Passos
Coelho regressou. Montenegro governa. E os comentadores políticos deliciam-se a
analisar as diferenças, as nuances, os desacordos subtis entre os dois homens
que supostamente representam visões distintas da direita portuguesa. É teatro.
Puro teatro para entreter os distraídos enquanto ambos fazem exatamente a mesma
coisa: governar para os mesmos interesses, com os mesmos objetivos, partilhando
a mesma cumplicidade essencial com o Chega.
A
Lei da Nacionalidade é apenas o mais recente exemplo dessa cumplicidade.
Montenegro apresenta-a, Passos Coelho apoia-a dos bastidores, Ventura aplaude.
Os três comungam da mesma visão: Portugal para os "verdadeiros"
portugueses, fronteiras fechadas, estrangeiros como ameaça, cidadania como
privilégio a conceder parcimoniosamente. Muda a retórica — Montenegro finge
moderação, Passos veste-se de estadista, Ventura berra abertamente — mas a
substância é idêntica.
Para
os portugueses, o que separa Passos de Montenegro pouco deve importar. Porque
pensando exatamente o mesmo, destruindo os mesmos serviços públicos,
precarizando o mesmo trabalho, favorecendo os mesmos interesses económicos, só
os divide uma questão: quem deve estar na posse do "pote". Quem
controla o partido, quem distribui os cargos, quem manda na máquina. O resto é
cosmética para consumo mediático.
São
o mesmo. Sempre foram. A diferença está apenas na disputa pelo protagonismo,
pela liderança, pelo controlo do aparelho partidário. Passos julga-se o grande
estadista da austeridade, o homem que "salvou" Portugal (leia-se:
destruiu os serviços públicos e empobreceu a população para pagar aos
credores). Montenegro julga-se o hábil tático que finalmente devolveu o poder à
direita. Mas olhando para as políticas, para as escolhas, para as cumplicidades
— são indistinguíveis.
E
aqui reside uma ironia amarga: para fazer esta comparação com Dupond e Dupond,
tenho de recorrer a um autor que, pela xenofobia e ultracatolicismo que
atravessam a sua obra, não poderia estar mais de acordo com o trio de cúmplices
— Passos, Montenegro e Ventura. Hergé, o criador de Tintin, tinha simpatias
fascistas bem documentadas, colaborou com publicações pró-nazis durante a
ocupação da Bélgica, encheu as suas histórias de estereótipos racistas que hoje
fazem corar qualquer leitor minimamente atento.
Os
congoleses retratados como selvagens infantilizados. Os judeus caricaturados
com todos os clichés antissemitas disponíveis. Os árabes como vilões
unidimensionais. A visão imperial europeia como norma civilizacional
inquestionável. Hergé seria hoje militante confortável do Chega — talvez até
seu ideólogo cultural, fornecendo aos seguidores de Ventura a justificação pseudointelectual
de que tanto precisam para disfarçar o ódio primário.
Mas
as personagens de Dupond e Dupond captam tão perfeitamente a essência da falsa
oposição Passos-Montenegro que vale a pena usar a referência, mesmo
reconhecendo a toxicidade do seu criador. Porque Hergé, conscientemente ou não,
retratou na dupla de detetives incompetentes algo de universal: a ilusão da
diferença onde só existe repetição, a encenação do desacordo onde reina o
consenso, a farsa da oposição onde há apenas divisão de espólio.
Passos
e Montenegro encenam desacordos para a comunicação social. Trocam farpas
calculadas, deixam filtrar "tensões" entre as suas equipas, alimentam
narrativas de "correntes" diferentes dentro do PSD. E depois, quando
é preciso votar, quando é preciso governar, quando é preciso escolher entre
proteger os trabalhadores ou servir o patronato, entre defender o SNS ou
entregá-lo aos privados, entre integrar imigrantes ou criminalizá-los — votam
igual, governam igual, escolhem igual.
A
Lei da Nacionalidade é cristalina neste sentido. Podiam ter optado por
facilitar a integração, por reconhecer que Portugal precisa de imigrantes não
apenas economicamente, mas também demograficamente, por aceitar que a
nacionalidade não é prémio de mérito mas direito de quem aqui vive e contribui.
Podiam. Não quiseram. Porque tanto Passos como Montenegro partilham com Ventura
a mesma visão essencial: Portugal como clube exclusivo, cidadania como
privilégio, estrangeiros como ameaça.
Ventura
di-lo aos berros. Montenegro embrulha em tecnicalidades jurídicas. Passos
reveste de linguagem pseudoestadista. Mas dizem o mesmo. Querem o mesmo. Servem
os mesmos interesses e os mesmos medos.
E
aqui está a grande fraude da política portuguesa contemporânea: fazem-nos
discutir se preferimos Passos ou Montenegro, se achamos melhor o
"estadista" experiente ou o "tático" oportunista, se a
direita deve ser mais europeia ou mais atlantista. Enquanto isso, ambos
executam a mesma agenda, destroem os mesmos direitos, protegem os mesmos
privilégios, alimentam os mesmos preconceitos.
Dupond
e Dupond perseguem criminosos e capturam inocentes. Causam desastres em cadeia
enquanto se julgam competentes. Repetem as mesmas parvoíces com ligeiras
variações. E no final, quando tudo corre mal, culpam outros pelos seus próprios
erros.
Passos
e Montenegro destroem serviços públicos e culpam os utentes por os usar.
Precarizam o trabalho e culpam os trabalhadores por não serem
"competitivos". Dificultam a integração de imigrantes e depois
culpam-nos pelos "problemas de integração". E enquanto fazem isto,
encenam divergências para entreter a plateia, discutem quem deve ter o pote,
fingem que representam visões diferentes quando representam apenas os mesmos
interesses com retóricas ligeiramente distintas.
A
verdade é simples e brutal: para quem sofre as consequências — para quem perde
direitos laborais, para quem vê o SNS colapsar, para quem enfrenta rendas
impossíveis, para quem tenta integrar-se num país que o trata como intruso —
tanto faz se é Passos ou Montenegro a governar. O resultado é o mesmo. A dor é
idêntica. A política não muda.
E
quando Ventura se junta à fotografia — quando o fascista explícito colabora com
os fascistas envergonhados, quando o xenófobo declarado vota com os xenófobos
dissimulados — já nem sequer se pode fingir que há diferenças que importem.
Dupond,
Dupond e Ventura. Um trio de cúmplices que encenam oposições para melhor
partilhar o pote enquanto servem a mesma agenda. Hergé ficaria orgulhoso. E
nós, que somos obrigados a viver as consequências desta farsa, ficamos com a
certeza de que a única oposição real não está entre Passos e Montenegro.
Está entre todos eles — os três, os cúmplices, os encenadores da falsa diferença — e nós, que pagamos o preço da sua identidade essencial disfarçada de pluralismo democrático.







