A
História tem uma forma peculiar de ensinar sempre a mesma lição aos que se
recusam a aprendê-la: quando a ambição é desmedida e o poder se julga
ilimitado, o ricochete pode ser devastador. Napoleão marchou sobre Moscovo
convencido da sua invencibilidade. Regressou com os destroços de um exército
fantasma, arrastando atrás de si o princípio do fim do império que construíra.
Hitler lançou-se sobre a União Soviética certo de que o Reich duraria mil anos.
Durou doze, e os últimos foram uma agonia sangrenta que terminou num bunker em
Berlim.
Hoje
assistimos a dois megalómanos que parecem determinados a replicar estes padrões
históricos com uma fidelidade quase obscena. Trump e Netanyahu, cada um à sua
maneira, cada um com as suas motivações particulares, estão a lançar-se em
aventuras militares que podem acabar por os destruir — e arrastar muita gente
com eles no processo.
Trump
rapta presidentes, ameaça países, proclama a reconquista imperial da América.
Mas cada ação errática, cada ameaça não cumprida, cada recuo tático disfarçado
de vitória estratégica mina a credibilidade do poder americano. A operação na
Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre
diplomático. O assédio à Gronelândia acabou em recuo. O ataque ao Irão continua
adiado sine die. Trump descobre, lentamente, que raptar Maduro não é o mesmo
que enfrentar potências que podem ripostar. E enquanto isso, os ficheiros
Epstein continuam a ser revelados, mostrando ligações que Trump preferiria
manter enterradas. A nuvem de poeira que tenta levantar com guerras e ameaças
pode não ser suficiente para encobrir o que está a ser exposto.
Netanyahu,
por seu lado, multiplica frentes de guerra — Gaza, Líbano, Síria, Irão por
procuração — numa fuga permanente para a frente que tem um objetivo claro:
adiar indefinidamente a condenação judicial que o espera quando a guerra
acabar. Cada nova operação militar é também uma operação de sobrevivência
política pessoal. Cada escalada é também um adiamento do dia em que terá de
responder em tribunal. Mas as guerras não duram eternamente, e quando esta
acabar — e acabará — Netanyahu descobrirá que apenas adiou o inevitável
enquanto destruía o que restava da reputação internacional de Israel.
A
ambição desmedida não é exclusivo de megalómanos imperiais. Também a tiveram a
ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, e o chefe da CIP ao tentarem impor
uma lei laboral que esmaga direitos conquistados ao longo de décadas.
Julgavam-se intocáveis, achavam que podiam fazer passar o que quisessem,
confiavam que a fragmentação sindical e a passividade social lhes dariam margem
para destruir o que restava de proteção aos trabalhadores.
Enganaram-se.
A dimensão da greve geral travou-os. E a eleição de António José Seguro para
Belém — por muito pouco que dele espere em termos de intervenção ativa — pode
ter o efeito adicional de refrear os ímpetos de quem percebeu que a correlação
de forças mudou. Seguro não será o presidente interventivo que bloqueará
sistematicamente legislação regressiva, mas também não será o Marcelo que
facilitou tudo à direita. E essa diferença, ainda que pequena, ainda que
insuficiente, pode ser suficiente para tornar mais difícil a passagem de leis
como esta.
No
PS, a recondução de José Luís Carneiro como líder com uma votação ao estilo
norte-coreano não me entusiasma. Estas unanimidades fabricadas, estas votações
sem contestação aparente, estas coroações sem debate são sempre suspeitas. Mas
reconheço a lógica conjuntural: numa altura de transição para uma agudização
previsível das lutas sociais — propiciada pelos efeitos danosos da guerra no
Médio Oriente na qualidade de vida da generalidade da população, pela inflação
persistente, pela precarização crescente — justifica-se ter um timoneiro que
mantenha a proa em direção à vaga.
Não
é a liderança ideal. Não é sequer a liderança que eu desejaria. Mas é a que dá
estabilidade num momento em que o PS precisa de espaço para que outra
liderança, mais conforme com os objetivos programáticos de um partido
verdadeiramente socialista, se possa afirmar. José Luís Carneiro não é essa
liderança — mas pode ser a ponte para que ela emerja. E isso, neste momento,
pode ser suficiente.
E
depois há o regresso do cometa Passos Coelho. Como todos os cometas que
regularmente vêm pretender dar conta de que ainda estão vivos, Passos ressurgiu
da sua toca para causar algum estardalhaço junto dos que o veem como uma
espécie de Sebastião regressado do deserto de Alcácer Quibir para salvar a
pátria. Esquecem-se, esses sebastianistas tardios, que o rasto de cada cometa
vai diminuindo-lhe a expressão sempre que se aproxima do sol em redor do qual
roda.
Passos
Coelho deixou o país arrasado, a economia destroçada, a sociedade empobrecida,
os serviços públicos demolidos. Foi derrotado eleitoralmente, afastou-se, e
agora regressa como se tivesse algo de novo a oferecer. Não tem. É apenas mais
um apaniguado do mesmo campo entrincheirado — a exemplo de Portas, de Durão
Barroso, de todos os outros que se julgaram indispensáveis e descobriram que
não eram.
Passos
está fadado a ficar como a esperança moribunda de uma ideologia que se vai
exprimindo cada vez mais caricaturalmente. E a melhor demonstração dessa
caricatura é a forma como Carlos Moedas exerce o seu pífio poder em Lisboa:
muita propaganda, pouca execução; muitos powerpoints, poucos resultados;
muita pose, pouca substância; umas quantas nomeações escandalosas e uns não
menos impactantes saneamentos. Moedas é o que Passos representou levado ao
paroxismo — a direita tecnocrata que se julga moderna mas é apenas incompetente
vestida de fato caro.
O
regresso de Passos não assusta. Incomoda, talvez. Mas sobretudo revela a
pobreza intelectual e política de uma direita que, não tendo figuras novas nem
ideias renovadas, tem de reciclar os destroços do passado e apresentá-los como
futuro. É patético, mais do que perigoso.
Ambições
desmedidas, cometas moribundos, guerras como fuga para a frente, leis laborais
como assalto a direitos conquistados — tudo isto faz parte do mesmo padrão: um
sistema em crise que se radicaliza, que ataca os mais fracos, que multiplica
conflitos externos para esconder contradições internas, que recicla fracassos
passados porque não tem futuro para oferecer.
A
História ensina que estes processos terminam sempre mal para quem os
protagoniza. Napoleão acabou exilado. Hitler suicidou-se no bunker. Trump e
Netanyahu podem ainda achar que são diferentes, que a História não se aplica a
eles, que desta vez será diferente. Não será. A ambição desmedida sempre teve o
mesmo destino. E quando o ricochete vier — e virá — descobrirão que afinal não
eram tão poderosos quanto imaginavam.
Quanto
a Passos Coelho e aos seus epígonos lisboetas, o destino será mais banal, mas
igualmente definitivo: o esquecimento. Porque os cometas, por mais brilhantes
que pareçam quando regressam, vão perdendo massa a cada órbita. E quando
finalmente se desintegram, ninguém se lembra que um dia pareceram importantes.

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