A
imagem circula pelas redes sociais com a força emocional que elas adoram: um
violinista esquelético, em primeiro plano, rodeado por dezenas de prisioneiros
igualmente subnutridos, numa cena que, supostamente, retrata a transferência de
prisioneiros de um campo de concentração nazi antes da chegada dos Aliados. É
pungente, é comovente, é partilhável. E é completamente falsa.
Os
historiadores detetaram rapidamente as incongruências gritantes. Os uniformes
não correspondem aos usados nos campos. A disposição dos prisioneiros não faz
sentido logístico. O violino, em bom estado de conservação, seria impensável
naquele contexto. A própria composição da imagem — demasiado perfeita,
demasiado cinematográfica — denuncia a sua artificialidade.
Mas
a maioria de quem partilha não sabe disto. Não verifica. Não questiona. Vê uma
imagem que confirma aquilo que já sabe — que o Holocausto foi horror indizível
— e partilha para demonstrar solidariedade, para mostrar que não esquece, para
afirmar valores humanistas.
E
aqui reside o primeiro problema: mesmo quando serve causas justas — e lembrar o
Holocausto é causa justa — a mentira permanece mentira. E usar imagens falsas
para comover, mesmo que a emoção seja dirigida a factos reais, é manipulação. É
instrumentalização do sofrimento histórico para lucro de quem gere sites
destinados a quem julga neles encontrar informação fidedigna.
Mas
há um segundo problema, mais perturbador e politicamente mais carregado. Esta
fotografia falsa surge precisamente no momento em que Israel prossegue a sua
política genocida em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. E ao circular
massivamente, ao comover milhões de pessoas com o sofrimento judeu histórico —
real, documentado, inegável — cria um contexto emocional que torna mais difícil
criticar o sofrimento que Israel está neste momento a infligir aos
palestinianos.
Não
é coincidência. Não é acaso. É estratégia — consciente por parte de alguns,
inconsciente por parte de muitos — de usar a memória do Holocausto como escudo
contra as críticas às políticas israelitas atuais. Como se reconhecer o horror
do genocídio nazi obrigasse a silenciar o que Israel faz hoje. Como se as
vítimas de ontem não pudessem ser criticadas pelos crimes de hoje.
Esta
instrumentalização é obscena. O Holocausto não pertence a Israel. Pertence à
História, à memória coletiva da Humanidade, ao imperativo de "nunca
mais". E esse "nunca mais" aplica-se a todos os genocídios —
incluindo o que Israel está a perpetrar neste momento contra os palestinianos.
Usar
imagens falsas do Holocausto para gerar tráfego comercial é vigarice moral.
Usar essas mesmas imagens para criar contexto emocional que dificulta críticas
a Israel é obscenidade política. E ambas as coisas acontecem simultaneamente
quando fotografias como esta circulam sem escrutínio crítico.
O
problema não é exclusivo desta imagem específica. É sintoma de crise mais
profunda: a forma como consumimos informação nas redes sociais. Vemos,
emocionamo-nos, partilhamos. Não verificamos, não questionamos, não pensamos
criticamente sobre o que estamos a amplificar.
E
isto tem consequências. Quando partilhamos imagens falsas — mesmo emocionalmente
"verdadeiras" e politicamente alinhadas com os nossos valores —
estamos a contribuir para a erosão da verdade como categoria relevante. Estamos
a validar a ideia de que o que importa não é a correspondência com os factos,
mas o impacto emocional. Estamos a treinar-nos a nós próprios e aos outros para
aceitar manipulação desde que nos faça sentir da maneira "certa".
E
quando a verdade deixa de importar, quando a verificação factual é substituída
por ressonância emocional, ficamos indefesos perante manipulações muito mais
perigosas. Se aceitamos fotografias falsas porque nos comovem, porque não
aceitaremos narrativas falsas que nos confortam? Se não questionamos imagens
que confirmam aquilo que já acreditamos, porque questionaríamos informações que
reforçam os nossos preconceitos?
Há
responsabilidade individual aqui. Cada um de nós que partilha sem verificar,
que amplifica sem questionar, que consome informação como quem consome fast
food — rapidamente, sem pensar, sem questionar ingredientes — está a contribuir
para o problema.
Mas
há também responsabilidade sistémica. Os algoritmos premiam conteúdo que gera
reações emocionais fortes, não conteúdo que corresponde aos factos. Há muitos sites
a ganharem dinheiro com tráfego, independentemente de como o conseguem.
E
quando juntamos estas duas coisas — utilizadores que não pensam criticamente e
sistemas que lucram com a ausência desse pensamento crítico — obtemos exatamente
o que temos: um ecossistema informativo poluído onde imagens falsas circulam
com a mesma ou maior facilidade que imagens verdadeiras, onde factos e ficção
se misturam indistintamente, onde a emoção substitui o escrutínio.
O
que fazer? Algumas sugestões práticas, humildes mas necessárias:
Antes
de partilhar qualquer imagem emocionalmente forte, parar. Questionar.
Verificar. Procurar fontes. Usar ferramentas de reverse image search.
Ler o que historiadores e especialistas dizem.
Desconfiar
especialmente de imagens que confirmam aquilo que já acreditamos. As que
desafiam as nossas convicções são escrutinadas naturalmente. As que as reforçam
passam sem filtro. E é precisamente aí que a manipulação é mais eficaz.
Reconhecer
que partilhar informação falsa — mesmo sem intenção maliciosa, mesmo em defesa
de causas justas — tem consequências. Polui o debate público, mina a confiança
na informação verificável, facilita manipulações futuras.
E
sobretudo: manter capacidade de distinguir entre causas justas e métodos
duvidosos. O Holocausto foi real e deve ser lembrado. Isso não justifica usar
imagens falsas para o lembrar. Israel comete genocídio em Gaza. Isso não fica
invalidado porque também há manipulação emocional sobre o Holocausto. Duas
coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Navegar
esta complexidade exige o que as redes sociais nos treinam para não fazer:
pensar criticamente, verificar antes de partilhar, distinguir entre factos e
emoções, reconhecer manipulação mesmo quando serve causas que apoiamos.
Não
é fácil. Nunca foi. Mas é necessário. Porque quando deixamos de pensar
criticamente sobre o que consumimos, quando substituímos escrutínio por
ressonância emocional, quando partilhamos sem verificar — ficamos à mercê de
quem nos quer manipular.
E
neste momento, entre vigarices comerciais e instrumentalizações políticas,
entre factos e ficções, entre memória e manipulação — há muita gente que lucra
com a nossa ausência de pensamento crítico.
Não
lhes facilitemos o trabalho.

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