quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A necessidade de votar contra o fascismo

 

Votei a contragosto em António José Seguro na primeira volta. Continuo a considerá-lo um homem de direita quando medido pela matriz histórica do Partido Socialista, esse que um dia acreditou na transformação social e não apenas na gestão competente do capitalismo. Mas na segunda volta votarei nele sem rebuços, sem hesitações, sem o nariz tapado que outros precisam. E fá-lo-ei mesmo "acompanhado" de tanta gente de quem me sinto abismalmente afastado ideologicamente — dos liberais da Iniciativa Liberal aos sociais-democratas de sempre, passando por toda essa fauna política que normalmente combato.

A questão agora em equação não admite sofismas nem finuras teóricas: trata-se de escolher entre democracia e fascismo. Escrevo democracia com minúscula porque a Democracia com maiúscula — essa que transformaria radicalmente quem detém os meios de produção e de expressão do pensamento livre — é outra coisa completamente diferente, um horizonte que permanece distante e talvez inatingível nestas coordenadas históricas. Mas mesmo esta democracia imperfeita, burguesa, limitada, vale infinitamente mais do que o fascismo que André Ventura representa sem disfarces.

Manuel Loff tem razão quando pergunta se não são fascistas. São. Ventura e os seus não precisam de usar camisas negras ou desfilar com tochas para serem reconhecidos pelo que são. A retórica adaptada ao século XXI, os aliados internacionais, a base social, os métodos — tudo remete para o fascismo clássico atualizado para os tempos das redes sociais e da pós-verdade. Quem ainda nega este perigo, ou está cego por conveniência ideológica, ou é cúmplice consciente da catástrofe que se avizinha.

Montenegro, ao optar por não decidir entre Seguro e Ventura, não está apenas a estabelecer uma equivalência moral obscena entre democracia e fascismo. Está a normalizar o inaceitável, a tornar palatável o que deveria repugnar qualquer pessoa minimamente decente. Pedro Adão e Silva acerta ao diagnosticar o processo de arrastamento da direita moderada para o radicalismo. Em poucos anos passámos de um país que se julgava imune ao populismo para um onde a direita tradicional namora abertamente com o fascismo ou, na melhor das hipóteses, se demite de o combater.

O que custa é a primeira vez, diz Adão e Silva. E tem razão. Os eleitores que agora votam em Ventura pela primeira vez podem nunca mais voltar. Cada voto normaliza, cada abstenção facilita, cada equidistância covarde da direita moderada pavimenta o caminho para a barbárie.

Neste contexto, a operação da Polícia Judiciária contra o grupo neonazi liderado por Mário Machado só peca por tardia. Não faltavam provas incriminatórias contra estes indivíduos — sinistras caricaturas do que devem ser os seres humanos — que faziam da violência xenófoba o seu programa político e da intimidação racial a sua prática quotidiana. Durante demasiado tempo deixámo-los agir, organizar-se, recrutar, agredir. E agora descobrimos que entre os 37 detidos estão um polícia e um militar, que há ligações a grupos organizados de claques de futebol, que existe uma estrutura hierárquica estabelecida que opera há anos em plena luz do dia.

Trinta anos depois do assassínio de Alcindo Monteiro, alguns dos envolvidos naquele crime hediondo continuam ativos na mesma lógica de violência racista. Isto não é apenas falha policial — é falha civilizacional. É o resultado de décadas de complacência com o discurso de ódio, de normalização da xenofobia, de tolerância com a intolerância. Quando a extrema-direita passa de marginal a mainstream, quando políticos eleitos legitimam o racismo com eufemismos sobre "segurança" e "identidade nacional", não nos podemos surpreender quando aparecem milícias neonazis a agredir imigrantes nas ruas.

E aqui chegamos ao terceiro elemento desta equação: a luta sindical que a CGTP liderará — pela habitual falta de comparência da UGT — contra o pacote laboral de Montenegro. Esta será outro momento fundamental da luta pela democracia. Porque os "direitos" remanescentes concedidos por esse projeto de lei a quem trabalha só se enquadram nos regimes autocráticos onde os trabalhadores são mercadoria descartável e os sindicatos são domesticados ou abolidos.

Montenegro pode anunciar acordos plurianuais com a UGT e dar a ideia de que a CGTP está isolada. Mas a verdade é que um pacote laboral que precariza ainda mais as relações de trabalho, facilita os despedimentos, reduz direitos conquistados ao longo de décadas, não é apenas uma questão técnica de gestão económica — é um ataque frontal à dignidade de quem trabalha. É a preparação do terreno social para o autoritarismo político.

Porque o fascismo não chega ao poder apenas pelo voto. Decorre da erosão prévia das condições materiais de vida das pessoas, pela destruição das redes de proteção social, pela precarização permanente. E da insegurança económica tão insuportável que as pessoas aceitam qualquer promessa de ordem, mesmo que seja a do chicote.

Por isso a luta contra o pacote laboral não é apenas uma luta sindical — é uma luta antifascista. E por isso votar em Seguro contra Ventura não é apenas escolher o menor de dois males — é escolher a possibilidade de continuar a luta pela Democracia com maiúscula, mesmo dentro dos limites apertados da democracia com minúscula.

Não teço ilusões. Seguro não será o presidente que transforma Portugal num país mais justo. Não desafiará o poder económico, não questionará a NATO, não porá em causa o capitalismo. Mas garantirá — e já não é pouco — a continuação do respeito pelas liberdades constitucionais que permitem continuar a lutar por algo melhor. Ventura, esse, fecharia definitivamente essa possibilidade.

Entre a náusea de votar num candidato de direita e a necessidade de travar o fascismo, não há dúvida possível. A náusea passa. O fascismo, uma vez instalado, demora gerações a ser derrotado. E o preço dessa derrota mede-se em sangue, tortura, campos de concentração, vidas destruídas.

Votarei em Seguro sem entusiasmo mas sem vergonha. Porque às vezes a dignidade política não está em votar naquilo em que se acredita, mas em impedir aquilo que se combate. E o fascismo, mesmo vestido de fato e gravata, mesmo falando a linguagem do século XXI, continua a ser o inimigo absoluto de tudo aquilo em que acredito.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Nojo e a questão de fundo: que bestas estão a vestir a farda?

 

Nesta última sexta-feira antes da primeira volta de umas presidenciais, que deixarão de fora os candidatos das esquerdas vindos à boca de cena, será mais pertinente manifestar o nojo pelo comportamento dos polícias da Esquadra do Rato acusados pelo Ministério Público de agredirem, até mesmo violarem, os pobres desgraçados caídos nas suas malhas. E dar razão a Daniel Oliveira quanto à questão subjacente a estes factos: que tipo de bestas estão a contratar-se para serem polícias ao verificarem-se casos de quem se serve da farda para dar livre curso às suas perversões íntimas e preconceitos xenófobos?

David Pontes, no editorial do Público, acerta ao dizer que a notícia atingiu o país "como um murro no estômago". Mas a verdade é que este murro devia ter sido previsto, esperado, antecipado. Não porque casos de tortura e violação sistemáticas dentro de uma esquadra sejam normais — não o são, e nunca o deverão ser — mas porque os sinais de podridão dentro das forças de segurança têm sido abundantes e consecutivamente ignorados.

Os dois agentes acusados torturavam e violavam pessoas vulneráveis — na sua maioria imigrantes, os mais frágeis entre os frágeis — e filmavam as suas atrocidades para partilhar num grupo de WhatsApp com cerca de 70 pessoas, presumivelmente outros polícias. Faziam-no com gáudio, com prazer sádico, com a certeza da impunidade. Durante quase um ano, mais de uma dezena de vítimas foram abusadas sistematicamente no interior da esquadra. E ninguém sabia? Ninguém via? Ninguém ouvia os gritos?

A hierarquia da PSP denunciou o caso, é verdade, e merece crédito por isso. O Ministério da Administração Interna veio a público lamentar "profundamente estes comportamentos" e assegurar que "não representam a generalidade dos profissionais da PSP". Aceitemos que isto seja verdade — a maioria dos polícias não são torturadores nem violadores. Mas esta não pode ser toda a resposta, porque a pergunta de fundo permanece intocada: como é que isto foi possível?

Como é que durante quase um ano, dentro de uma esquadra, no coração de Lisboa, agentes da autoridade puderam transformar o espaço que deveria proteger os cidadãos numa câmara de tortura? Como é que a "generalidade dos elementos dessa unidade" não sabia — ou, pior ainda, sabia e optou pelo silêncio cúmplice em vez da denúncia a que estava legalmente obrigada?

E o que dizer das 70 pessoas no grupo de mensagens que recebiam vídeos de torturas e violações? Também não sabiam? Também acharam que não era com elas? Também decidiram que era melhor calar e fingir que nada se passava?

O silêncio não é inocente. Nunca foi. O silêncio perante a barbárie é cumplicidade ativa, é pacto com os algozes, é traição às vítimas. E se há 70 pessoas num grupo a receber imagens de tortura sem denunciar, então o problema não são dois polícias psicopatas — é uma cultura institucional que permite, tolera e até eventualmente celebra este tipo de comportamento.

Mas há uma dimensão ainda mais sinistra nesta história: a maioria das vítimas identificadas são imigrantes. Não é coincidência. É padrão. Sucessivos episódios — desde a partilha de discurso de ódio nas redes sociais até ao caso de uma milícia neonazi dentro da PSP — mostram que há gente nesta força que convive confortavelmente com o racismo e a xenofobia. Podem não ser todos, podem até ser uma minoria, mas essa minoria está a mais. E o que é pior: essa minoria sente-se suficientemente segura para agir abertamente, para filmar as suas atrocidades, para partilhá-las como troféus.

Isto levanta a questão fundamental que Daniel Oliveira formulou e que o editorial do Público deveria ter desenvolvido mais: que tipo de pessoas estão a ser recrutadas para as forças de segurança? Que filtros — se é que existem — estão a ser aplicados no processo de seleção? Que formação — se é que existe — está a ser dada sobre direitos humanos, sobre respeito pela dignidade das pessoas, sobre os limites éticos e legais do uso da força?

E mais importante ainda: que tipo de cultura institucional está a ser cultivada dentro da PSP que permite que jovens profissionais, acabados de sair da escola de polícia, já se comportem como torturadores convictos? Porque, e isto é o alerta mais sério que se pode retirar deste caso, os dois acusados não são polícias veteranos brutalizados por décadas de trabalho árduo. São jovens. Formados recentemente. O futuro da instituição.

Se o futuro da PSP são jovens que acham normal torturar imigrantes e partilhar vídeos das torturas com os colegas, então o problema não está apenas nestes dois indivíduos — está no sistema que os formou, na cultura que os acolheu, na hierarquia que não os travou a tempo.

A campanha eleitoral que nos distrai nestes dias faz desta questão mais um tema para declarações indignadas e promessas vazias. Mas quando as urnas fecharem e os votos forem contados, esta realidade permanecerá: há pessoas com farda e arma ao serviço do Estado que usam esse poder para dar livre curso às suas perversões mais íntimas e aos seus preconceitos mais abjetos. E há dezenas, talvez centenas de outras pessoas também com farda que sabem, veem, e calam.

O Ministério pode lamentar profundamente, a hierarquia pode classificar de gravíssimo, os comunicados podem multiplicar-se. Mas enquanto não houver uma limpeza radical desta podridão, enquanto não se investigarem e punirem todos os cúmplices silenciosos, enquanto não se reformular por completo o processo de recrutamento e formação dos polícias, enquanto não se erradicar a cultura de impunidade e camaradagem perversa que permite estas barbaridades, continuaremos a ser atingidos por murros no estômago.

E cada murro destes deveria servir de lembrete: quando o Estado contrata bestas e lhes dá farda, arma e poder sobre os mais vulneráveis, não está a garantir a segurança dos cidadãos. Está a armá-las para a caça aos indefesos.

Calar isto, como bem diz David Pontes, é ser cúmplice com os culpados. E a cumplicidade, neste país, já vai demasiado funda e demasiado alta na cadeia de comando para que possamos continuar a fingir que se trata apenas de maçãs podres isoladas. A podridão é sistémica. E enquanto não a enfrentarmos como tal, os murros no estômago continuarão a chegar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre o Sufoco e a Urgência: Votar Contra o Abismo

 

A primeira volta das presidenciais coloca-me perante uma escolha clara: votarei num dos três candidatos das esquerdas verdadeiras — e nenhum deles é António José Seguro, que só por piedade ou distração se poderá classificar como "centro-esquerda", seja lá o que isso signifique em tempos de tanta confusão programática. Na segunda volta, farei o que for necessário para travar Ventura, ainda que isso implique votar em Seguro, Marques Mendes ou até Cotrim. Seguirei, se necessário, o conselho histórico de Álvaro Cunhal quando mandou os comunistas votarem em Mário Soares contra Freitas do Amaral: com o nariz tapado, mas votando.

Porém, e aqui Pedro Adão e Silva tem toda a razão no texto hoje inserido na última página do Público: as circunstâncias são radicalmente diferentes de 1986. O que então estava em jogo era a consolidação de uma democracia ainda frágil contra os restos do autoritarismo salazarista. O que está em jogo agora é a defesa daquilo a que chamam "democracia liberal" — eufemismo contemporâneo para o que outrora se designava honestamente como "democracia burguesa" — contra o fascismo puro e duro que Ventura representa sem disfarces.

E aqui reside o nó górdio desta eleição: os mileiristas de Cotrim, esses arautos do ultraliberalismo que fantasiam um Estado mínimo onde apenas sobrevive quem tem capital, estão objetivamente de braço dado com o despudor autoritário de Ventura. Não por coincidência ideológica explícita, mas porque ambos partilham o mesmo desprezo pelos mais frágeis, a mesma indiferença perante a miséria alheia, a mesma vontade de desmantelar o que resta do Estado social. A indistinção entre a base militante do Chega e a da Iniciativa Liberal nas redes sociais não é acidente — é revelação de uma cumplicidade profunda que apenas se envergonha de si própria quando as câmaras estão ligadas.

Cotrim pode declarar o que quiser sobre apoiar Ventura numa segunda volta. A verdade é que o seu projeto político já apoia Ventura todos os dias ao defender políticas que empurram os portugueses para o desespero do qual o fascismo se alimenta. É isto que Cláudia Santos - num artigo do mesmo Público -demonstra de forma irrefutável no seu texto sobre a insegurança real dos portugueses.

E aqui subscrevo totalmente a sua análise: a verdadeira insegurança que assola o país não tem nada a ver com a criminalidade — essa é apenas o biombo conveniente que Montenegro e Ventura usam para esconder a devastação que provocam. A insegurança real tem nome e morada: chama-se desgoverno, chama-se desmantelamento do Estado social, chama-se abandono dos mais vulneráveis.

Treze horas numa urgência hospitalar não são insegurança estatística — são a prova de que o Estado abandonou a sua função primordial de proteger os cidadãos. Não saber onde nascerá o seu bebé não é ansiedade abstrata — é a certeza de que a saúde pública foi sacrificada no altar da austeridade. Um homem que morre no Seixal esperando três horas por uma ambulância não é uma fatalidade — é um homicídio por negligência institucional.

E quando o Governo de Montenegro substitui políticas sociais por políticas punitivas, quando finge resolver problemas inexistentes (a criminalidade não aumentou significativamente, nem tem relação com a imigração) para ocultar os problemas reais que não resolve (saúde, habitação, emprego precário), está a fabricar ativamente as condições para o caos social que depois usará como justificação para mais repressão.

A história de Nem da Rocinha que Cláudia Santos evoca é o espelho do nosso futuro se continuarmos neste caminho: um pai que se torna criminoso porque o Estado o abandonou quando a filha adoeceu. Quantos portugueses estão hoje a um passo desta mesma encruzilhada? Quantos pais desesperados, quantos doentes sem tratamento, quantos jovens sem futuro, quantos trabalhadores precários estão a ser empurrados para a margem do abismo pela indiferença calculada de quem governa?

Montenegro escolheu a segurança como bandeira, mas apenas a segurança performativa das operações policiais espetaculares e das conferências de imprensa em horário nobre. Enquanto isso, a insegurança real — a de não ter casa, a de não ter emprego digno, a de não ter acesso a saúde — cresce exponencialmente. E é precisamente esta insegurança real que alimenta a violência delinquente que depois serve de pretexto para mais Estado policial e menos Estado social.

O círculo vicioso é perfeito: destroem-se as redes de proteção social, empurram-se as pessoas para o desespero, aguarda-se que o desespero se transforme em violência, usa-se essa violência para justificar mais repressão e menos apoio social. É o warfare a substituir o welfare, é a guerra contra os pobres disfarçada de guerra contra o crime.

E por isso, quando vou votar na primeira volta num candidato de esquerda verdadeira, não estou apenas a escolher um programa político — estou a recusar este caminho de barbarização social que nos querem impor. E quando votar, se necessário, contra Ventura na segunda volta, mesmo que seja em Seguro, não estarei a defender uma democracia liberal que me satisfaça — estarei apenas a tentar evitar que o fascismo explícito substitua a violência sistémica que já nos governa.

É pouco? É pouco. Mas entre o sufoco quotidiano da democracia burguesa e a asfixia total do fascismo, há ainda uma diferença que justifica o esforço de tapar o nariz e votar. Não por esperança, mas por recusa do pior. E porque, como Cunhal sabia, há derrotas estratégicas que se aceitam para evitar catástrofes definitivas.

O drama é que esta eleição não nos oferece a possibilidade de vencer — apenas a possibilidade de adiar a derrota. E isso, por mais miserável que seja, ainda vale o esforço de ir às urnas.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A Involuntária Pedagogia de Trump

 

Durante décadas, militantes de esquerda na Europa gastaram rios de tinta e oceanos de palavras tentando demonstrar a verdadeira natureza do poder norte-americano. Escreveram livros densos sobre o imperialismo, organizaram manifestações contra as guerras no Vietname e no Iraque, documentaram golpes de Estado patrocinados pela CIA, expuseram as torturas em Abu Ghraib e Guantánamo. E, no entanto, a mitologia persistia: os Estados Unidos como farol da democracia, terra das oportunidades, guardião das liberdades fundamentais.

Donald Trump conseguiu em poucos anos aquilo que gerações inteiras de críticos do imperialismo nunca alcançaram: desmascarar, sem qualquer pudor, a verdadeira face da "democracia" americana. Não através de denúncias ou de análises marxistas — mas simplesmente sendo ele próprio, agindo sem disfarces, dispensando as cortinas de fumo retórico que tradicionalmente envolviam a brutalidade do poder imperial.

A operação na Venezuela é apenas o episódio mais recente desta pedagogia involuntária. Trump não invocou a defesa da democracia, não fingiu preocupação com os direitos humanos, não fabricou complexas narrativas sobre ameaças à segurança nacional. Disse simplesmente: vamos lá buscar o petróleo. As nossas empresas vão administrar os recursos venezuelanos. Ponto final. É o capitalismo predador sem verniz, o imperialismo sem eufemismos, a rapina colonial apresentada com a naturalidade de quem descreve uma transação comercial.

Mas a lição não se esgota na política externa. Internamente, Trump está a demonstrar com clareza brutal o que sempre foi a relação do Estado norte-americano com a dissidência: tolerância zero para quem ousa contestar o poder. As rusgas contra manifestantes, as ameaças de deportação em massa, o discurso cada vez mais explícito sobre o uso da força contra opositores — tudo isto não é novidade na história americana. A novidade é que agora se faz à luz do dia, sem os costumeiros apelos retóricos à liberdade de expressão e aos valores democráticos.

Os que protestam contra Trump não são tratados como cidadãos exercendo direitos constitucionais, mas como inimigos internos a serem neutralizados. As cowboiadas já não se limitam a matar índios nas fronteiras do império — estendem-se agora a qualquer um que se atreva a gritar demasiado alto na própria metrópole. E a possibilidade de acabar engaiolado numa prisão salvadorenha, esse modelo de brutalidade carcerária que Trump tanto admira, deixou de ser apenas uma ameaça vaga para se tornar perspetiva concreta.

Esta é talvez a ironia mais amarga: Trump está a fazer aquilo que bibliotecas inteiras de teoria crítica nunca conseguiram — está a curar os europeus (e não só) da sua ilusão americana. Durante gerações, milhões sonharam com a emigração para essa pretensa terra das oportunidades, compraram o mito do self-made man, acreditaram que do outro lado do Atlântico existia uma sociedade verdadeiramente livre, onde o mérito triunfava e a justiça prevalecia.

Essa ilusão está a desfazer-se em tempo real. Os que ainda alimentavam fantasias sobre a superioridade moral do modelo americano veem agora o que sempre esteve lá: uma sociedade profundamente desigual, estruturalmente violenta, onde a justiça tem cor e classe social, onde as liberdades fundamentais são concessões revogáveis conforme a conveniência do poder. A ameaça de deportação violenta, de prisão arbitrária, de repressão brutal deveria devolver aos iludidos a sensação de realidade que nunca cultivaram quando se tratava de mitificar as virtudes ianques.

O paradoxo é doloroso: Trump, esse produto tóxico do capitalismo terminal, está a fazer o trabalho pedagógico que a esquerda europeia nunca conseguiu completar. Não por virtude, obviamente, mas por pura falta de hipocrisia. Ele não precisa de fingir — o poder está suficientemente consolidado para se apresentar nu. E nessa nudez obscena revela-se finalmente o que a América sempre foi: não uma democracia assente em regras de justiça e respeito pelas liberdades fundamentais, mas uma plutocracia imperial sustentada pela força, pela rapina e pela capacidade de impor a sua vontade através da violência.

Os liberais americanos, esses que ainda acreditam poder salvar a alma da nação através de procedimentos eleitorais e apelos constitucionais, não parecem compreender a dimensão do desastre. Trump não está a corromper um sistema saudável — está apenas a revelar a podridão que sempre lá esteve, escondida sob camadas de retórica sobre checks and balances e rule of law. O império não se tornou predador com Trump; apenas deixou de fingir que era outra coisa.

Para os europeus que ainda olhavam para os Estados Unidos com inveja ou admiração, a lição é dura mas necessária. Aquilo que tomavam por modelo é afinal um aviso. A célebre frase de que "a América é o futuro" ganha agora um significado sinistro: se deixarmos, este futuro de brutalidade desavergonhada, de desigualdade grotesca, de poder sem freios nem máscaras, pode também ser o nosso.

Trump está a prestar um serviço involuntário à consciência política mundial. Está a rasgar os véus, a despir as ilusões, a mostrar o império tal como sempre foi. Resta saber se teremos a inteligência de aprender a lição antes que seja tarde demais. Porque o que Trump demonstra não é apenas a verdade sobre a América — é também a verdade sobre o que acontece quando o poder se sente suficientemente forte para dispensar qualquer aparência de decência.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Princípio da Impunidade

 

A captura de Nicolás Maduro inaugura um tempo político onde o direito internacional deixa de funcionar como travão ao arbítrio das grandes potências. Não se trata apenas de mais uma intervenção militar americana na América Latina – essas somam-se às dezenas desde o início do século XX. O que distingue este momento é a ostentação com que se despreza qualquer legitimidade jurídica, sem sequer o esforço retórico de inventar uma justificação humanitária ou uma resolução das Nações Unidas manipulada.

Esta demonstração de força pura, celebrada como "operação impecável" pelos seus apoiantes, estabelece um precedente perigoso: se a Venezuela hoje, porque não amanhã qualquer país que contrarie os interesses de Washington? A ausência de uma resposta firme da comunidade internacional – a começar pelos silêncios calculados, pelas hesitações terminológicas, pela recusa em nomear a violação – transforma-se em cumplicidade. Cada porta-voz governamental que evita classificar o sucedido como invasão ou ato de agressão contribui para normalizar aquilo que deveria ser inaceitável.

As consequências desenham-se em múltiplas frentes. No plano interno americano, a fratura entre a promessa de não-intervencionismo e a realidade de um novo aventureirismo militar expõe as contradições de um projeto político que prometia colocar a América em primeiro lugar. A gestão de um território ocupado, com todas as suas complexidades – da reconstrução institucional ao controlo de recursos petrolíferos –, pode revelar-se um pântano tão custoso quanto foram o Iraque ou o Afeganistão. E quando os custos humanos e financeiros começarem a pesar, quando as promessas de rápida estabilização se mostrarem ilusórias, a opinião pública poderá voltar-se contra quem lhe vendeu mais uma guerra fácil.

Na América Latina, o efeito imediato será o recrudescimento de tensões ideológicas que pareciam adormecidas. Governos de esquerda ou centro-esquerda, mesmo aqueles que mantinham distância crítica face a Caracas, veem-se agora confrontados com uma ameaça concreta: a possibilidade de intervenção externa sempre que não se alinhem com Washington. O Brasil, o México, a Colômbia terão de repensar as suas políticas externas num contexto onde a soberania deixou de ser um princípio respeitado. Paradoxalmente, a violência desta imposição pode reforçar movimentos antiamericanos na região, alimentando exatamente o tipo de nacionalismo que se pretendia erradicar.

A nível global, o silêncio europeu é talvez o sintoma mais grave desta nova desordem. Se a União Europeia não consegue condenar uma invasão tão flagrante quanto esta, que autoridade moral terá para criticar futuras violações? A inconsistência torna-se evidente quando se compara esta passividade com a retórica empregada noutros conflitos. A falta de coragem para nomear as coisas pelo seu nome – invasão, agressão, violação da Carta da ONU – corrói a própria ideia de uma ordem baseada em regras. E se as regras apenas se aplicam seletivamente, consoante os interesses geopolíticos do momento, então não existem verdadeiramente regras.

Há ainda uma dimensão mais profunda neste episódio: a mensagem enviada a todos os líderes mundiais de que a força bruta voltou a ser um argumento legítimo nas relações internacionais. Países que se sentiam protegidos por tratados, por alianças, pelo simples facto de serem reconhecidos como Estados soberanos, descobrem agora que essa proteção é ilusória quando confrontada com um poder que decide agir unilateralmente. A Gronelândia, Taiwan, qualquer território que desperte cobiça ou represente valor estratégico pode tornar-se o próximo alvo, desde que haja vontade política e ausência de resistência internacional credível.

O futuro próximo desenha-se, portanto, entre dois cenários. Ou este ato encontra uma resposta firme – não necessariamente militar, mas política, diplomática, económica – que restabeleça algum respeito pelas normas internacionais, ou assistiremos a uma escalada de intervenções semelhantes, cada uma justificando a seguinte, numa corrida para o abismo onde apenas a lei do mais forte prevalece. A História mostra-nos que os anos 1930 foram marcados precisamente por esta incapacidade coletiva de travar agressões enquanto ainda era possível. Quando finalmente se reagiu, era tarde demais.

O que está em jogo não é apenas o destino da Venezuela ou de Nicolás Maduro. É a própria arquitetura do sistema internacional construído após 1945, imperfeito mas capaz de impor alguns limites ao caos. Se essa arquitetura desmoronar – e este episódio representa uma fenda profunda nas suas fundações –, todos ficaremos mais vulneráveis, incluindo aqueles que hoje aplaudem ou se calam. Porque a impunidade, uma vez instalada, não conhece fronteiras nem distingue aliados de adversários. Apenas reconhece poder, e quem o detém hoje pode perdê-lo amanhã.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Império Nu: Trump e o Regresso da Predação Colonial

 

Há dias em que a História rasga a própria pele e mostra a carne viva. O rapto de Nicolás Maduro pelas forças especiais norte-americanas não é apenas mais um episódio de intervencionismo — é a revelação brutal de que o império decidiu despir as vestes da legalidade internacional e apresentar-se tal como sempre foi: um poder que toma o que quer, quando quer.

Donald Trump não se deu ao trabalho de disfarçar. Numa franqueza quase obscena, assumiu que os Estados Unidos vão "gerir" a Venezuela, que as suas petrolíferas vão "investir milhares de milhões de dólares" nas maiores reservas de crude do planeta. Não falou de democracia, não mencionou eleições livres, não invocou os direitos humanos. Falou de petróleo. Apenas de petróleo. Como um conquistador do século XIX que planta a bandeira em terra alheia e declara: isto agora é meu.

O que assistimos não é uma "mudança de regime" — é um assalto à mão armada a um país soberano, executado por uma superpotência que já nem se incomoda em fabricar pretextos minimamente credíveis. A narrativa do "narcoterrorismo" serviu de biombo para uma operação de pilhagem que teria feito corar os velhos praticantes da diplomacia da canhoneira. Pelo menos esses tinham o pudor de fingir civilizar os selvagens. Trump nem isso.

A pergunta que fica suspensa no ar contamina tudo: se o líder da suposta ordem liberal pode bombardear uma capital e sequestrar um chefe de Estado, com que autoridade moral se condena Putin pela Ucrânia? Com que legitimidade se critica Xi Jinping pelas ameaças a Taiwan? O senador Mark Warner teve a coragem de formular a questão que muitos preferem ignorar: que impede agora a China de invocar o mesmo precedente sobre os dirigentes de Taiwan? Que impede Putin de reclamar idêntica autoridade sobre Volodymyr Zelensky?

Trump não destruiu apenas o frágil edifício do direito internacional — destruiu o último recurso que sustentava a hegemonia americana: a legitimidade. Durante décadas, o poder dos Estados Unidos não assentava apenas em porta-aviões e mísseis, mas numa pretensão de representar algo mais — valores, normas, um horizonte civilizacional. Essa ilusão acabou. O que resta é a força nua, o apetite desavergonhado, o petróleo como única bússola moral.

E a Europa? A União Europeia, essa construção frágil que teima em acreditar no multilateralismo e no respeito pelo direito internacional, limitou-se a emitir comunicados de "preocupação". Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha manifestaram-se — governos de esquerda que ainda acreditam que as palavras têm peso. Mas onde ficou Portugal neste mapa da indignação?

A vergonha tem nome próprio: Paulo Rangel. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, representante de um país que durante décadas sofreu sob um regime autoritário e que deveria ter a memória colonial tatuada na consciência coletiva, optou pelo silêncio cúmplice ou, pior, por alguma declaração morna que mais parece um rascunho de não-posição. Portugal, que podia ter somado a sua voz ao protesto dos países latino-americanos que partilham a mesma língua e herança cultural, preferiu a discrição de quem não quer desagradar ao império.

É o servilismo transformado em política externa. É a NATO como álibi para abdicar de qualquer postura ética. É o atlantismo como religião que exige o sacrifício da dignidade no altar da obediência. Paulo Rangel escolheu o lado da história onde os vassalos aplaudem em surdina enquanto o senhor saqueia à luz do dia.

A Venezuela não ganhou liberdade com esta operação; trocou um governo local por um protetorado petrolífero. As empresas norte-americanas vão administrar o crude venezuelano "como se fosse um protetorado dos Estados Unidos", nas palavras certeiras do economista Francisco Rodríguez. E é exatamente isso que será.

O laboratório venezuelano anuncia um mundo novo e terrível. Trump enviou uma mensagem ao planeta inteiro: nenhuma nação, por mais soberana que se julgue, está a salvo se tiver algo que Washington cobiça. A Gronelândia volta à conversa, agora com a mulher de Stephen Miller a publicar mapas da ilha coberta pela bandeira americana e a legenda "Em breve". É o imperialismo sem eufemismos, sem retórica humanitária, sem fingimentos.

E nós, europeus, assistimos de braços caídos. Pior: alguns, como Paulo Rangel, assistem de cócoras. A grande questão que fica — e que ninguém ousa responder — é esta: se Trump pode fazer isto à Venezuela, o que o impedirá de fazer o mesmo a quem mais contrarie os seus interesses? E se a Europa permanece muda perante esta brutalidade, que valor tem ainda a sua retórica sobre valores, direitos humanos e ordem internacional?

A Venezuela converteu-se no primeiro país abertamente submetido ao imperialismo predador destes nossos tempos. Não será o último. E cada silêncio cúmplice — como o de Paulo Rangel — torna o próximo assalto mais fácil, mais provável, mais inevitável.