Chego aos
setenta anos obrigado a rever uma desconfiança de décadas. Nunca acreditei na
outra face oferecida a quem esbofeteia a primeira, nem nos jejuns de Gandhi
contra um império. Reconhecia-lhes os resultados (num caso, a independência da
Índia; no outro, a mistificação mais bem-sucedida do Ocidente), mas fiava-me
numa sabedoria aprendida cedo: só não se sente quem não é filho de boa gente. À
bastonada, o troco devido.
Os
manifestantes de Lisboa e do Porto estão a desmentir-me.
Em pouco
mais de duas semanas, sofreram seis cargas do Corpo de Intervenção. Formaram
cordões humanos, deixaram-se arrastar, contaram cabeças abertas em postos de
socorro improvisados. E voltaram às praças, à hora marcada. Esta madrugada,
pelas quatro e meia, a cena repetiu-se nas duas cidades, com detidos e dezenas
de feridos. No Porto, as carrinhas da Câmara limparam a praça antes de o dia
nascer.
A
Montenegro, Neves & C.ª faltava um álibi: uma pedra, um petardo, uma imagem
capaz de converter o protesto em desordem. Pedro Nuno Santos disse-o sem
rodeios, ao acusar o Governo de querer ver repetido o caso de Paris. Bugalho
falou de objetos arremessados, e a PSP divulgou um vídeo de agressões a
agentes. As televisões mostraram outra coisa, noite após noite: gente de braços
dados e o bastão a descer.
Tiro-lhes
o chapéu. (Na minha idade, o gesto custa pouco; a eles, custou nódoas negras.)
Os
comentadores do costume terão hoje mais trabalho a defender o indefensável. E
quem assistiu em direto, ou vê agora a repetição, sente a tentação de engrossar
os próximos protestos, à escala dos maiores alguma vez vistos nas avenidas do
país.
Resta
ouvir António José Seguro. Há dias, confessou não ter gostado do que viu e
lembrou não ser a violência a cultura deste país. O Governo e a polícia
ouviram-no e repetiram a dose. A um Presidente desconsiderado sobram duas
saídas, o silêncio ou a palavra, e ambas ficam registadas.
Uma
palavra, por fim, para o meu partido. Contra a opinião de Francisco Assis (o
que não espanta), Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves estiveram com os
manifestantes diante de São Bento, e fizeram bem. Mas, na última noite, os
deputados noticiados no cordão do Rossio foram os do Bloco e do Livre. Faltou
ao PS, e também ao PCP, a fotografia na primeira linha, de frente para o
escudo. Há causas onde a presença vale mais do que qualquer comunicado.
Descubro
tarde: a outra face não é rendição. É a maneira de deixar o agressor sozinho
com o bastão.

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