Donald Trump apresenta-se como a encarnação da força sem limites. Rapta chefes de Estado, ameaça invasões, desafia o direito internacional, proclama o regresso da "diplomacia da canhoneira". Toda esta retórica assenta numa premissa: Trump não recua, não hesita, não tem medo.
Os factos contradizem a retórica. Em Davos, recuou — ainda que de forma malcriada — quando lhe explicaram as consequências económicas de uma eventual resposta europeia ao assédio à Gronelândia. Adiou sine die o ataque ao Irão quando lhe previram dificuldades militares incomparavelmente maiores do que as do rapto de Maduro.
O padrão é claro: Trump ataca quando o risco de retaliação é mínimo, recua quando o custo potencial é alto. Bombardeia a Venezuela porque sabe que não haverá resposta militar significativa. Ameaça a Gronelândia mas recua perante a possibilidade de resposta económica europeia. Planeia atacar o Irão mas adia quando percebe que não será como raptar Maduro numa operação relâmpago.
É a mesma lógica dos "valentes" de Aveiras: violência exercida apenas quando a superioridade é esmagadora, prudência quando existe possibilidade de resistência efetiva. A diferença é de escala, não de natureza. Trinta neonazis contra um emigrante. A maior potência militar do mundo contra um país empobrecido por anos de sanções. Em ambos os casos, a "coragem" depende da certeza da impunidade.
Esta constatação tem consequências políticas diretas. Os cobardolas — desde os fascistas de rua até aos líderes imperiais — só precisam de resistência para recuar. Não é necessária força equivalente, não é preciso vencer militarmente. Basta demonstrar capacidade e vontade de impor custos.
Montenegro recuará quando perceber que a equidistância perante o fascismo tem custos eleitorais superiores aos benefícios táticos. Rangel mudará de discurso quando a subserviência deixar de ser politicamente sustentável. Macron endurecerá quando a capitulação começar a ter consequências internas graves. Trump recua sempre que encontra resistência credível.
Este é o tempo dos cobardolas porque é o tempo em que a cobardia se tornou estratégia política viável — desde as ruas até aos gabinetes governamentais, desde os grupos de WhatsApp até aos salões de Davos. Mas pode ser também o tempo da sua derrota, se houver quem se recuse a capitular, quem demonstre que a resistência é possível, quem prove que a força dos cobardes é ilusória.
Os 37 detidos do grupo 1143 não foram apanhados porque a polícia se tornou subitamente mais eficaz mas porque houve vontade política para agir sobre provas que existiam há anos. A mudança não foi técnica — foi política. E o que se aplica ao grupo 1143 aplica-se a todas as outras manifestações de cobardia organizada: só precisam de ser confrontadas para desmoronar.

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