Pronto.
António José Seguro ganhou. E ainda bem. Ainda bem mesmo, apesar de nunca ter
tido por ele qualquer simpatia política e, militante do PS, ter apoiado a sua
substituição como secretário-geral por representar tudo aquilo que de mais
conservador e acomodatício existe na dita social-democracia portuguesa.
Mas
a realidade obriga a reconhecimentos desconfortáveis. E a posteriori, posso dar
alguma razão a Susana Peralta quando afirmou que Seguro foi "afinal o
candidato ideal da esquerda". Sem com isso reconhecer que ele se enquadra
nesse campo ideológico ao qual nunca o vi pertencer. Porque uma coisa é ser o
candidato que a esquerda precisava nestas circunstâncias específicas, outra
completamente diferente é ser um candidato de esquerda.
A
distinção não é bizantina. É essencial para perceber o que acabou de acontecer
e o que pode vir a acontecer.
Seguro
foi o candidato ideal não pelas suas convicções políticas — que permanecem
firmemente ancoradas no centro-direita do espectro socialista — mas pelas
circunstâncias que o rodearam e pela capacidade que demonstrou de agregar muito
para além do seu campo natural. Os números falam por si: duplicou os votos da
primeira volta, construindo uma coligação eleitoral que foi das forças esquerdistas
aos liberais moderados, passando por uma parte significativa do eleitorado
tradicional da AD que não se reviu em Ventura.
Esta
derrota pode, aliás, prognosticar a iminente travagem do crescimento contínuo
do Chega. O fenómeno, que durante alguns anos pareceu imparável, pode ter
atingido o seu pico e começar agora a definhar — como sempre sucedeu
historicamente com este tipo de populismos. São movimentos de moda política,
alimentados por conjunturas específicas, que crescem rapidamente, mas que
também podem desmoronar-se quando confrontados com os limites da sua própria
proposta. Ventura oferece indignação, ressentimento, bodes expiatórios — mas
não oferece soluções. E quando os eleitores percebem isso, quando o feitiço se
desfaz, estes movimentos tendem a implodir com a mesma velocidade com que
emergiram.
Claro
que seria ingenuidade pensar que o fascismo desaparecerá sozinho. Não
desaparecerá. Mas estas eleições demonstram que tem limites eleitorais que
Ventura preferiria ignorar. E essa constatação é, em si mesma, importante.
O
resultado tem outra consequência política imediata: Seguro chega a Belém com
maior legitimidade democrática do que Luís Montenegro tem em São Bento. E isto
não é detalhe processual — é facto político com consequências práticas.
Montenegro, na sua habitual miopia estratégica, olhava para os dois terços que,
somando Chega e IL aos votos da AD, possibilitariam teoricamente a mudança da
Constituição. Fazia os seus cálculos, alimentava as suas fantasias de maioria
constitucional conservadora, imaginava-se a liderar uma refundação da República
à direita.
Terá
agora de haver-se com um presidente que tem legitimidade superior à sua e que,
apesar de todas as limitações ideológica, quer estabilidade constitucional.
Seguro não será o presidente interventivo que questionará sistematicamente as
políticas do Governo — não é essa a sua natureza política. Mas também não será
o presidente complacente que facilitará aventuras constitucionais ou que
tolerará normalizações do Chega. Há limites que, por conservadorismo
institucional mais do que por convicção progressista, Seguro não deixará
ultrapassar.
E
Montenegro, confrontado com estes novos dados da realidade política, reagiu de
forma lamentável. O discurso que proferiu na noite da sua nova derrota — porque
isto foi derrota de Montenegro tanto quanto de Ventura — foi a reconfirmação do
já sabido: é demasiado medíocre para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Não
teve grandeza para reconhecer o significado da votação, não teve inteligência
para perceber as suas implicações, não teve sequer o básico sentido de
oportunidade para ajustar o discurso ao momento.
Montenegro
continua preso à pequena tática, aos cálculos mesquinhos, à incapacidade
congénita de ler o que está para além do imediato. Pensou que a equidistância
entre Seguro e Ventura lhe traria dividendos. Enganou-se. Pensou que podia
cavalgar o tigre do fascismo sem ser devorado. Está a perceber que não pode.
Pensou que tinha espaço para manobrar entre a direita moderada e a
extrema-direita. Descobriu que esse espaço está a fechar-se rapidamente.
E
agora terá pela frente cinco anos de coabitação com um presidente que, sendo
conservador, tem legitimidade democrática superior à sua e não estará
disponível para as aventuras constitucionais que Montenegro possa imaginar com
os parceiros à direita.
Quanto
a Seguro, o que fará em Belém? As expectativas não podem ser elevadas para quem
esperava uma presidência que contrariasse ativamente a deriva conservadora do
país. O mais provável é que seja exatamente aquilo que sempre foi: um moderado
institucionalista que privilegia o diálogo sobre o conflito, a estabilidade
sobre a mudança, o consenso sobre a rutura.
Não
será o presidente que bloqueie sistematicamente iniciativas legislativas
regressivas, que force referendos sobre políticas conservadoras, que use o
púlpito presidencial para questionar escolhas governamentais que aumentam
desigualdades. Será, provavelmente, o presidente que tanto partes do PS como da
AD podem acomodar: previsível, não conflituoso, institucionalmente correto.
Isto
é uma limitação séria. Porque Portugal precisaria de uma presidência que
travasse a normalização do Chega, que defendesse ativamente o Estado social,
que usasse a autoridade moral do cargo para questionar políticas que precarizam
o trabalho e destroem direitos. Seguro não será esse presidente. Não por má-fé,
mas por convicção genuína de que o papel presidencial é o de moderador neutral,
não o de ator político interventivo.
Mas
— e aqui reside o paradoxo que justifica o "ainda bem" com que
comecei — mesmo sendo tudo isto, Seguro continua a ser infinitamente melhor do
que a alternativa que enfrentou. Ventura em Belém teria sido catástrofe
civilizacional. Seguro em Belém será presidência conservadora e pouco
interventiva, mas dentro dos parâmetros democráticos constitucionais.
E
talvez seja essa a lição desconfortável destas presidenciais: às vezes, em
momentos de perigo extremo, o que se precisa não é do candidato ideal segundo
critérios ideológicos puros, mas do candidato capaz de impedir o pior enquanto
agrega o suficiente para vencer. Seguro não é de esquerda, mas foi o candidato
que conseguiu duplicar votos, demonstrou que Ventura tem teto eleitoral, e
impediu a vitória do fascismo. E neste momento histórico específico, isso conta
mais do que a pureza programática.
O
que não significa que a esquerda deva agora celebrar acriticamente ou iludir-se
sobre o que virá. Caberá a elas — dentro e fora do PS — garantir que a
contenção do fascismo não se traduza em acomodação total ao status quo. Caberá
aos movimentos sociais, aos sindicatos, aos partidos progressistas manter a
pressão, exigir mais do que consensos vazios, reclamar políticas que defendam
efetivamente quem trabalha.
Seguro
ganhou. E ainda bem que ganhou. Mas o reconhecimento desta vitória necessária
não pode transformar-se em suspensão da crítica ou em esquecimento de quem ele
verdadeiramente é.
Porque uma coisa é certa: António José Seguro não fará por nós o trabalho de transformação social que continua por fazer. Esse trabalho, como sempre, caberá a quem realmente acredita nele. E Seguro, convenhamos, nunca acreditou.

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