quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre o Sufoco e a Urgência: Votar Contra o Abismo

 

A primeira volta das presidenciais coloca-me perante uma escolha clara: votarei num dos três candidatos das esquerdas verdadeiras — e nenhum deles é António José Seguro, que só por piedade ou distração se poderá classificar como "centro-esquerda", seja lá o que isso signifique em tempos de tanta confusão programática. Na segunda volta, farei o que for necessário para travar Ventura, ainda que isso implique votar em Seguro, Marques Mendes ou até Cotrim. Seguirei, se necessário, o conselho histórico de Álvaro Cunhal quando mandou os comunistas votarem em Mário Soares contra Freitas do Amaral: com o nariz tapado, mas votando.

Porém, e aqui Pedro Adão e Silva tem toda a razão no texto hoje inserido na última página do Público: as circunstâncias são radicalmente diferentes de 1986. O que então estava em jogo era a consolidação de uma democracia ainda frágil contra os restos do autoritarismo salazarista. O que está em jogo agora é a defesa daquilo a que chamam "democracia liberal" — eufemismo contemporâneo para o que outrora se designava honestamente como "democracia burguesa" — contra o fascismo puro e duro que Ventura representa sem disfarces.

E aqui reside o nó górdio desta eleição: os mileiristas de Cotrim, esses arautos do ultraliberalismo que fantasiam um Estado mínimo onde apenas sobrevive quem tem capital, estão objetivamente de braço dado com o despudor autoritário de Ventura. Não por coincidência ideológica explícita, mas porque ambos partilham o mesmo desprezo pelos mais frágeis, a mesma indiferença perante a miséria alheia, a mesma vontade de desmantelar o que resta do Estado social. A indistinção entre a base militante do Chega e a da Iniciativa Liberal nas redes sociais não é acidente — é revelação de uma cumplicidade profunda que apenas se envergonha de si própria quando as câmaras estão ligadas.

Cotrim pode declarar o que quiser sobre apoiar Ventura numa segunda volta. A verdade é que o seu projeto político já apoia Ventura todos os dias ao defender políticas que empurram os portugueses para o desespero do qual o fascismo se alimenta. É isto que Cláudia Santos - num artigo do mesmo Público -demonstra de forma irrefutável no seu texto sobre a insegurança real dos portugueses.

E aqui subscrevo totalmente a sua análise: a verdadeira insegurança que assola o país não tem nada a ver com a criminalidade — essa é apenas o biombo conveniente que Montenegro e Ventura usam para esconder a devastação que provocam. A insegurança real tem nome e morada: chama-se desgoverno, chama-se desmantelamento do Estado social, chama-se abandono dos mais vulneráveis.

Treze horas numa urgência hospitalar não são insegurança estatística — são a prova de que o Estado abandonou a sua função primordial de proteger os cidadãos. Não saber onde nascerá o seu bebé não é ansiedade abstrata — é a certeza de que a saúde pública foi sacrificada no altar da austeridade. Um homem que morre no Seixal esperando três horas por uma ambulância não é uma fatalidade — é um homicídio por negligência institucional.

E quando o Governo de Montenegro substitui políticas sociais por políticas punitivas, quando finge resolver problemas inexistentes (a criminalidade não aumentou significativamente, nem tem relação com a imigração) para ocultar os problemas reais que não resolve (saúde, habitação, emprego precário), está a fabricar ativamente as condições para o caos social que depois usará como justificação para mais repressão.

A história de Nem da Rocinha que Cláudia Santos evoca é o espelho do nosso futuro se continuarmos neste caminho: um pai que se torna criminoso porque o Estado o abandonou quando a filha adoeceu. Quantos portugueses estão hoje a um passo desta mesma encruzilhada? Quantos pais desesperados, quantos doentes sem tratamento, quantos jovens sem futuro, quantos trabalhadores precários estão a ser empurrados para a margem do abismo pela indiferença calculada de quem governa?

Montenegro escolheu a segurança como bandeira, mas apenas a segurança performativa das operações policiais espetaculares e das conferências de imprensa em horário nobre. Enquanto isso, a insegurança real — a de não ter casa, a de não ter emprego digno, a de não ter acesso a saúde — cresce exponencialmente. E é precisamente esta insegurança real que alimenta a violência delinquente que depois serve de pretexto para mais Estado policial e menos Estado social.

O círculo vicioso é perfeito: destroem-se as redes de proteção social, empurram-se as pessoas para o desespero, aguarda-se que o desespero se transforme em violência, usa-se essa violência para justificar mais repressão e menos apoio social. É o warfare a substituir o welfare, é a guerra contra os pobres disfarçada de guerra contra o crime.

E por isso, quando vou votar na primeira volta num candidato de esquerda verdadeira, não estou apenas a escolher um programa político — estou a recusar este caminho de barbarização social que nos querem impor. E quando votar, se necessário, contra Ventura na segunda volta, mesmo que seja em Seguro, não estarei a defender uma democracia liberal que me satisfaça — estarei apenas a tentar evitar que o fascismo explícito substitua a violência sistémica que já nos governa.

É pouco? É pouco. Mas entre o sufoco quotidiano da democracia burguesa e a asfixia total do fascismo, há ainda uma diferença que justifica o esforço de tapar o nariz e votar. Não por esperança, mas por recusa do pior. E porque, como Cunhal sabia, há derrotas estratégicas que se aceitam para evitar catástrofes definitivas.

O drama é que esta eleição não nos oferece a possibilidade de vencer — apenas a possibilidade de adiar a derrota. E isso, por mais miserável que seja, ainda vale o esforço de ir às urnas.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Involuntária Pedagogia de Trump

 

Durante décadas, militantes de esquerda na Europa gastaram rios de tinta e oceanos de palavras tentando demonstrar a verdadeira natureza do poder norte-americano. Escreveram livros densos sobre o imperialismo, organizaram manifestações contra as guerras no Vietname e no Iraque, documentaram golpes de Estado patrocinados pela CIA, expuseram as torturas em Abu Ghraib e Guantánamo. E, no entanto, a mitologia persistia: os Estados Unidos como farol da democracia, terra das oportunidades, guardião das liberdades fundamentais.

Donald Trump conseguiu em poucos anos aquilo que gerações inteiras de críticos do imperialismo nunca alcançaram: desmascarar, sem qualquer pudor, a verdadeira face da "democracia" americana. Não através de denúncias ou de análises marxistas — mas simplesmente sendo ele próprio, agindo sem disfarces, dispensando as cortinas de fumo retórico que tradicionalmente envolviam a brutalidade do poder imperial.

A operação na Venezuela é apenas o episódio mais recente desta pedagogia involuntária. Trump não invocou a defesa da democracia, não fingiu preocupação com os direitos humanos, não fabricou complexas narrativas sobre ameaças à segurança nacional. Disse simplesmente: vamos lá buscar o petróleo. As nossas empresas vão administrar os recursos venezuelanos. Ponto final. É o capitalismo predador sem verniz, o imperialismo sem eufemismos, a rapina colonial apresentada com a naturalidade de quem descreve uma transação comercial.

Mas a lição não se esgota na política externa. Internamente, Trump está a demonstrar com clareza brutal o que sempre foi a relação do Estado norte-americano com a dissidência: tolerância zero para quem ousa contestar o poder. As rusgas contra manifestantes, as ameaças de deportação em massa, o discurso cada vez mais explícito sobre o uso da força contra opositores — tudo isto não é novidade na história americana. A novidade é que agora se faz à luz do dia, sem os costumeiros apelos retóricos à liberdade de expressão e aos valores democráticos.

Os que protestam contra Trump não são tratados como cidadãos exercendo direitos constitucionais, mas como inimigos internos a serem neutralizados. As cowboiadas já não se limitam a matar índios nas fronteiras do império — estendem-se agora a qualquer um que se atreva a gritar demasiado alto na própria metrópole. E a possibilidade de acabar engaiolado numa prisão salvadorenha, esse modelo de brutalidade carcerária que Trump tanto admira, deixou de ser apenas uma ameaça vaga para se tornar perspetiva concreta.

Esta é talvez a ironia mais amarga: Trump está a fazer aquilo que bibliotecas inteiras de teoria crítica nunca conseguiram — está a curar os europeus (e não só) da sua ilusão americana. Durante gerações, milhões sonharam com a emigração para essa pretensa terra das oportunidades, compraram o mito do self-made man, acreditaram que do outro lado do Atlântico existia uma sociedade verdadeiramente livre, onde o mérito triunfava e a justiça prevalecia.

Essa ilusão está a desfazer-se em tempo real. Os que ainda alimentavam fantasias sobre a superioridade moral do modelo americano veem agora o que sempre esteve lá: uma sociedade profundamente desigual, estruturalmente violenta, onde a justiça tem cor e classe social, onde as liberdades fundamentais são concessões revogáveis conforme a conveniência do poder. A ameaça de deportação violenta, de prisão arbitrária, de repressão brutal deveria devolver aos iludidos a sensação de realidade que nunca cultivaram quando se tratava de mitificar as virtudes ianques.

O paradoxo é doloroso: Trump, esse produto tóxico do capitalismo terminal, está a fazer o trabalho pedagógico que a esquerda europeia nunca conseguiu completar. Não por virtude, obviamente, mas por pura falta de hipocrisia. Ele não precisa de fingir — o poder está suficientemente consolidado para se apresentar nu. E nessa nudez obscena revela-se finalmente o que a América sempre foi: não uma democracia assente em regras de justiça e respeito pelas liberdades fundamentais, mas uma plutocracia imperial sustentada pela força, pela rapina e pela capacidade de impor a sua vontade através da violência.

Os liberais americanos, esses que ainda acreditam poder salvar a alma da nação através de procedimentos eleitorais e apelos constitucionais, não parecem compreender a dimensão do desastre. Trump não está a corromper um sistema saudável — está apenas a revelar a podridão que sempre lá esteve, escondida sob camadas de retórica sobre checks and balances e rule of law. O império não se tornou predador com Trump; apenas deixou de fingir que era outra coisa.

Para os europeus que ainda olhavam para os Estados Unidos com inveja ou admiração, a lição é dura mas necessária. Aquilo que tomavam por modelo é afinal um aviso. A célebre frase de que "a América é o futuro" ganha agora um significado sinistro: se deixarmos, este futuro de brutalidade desavergonhada, de desigualdade grotesca, de poder sem freios nem máscaras, pode também ser o nosso.

Trump está a prestar um serviço involuntário à consciência política mundial. Está a rasgar os véus, a despir as ilusões, a mostrar o império tal como sempre foi. Resta saber se teremos a inteligência de aprender a lição antes que seja tarde demais. Porque o que Trump demonstra não é apenas a verdade sobre a América — é também a verdade sobre o que acontece quando o poder se sente suficientemente forte para dispensar qualquer aparência de decência.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Princípio da Impunidade

 

A captura de Nicolás Maduro inaugura um tempo político onde o direito internacional deixa de funcionar como travão ao arbítrio das grandes potências. Não se trata apenas de mais uma intervenção militar americana na América Latina – essas somam-se às dezenas desde o início do século XX. O que distingue este momento é a ostentação com que se despreza qualquer legitimidade jurídica, sem sequer o esforço retórico de inventar uma justificação humanitária ou uma resolução das Nações Unidas manipulada.

Esta demonstração de força pura, celebrada como "operação impecável" pelos seus apoiantes, estabelece um precedente perigoso: se a Venezuela hoje, porque não amanhã qualquer país que contrarie os interesses de Washington? A ausência de uma resposta firme da comunidade internacional – a começar pelos silêncios calculados, pelas hesitações terminológicas, pela recusa em nomear a violação – transforma-se em cumplicidade. Cada porta-voz governamental que evita classificar o sucedido como invasão ou ato de agressão contribui para normalizar aquilo que deveria ser inaceitável.

As consequências desenham-se em múltiplas frentes. No plano interno americano, a fratura entre a promessa de não-intervencionismo e a realidade de um novo aventureirismo militar expõe as contradições de um projeto político que prometia colocar a América em primeiro lugar. A gestão de um território ocupado, com todas as suas complexidades – da reconstrução institucional ao controlo de recursos petrolíferos –, pode revelar-se um pântano tão custoso quanto foram o Iraque ou o Afeganistão. E quando os custos humanos e financeiros começarem a pesar, quando as promessas de rápida estabilização se mostrarem ilusórias, a opinião pública poderá voltar-se contra quem lhe vendeu mais uma guerra fácil.

Na América Latina, o efeito imediato será o recrudescimento de tensões ideológicas que pareciam adormecidas. Governos de esquerda ou centro-esquerda, mesmo aqueles que mantinham distância crítica face a Caracas, veem-se agora confrontados com uma ameaça concreta: a possibilidade de intervenção externa sempre que não se alinhem com Washington. O Brasil, o México, a Colômbia terão de repensar as suas políticas externas num contexto onde a soberania deixou de ser um princípio respeitado. Paradoxalmente, a violência desta imposição pode reforçar movimentos antiamericanos na região, alimentando exatamente o tipo de nacionalismo que se pretendia erradicar.

A nível global, o silêncio europeu é talvez o sintoma mais grave desta nova desordem. Se a União Europeia não consegue condenar uma invasão tão flagrante quanto esta, que autoridade moral terá para criticar futuras violações? A inconsistência torna-se evidente quando se compara esta passividade com a retórica empregada noutros conflitos. A falta de coragem para nomear as coisas pelo seu nome – invasão, agressão, violação da Carta da ONU – corrói a própria ideia de uma ordem baseada em regras. E se as regras apenas se aplicam seletivamente, consoante os interesses geopolíticos do momento, então não existem verdadeiramente regras.

Há ainda uma dimensão mais profunda neste episódio: a mensagem enviada a todos os líderes mundiais de que a força bruta voltou a ser um argumento legítimo nas relações internacionais. Países que se sentiam protegidos por tratados, por alianças, pelo simples facto de serem reconhecidos como Estados soberanos, descobrem agora que essa proteção é ilusória quando confrontada com um poder que decide agir unilateralmente. A Gronelândia, Taiwan, qualquer território que desperte cobiça ou represente valor estratégico pode tornar-se o próximo alvo, desde que haja vontade política e ausência de resistência internacional credível.

O futuro próximo desenha-se, portanto, entre dois cenários. Ou este ato encontra uma resposta firme – não necessariamente militar, mas política, diplomática, económica – que restabeleça algum respeito pelas normas internacionais, ou assistiremos a uma escalada de intervenções semelhantes, cada uma justificando a seguinte, numa corrida para o abismo onde apenas a lei do mais forte prevalece. A História mostra-nos que os anos 1930 foram marcados precisamente por esta incapacidade coletiva de travar agressões enquanto ainda era possível. Quando finalmente se reagiu, era tarde demais.

O que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela ou de Nicolás Maduro. É a própria arquitetura do sistema internacional construído após 1945, imperfeito mas capaz de impor alguns limites ao caos. Se essa arquitetura desmoronar – e este episódio representa uma fenda profunda nas suas fundações –, todos ficaremos mais vulneráveis, incluindo aqueles que hoje aplaudem ou se calam. Porque a impunidade, uma vez instalada, não conhece fronteiras nem distingue aliados de adversários. Apenas reconhece poder, e quem o detém hoje pode perdê-lo amanhã.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Império Nu: Trump e o Regresso da Predação Colonial

 

Há dias em que a História rasga a própria pele e mostra a carne viva. O rapto de Nicolás Maduro pelas forças especiais norte-americanas não é apenas mais um episódio de intervencionismo — é a revelação brutal de que o império decidiu despir as vestes da legalidade internacional e apresentar-se tal como sempre foi: um poder que toma o que quer, quando quer.

Donald Trump não se deu ao trabalho de disfarçar. Numa franqueza quase obscena, assumiu que os Estados Unidos vão "gerir" a Venezuela, que as suas petrolíferas vão "investir milhares de milhões de dólares" nas maiores reservas de crude do planeta. Não falou de democracia, não mencionou eleições livres, não invocou os direitos humanos. Falou de petróleo. Apenas de petróleo. Como um conquistador do século XIX que planta a bandeira em terra alheia e declara: isto agora é meu.

O que assistimos não é uma "mudança de regime" — é um assalto à mão armada a um país soberano, executado por uma superpotência que já nem se incomoda em fabricar pretextos minimamente credíveis. A narrativa do "narcoterrorismo" serviu de biombo para uma operação de pilhagem que teria feito corar os velhos praticantes da diplomacia da canhoneira. Pelo menos esses tinham o pudor de fingir civilizar os selvagens. Trump nem isso.

A pergunta que fica suspensa no ar contamina tudo: se o líder da suposta ordem liberal pode bombardear uma capital e sequestrar um chefe de Estado, com que autoridade moral se condena Putin pela Ucrânia? Com que legitimidade se critica Xi Jinping pelas ameaças a Taiwan? O senador Mark Warner teve a coragem de formular a questão que muitos preferem ignorar: que impede agora a China de invocar o mesmo precedente sobre os dirigentes de Taiwan? Que impede Putin de reclamar idêntica autoridade sobre Volodymyr Zelensky?

Trump não destruiu apenas o frágil edifício do direito internacional — destruiu o último recurso que sustentava a hegemonia americana: a legitimidade. Durante décadas, o poder dos Estados Unidos não assentava apenas em porta-aviões e mísseis, mas numa pretensão de representar algo mais — valores, normas, um horizonte civilizacional. Essa ilusão acabou. O que resta é a força nua, o apetite desavergonhado, o petróleo como única bússola moral.

E a Europa? A União Europeia, essa construção frágil que teima em acreditar no multilateralismo e no respeito pelo direito internacional, limitou-se a emitir comunicados de "preocupação". Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha manifestaram-se — governos de esquerda que ainda acreditam que as palavras têm peso. Mas onde ficou Portugal neste mapa da indignação?

A vergonha tem nome próprio: Paulo Rangel. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, representante de um país que durante décadas sofreu sob um regime autoritário e que deveria ter a memória colonial tatuada na consciência coletiva, optou pelo silêncio cúmplice ou, pior, por alguma declaração morna que mais parece um rascunho de não-posição. Portugal, que podia ter somado a sua voz ao protesto dos países latino-americanos que partilham a mesma língua e herança cultural, preferiu a discrição de quem não quer desagradar ao império.

É o servilismo transformado em política externa. É a NATO como álibi para abdicar de qualquer postura ética. É o atlantismo como religião que exige o sacrifício da dignidade no altar da obediência. Paulo Rangel escolheu o lado da história onde os vassalos aplaudem em surdina enquanto o senhor saqueia à luz do dia.

A Venezuela não ganhou liberdade com esta operação; trocou um governo local por um protetorado petrolífero. As empresas norte-americanas vão administrar o crude venezuelano "como se fosse um protetorado dos Estados Unidos", nas palavras certeiras do economista Francisco Rodríguez. E é exatamente isso que será.

O laboratório venezuelano anuncia um mundo novo e terrível. Trump enviou uma mensagem ao planeta inteiro: nenhuma nação, por mais soberana que se julgue, está a salvo se tiver algo que Washington cobiça. A Gronelândia volta à conversa, agora com a mulher de Stephen Miller a publicar mapas da ilha coberta pela bandeira americana e a legenda "Em breve". É o imperialismo sem eufemismos, sem retórica humanitária, sem fingimentos.

E nós, europeus, assistimos de braços caídos. Pior: alguns, como Paulo Rangel, assistem de cócoras. A grande questão que fica — e que ninguém ousa responder — é esta: se Trump pode fazer isto à Venezuela, o que o impedirá de fazer o mesmo a quem mais contrarie os seus interesses? E se a Europa permanece muda perante esta brutalidade, que valor tem ainda a sua retórica sobre valores, direitos humanos e ordem internacional?

A Venezuela converteu-se no primeiro país abertamente submetido ao imperialismo predador destes nossos tempos. Não será o último. E cada silêncio cúmplice — como o de Paulo Rangel — torna o próximo assalto mais fácil, mais provável, mais inevitável. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando até os aliados denunciam

 

Há dias em que até quem normalmente não partilha as minhas posições políticas acaba por dizer verdades incómodas. É o caso de dois artigos no Expresso de hoje, assinados por Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, que merecem atenção - o primeiro pela concordância quase total que me suscita, o segundo pelo que escamoteia.

Miguel Sousa Tavares escolhe como fotografia do ano a imagem de um imigrante hispânico nos Estados Unidos caçado por três energúmenos encapuzados do ICE, a agência de perseguição a imigrantes que é o orgulho de Trump. A fotografia mostra um homem agachado, agarrado pelos braços e pernas, com expressão de completo desespero, segurando uma carteira de documentos que de nada lhe serviu. No seu olhar angustiado adivinhamos a prisão e a deportação, o fim do sonho americano que um dia o levou a investir todas as suas poupanças nesse país construído por imigrantes.

Sousa Tavares não poupa Trump: "Segundo as suas regras para um mundo MAGA, há os ricos e os deserdados, os poderosos e os indefesos, os que mandam e os que devem obedecer. A desintegração por ele promovida de uma sociedade fundada em valores e num mínimo previsível de decência humana é a grande realização do seu primeiro ano em funções."

E depois aponta as baterias a Nuno Melo, que considerou Trump o "homem do ano" não apenas factualmente, mas "com notas positivas". A justificação do ministro da Defesa - que Trump "determinou alterações significativas nas dinâmicas da política internacional, relançou os investimentos dos aliados na NATO" - merece resposta demolidora: não é questão de avaliar o estilo, mas o carácter e a simples decência de um homem que persegue opositores, usa o cargo para fazer negócios milionários, ameaça invadir países aliados, assalta navios em alto-mar. Não é questão de estilo, mas de Código Penal.

Sobre Montenegro e a invocação de Cristiano Ronaldo como inspiração, Sousa Tavares também não poupa: se se trata de inspiração atlética, ótimo mas impossível de alcançar. Se se trata de mentalidade de ganhos financeiros ilimitados - 260 milhões por ano, com zero de IRS -, também seria bom mas igualmente inalcançável. Mas se tudo isso serve essencialmente para ser exibido em fotografias de luxo "sem qualquer demonstração de utilidade social ou benefício para o país", e se tudo se alcança também "graças à conivência com um trio internacional de gente de hábitos duvidosos" - Trump, Gianni Infantino e o príncipe Mohammed bin Salman -, então "Montenegro que me desculpe mas eu dispenso a inspiração fornecida por Cristiano Ronaldo. Há outros valores em que vale mais a pena apostar."

Concordo inteiramente. E acrescento: a obsessão com a "mentalidade vencedora" de Ronaldo é a privatização da esperança. Se falhas, a culpa é tua. Se tens contrato precário a vida toda, se não consegues pagar renda, a culpa é da tua mentalidade derrotista, não do sistema que te explora.

João Vieira Pereira escreve sobre o aeroporto de Lisboa e a concessão à Vinci. Descreve bem o caos: "Tudo funciona com uma lentidão desarmante que transforma a paciência de qualquer um num desespero atroz." Denuncia os lucros pornográficos: mais de 500 milhões em 2024, comparados com os 15 milhões entregues ao Estado. "Numa década, a Vinci recuperou o que investiu quando ainda faltam 40 anos para o fim da concessão."

E conclui: "Cabe agora a quem governa dizer basta e mudar o estado das coisas. O Estado português é soberano e tem mais do que razões para dizer que o contrato de concessão assinado há mais de 10 anos deixou de fazer sentido."

Concordo com o diagnóstico e com a solução - a renacionalização faria mais bem do que mal. Mas Vieira Pereira escamoteia o essencial: quem assinou esse contrato leonino? Quem fez essa "prenda" à Vinci? Foi o seu tão apoiado Passos Coelho, esse mesmo que agora anda a preparar o regresso com livro de memórias prometido desde 2018 e que continua sem aparecer.

A ironia é deliciosa: um comentador de direita denuncia um contrato assinado pela direita, pede ao governo de direita que o rasgue, mas esquece-se convenientemente de dizer quem é o responsável original. É como denunciar um roubo sem mencionar o ladrão quando ele é da família.

As "46 perguntas para 2026" que o Expresso publica são exercício interessante mas arriscado. Fica uma nota: a realidade nacional tem sido tão imprevisível que tudo quanto nela se aposte como provável tem grande risco de falhar. Quem diria há dois anos que estaríamos aqui? Quem diria que haveria golpe institucional derrubando Costa, que Marcelo cumpriria o objetivo para que se candidatou, que Montenegro governaria com a bengala do Chega?

A única certeza é a incerteza. E talvez por isso até Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, cada um à sua maneira, acabem por dizer verdades que normalmente ficam por dizer. Quando até os aliados denunciam, é porque a situação é grave. Resta saber se denunciam para mudar ou apenas para se distanciarem do naufrágio que ajudaram a criar.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O país que não queremos ver

 

Há dias em que a leitura da imprensa revela um padrão tão claro que se torna impossível ignorá-lo: vivemos num país que prefere a ilusão à realidade, o espetáculo à substância, a culpabilização das vítimas ao reconhecimento de injustiças estruturais.

Comecemos pelas mulheres. Helena Pereira comenta no «Público» um relatório da CIG que expõe um paradoxo brutal: quanto mais as mulheres avançam na carreira, maior tende a ser o fosso salarial face aos homens. A diferença passa de 4,6% nos estágios para 26,5% nos quadros superiores, muito ligada a prémios e remuneração variável onde persistem estereótipos. No geral, as mulheres trabalham mais 64 dias por ano para igualar o salário masculino. Um país estruturalmente misógino.

E quando surgem denúncias de abuso e violência envolvendo figuras prestigiadas? Ana Sá Lopes denuncia o padrão: surgem redes de proteção social, inclusive de gente que se diz feminista. O abaixo-assinado "anti-cancelamento" em defesa de Boaventura Sousa Santos inverte o ónus e transforma as acusadoras nas culpadas. A autora alarga a crítica à cultura de impunidade do país, concluindo que o discurso público sobre defesa das mulheres é muitas vezes vazio e oportunista.

António Guerreiro, no Ípsilon, vai mais fundo ao analisar a dimensão psicológica do autoritarismo. Recorrendo a Adorno e Wilhelm Reich, sugere que repressão, "virilismo", submissão ao chefe e circulação libidinal alimentam o irracionalismo político. Usa o contraste entre o discurso punitivista sexual do Chega e os casos de abusos envolvendo membros do partido para explorar a ideia de "carácter" autoritário. Responder a Ventura com debates racionais tradicionais falha porque a extrema-direita usa técnicas retóricas que contornam teoria e prova.

E não é apenas misoginia e autoritarismo. É também racismo normalizado. Guerreiro reflete, noutro texto, sobre o anticiganismo como racismo socialmente tolerado, problematizando como a linguagem ("comunidade cigana") pode ser um eufemismo que marca distância e exclusão, tornando certos grupos "baníveis" sem escândalo.

A direita, entretanto, dedica-se a propaganda e ilusionismo. Carlos Moedas esteve presente em apenas 2 de 7 reuniões do conselho consultivo europeu da habitação - verificação do «Público» confirma a acusação de Alexandra Leitão. Mas isso não impede que continue a apresentar-se como solução para a crise habitacional que ajuda a agravar.

E Montenegro, no discurso de Natal satirizado por Tiago Franco, dedica-se à moralização e propaganda: "excelência", Cristiano Ronaldo, "nada cai do céu". Culpabiliza os comuns, ignora precariedade e desigualdades, apela ao esforço enquanto ostenta privilégio e cinismo. É a "mentalidade vencedora" transformada em doutrina oficial.

Na ciência e inovação, o padrão repete-se: anúncios em vez de políticas. Ricardo Paes Mamede critica no «Público» a criação da AI2, que funde FCT e ANI, tanto pelo processo (pouco estudo, pouca consulta) como pelo modelo. O governo parte de um diagnóstico enganador: o fraco desempenho inovador não se explica só por pouca I&D empresarial, mas pela estrutura produtiva e pela fraca capacidade das empresas. Alerta contra a visão "linear" de que ciência gera automaticamente competitividade. Mais uma reforma feita para a galeria.

E quando olhamos para fora, vemos os mesmos padrões a escala global. O Libération reporta campanhas de plantação de árvores no leito seco do mar de Aral para travar poeiras tóxicas. A ideia tem base científica, mas na prática muitos projetos falham por salinidade e falta de acompanhamento. É "green branding": drones a largar sementes, créditos de carbono, encenação de solução enquanto as causas estruturais - má gestão da água, poluição - persistem. Espetáculo em vez de substância.

E em Gaza, como denuncia José Goulão, assistimos à desumanização dos palestinianos contraposta com o "humanitarismo" do resgate de burros, símbolo de hipocrisia moral e propaganda enquanto civis, incluindo crianças, não recebem a mesma proteção.

O padrão é sempre o mesmo: culpabilizar as vítimas, proteger os poderosos, preferir o espetáculo à solução, a propaganda à verdade. As mulheres são castigadas pelo seu sucesso mas culpadas quando denunciam abusos. Os trabalhadores são acusados de não terem "mentalidade vencedora" enquanto o sistema os explora. Os ciganos são excluídos mas a culpa é atribuída a eles por não se "integrarem". O planeta arde mas plantam-se árvores para as câmaras enquanto as causas persistem.

Este é o país que não queremos ver mas que existe: estruturalmente misógino, protetor de abusadores, racista normalizado, autoritário na psicologia coletiva, governado por ilusionistas que vendem propaganda como política. E enquanto não o virmos como é, não poderemos mudá-lo.