quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Princípio da Impunidade

 

A captura de Nicolás Maduro inaugura um tempo político onde o direito internacional deixa de funcionar como travão ao arbítrio das grandes potências. Não se trata apenas de mais uma intervenção militar americana na América Latina – essas somam-se às dezenas desde o início do século XX. O que distingue este momento é a ostentação com que se despreza qualquer legitimidade jurídica, sem sequer o esforço retórico de inventar uma justificação humanitária ou uma resolução das Nações Unidas manipulada.

Esta demonstração de força pura, celebrada como "operação impecável" pelos seus apoiantes, estabelece um precedente perigoso: se a Venezuela hoje, porque não amanhã qualquer país que contrarie os interesses de Washington? A ausência de uma resposta firme da comunidade internacional – a começar pelos silêncios calculados, pelas hesitações terminológicas, pela recusa em nomear a violação – transforma-se em cumplicidade. Cada porta-voz governamental que evita classificar o sucedido como invasão ou ato de agressão contribui para normalizar aquilo que deveria ser inaceitável.

As consequências desenham-se em múltiplas frentes. No plano interno americano, a fratura entre a promessa de não-intervencionismo e a realidade de um novo aventureirismo militar expõe as contradições de um projeto político que prometia colocar a América em primeiro lugar. A gestão de um território ocupado, com todas as suas complexidades – da reconstrução institucional ao controlo de recursos petrolíferos –, pode revelar-se um pântano tão custoso quanto foram o Iraque ou o Afeganistão. E quando os custos humanos e financeiros começarem a pesar, quando as promessas de rápida estabilização se mostrarem ilusórias, a opinião pública poderá voltar-se contra quem lhe vendeu mais uma guerra fácil.

Na América Latina, o efeito imediato será o recrudescimento de tensões ideológicas que pareciam adormecidas. Governos de esquerda ou centro-esquerda, mesmo aqueles que mantinham distância crítica face a Caracas, veem-se agora confrontados com uma ameaça concreta: a possibilidade de intervenção externa sempre que não se alinhem com Washington. O Brasil, o México, a Colômbia terão de repensar as suas políticas externas num contexto onde a soberania deixou de ser um princípio respeitado. Paradoxalmente, a violência desta imposição pode reforçar movimentos antiamericanos na região, alimentando exatamente o tipo de nacionalismo que se pretendia erradicar.

A nível global, o silêncio europeu é talvez o sintoma mais grave desta nova desordem. Se a União Europeia não consegue condenar uma invasão tão flagrante quanto esta, que autoridade moral terá para criticar futuras violações? A inconsistência torna-se evidente quando se compara esta passividade com a retórica empregada noutros conflitos. A falta de coragem para nomear as coisas pelo seu nome – invasão, agressão, violação da Carta da ONU – corrói a própria ideia de uma ordem baseada em regras. E se as regras apenas se aplicam seletivamente, consoante os interesses geopolíticos do momento, então não existem verdadeiramente regras.

Há ainda uma dimensão mais profunda neste episódio: a mensagem enviada a todos os líderes mundiais de que a força bruta voltou a ser um argumento legítimo nas relações internacionais. Países que se sentiam protegidos por tratados, por alianças, pelo simples facto de serem reconhecidos como Estados soberanos, descobrem agora que essa proteção é ilusória quando confrontada com um poder que decide agir unilateralmente. A Gronelândia, Taiwan, qualquer território que desperte cobiça ou represente valor estratégico pode tornar-se o próximo alvo, desde que haja vontade política e ausência de resistência internacional credível.

O futuro próximo desenha-se, portanto, entre dois cenários. Ou este ato encontra uma resposta firme – não necessariamente militar, mas política, diplomática, económica – que restabeleça algum respeito pelas normas internacionais, ou assistiremos a uma escalada de intervenções semelhantes, cada uma justificando a seguinte, numa corrida para o abismo onde apenas a lei do mais forte prevalece. A História mostra-nos que os anos 1930 foram marcados precisamente por esta incapacidade coletiva de travar agressões enquanto ainda era possível. Quando finalmente se reagiu, era tarde demais.

O que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela ou de Nicolás Maduro. É a própria arquitetura do sistema internacional construído após 1945, imperfeito mas capaz de impor alguns limites ao caos. Se essa arquitetura desmoronar – e este episódio representa uma fenda profunda nas suas fundações –, todos ficaremos mais vulneráveis, incluindo aqueles que hoje aplaudem ou se calam. Porque a impunidade, uma vez instalada, não conhece fronteiras nem distingue aliados de adversários. Apenas reconhece poder, e quem o detém hoje pode perdê-lo amanhã.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Império Nu: Trump e o Regresso da Predação Colonial

 

Há dias em que a História rasga a própria pele e mostra a carne viva. O rapto de Nicolás Maduro pelas forças especiais norte-americanas não é apenas mais um episódio de intervencionismo — é a revelação brutal de que o império decidiu despir as vestes da legalidade internacional e apresentar-se tal como sempre foi: um poder que toma o que quer, quando quer.

Donald Trump não se deu ao trabalho de disfarçar. Numa franqueza quase obscena, assumiu que os Estados Unidos vão "gerir" a Venezuela, que as suas petrolíferas vão "investir milhares de milhões de dólares" nas maiores reservas de crude do planeta. Não falou de democracia, não mencionou eleições livres, não invocou os direitos humanos. Falou de petróleo. Apenas de petróleo. Como um conquistador do século XIX que planta a bandeira em terra alheia e declara: isto agora é meu.

O que assistimos não é uma "mudança de regime" — é um assalto à mão armada a um país soberano, executado por uma superpotência que já nem se incomoda em fabricar pretextos minimamente credíveis. A narrativa do "narcoterrorismo" serviu de biombo para uma operação de pilhagem que teria feito corar os velhos praticantes da diplomacia da canhoneira. Pelo menos esses tinham o pudor de fingir civilizar os selvagens. Trump nem isso.

A pergunta que fica suspensa no ar contamina tudo: se o líder da suposta ordem liberal pode bombardear uma capital e sequestrar um chefe de Estado, com que autoridade moral se condena Putin pela Ucrânia? Com que legitimidade se critica Xi Jinping pelas ameaças a Taiwan? O senador Mark Warner teve a coragem de formular a questão que muitos preferem ignorar: que impede agora a China de invocar o mesmo precedente sobre os dirigentes de Taiwan? Que impede Putin de reclamar idêntica autoridade sobre Volodymyr Zelensky?

Trump não destruiu apenas o frágil edifício do direito internacional — destruiu o último recurso que sustentava a hegemonia americana: a legitimidade. Durante décadas, o poder dos Estados Unidos não assentava apenas em porta-aviões e mísseis, mas numa pretensão de representar algo mais — valores, normas, um horizonte civilizacional. Essa ilusão acabou. O que resta é a força nua, o apetite desavergonhado, o petróleo como única bússola moral.

E a Europa? A União Europeia, essa construção frágil que teima em acreditar no multilateralismo e no respeito pelo direito internacional, limitou-se a emitir comunicados de "preocupação". Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha manifestaram-se — governos de esquerda que ainda acreditam que as palavras têm peso. Mas onde ficou Portugal neste mapa da indignação?

A vergonha tem nome próprio: Paulo Rangel. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, representante de um país que durante décadas sofreu sob um regime autoritário e que deveria ter a memória colonial tatuada na consciência coletiva, optou pelo silêncio cúmplice ou, pior, por alguma declaração morna que mais parece um rascunho de não-posição. Portugal, que podia ter somado a sua voz ao protesto dos países latino-americanos que partilham a mesma língua e herança cultural, preferiu a discrição de quem não quer desagradar ao império.

É o servilismo transformado em política externa. É a NATO como álibi para abdicar de qualquer postura ética. É o atlantismo como religião que exige o sacrifício da dignidade no altar da obediência. Paulo Rangel escolheu o lado da história onde os vassalos aplaudem em surdina enquanto o senhor saqueia à luz do dia.

A Venezuela não ganhou liberdade com esta operação; trocou um governo local por um protetorado petrolífero. As empresas norte-americanas vão administrar o crude venezuelano "como se fosse um protetorado dos Estados Unidos", nas palavras certeiras do economista Francisco Rodríguez. E é exatamente isso que será.

O laboratório venezuelano anuncia um mundo novo e terrível. Trump enviou uma mensagem ao planeta inteiro: nenhuma nação, por mais soberana que se julgue, está a salvo se tiver algo que Washington cobiça. A Gronelândia volta à conversa, agora com a mulher de Stephen Miller a publicar mapas da ilha coberta pela bandeira americana e a legenda "Em breve". É o imperialismo sem eufemismos, sem retórica humanitária, sem fingimentos.

E nós, europeus, assistimos de braços caídos. Pior: alguns, como Paulo Rangel, assistem de cócoras. A grande questão que fica — e que ninguém ousa responder — é esta: se Trump pode fazer isto à Venezuela, o que o impedirá de fazer o mesmo a quem mais contrarie os seus interesses? E se a Europa permanece muda perante esta brutalidade, que valor tem ainda a sua retórica sobre valores, direitos humanos e ordem internacional?

A Venezuela converteu-se no primeiro país abertamente submetido ao imperialismo predador destes nossos tempos. Não será o último. E cada silêncio cúmplice — como o de Paulo Rangel — torna o próximo assalto mais fácil, mais provável, mais inevitável. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando até os aliados denunciam

 

Há dias em que até quem normalmente não partilha as minhas posições políticas acaba por dizer verdades incómodas. É o caso de dois artigos no Expresso de hoje, assinados por Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, que merecem atenção - o primeiro pela concordância quase total que me suscita, o segundo pelo que escamoteia.

Miguel Sousa Tavares escolhe como fotografia do ano a imagem de um imigrante hispânico nos Estados Unidos caçado por três energúmenos encapuzados do ICE, a agência de perseguição a imigrantes que é o orgulho de Trump. A fotografia mostra um homem agachado, agarrado pelos braços e pernas, com expressão de completo desespero, segurando uma carteira de documentos que de nada lhe serviu. No seu olhar angustiado adivinhamos a prisão e a deportação, o fim do sonho americano que um dia o levou a investir todas as suas poupanças nesse país construído por imigrantes.

Sousa Tavares não poupa Trump: "Segundo as suas regras para um mundo MAGA, há os ricos e os deserdados, os poderosos e os indefesos, os que mandam e os que devem obedecer. A desintegração por ele promovida de uma sociedade fundada em valores e num mínimo previsível de decência humana é a grande realização do seu primeiro ano em funções."

E depois aponta as baterias a Nuno Melo, que considerou Trump o "homem do ano" não apenas factualmente, mas "com notas positivas". A justificação do ministro da Defesa - que Trump "determinou alterações significativas nas dinâmicas da política internacional, relançou os investimentos dos aliados na NATO" - merece resposta demolidora: não é questão de avaliar o estilo, mas o carácter e a simples decência de um homem que persegue opositores, usa o cargo para fazer negócios milionários, ameaça invadir países aliados, assalta navios em alto-mar. Não é questão de estilo, mas de Código Penal.

Sobre Montenegro e a invocação de Cristiano Ronaldo como inspiração, Sousa Tavares também não poupa: se se trata de inspiração atlética, ótimo mas impossível de alcançar. Se se trata de mentalidade de ganhos financeiros ilimitados - 260 milhões por ano, com zero de IRS -, também seria bom mas igualmente inalcançável. Mas se tudo isso serve essencialmente para ser exibido em fotografias de luxo "sem qualquer demonstração de utilidade social ou benefício para o país", e se tudo se alcança também "graças à conivência com um trio internacional de gente de hábitos duvidosos" - Trump, Gianni Infantino e o príncipe Mohammed bin Salman -, então "Montenegro que me desculpe mas eu dispenso a inspiração fornecida por Cristiano Ronaldo. Há outros valores em que vale mais a pena apostar."

Concordo inteiramente. E acrescento: a obsessão com a "mentalidade vencedora" de Ronaldo é a privatização da esperança. Se falhas, a culpa é tua. Se tens contrato precário a vida toda, se não consegues pagar renda, a culpa é da tua mentalidade derrotista, não do sistema que te explora.

João Vieira Pereira escreve sobre o aeroporto de Lisboa e a concessão à Vinci. Descreve bem o caos: "Tudo funciona com uma lentidão desarmante que transforma a paciência de qualquer um num desespero atroz." Denuncia os lucros pornográficos: mais de 500 milhões em 2024, comparados com os 15 milhões entregues ao Estado. "Numa década, a Vinci recuperou o que investiu quando ainda faltam 40 anos para o fim da concessão."

E conclui: "Cabe agora a quem governa dizer basta e mudar o estado das coisas. O Estado português é soberano e tem mais do que razões para dizer que o contrato de concessão assinado há mais de 10 anos deixou de fazer sentido."

Concordo com o diagnóstico e com a solução - a renacionalização faria mais bem do que mal. Mas Vieira Pereira escamoteia o essencial: quem assinou esse contrato leonino? Quem fez essa "prenda" à Vinci? Foi o seu tão apoiado Passos Coelho, esse mesmo que agora anda a preparar o regresso com livro de memórias prometido desde 2018 e que continua sem aparecer.

A ironia é deliciosa: um comentador de direita denuncia um contrato assinado pela direita, pede ao governo de direita que o rasgue, mas esquece-se convenientemente de dizer quem é o responsável original. É como denunciar um roubo sem mencionar o ladrão quando ele é da família.

As "46 perguntas para 2026" que o Expresso publica são exercício interessante mas arriscado. Fica uma nota: a realidade nacional tem sido tão imprevisível que tudo quanto nela se aposte como provável tem grande risco de falhar. Quem diria há dois anos que estaríamos aqui? Quem diria que haveria golpe institucional derrubando Costa, que Marcelo cumpriria o objetivo para que se candidatou, que Montenegro governaria com a bengala do Chega?

A única certeza é a incerteza. E talvez por isso até Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, cada um à sua maneira, acabem por dizer verdades que normalmente ficam por dizer. Quando até os aliados denunciam, é porque a situação é grave. Resta saber se denunciam para mudar ou apenas para se distanciarem do naufrágio que ajudaram a criar.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O país que não queremos ver

 

Há dias em que a leitura da imprensa revela um padrão tão claro que se torna impossível ignorá-lo: vivemos num país que prefere a ilusão à realidade, o espetáculo à substância, a culpabilização das vítimas ao reconhecimento de injustiças estruturais.

Comecemos pelas mulheres. Helena Pereira comenta no «Público» um relatório da CIG que expõe um paradoxo brutal: quanto mais as mulheres avançam na carreira, maior tende a ser o fosso salarial face aos homens. A diferença passa de 4,6% nos estágios para 26,5% nos quadros superiores, muito ligada a prémios e remuneração variável onde persistem estereótipos. No geral, as mulheres trabalham mais 64 dias por ano para igualar o salário masculino. Um país estruturalmente misógino.

E quando surgem denúncias de abuso e violência envolvendo figuras prestigiadas? Ana Sá Lopes denuncia o padrão: surgem redes de proteção social, inclusive de gente que se diz feminista. O abaixo-assinado "anti-cancelamento" em defesa de Boaventura Sousa Santos inverte o ónus e transforma as acusadoras nas culpadas. A autora alarga a crítica à cultura de impunidade do país, concluindo que o discurso público sobre defesa das mulheres é muitas vezes vazio e oportunista.

António Guerreiro, no Ípsilon, vai mais fundo ao analisar a dimensão psicológica do autoritarismo. Recorrendo a Adorno e Wilhelm Reich, sugere que repressão, "virilismo", submissão ao chefe e circulação libidinal alimentam o irracionalismo político. Usa o contraste entre o discurso punitivista sexual do Chega e os casos de abusos envolvendo membros do partido para explorar a ideia de "carácter" autoritário. Responder a Ventura com debates racionais tradicionais falha porque a extrema-direita usa técnicas retóricas que contornam teoria e prova.

E não é apenas misoginia e autoritarismo. É também racismo normalizado. Guerreiro reflete, noutro texto, sobre o anticiganismo como racismo socialmente tolerado, problematizando como a linguagem ("comunidade cigana") pode ser um eufemismo que marca distância e exclusão, tornando certos grupos "baníveis" sem escândalo.

A direita, entretanto, dedica-se a propaganda e ilusionismo. Carlos Moedas esteve presente em apenas 2 de 7 reuniões do conselho consultivo europeu da habitação - verificação do «Público» confirma a acusação de Alexandra Leitão. Mas isso não impede que continue a apresentar-se como solução para a crise habitacional que ajuda a agravar.

E Montenegro, no discurso de Natal satirizado por Tiago Franco, dedica-se à moralização e propaganda: "excelência", Cristiano Ronaldo, "nada cai do céu". Culpabiliza os comuns, ignora precariedade e desigualdades, apela ao esforço enquanto ostenta privilégio e cinismo. É a "mentalidade vencedora" transformada em doutrina oficial.

Na ciência e inovação, o padrão repete-se: anúncios em vez de políticas. Ricardo Paes Mamede critica no «Público» a criação da AI2, que funde FCT e ANI, tanto pelo processo (pouco estudo, pouca consulta) como pelo modelo. O governo parte de um diagnóstico enganador: o fraco desempenho inovador não se explica só por pouca I&D empresarial, mas pela estrutura produtiva e pela fraca capacidade das empresas. Alerta contra a visão "linear" de que ciência gera automaticamente competitividade. Mais uma reforma feita para a galeria.

E quando olhamos para fora, vemos os mesmos padrões a escala global. O Libération reporta campanhas de plantação de árvores no leito seco do mar de Aral para travar poeiras tóxicas. A ideia tem base científica, mas na prática muitos projetos falham por salinidade e falta de acompanhamento. É "green branding": drones a largar sementes, créditos de carbono, encenação de solução enquanto as causas estruturais - má gestão da água, poluição - persistem. Espetáculo em vez de substância.

E em Gaza, como denuncia José Goulão, assistimos à desumanização dos palestinianos contraposta com o "humanitarismo" do resgate de burros, símbolo de hipocrisia moral e propaganda enquanto civis, incluindo crianças, não recebem a mesma proteção.

O padrão é sempre o mesmo: culpabilizar as vítimas, proteger os poderosos, preferir o espetáculo à solução, a propaganda à verdade. As mulheres são castigadas pelo seu sucesso mas culpadas quando denunciam abusos. Os trabalhadores são acusados de não terem "mentalidade vencedora" enquanto o sistema os explora. Os ciganos são excluídos mas a culpa é atribuída a eles por não se "integrarem". O planeta arde mas plantam-se árvores para as câmaras enquanto as causas persistem.

Este é o país que não queremos ver mas que existe: estruturalmente misógino, protetor de abusadores, racista normalizado, autoritário na psicologia coletiva, governado por ilusionistas que vendem propaganda como política. E enquanto não o virmos como é, não poderemos mudá-lo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A farsa da mentalidade vencedora

 

O comentário de Susana Peralta sobre a candidatura de Manuel João Vieira à presidência da República merece-me plena concordância. Tratando-se de uma performance artística ao nível do que o ator, cantor e artista plástico nos habituou, ela serve, de facto, o propósito de questionar o que de burlesco existe nesta eleição.

Não justifica que nele vá votar - reservo esse momento para apoiar um dos três candidatos de esquerda no boletim a depositar na urna (e Seguro não é decerto um deles!) -, mas estarei mais atento ao que Vieira fizer na campanha eleitoral do que a qualquer outro dos candidatos. Até por ser o único capaz de me divertir.

Como o conseguiu o admirável David Almeida, o mandatário da candidatura, ao propor - ele que tem nanismo! - a substituição de três salazares (sim, com letra bem minúscula!) pelos proverbiais sete anões. A metáfora é perfeita: de um lado, as três variantes do autoritarismo que assombra estas eleições; do outro, a força coletiva, diversa e resistente de quem recusa render-se ao medo.

O burlesco político sempre foi arma contra ditadores e aspirantes a tal. Porque o riso despe o rei, mostra que o imperador está nu. E numa campanha dominada pela pose solene de candidatos que se levam demasiado a sério enquanto propõem regressos a passados que deveríamos ter enterrado, Vieira presta um serviço à democracia: lembra-nos que não temos de aceitar este teatro como se fosse tragédia inevitável.

Mas o burlesco não está apenas na performance de Vieira. Está também, involuntariamente, na mensagem que Montenegro endereçou aos portugueses incitando-os a ter uma "mentalidade vencedora" como a de Ronaldo. Inês de Medeiros teve uma reação certeira: ele aparece como uma espécie de mentor de autoajuda com tudo o que de frívolo isso comporta.

Porque muitos serão quantos não se reconhecem na dita mentalidade vencedora de criado de um assassino de um jornalista - e dos muitos executados anonimamente no seu reino -, nem de lambe-botas do momentâneo homem forte em Washington, cuja demência, mesmo que muito perigosa, vai-se tornando indisfarçável.

E o próprio Montenegro ostenta uma "mentalidade vencedora" que, mesmo transitoriamente eficaz, não deixa de ser a de um pato bravo que compensou a falta de talento para outros afazeres com a habilidade para se fazer avençado de uns quantos patronos nada acima de suspeitas.

A escolha de Ronaldo como modelo é reveladora. Num país onde 73% dos jovens querem emigrar, onde os salários não chegam ao fim do mês, onde a habitação é inacessível e a saúde colapsa, o primeiro-ministro propõe como solução uma "mentalidade vencedora" individual. Não políticas públicas, não investimento, não direitos - apenas uma forma de pensamento mágico de tosco empreendedor.

É a privatização da esperança. Se falhas, a culpa é tua: não tiveste mentalidade suficientemente vencedora. Se tens contrato precário a vida toda, se não consegues pagar renda, se adoeces e não há médico - a culpa é da tua mentalidade derrotista. O sistema está perfeito. Quem falha és tu.

E a realidade vem desmentir a mitologia. Sobra da quadra a notícia do português baleado no Maryland, em jeito de toque de finados pela mitologia em torno da "terra das oportunidades" para onde muitos mudaram em busca de ilusória riqueza. Raramente dão mais que um passo para cima no elevador social, mas pagam o preço completo: a violência quotidiana, a precariedade sem rede de segurança, a segregação racial e social.

Para muitos, adivinho os pesadelos de se verem deportados para a origem e nela se verem desafiados a fazerem os mesmos sacrifícios vertidos para a madrasta terra ianque. Talvez com o mesmo esforço conseguissem o mesmo resultado - mas num país onde não se morre baleado a caminho do trabalho, onde existe sistema de saúde público, onde a violência não é a norma.

A "mentalidade vencedora" de Montenegro encontra aqui a sua verdade nua: emigrar não é vencer, é fugir. É a admissão de derrota de um país que expulsa os seus jovens porque não lhes oferece futuro. E depois vende-lhes como sucesso individual o que é fracasso coletivo.

Os Estados Unidos de Trump são o laboratório extremo do modelo que Montenegro quer para Portugal: cada um por si, que vença o mais forte, e se morreres baleado no caminho é porque não tiveste mentalidade suficientemente vencedora. É este o futuro que nos vendem como progresso.

É obsceno. E diz tudo sobre quem governa: alguém que confunde sucesso pessoal com mérito, que transformou habilidade para servir patronos em carreira política, e que agora vende aos portugueses a mesma receita: lambe as botas certas e terás sucesso.

Contra esta farsa, resta-nos o riso de Vieira e a revolta organizada de quem recusa aceitar que a culpa do colapso seja individual. O sistema não está perfeito. Está desenhado para falhar com a maioria. E reconhecê-lo não é mentalidade derrotista - é o primeiro passo para o mudar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O datado pensamento de Hannah Arendt

 

Nunca senti particular atração pelo pensamento de Hannah Arendt embora não descure os problemas que enfrentou junto da sua comunidade, que a crismou de antissemita, ao ver Adolf Eichmann como um homem medíocre, para ela símbolo da tão glosada banalidade do mal. Mas, ao equiparar o nazismo com o estalinismo, como se os totalitarismos se equivalessem, ela esqueceu outros que persistem dentro da muito valorizada "democracia liberal", quando esta alberga outras formas de totalitarismo - o religioso ao dar primazia a credos que se tentam promover como as maioritárias dentro de cada Estado ou a social com as classes dominantes a iludirem as exploradas com as supostas liberdades ferreamente controladas, quer pela propriedade da imprensa ou a influência de quem manda na justiça.

Este esquecimento não é acidental. Ele radica numa limitação fundacional do pensamento arendtiano: a sua deseconomização da política. Para Arendt, a verdadeira esfera da liberdade é a ação no espaço público, purificada das necessidades materiais e das questões sociais, que ela via como próprias do âmbito privado e inferior do trabalho. É esta separação categórica que a leva a ver com desconfiança, em Sobre a Revolução, a intrusão da "questão social" – a luta contra a pobreza e pela igualdade económica – na esfera política, considerando-a uma força corruptora que desvia a revolução da sua finalidade de fundar a liberdade e a leva ao terror. A sua admiração pela Revolução Americana, em contraste com a desconfiança face à Francesa, revela esta preferência por uma política que parece flutuar acima das condições materiais.

É precisamente aqui que uma análise marxista põe a nu o que pode ser considerado uma cegueira estrutural no seu pensamento. Ao relegar a economia e as relações de classe para uma "esfera social" pré-política, Arendt torna-se incapaz de diagnosticar as formas de dominação sistémicas e silenciosas que operam nas chamadas democracias liberais. Para o marxismo, a separação entre o político e o económico é a própria essência da ideologia burguesa: ela apresenta o Estado como neutro e a cidadania como abstrata, enquanto o poder real continua a ser exercido através da propriedade dos meios de produção, do controlo dos fluxos financeiros e da hegemonia cultural. A "banalidade do mal" de Eichmann tem, assim, um paralelo possível na "banalidade da exploração": na rotina quotidiana do lucro, na naturalização da desigualdade e na aceitação resignada de que o mercado é uma força da natureza, não um edifício político que beneficia uma classe.

Quando Arendt desvaloriza o "social", ela não só ignora o terreno onde se geram as desigualdades que corroem a própria possibilidade de uma ação política verdadeiramente livre e plural – pois quem está submerso na luta pela subsistência não tem o ócio necessário para a vida pública – como também desarma a crítica perante os novos totalitarismos. Estes já não se apresentam necessariamente como regimes terroristas de partido único, mas podem operar como totalitarismos moleculares: um domínio religioso que se infiltra nas leis e nas normas sociais; um controlo mediático que uniformiza o pensamento sob a aparência da liberdade de imprensa; um sistema judicial que, formalmente independente, reproduz os valores e protege os interesses das elites. São formas de governamentalidade que, sem recorrer a campos de extermínio, procuram administrar e conformar toda a vida, incluindo as consciências.

Arendt tinha razão ao alertar para os perigos da ideologia e da atomização social que abrem caminho ao totalitarismo clássico. No entanto, ao insistir numa política purificada da luta material, a sua filosofia acaba, paradoxalmente, por oferecer uma defesa demasiado frágil contra os totalitarismos que se alojam no coração do sistema que ela, por vezes inadvertidamente, idealizava. A sua "ação" discursiva, por mais nobre que seja, corre o risco de tornar-se um teatro de sombras se o palco público estiver montado sobre alicerces economicamente coercivos e socialmente injustos. Reconhecer isto não é desmerecer a sua busca pela dignidade política, mas sim lembrar, com Marx, que a primeira liberdade é a libertação das cadeias materiais que impedem os homens e mulheres de erguerem a cabeça e serem, de facto, iguais no diálogo que constrói o mundo comum.