Emmanuel Macron aperfeiçoou a técnica da cobardia performativa. Em Paris, faz discursos sobre autonomia estratégica europeia e resistência ao unilateralismo americano. Apresenta-se como o líder que ousa desafiar Washington, que defende a soberania europeia, que não se curva perante Trump.
Depois envia mensagens privadas conciliatórias, faz gestos diplomáticos de apaziguamento, assegura que as declarações públicas são apenas retórica para consumo interno. Trump, que reconhece imediatamente este jogo, responde com desdém público. Macron engole a humilhação e continua.
Esta duplicidade não é uma falha de carácter pessoal — é a expressão política da condição europeia contemporânea. A Europa ainda precisa de fingir dignidade para a sua própria população, mas já não tem poder suficiente para transformar essa dignidade em atos. Resulta numa política externa esquizofrénica: palavras duras, atos suaves. Retórica de resistência, prática de submissão.
Os óculos escuros que Macron usou recentemente nas suas aparições públicas — essa estética emprestada do cinema de ação americano — simbolizam perfeitamente a farsa. Um líder europeu que precisa de parecer-se com Tom Cruise para projetar força já admitiu implicitamente que não a tem. A pose substitui a substância. A imagem compensa a impotência.
Macron não é uma exceção europeia — é a norma. Representa a classe política continental que ainda usa a linguagem da soberania mas já interiorizou a vassalagem. Que ainda faz discursos sobre valores europeus mas já aceitou que esses valores cedem perante os interesses americanos. Que ainda se apresenta eleitoralmente como independente mas governa como dependente.

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