as suas fantasias de maioria constitucional conservadora, imaginava-se a liderar uma refundação da República à direita.

Terá agora de haver-se com um presidente que tem legitimidade superior à sua e que, apesar de todas as limitações ideológica, quer estabilidade constitucional. Seguro não será o presidente interventivo que questionará sistematicamente as políticas do Governo — não é essa a sua natureza política. Mas também não será o presidente complacente que facilitará aventuras constitucionais ou que tolerará normalizações do Chega. Há limites que, por conservadorismo institucional mais do que por convicção progressista, Seguro não deixará ultrapassar.

E Montenegro, confrontado com estes novos dados da realidade política, reagiu de forma lamentável. O discurso que proferiu na noite da sua nova derrota — porque isto foi derrota de Montenegro tanto quanto de Ventura — foi a reconfirmação do já sabido: é demasiado medíocre para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Não teve grandeza para reconhecer o significado da votação, não teve inteligência para perceber as suas implicações, não teve sequer o básico sentido de oportunidade para ajustar o discurso ao momento.

Montenegro continua preso à pequena tática, aos cálculos mesquinhos, à incapacidade congénita de ler o que está para além do imediato. Pensou que a equidistância entre Seguro e Ventura lhe traria dividendos. Enganou-se. Pensou que podia cavalgar o tigre do fascismo sem ser devorado. Está a perceber que não pode. Pensou que tinha espaço para manobrar entre a direita moderada e a extrema-direita. Descobriu que esse espaço está a fechar-se rapidamente.

E agora terá pela frente cinco anos de coabitação com um presidente que, sendo conservador, tem legitimidade democrática superior à sua e não estará disponível para as aventuras constitucionais que Montenegro possa imaginar com os parceiros à direita.

Quanto a Seguro, o que fará em Belém? As expectativas não podem ser elevadas para quem esperava uma presidência que contrariasse ativamente a deriva conservadora do país. O mais provável é que seja exatamente aquilo que sempre foi: um moderado institucionalista que privilegia o diálogo sobre o conflito, a estabilidade sobre a mudança, o consenso sobre a rutura.

Não será o presidente que bloqueie sistematicamente iniciativas legislativas regressivas, que force referendos sobre políticas conservadoras, que use o púlpito presidencial para questionar escolhas governamentais que aumentam desigualdades. Será, provavelmente, o presidente que tanto partes do PS como da AD podem acomodar: previsível, não conflituoso, institucionalmente correto.

Isto é uma limitação séria. Porque Portugal precisaria de uma presidência que travasse a normalização do Chega, que defendesse ativamente o Estado social, que usasse a autoridade moral do cargo para questionar políticas que precarizam o trabalho e destroem direitos. Seguro não será esse presidente. Não por má-fé, mas por convicção genuína de que o papel presidencial é o de moderador neutral, não o de ator político interventivo.

Mas — e aqui reside o paradoxo que justifica o "ainda bem" com que comecei — mesmo sendo tudo isto, Seguro continua a ser infinitamente melhor do que a alternativa que enfrentou. Ventura em Belém teria sido catástrofe civilizacional. Seguro em Belém será presidência conservadora e pouco interventiva, mas dentro dos parâmetros democráticos constitucionais.

E talvez seja essa a lição desconfortável destas presidenciais: às vezes, em momentos de perigo extremo, o que se precisa não é do candidato ideal segundo critérios ideológicos puros, mas do candidato capaz de impedir o pior enquanto agrega o suficiente para vencer. Seguro não é de esquerda, mas foi o candidato que conseguiu duplicar votos, demonstrou que Ventura tem teto eleitoral, e impediu a vitória do fascismo. E neste momento histórico específico, isso conta mais do que a pureza programática.

O que não significa que a esquerda deva agora celebrar acriticamente ou iludir-se sobre o que virá. Caberá a elas — dentro e fora do PS — garantir que a contenção do fascismo não se traduza em acomodação total ao status quo. Caberá aos movimentos sociais, aos sindicatos, aos partidos progressistas manter a pressão, exigir mais do que consensos vazios, reclamar políticas que defendam efetivamente quem trabalha.

Seguro ganhou. E ainda bem que ganhou. Mas o reconhecimento desta vitória necessária não pode transformar-se em suspensão da crítica ou em esquecimento de quem ele verdadeiramente é.

Porque uma coisa é certa: António José Seguro não fará por nós o trabalho de transformação social que continua por fazer. Esse trabalho, como sempre, caberá a quem realmente acredita nele. E Seguro, convenhamos, nunca acreditou.

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