Não
fosse trágica em várias dimensões e a guerra lançada por Trump e Netanyahu
contra o Irão seria cómica pelos palpos de aranha em que se debatem. Ali está
Trump a pedir apoio aos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e a embater
sistematicamente na recusa desses mesmos aliados. Entre o poltrão que proclama
não precisar de ninguém porque tem "o exército mais forte do mundo" e
o mendigo diplomático que implora ajuda à NATO que acabou de ameaçar, ele
ciranda numa inconstância que melhor denuncia o caso patológico que dará
matéria de estudo para gerações de historiadores.
A
sequência dos acontecimentos tem algo de farsa. Trump rapta Maduro, bombardeia
a Venezuela, apodera-se do seu petróleo, proclama o regresso da América
imperial. Sente-se invencível. Ameaça a Gronelândia, intimida a Dinamarca,
desdenha dos europeus. Depois recua em Davos. Adia o ataque ao Irão. Volta a
ameaçar. Volta a recuar. E agora, depois de finalmente ter lançado a operação
militar contra o Irão — em conjunto com Netanyahu, esse outro megalómano em
fuga permanente para a frente — descobre que fechar o Estreito de Ormuz tem
consequências que nem todo o poderio militar americano consegue resolver
sozinho.
Daí
as súplicas aos aliados europeus com a tentativa desesperada de mobilizar a
NATO para uma guerra que esta nunca quis, numa região que não está coberta pelo
Tratado do Atlântico Norte, contra um adversário que não ameaça diretamente
território algum dos membros da Aliança.
E os
aliados dizem não. A França diz não. A Alemanha diz não. O Reino Unido hesita
mas também diz não. A Espanha, a Itália, até a Polónia — todos dizem não.
Porque perceberam, mesmo que tardiamente, que esta guerra não é sobre segurança
internacional, não é sobre defender a ordem mundial, não é sequer sobre conter
uma ameaça real. É sobre a sobrevivência política pessoal de dois homens:
Trump, que precisa de cortinas de fumo sobre os ficheiros Epstein e o colapso
da credibilidade americana; Netanyahu, que precisa de guerra permanente para
evitar o tribunal que o espera quando a paz chegar.
A
recusa europeia expõe a nudez do imperador. Trump que dizia não precisar de
aliados, que ameaçava abandonar a NATO, que insultava os europeus chamando-lhes
parasitas do sistema de segurança americano, descobre agora que afinal precisa
deles, dos seus navios, bases, legitimação política, e apoio logístico. E
descobre também que queimar pontes tem consequências — quando se precisa
atravessar o rio, já não há ponte disponível.
Netanyahu,
esse, sempre soube que precisava dos americanos. Nunca teve ilusões de
autonomia estratégica. Mas contava que Trump arrastasse os europeus, como
tantas vezes aconteceu no passado. Contava que a pressão americana sobre
Bruxelas, Paris, Berlim acabaria por forçar a participação europeia, ainda que
relutante. Enganou-se. Desta vez os europeus perceberam que seguir Trump para
mais esta guerra seria suicídio político interno e desastre estratégico
externo.
E
assim temos o espetáculo grotesco de Trump a cirandar entre a arrogância e a
súplica. Num dia proclama que a América não precisa de ninguém, que tem o
exército mais poderoso da história, que pode fazer o que quiser quando quiser.
No dia seguinte telefona a líderes europeus pedindo navios, bases, apoio
político. Volta a ameaçar — se não ajudarem, sairá da NATO, abandonará a Europa
à própria sorte. Volta a suplicar — por favor, precisamos de vós, não podemos
fazer isto sozinhos.
É a
inconstância patológica de quem perdeu completamente o controlo da narrativa e
da estratégia. É o comportamento errático de quem age por impulso, não por
planeamento. É a evidência clara de deterioração cognitiva ou, na melhor das
hipóteses, de total inadequação para o cargo que ocupa.
Os
historiadores do futuro — se houver futuro, se esta guerra não escalar para
catástrofe civilizacional — estudarão este episódio como caso paradigmático de
liderança disfuncional em momento crítico. Estudarão como foi possível que o
homem mais poderoso do mundo, comandante do arsenal militar mais formidável
alguma vez reunido, se tenha metido numa guerra que não sabe como vencer, que
não consegue justificar aos aliados, que não tem apoio interno sustentável, que
pode colapsar a economia global.
Estudarão
também como Netanyahu, político astuto e experiente, se deixou arrastar para
uma escalada que pode destruir Israel enquanto projeto nacional. Porque esta
guerra contra o Irão não é como as operações em Gaza ou no Líbano. É guerra
contra potência regional com capacidade de retaliação efetiva, com mísseis que
chegam a todo o território israelita, com aliados que podem abrir múltiplas
frentes simultaneamente. E se Israel ficar isolado — se os americanos não
conseguirem manter o Estreito aberto, se os europeus se recusarem a participar,
se a opinião pública global se virar definitivamente contra a operação —
Netanyahu pode ter finalmente conduzido o país ao desastre que sempre temeu.
Esta
guerra é trágica para os iranianos que morrem sob os bombardeamentos, para os
israelitas que vivem sob ameaça de retaliação, para a economia global que pode
colapsar se o Estreito permanecer fechado e para a ordem internacional, já de
si moribunda, que recebe mais este golpe mortal.
E no
centro desta tragédia, dois homens arrastam o mundo para uma guerra que não
conseguem vencer, não sabem como terminar e pode destruir muito mais do que
imaginam.
No
futuro perguntar-se-á como é que deixámos que isto acontecesse, quando todos os
sinais estavam lá e sobravam vozes a alertar para quão mal poderia acabar?
A
resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto os megalómanos
cirandavam na sua inconstância patológica, o resto do mundo preferiu fingir que
estava tudo bem. Até ao dia em que já não estava.

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