quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Marés

 


Nesta altura da vida os entusiasmos chegam temperados. Nem as vitórias nem as derrotas são definitivas, e a História, como as marés no areal, avança e recua sem pedir licença. Resta a esperança de a força a puxar para diante vencer, por margem bastante, a que puxa para trás. (Gramsci chamar-lhe-ia otimismo da vontade; o pessimismo da inteligência fica de vigia.)

Passei a noite em claro, de olho no outro lado do Atlântico, e a maré subiu mais do que esperava.

Os democratas reconquistaram as duas câmaras do Congresso, feito repetido apenas cinco vezes desde a Segunda Guerra. No Senado, arrancaram lugares em estados onde o partido soava a estrangeirismo: o Kansas elegeu o primeiro senador democrata em quase noventa anos, o Texas preferiu Talarico a Paxton, o Maine despediu Susan Collins. No Michigan, Abdul El-Sayed, apoiado por Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, chega ao Senado com as ideias dos padrinhos e sem a palavra que assusta a América. (Recusa o rótulo de socialista; a prudência, por lá, também ganha eleições.)

E Trump? O homem habituado a gritar fraude antes de contados os votos deu os parabéns aos vencedores e jurou aceitar os resultados. (Culpou os candidatos, culpou a Fox, e garantiu: com o nome dele no boletim, teria sido uma avalanche.) Até a mentira, pelos vistos, precisa de margens estreitas para respirar.

Nem as notícias falsas nem o dinheiro dos oligarcas bastaram. Elon Musk, ao ver os números, confessou achar cada vez mais atraente a ideia de centros de dados no espaço. (Compreende-se: cá em baixo, o eleitorado tornou-se pouco fiável.)

Os americanos fizeram as contas no posto de gasolina e na caixa do supermercado, onde as tarifas e a guerra com o Irão deixaram a fatura. A base MAGA ficou sem discurso. Os democratas foram votar com a memória fresca das rusgas do ICE.

Não convém embandeirar em arco. Conhecemos as administrações democratas, as deceções acumuladas, o imperialismo de boas maneiras. Mas há momentos em que o mal menor alenta, e este é um deles.

A maré há de vazar outra vez. Importa saber quanto areal ficou conquistado. 

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