terça-feira, 17 de março de 2026

A Guerra dos Megalómanos

 

Não fosse trágica em várias dimensões e a guerra lançada por Trump e Netanyahu contra o Irão seria cómica pelos palpos de aranha em que se debatem. Ali está Trump a pedir apoio aos aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e a embater sistematicamente na recusa desses mesmos aliados. Entre o poltrão que proclama não precisar de ninguém porque tem "o exército mais forte do mundo" e o mendigo diplomático que implora ajuda à NATO que acabou de ameaçar, ele ciranda numa inconstância que melhor denuncia o caso patológico que dará matéria de estudo para gerações de historiadores.

A sequência dos acontecimentos tem algo de farsa. Trump rapta Maduro, bombardeia a Venezuela, apodera-se do seu petróleo, proclama o regresso da América imperial. Sente-se invencível. Ameaça a Gronelândia, intimida a Dinamarca, desdenha dos europeus. Depois recua em Davos. Adia o ataque ao Irão. Volta a ameaçar. Volta a recuar. E agora, depois de finalmente ter lançado a operação militar contra o Irão — em conjunto com Netanyahu, esse outro megalómano em fuga permanente para a frente — descobre que fechar o Estreito de Ormuz tem consequências que nem todo o poderio militar americano consegue resolver sozinho.

O Estreito de Ormuz não é a Venezuela. Não é um país empobrecido por anos de sanções, com infraestruturas militares degradadas, isolado diplomaticamente. É o ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Fechá-lo — ou pior, vê-lo fechado pelo Irão em retaliação — significa colapso energético global, preços do crude estratosféricos, recessão mundial. E reabri-lo à força, contra a resistência iraniana, exige não apenas poder militar, mas capacidade logística, apoio regional e coordenação internacional que Trump

simplesmente não tem.

Daí as súplicas aos aliados europeus com a tentativa desesperada de mobilizar a NATO para uma guerra que esta nunca quis, numa região que não está coberta pelo Tratado do Atlântico Norte, contra um adversário que não ameaça diretamente território algum dos membros da Aliança.

E os aliados dizem não. A França diz não. A Alemanha diz não. O Reino Unido hesita mas também diz não. A Espanha, a Itália, até a Polónia — todos dizem não. Porque perceberam, mesmo que tardiamente, que esta guerra não é sobre segurança internacional, não é sobre defender a ordem mundial, não é sequer sobre conter uma ameaça real. É sobre a sobrevivência política pessoal de dois homens: Trump, que precisa de cortinas de fumo sobre os ficheiros Epstein e o colapso da credibilidade americana; Netanyahu, que precisa de guerra permanente para evitar o tribunal que o espera quando a paz chegar.

A recusa europeia expõe a nudez do imperador. Trump que dizia não precisar de aliados, que ameaçava abandonar a NATO, que insultava os europeus chamando-lhes parasitas do sistema de segurança americano, descobre agora que afinal precisa deles, dos seus navios, bases, legitimação política, e apoio logístico. E descobre também que queimar pontes tem consequências — quando se precisa atravessar o rio, já não há ponte disponível.

Netanyahu, esse, sempre soube que precisava dos americanos. Nunca teve ilusões de autonomia estratégica. Mas contava que Trump arrastasse os europeus, como tantas vezes aconteceu no passado. Contava que a pressão americana sobre Bruxelas, Paris, Berlim acabaria por forçar a participação europeia, ainda que relutante. Enganou-se. Desta vez os europeus perceberam que seguir Trump para mais esta guerra seria suicídio político interno e desastre estratégico externo.

E assim temos o espetáculo grotesco de Trump a cirandar entre a arrogância e a súplica. Num dia proclama que a América não precisa de ninguém, que tem o exército mais poderoso da história, que pode fazer o que quiser quando quiser. No dia seguinte telefona a líderes europeus pedindo navios, bases, apoio político. Volta a ameaçar — se não ajudarem, sairá da NATO, abandonará a Europa à própria sorte. Volta a suplicar — por favor, precisamos de vós, não podemos fazer isto sozinhos.

É a inconstância patológica de quem perdeu completamente o controlo da narrativa e da estratégia. É o comportamento errático de quem age por impulso, não por planeamento. É a evidência clara de deterioração cognitiva ou, na melhor das hipóteses, de total inadequação para o cargo que ocupa.

Os historiadores do futuro — se houver futuro, se esta guerra não escalar para catástrofe civilizacional — estudarão este episódio como caso paradigmático de liderança disfuncional em momento crítico. Estudarão como foi possível que o homem mais poderoso do mundo, comandante do arsenal militar mais formidável alguma vez reunido, se tenha metido numa guerra que não sabe como vencer, que não consegue justificar aos aliados, que não tem apoio interno sustentável, que pode colapsar a economia global.

Estudarão também como Netanyahu, político astuto e experiente, se deixou arrastar para uma escalada que pode destruir Israel enquanto projeto nacional. Porque esta guerra contra o Irão não é como as operações em Gaza ou no Líbano. É guerra contra potência regional com capacidade de retaliação efetiva, com mísseis que chegam a todo o território israelita, com aliados que podem abrir múltiplas frentes simultaneamente. E se Israel ficar isolado — se os americanos não conseguirem manter o Estreito aberto, se os europeus se recusarem a participar, se a opinião pública global se virar definitivamente contra a operação — Netanyahu pode ter finalmente conduzido o país ao desastre que sempre temeu.

Esta guerra é trágica para os iranianos que morrem sob os bombardeamentos, para os israelitas que vivem sob ameaça de retaliação, para a economia global que pode colapsar se o Estreito permanecer fechado e para a ordem internacional, já de si moribunda, que recebe mais este golpe mortal.

E no centro desta tragédia, dois homens arrastam o mundo para uma guerra que não conseguem vencer, não sabem como terminar e pode destruir muito mais do que imaginam.

No futuro perguntar-se-á como é que deixámos que isto acontecesse, quando todos os sinais estavam lá e sobravam vozes a alertar para quão mal poderia acabar?

A resposta, provavelmente, será a mesma de sempre: porque enquanto os megalómanos cirandavam na sua inconstância patológica, o resto do mundo preferiu fingir que estava tudo bem. Até ao dia em que já não estava.

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