terça-feira, 22 de outubro de 2019

Razões para reiterar a confiança


Nas últimas semanas tem sido intensa a guerra que as direitas têm movido a João Galamba tendo por marioneta circunstancial uma pseudojornalista da RTP conhecida por enviesar os argumentos, silenciar quantos poderiam contestar-lhe as teses e proclamar indícios de corrupção. Não lhe interessa que o ministério público nada venha a encontrar de ilegal no assunto, porque até lá julga ganhar curriculum, que a equipare a outras marionetas habitualmente utilizadas para os mesmos propósitos.
Que João Galamba é odiado intensamente por tal gente não é difícil comprová-lo: basta consultar a sua página no facebook e testemunhar o quanto as redes sociais podem comportar na sua pior faceta. Insultos vis são mais do que muitos só se estranhando como o seu titular tarda em fazer o que corresponderia a um mero exercício de higiene pública: eliminar essas mensagens e bloquear os seus autores. Pelo menos, e pela parte que me toca, não me doam as mãos por quantos biltres assim destratei.
A razão para esse ódio vem de longe: na última década não me lembro de tribuno parlamentar tão dotado para o uso da palavra assassinando sem apelo nem agravo algumas das intervenções mais torpes de Montenegros & Cª, que viram por ele desbaratados os parcos fundamentos com que julgariam enganar quem os ouvisse.
Que as direitas receiam a ação de Galamba no ministério onde viu reforçada a sua ação, sendo-lhe reconhecida a designação de secretário adjunto com responsabilidades transversais num dos quatro pilares fundamentais, definidos no programa eleitoral como determinante para o futuro da economia portuguesa - a transição energética - pressupõe a sua capacidade para agilizar uma evolução capaz de colidir com grandes interesses privados. E essas mesmas direitas sabem que ele não brinca em serviço levando a peito, e com grande determinação, os objetivos a que se propõe.
Explica-se assim o afã em procurar derrubá-lo ou, no mínimo, fragiliza-lo para que não cause tanto prejuízo aos que se sabem condenados a investir na adaptação ou substituição dos seus negócios por tornarem-se incompatíveis com a emergência climática em que estamos aceleradamente a entrar.
A campanha mediática contra o secretário de Estado ainda se torna mais esdrúxula por provir do órgão de informação público. Ora, nestes pretéritos quatro anos, têm sido muitos os portugueses inconformados com o tipo de desinformação oriunda da RTP, manifestamente orientada para prejudicar o governo e alavancar quem afinal se viu derrotado, e até mesmo humilhado, no último ato eleitoral.
Essa recente evidência é bem elucidativa quanto ao desfasamento entre a maioria dos portugueses e a ideologia direitista da que deveria ser a sua televisão. Daí que se encare com grande expetativa a designação de Nuno Artur Silva para tutelá-la, dado não ter surtido qualquer efeito a nomeação de Maria Flor Pedroso para a sua direção de informação. Muito contestada internamente pelos que querem manter o statu quo ela não terá podido evitar que a quinta coluna do «Observador» continuasse a aí ter injustificado ascendente. Até por ser Helena Garrido uma das suas adjuntas, sabendo-se que é, há muitos anos, figura grada desses setores mais direitistas.
Espera-se de Nuno Artur Silva que altere o modelo de nomeação da Administração da RTP para pôr fim à estratégia de Miguel Poiares Maduro, seu inventor, que conseguiu manter durante todos estes anos um assumido militante do PSD a em tudo nela mandar.
Expetativa, igualmente, para a indigitação de Mário Morgado como secretário de Estado no Ministério da Justiça, tendo em conta tratar-se de um juiz desembargador com provas dadas na contestação aos setores  mais corporativistas da sua classe, que são quantos têm contribuído para a má reputação por ela ganha, quer com casos como os de Neto Moura, quer quanto à guerra nela movida contra Ivo Rosa por não se mostrar cúmplice acrítico das conspirações encabeçadas por alguns procuradores.
Aguarda-se, nomeadamente, que seja firme com o sindicato do inenarrável Ventinhas, que tanto torce para que os seus associados não se sujeitem ao escrutínio de quem quer que seja para acusarem quem queiram, mesmo sem provas concretas para porem em causa a inocência de muitos dos que sob a sua alçada caem.
Em suma, olhando para o elenco de ministros e secretários de Estado encontramos razões sobejas para reiterarmos a confiança no quanto irão fazer.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Um governo pronto para acelerar enquanto vão tombando os amigos de Trump ... e de Wall Street


Iniciamos a semana com a composição completa do novo governo, conhecendo-se agora os nomes dos ministros e respetivos secretários de Estado.
Lá virá o estarola da extrema-direita dizer que são demais, mas adivinhamos-lhe dotes semelhantes aos do jagunço brasileiro que, desconhecendo o significado de governação, lá vai desgovernando o rumo do gigante sul-americano em direção a imprevisível abismo. Quanto aos demais partidos representados no parlamento, ou não se lhes conheceu reação ou avançaram com a lógica do senhor de La Palisse: de pouco importam as pessoas, porque relevam as políticas que decidirem. É claro que o Nogueira foi a exceção, mas já estamos habituados a que lembre aqueles putos sempre zangados, que fazem birra facilmente para chamarem a si a atenção.
E já que estamos com a mão na massa falemos dessa outra criança, que John Le Carré considerou andar a fazer-se passar por primeiro-ministro e tem conhecido sucessivas derrotas nas suas estratégias para levar a termo uma ambição, provavelmente seguida do estilhaçamento do Reino Unido, deixando os ingleses a contas com a sua irreversível pequenez.
Os tempos não andam, aliás, de feição para os políticos enfeudados aos interesses da Casa Branca e, por associação, do Pentágono: Netanyahu desistiu de formar governo e tem uma cela à espera em Telavive, o vizinho Hariri acaba de atirar a toalha ao chão após dias sucessivos de contestação popular, no Chile o neopinochetiano Piñera decidiu reprimir os protestos com tal violência, que já se contam onze mortos e mais de dois mil prisioneiros, e o seu parceiro boliviano não conseguiu desalojar Evo Morales da presidência boliviana.
Das movimentações populares no Líbano e no Chile, como semanas atrás no Equador ou na Argentina, as nossas televisões quase têm passado ao lado. Que diferença em relação à Venezuela, que costumava abrir telejornais quando um émulo de Assunção Cristas já se proclamava presidente e, afinal, continua a remoer a frustração dos seus planos. Porque não têm tantos emigrantes quanto o país caribenho? Claro que não, porque não se justificaria, da mesma maneira, o relevo dado às arruaças em Hong Kong, explicáveis em parte pelo tipo de intervenção clandestina das agências de espionagem dos EUA, quando se trata de criar dificuldades ao inimigo visto com o mesmo maniqueísmo dos tempos da Guerra Fria. Após a Ucrânia para agastar a Rússia, eis o momento antichinês, sempre acompanhado da campanha da defesa das liberdades, sobretudo a dos mercados, porque as demais são meramente instrumentais para o objetivo dos grandes grupos financeiros norte-americanos.  Mas será que em Washington ou em Wall Street haverá quem tenha ilusões quanto à iminente supremacia chinesa, que redesenhará a ordem económica internacional nas décadas vindouras?

domingo, 20 de outubro de 2019

As diferenças entre quem fala e quem faz


A participação de Ana Catarina Mendes no programa «Square Idées» do canal franco-alemão ARTE serviu para um eloquente separar de águas na disputa ideológica com neoecologistas do tipo PAN, dado ser-lhe dada como contraponto a intervenção de Delphine Betho, que repete a ladainha conhecida nos argumentos de André Silva & Cª, ou seja, que a urgência climática dilui as diferenças entre as esquerdas e as direitas e tudo se resume a medidas radicais - do tipo fecharem-se já as centrais elétricas que o governo se comprometeu a encerrar em 2023 ou até 2030 ou as muitas proibições que fizeram desse partido uma réplica do Chega quanto à exclusão de quem não pensa  tal qual o fazem os seus dirigentes.
A diferença entre os ecologistas de café e os que agem com coerência para evitar o apocalipse climático é que os primeiros falam, falam, mas nada fazem de concreto para o conseguirem, enquanto os segundos avançam com políticas concretas. De Delphine Bétho nenhum legado ficou da sua passagem pelo governo de François Hollande. Pelo contrário Ana Catarina Mendes tem sido secretária-geral do Partido, que apostou com determinação nas energias renováveis, nas condições de mobilidade tendentes a reduzir significativamente o recurso ao transporte privado através dos passes sociais e do investimento na ferrovia, além de estarem iminentes medidas concretas de melhor utilização da água, mormente através da reutilização das residuais.
O que se ouviu em Delphine Betho ou se ouve em André Silva é o que se deve fazer a partir de agora, porque nenhum deles tem ativo digno de menção nas suas ações passadas. Pelo contrário Ana Catarina Mendes saiu claramente vencedora na disputa à distância com a oponente, porque toda a sua argumentação assentou na credibilidade do que já se fez e do que se pretende fazer mais e melhor.
E ainda mais convincente se mostrou ao alertar para os riscos de se querer avançar com excessiva rapidez: é que a transição energética tem de ser feita com as populações, ganhando-as para a causa e alterando-lhes os padrões de consumo, porque sobram (maus) exemplos de situações em que se quis avançar demasiado depressa, indo contra  elas e, em vez de dois passos para diante recuaram-se muito mais para trás.

sábado, 19 de outubro de 2019

Picuinhices e uma efémera casa das Barbies


Dedicar-se-á Rui Rio à peixeirada ou não? No texto de ontem levantei essa possibilidade enquanto única estratégia para aparentar voz grossa com António Costa e assim ganhar pontos junto dos que irão votar nas diretas daqui a algumas semanas. E logo um amigo reagiu contestando a hipótese por ser contrária à personalidade do visado. Mas será assim? Não tivemos uma boa amostra dessa postura nos últimos dias da campanha eleitoral, quando esqueceu tudo quanto dissera da judicialização da política e quis ganhar votos à conta do caso de Tancos?
Aposto em como depressa veremos confirmada a tese, porque tivemos outro elucidativo exemplo neste final de semana: o adiamento da tomada de posse do novo governo, por uma questão do que Augusto Santos Silva  classificou muito justamente de «picuinhice»: nada alterando os resultados eleitorais, nem os mandatos atribuídos, o PSD decidiu impugnar as eleições a pretexto de terem sido considerados nulos os votos da emigração, que não se fizeram acompanhar da respetiva comprovação da identidade dos eleitores. Que diferença fará substituir-se a classificação de votos nulos por abstenções? Prendendo-se a tão ridículos pormenores o PSD de Rui Rio dá provas do que será o seu comportamento quando se iniciarem os trabalhos parlamentares.
Compreende-se o seu  nervosismo dado sobrarem candidatos à sucessão no PSD em comparação com o vazio até agora constatado no CDS para a substituição de Assunção Cristas.  Mas ele até pode congratular-se com o facto: dentro da crise que assola as direitas lusas, divididas entre os sintomas de decadência e os meramente anedóticos, o seu partido ainda demorará a conhecer o merecido ocaso. Quanto ao CDS as coisas fiam mais fino, porque nenhuma das alternativas parecem suficientes para inverterem o rumo a que a frustrada candidata a primeira-ministra o conduziu. A menos que, qual Sebastião em dia de nevoeiro, o Paulinho das feiras venha dar o corpo ao manifesto. Mas, entretido em proveitosos negócios, quem o convencerá de que o tempo possa voltar para trás? Ele sabe bem que não...
No entretanto, e porque não encontra melhor forma de aparecer nos telejornais, Marcelo arrisca o ridículo recebendo em Belém umas quantas moçoilas, que ganham a vida com a exposição das suas frivolidades. Muito apropriadamente, no «Público», Luciano Alvarez constatava que o palácio presidencial converteu-se, durante umas horas, na casa das barbies.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Adivinham-se novas peixeiradas


Com o surgimento de Pinto Luz a somar-se a Luís Montenegro no desafio à liderança de Rui Rio, crescem as oportunidades deste último em sair vitorioso do Congresso de janeiro. Ao contrário do que dizia uma conhecida publicidade de há quase meio século se um elefante incomoda muito a loja de cristalaria em que se converteu o partido sedeado na Lapa, dois tendem a incomodar menos, porque não há porta bastante para, acotovelando-se, conseguirem franqueá-la.
E então se Moreira da Silva quiser juntar-se à festa, então as apostas quanto ao ganhador, tornar-se-iam ainda mais fáceis de sair premiadas. Mas, suficientemente inteligente para evitar a previsível derrota, o potencial candidato apenas quer que dele se lembrem para ocasião futura, porque melhor se sentirá como colega do alvarinho dos pastéis de nata nos escritórios da OCDE.
Com os dois previstos competidores, Rio sabe que terá de suar a camisola para os levar de vencida e, por isso, já foi preparando o terreno para ser o líder do seu grupo parlamentar, quando os trabalhos da nova legislatura começarem. Pretenderá ganhar a visibilidade que vibrantes discursos com muitos efeitos oratórios, mesmo que vazios de substância, decerto lhe proporcionarão na comunicação social.
Razão para prever que, pelo menos até janeiro, António Costa poderá sentir-me menos incomodado com as peixeiradas de Assunção Cristas - que adotará o low profil imposto pela humilhação eleitoral -, definitivamente transitadas para a bancada do lado. Desejoso de demonstrar aos votantes das primárias do seu partido, que terá lábia para contestar os fortes argumentos do primeiro-ministro, não lhe restará grande margem para evitar o acinte, a gratuita provocação. Corre, então, o risco de se equiparar aos dois farsantes, um de cada partido, que estão posicionados mais para o canto. Mas sabe que a esses resta pouco tempo para tomarem a palavra e que Costa os sujeitará a merecido desprezo. Por isso conta com o ser levado um pouco mais a sério para, exagerando na bravata palavrosa, levar de vencida os oponentes. O pior para ele é quebrar o resto das pontes em tempos estabelecidas com o primeiro-ministro quando ambos comandavam os destinos das duas principais cidades do país. O que equivalerá a passar o resto da legislatura como irrelevante, mero figurante sem espaço para chegar a ter algum papel mesmo que secundário...

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Bons augúrios para a nova governação


Existe sério risco de os portugueses se terem habituado a tão invariável sucessão de notícias sobre os méritos da governação socialista à luz dos indicadores - sempre muito positivos! - emitidos pelas mais variadas e insuspeitas instituições, que lá virá o dia  do surgimento de algum menos bom, passível de, então, ser utilizado pelas direitas, e seus altifalantes, como questão quase catastrófica.
Vem isto a propósito de mais uma evidência dessa qualidade governativa: como resultado das medidas tomadas em sua intenção a taxa de pobreza e exclusão em Portugal baixou finalmente para nível inferior ao da média da União Europeia. Depois de quatro anos dedicados por Passos Coelho & Cª a empobrecerem uma parcela significativa de portugueses, o governo de maioria parlamentar da legislatura agora concluída infletiu essa queda no abismo com eficiente determinação.
Há, porém, quem se revele inconformado com tal evolução: mostrando não ter cabimento no Partido de que foi influente dirigente, Francisco Assis decidiu prosseguir na deriva para as direitas, onde possa ser acolhido de braços abertos. Numa lamentável entrevista à Renascença não só menorizou a vitória de António Costa há quatro anos - considerando a dita «Geringonça» apenas como solução de recurso para escamotear a derrota que ele tanto desejara! - e junta-se aos profetas da desgraça dando como tempo limite de vida deste governo os dois anos. Triste é o que se pode sentir ao lerem-se tais desaforos!
Podemos conjeturar o que possa ter sucedido com a cabeça de Assis para tomar tão teimosa escusa à interpretação racional da realidade, mas uma causa poderemos ilibar: a da poluição  que terá causado a morte prematura de seis mil portugueses em 2016 devido em grande parte ao tráfego rodoviário. Ora, como ele se encontrava então a recato de tão inquietante ameaça na sinecura europeia proporcionada pelo Partido, que agora parece enjeitar em definitivo, outras razões servirão de explicação.
Acontece que, se uns descem para as catacumbas da irrelevância, outros sobem e bem alto: as notícias dão agora conta do aumento da influência de Pedro Nuno Santos que vê o seu ministério ampliar-se com a responsabilização da área dos portos e dos transportes marítimos. Serão lautos milhões do orçamento de Estado para gerir e rentabilizar de forma otimizada, tornando-o no protagonista de uma das mais importantes vertentes de sucesso do governo nos próximos quatro anos: os investimentos nas infraestruturas. Mas, inteligente como é, António Costa igualmente atribui a Pedro Nuno Santos a tutela sobre algumas das classes profissionais mais reivindicativas e com as quais importa potenciar os reconhecidos dotes negociais do ministro.
Abrem-se, pois, bons augúrios para o novo governo.