A captura de Nicolás Maduro inaugura um tempo político onde o direito internacional deixa de funcionar como travão ao arbítrio das grandes potências. Não se trata apenas de mais uma intervenção militar americana na América Latina – essas somam-se às dezenas desde o início do século XX. O que distingue este momento é a ostentação com que se despreza qualquer legitimidade jurídica, sem sequer o esforço retórico de inventar uma justificação humanitária ou uma resolução das Nações Unidas manipulada.
Esta demonstração de força pura, celebrada como "operação impecável" pelos seus apoiantes, estabelece um precedente perigoso: se a Venezuela hoje, porque não amanhã qualquer país que contrarie os interesses de Washington? A ausência de uma resposta firme da comunidade internacional – a começar pelos silêncios calculados, pelas hesitações terminológicas, pela recusa em nomear a violação – transforma-se em cumplicidade. Cada porta-voz governamental que evita classificar o sucedido como invasão ou ato de agressão contribui para normalizar aquilo que deveria ser inaceitável.
As consequências desenham-se em múltiplas frentes. No plano interno americano, a fratura entre a promessa de não-intervencionismo e a realidade de um novo aventureirismo militar expõe as contradições de um projeto político que prometia colocar a América em primeiro lugar. A gestão de um território ocupado, com todas as suas complexidades – da reconstrução institucional ao controlo de recursos petrolíferos –, pode revelar-se um pântano tão custoso quanto foram o Iraque ou o Afeganistão. E quando os custos humanos e financeiros começarem a pesar, quando as promessas de rápida estabilização se mostrarem ilusórias, a opinião pública poderá voltar-se contra quem lhe vendeu mais uma guerra fácil.
Na América Latina, o efeito imediato será o recrudescimento de tensões ideológicas que pareciam adormecidas. Governos de esquerda ou centro-esquerda, mesmo aqueles que mantinham distância crítica face a Caracas, veem-se agora confrontados com uma ameaça concreta: a possibilidade de intervenção externa sempre que não se alinhem com Washington. O Brasil, o México, a Colômbia terão de repensar as suas políticas externas num contexto onde a soberania deixou de ser um princípio respeitado. Paradoxalmente, a violência desta imposição pode reforçar movimentos antiamericanos na região, alimentando exatamente o tipo de nacionalismo que se pretendia erradicar.
A nível global, o silêncio europeu é talvez o sintoma mais grave desta nova desordem. Se a União Europeia não consegue condenar uma invasão tão flagrante quanto esta, que autoridade moral terá para criticar futuras violações? A inconsistência torna-se evidente quando se compara esta passividade com a retórica empregada noutros conflitos. A falta de coragem para nomear as coisas pelo seu nome – invasão, agressão, violação da Carta da ONU – corrói a própria ideia de uma ordem baseada em regras. E se as regras apenas se aplicam seletivamente, consoante os interesses geopolíticos do momento, então não existem verdadeiramente regras.
Há ainda uma dimensão mais profunda neste episódio: a mensagem enviada a todos os líderes mundiais de que a força bruta voltou a ser um argumento legítimo nas relações internacionais. Países que se sentiam protegidos por tratados, por alianças, pelo simples facto de serem reconhecidos como Estados soberanos, descobrem agora que essa proteção é ilusória quando confrontada com um poder que decide agir unilateralmente. A Gronelândia, Taiwan, qualquer território que desperte cobiça ou represente valor estratégico pode tornar-se o próximo alvo, desde que haja vontade política e ausência de resistência internacional credível.
O futuro próximo desenha-se, portanto, entre dois cenários. Ou este ato encontra uma resposta firme – não necessariamente militar, mas política, diplomática, económica – que restabeleça algum respeito pelas normas internacionais, ou assistiremos a uma escalada de intervenções semelhantes, cada uma justificando a seguinte, numa corrida para o abismo onde apenas a lei do mais forte prevalece. A História mostra-nos que os anos 1930 foram marcados precisamente por esta incapacidade coletiva de travar agressões enquanto ainda era possível. Quando finalmente se reagiu, era tarde demais.
O que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela ou de Nicolás Maduro. É a própria arquitetura do sistema internacional construído após 1945, imperfeito mas capaz de impor alguns limites ao caos. Se essa arquitetura desmoronar – e este episódio representa uma fenda profunda nas suas fundações –, todos ficaremos mais vulneráveis, incluindo aqueles que hoje aplaudem ou se calam. Porque a impunidade, uma vez instalada, não conhece fronteiras nem distingue aliados de adversários. Apenas reconhece poder, e quem o detém hoje pode perdê-lo amanhã.





