Há dias em que até quem normalmente não partilha as minhas posições políticas acaba por dizer verdades incómodas. É o caso de dois artigos no Expresso de hoje, assinados por Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, que merecem atenção - o primeiro pela concordância quase total que me suscita, o segundo pelo que escamoteia.
Miguel Sousa Tavares escolhe como fotografia do ano a imagem de um imigrante hispânico nos Estados Unidos caçado por três energúmenos encapuzados do ICE, a agência de perseguição a imigrantes que é o orgulho de Trump. A fotografia mostra um homem agachado, agarrado pelos braços e pernas, com expressão de completo desespero, segurando uma carteira de documentos que de nada lhe serviu. No seu olhar angustiado adivinhamos a prisão e a deportação, o fim do sonho americano que um dia o levou a investir todas as suas poupanças nesse país construído por imigrantes.
Sousa Tavares não poupa Trump: "Segundo as suas regras para um mundo MAGA, há os ricos e os deserdados, os poderosos e os indefesos, os que mandam e os que devem obedecer. A desintegração por ele promovida de uma sociedade fundada em valores e num mínimo previsível de decência humana é a grande realização do seu primeiro ano em funções."
E depois aponta as baterias a Nuno Melo, que considerou Trump o "homem do ano" não apenas factualmente, mas "com notas positivas". A justificação do ministro da Defesa - que Trump "determinou alterações significativas nas dinâmicas da política internacional, relançou os investimentos dos aliados na NATO" - merece resposta demolidora: não é questão de avaliar o estilo, mas o carácter e a simples decência de um homem que persegue opositores, usa o cargo para fazer negócios milionários, ameaça invadir países aliados, assalta navios em alto-mar. Não é questão de estilo, mas de Código Penal.
Sobre Montenegro e a invocação de Cristiano Ronaldo como inspiração, Sousa Tavares também não poupa: se se trata de inspiração atlética, ótimo mas impossível de alcançar. Se se trata de mentalidade de ganhos financeiros ilimitados - 260 milhões por ano, com zero de IRS -, também seria bom mas igualmente inalcançável. Mas se tudo isso serve essencialmente para ser exibido em fotografias de luxo "sem qualquer demonstração de utilidade social ou benefício para o país", e se tudo se alcança também "graças à conivência com um trio internacional de gente de hábitos duvidosos" - Trump, Gianni Infantino e o príncipe Mohammed bin Salman -, então "Montenegro que me desculpe mas eu dispenso a inspiração fornecida por Cristiano Ronaldo. Há outros valores em que vale mais a pena apostar."
Concordo inteiramente. E acrescento: a obsessão com a "mentalidade vencedora" de Ronaldo é a privatização da esperança. Se falhas, a culpa é tua. Se tens contrato precário a vida toda, se não consegues pagar renda, a culpa é da tua mentalidade derrotista, não do sistema que te explora.
João Vieira Pereira escreve sobre o aeroporto de Lisboa e a concessão à Vinci. Descreve bem o caos: "Tudo funciona com uma lentidão desarmante que transforma a paciência de qualquer um num desespero atroz." Denuncia os lucros pornográficos: mais de 500 milhões em 2024, comparados com os 15 milhões entregues ao Estado. "Numa década, a Vinci recuperou o que investiu quando ainda faltam 40 anos para o fim da concessão."
E conclui: "Cabe agora a quem governa dizer basta e mudar o estado das coisas. O Estado português é soberano e tem mais do que razões para dizer que o contrato de concessão assinado há mais de 10 anos deixou de fazer sentido."
Concordo com o diagnóstico e com a solução - a renacionalização faria mais bem do que mal. Mas Vieira Pereira escamoteia o essencial: quem assinou esse contrato leonino? Quem fez essa "prenda" à Vinci? Foi o seu tão apoiado Passos Coelho, esse mesmo que agora anda a preparar o regresso com livro de memórias prometido desde 2018 e que continua sem aparecer.
A ironia é deliciosa: um comentador de direita denuncia um contrato assinado pela direita, pede ao governo de direita que o rasgue, mas esquece-se convenientemente de dizer quem é o responsável original. É como denunciar um roubo sem mencionar o ladrão quando ele é da família.
As "46 perguntas para 2026" que o Expresso publica são exercício interessante mas arriscado. Fica uma nota: a realidade nacional tem sido tão imprevisível que tudo quanto nela se aposte como provável tem grande risco de falhar. Quem diria há dois anos que estaríamos aqui? Quem diria que haveria golpe institucional derrubando Costa, que Marcelo cumpriria o objetivo para que se candidatou, que Montenegro governaria com a bengala do Chega?
A única certeza é a incerteza. E talvez por isso até Miguel Sousa Tavares e João Vieira Pereira, cada um à sua maneira, acabem por dizer verdades que normalmente ficam por dizer. Quando até os aliados denunciam, é porque a situação é grave. Resta saber se denunciam para mudar ou apenas para se distanciarem do naufrágio que ajudaram a criar.

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