domingo, 15 de março de 2026

Ambições Desmedidas e Cometas Moribundos

 

A História tem uma forma peculiar de ensinar sempre a mesma lição aos que se recusam a aprendê-la: quando a ambição é desmedida e o poder se julga ilimitado, o ricochete pode ser devastador. Napoleão marchou sobre Moscovo convencido da sua invencibilidade. Regressou com os destroços de um exército fantasma, arrastando atrás de si o princípio do fim do império que construíra. Hitler lançou-se sobre a União Soviética certo de que o Reich duraria mil anos. Durou doze, e os últimos foram uma agonia sangrenta que terminou num bunker em Berlim.

Hoje assistimos a dois megalómanos que parecem determinados a replicar estes padrões históricos com uma fidelidade quase obscena. Trump e Netanyahu, cada um à sua maneira, cada um com as suas motivações particulares, estão a lançar-se em aventuras militares que podem acabar por os destruir — e arrastar muita gente com eles no processo.

Trump rapta presidentes, ameaça países, proclama a reconquista imperial da América. Mas cada ação errática, cada ameaça não cumprida, cada recuo tático disfarçado de vitória estratégica mina a credibilidade do poder americano. A operação na Venezuela pode ter sido militarmente bem-sucedida, mas foi desastre diplomático. O assédio à Gronelândia acabou em recuo. O ataque ao Irão continua adiado sine die. Trump descobre, lentamente, que raptar Maduro não é o mesmo que enfrentar potências que podem ripostar. E enquanto isso, os ficheiros Epstein continuam a ser revelados, mostrando ligações que Trump preferiria manter enterradas. A nuvem de poeira que tenta levantar com guerras e ameaças pode não ser suficiente para encobrir o que está a ser exposto.

Netanyahu, por seu lado, multiplica frentes de guerra — Gaza, Líbano, Síria, Irão por procuração — numa fuga permanente para a frente que tem um objetivo claro: adiar indefinidamente a condenação judicial que o espera quando a guerra acabar. Cada nova operação militar é também uma operação de sobrevivência política pessoal. Cada escalada é também um adiamento do dia em que terá de responder em tribunal. Mas as guerras não duram eternamente, e quando esta acabar — e acabará — Netanyahu descobrirá que apenas adiou o inevitável enquanto destruía o que restava da reputação internacional de Israel.

A ambição desmedida não é exclusivo de megalómanos imperiais. Também a tiveram a ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, e o chefe da CIP ao tentarem impor uma lei laboral que esmaga direitos conquistados ao longo de décadas. Julgavam-se intocáveis, achavam que podiam fazer passar o que quisessem, confiavam que a fragmentação sindical e a passividade social lhes dariam margem para destruir o que restava de proteção aos trabalhadores.

Enganaram-se. A dimensão da greve geral travou-os. E a eleição de António José Seguro para Belém — por muito pouco que dele espere em termos de intervenção ativa — pode ter o efeito adicional de refrear os ímpetos de quem percebeu que a correlação de forças mudou. Seguro não será o presidente interventivo que bloqueará sistematicamente legislação regressiva, mas também não será o Marcelo que facilitou tudo à direita. E essa diferença, ainda que pequena, ainda que insuficiente, pode ser suficiente para tornar mais difícil a passagem de leis como esta.

O recuo tático sobre a lei laboral não significa vitória definitiva — significa apenas que perceberam que não tinham força para impor neste momento aquilo que pretendiam. Voltarão à carga, com outras formulações, outros timings, outras estratégias. Mas a greve demonstrou que há limites. E isso, por si só, já é algo.

No PS, a recondução de José Luís Carneiro como líder com uma votação ao estilo norte-coreano não me entusiasma. Estas unanimidades fabricadas, estas votações sem contestação aparente, estas coroações sem debate são sempre suspeitas. Mas reconheço a lógica conjuntural: numa altura de transição para uma agudização previsível das lutas sociais — propiciada pelos efeitos danosos da guerra no Médio Oriente na qualidade de vida da generalidade da população, pela inflação persistente, pela precarização crescente — justifica-se ter um timoneiro que mantenha a proa em direção à vaga.

Não é a liderança ideal. Não é sequer a liderança que eu desejaria. Mas é a que dá estabilidade num momento em que o PS precisa de espaço para que outra liderança, mais conforme com os objetivos programáticos de um partido verdadeiramente socialista, se possa afirmar. José Luís Carneiro não é essa liderança — mas pode ser a ponte para que ela emerja. E isso, neste momento, pode ser suficiente.

E depois há o regresso do cometa Passos Coelho. Como todos os cometas que regularmente vêm pretender dar conta de que ainda estão vivos, Passos ressurgiu da sua toca para causar algum estardalhaço junto dos que o veem como uma espécie de Sebastião regressado do deserto de Alcácer Quibir para salvar a pátria. Esquecem-se, esses sebastianistas tardios, que o rasto de cada cometa vai diminuindo-lhe a expressão sempre que se aproxima do sol em redor do qual roda.

Passos Coelho deixou o país arrasado, a economia destroçada, a sociedade empobrecida, os serviços públicos demolidos. Foi derrotado eleitoralmente, afastou-se, e agora regressa como se tivesse algo de novo a oferecer. Não tem. É apenas mais um apaniguado do mesmo campo entrincheirado — a exemplo de Portas, de Durão Barroso, de todos os outros que se julgaram indispensáveis e descobriram que não eram.

Passos está fadado a ficar como a esperança moribunda de uma ideologia que se vai exprimindo cada vez mais caricaturalmente. E a melhor demonstração dessa caricatura é a forma como Carlos Moedas exerce o seu pífio poder em Lisboa: muita propaganda, pouca execução; muitos powerpoints, poucos resultados; muita pose, pouca substância; umas quantas nomeações escandalosas e uns não menos impactantes saneamentos. Moedas é o que Passos representou levado ao paroxismo — a direita tecnocrata que se julga moderna mas é apenas incompetente vestida de fato caro.

O regresso de Passos não assusta. Incomoda, talvez. Mas sobretudo revela a pobreza intelectual e política de uma direita que, não tendo figuras novas nem ideias renovadas, tem de reciclar os destroços do passado e apresentá-los como futuro. É patético, mais do que perigoso.

Ambições desmedidas, cometas moribundos, guerras como fuga para a frente, leis laborais como assalto a direitos conquistados — tudo isto faz parte do mesmo padrão: um sistema em crise que se radicaliza, que ataca os mais fracos, que multiplica conflitos externos para esconder contradições internas, que recicla fracassos passados porque não tem futuro para oferecer.

A História ensina que estes processos terminam sempre mal para quem os protagoniza. Napoleão acabou exilado. Hitler suicidou-se no bunker. Trump e Netanyahu podem ainda achar que são diferentes, que a História não se aplica a eles, que desta vez será diferente. Não será. A ambição desmedida sempre teve o mesmo destino. E quando o ricochete vier — e virá — descobrirão que afinal não eram tão poderosos quanto imaginavam.

Quanto a Passos Coelho e aos seus epígonos lisboetas, o destino será mais banal, mas igualmente definitivo: o esquecimento. Porque os cometas, por mais brilhantes que pareçam quando regressam, vão perdendo massa a cada órbita. E quando finalmente se desintegram, ninguém se lembra que um dia pareceram importantes.