terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A preocupação presidencial com a crise da comunicação social


Do que se vai lendo por prosas alheias avulta a opinião de Joaquim Vassalo de Abreu, que comentou a recente preocupação de Marcelo Rebelo de Sousa com o descalabro a que chegou a nossa imprensa, que a generalidade dos consumidores tem desaprovado como se depreende da contínua perda de leitores, ouvintes ou telespectadores.
Quando ouvi a alocução presidencial questionei-me: será que ele está a sugerir que se subsidie o «Correio da Manhã»? Ou o «Observador» Ou qualquer daqueles meios de comunicação social que Vassalo de Abreu diz, muito justamente, terem-se transformado num vazadouro de lavadura e numa imensa pocilga”?
Ora o autor da frase questiona Marcelo por só o preocupar as situação financeira dos jornais, rádios e televisões, quando melhor faria em se inquietar com os respetivos conteúdos, razão de sobra para o desinteresse dos tais leitores, ouvintes ou espectadores, que arrastariam atrás de si o mercado publicitário.
A solução é outra e, infelizmente, tarda: seria necessário um amplo movimento nacional de crowdfunding, com milhares de consumidores de informação (nós todos, afinal!)  a decidirem ser acionistas de um novo grupo empresarial de imprensa com os princípios, que estiveram, na origem de «O Jornal» em maio de 1975 e resistiu durante dezassete anos. Com jornalistas sérios e competentes e a preocupação de criar uma informação de esquerda de acordo com a maioria sociológica consecutivamente demonstrada em sucessivos atos eleitorais.

O que sucede quando se quer ser quem não se deveria ser


Embora as situações políticas em França e na Andaluzia pareçam diferentes, ambas radicam nesse enorme logro, que se chamou Terceira Via e pareceu conferir a Tony Blair, durante alguns anos, a aparência de um génio da política. Sabemos que o não era como se comprovou quando serviu de animal de estimação de George W. Bush na criminosa agressão ao Iraque de Saddam Hussein, mas demorou tempo a perceber como foi possível a esquerda social-democrata reduzir-se à sua mínima expressão e dar fôlego aos atuais movimentos populistas de extrema-direita. Hollande, e Rienzi em Itália, foram dois exemplos a confirmarem o essencial: quando uma certa esquerda anseia tanto pelo poder, que esquece os seus valores fundamentais, está condenada a definhar.

Aproveitando as distrações de Hollande com os seus passeios de lambreta, Manuel Valls desgovernou a França em nome do Partido Socialista, não se diferenciando em nada do que faria um qualquer partido de direita, que ocupasse o Eliseu e o Matignon. O benefício da traição não recaiu no principal infrator, beneficiando quem se mostrara mais manhoso, e saíra atempadamente do naufrágio desse quinquénio com a aura de ser um brilhante economista capaz de devolver à França a grandeza tão glosada pelos seus incuráveis chauvinistas.
O resultado está à vista: porque nem as direitas, nem as esquerdas parlamentares mostram ter competências para corresponder ao desagrado da maioria dos cidadãos, que sentem as carteiras cada vez mais minguadas de euros, as avenidas parisienses e muitas vias de circulação nas cidades de província têm-se enchido de contestatários. As direitas, e Marine Le Pen em particular, acarinharam o movimento julgando possível encabeça-lo. Mas, porque inorgânico e com uma agenda bastante mais à esquerda do que desejariam os putativos tutores, ele acabou por ganhar uma dinâmica, que assusta as direitas, agora temerosas de terem dado azo a um novo maio de 68. O que se verificou no fim-de-semana está muito para além dos atos de vandalismo com que as televisões se comprazeram: é a luta de classes a ressurgir com os mais pobres a insurgirem-se contra o presidente dos mais ricos, pelos mais ricos e para os mais ricos. Macron tem o destino traçado, falta ver quem se lhe seguirá. E, ao contrário do que os mais pessimistas vão aventando, as circunstâncias não obrigarão a ter em Le Pen a santa padroeira dos desvalidos revoltados.
Na Andaluzia aconteceu com Susana Diaz o mesmo que ocorrera nos vizinhos além-Pirenéus: muito ligada a Felipe Gonzalez, que envelheceu bastante mal (embora não esqueçamos a forma como mandou criar uma milícia para assassinar membros da ETA e da extrema-esquerda!): a crença de que , tanto mais se aproximasse dos valores e práticas da direita, e melhor conservaria o poder absoluto naquela região espanhola. A pretensão até era mais ambiciosa, dado ter-se empenhado por duas vezes em obstar ao sucesso de Pedro Sanchez como líder do Partido Socialista Operário Espanhol.
A eleição do fim-de-semana confirmou a regra: virando à direita, numa suposta orientação social-democrata, os socialistas são seriamente penalizados pelos eleitores. Que eles se virem para a extrema-direita, só revela quão urgente é que as esquerdas se voltem a assumir diferentes e bem claras nas propostas que possam melhorar a vida dos seus cidadãos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O nervosismo dos interesses privados no setor da Saúde


Há uma guerra em curso no setor da Saúde e que as esquerdas estão muito longe de ganhar. A questão, que se coloca é esta: irá o Serviço Nacional de Saúde resistir ao cerco intenso organizado por quem pretende transformar os portugueses nos lucrativos clientes dos hospitais e clínicas privadas?
É uma guerra antiga, que data da consagração constitucional do direito universal à prestação dos cuidados de saúde, através de uma lei contra a qual votaram o PSD e o CDS, Marcelo Rebelo de Sousa incluído. Em vez de um direito, a saúde é vista como apetecível negócio por setores empresariais, que se haviam apossado dos bancos, das seguradoras e de outros negócios, que foram vendendo a interesses estrangeiros tão só se acentuou a financeirização da economia. Hoje, quer através do grupo Melo, quer do da Trofa, ele é, a par do dos hipermercados, dos poucos que resta aos incompetentes empreendedores nacionais. Razão para se inquietarem com a possibilidade de as esquerdas levarem a sério o testamento legado por António Arnaut e João Semedo e o decidirem concretizar.
As farmacêuticas poderiam ser consideradas sérias inimigas do SNS, mas poderosas como são, interessam-lhes correr em pista à parte: a de conseguirem que o Estado verta para elas um apreciável fluxo das verbas previstas para o setor. Inteligentes, os seus responsáveis agem na sombra, até conseguindo o apoio do Bloco e do PCP para a inacreditável decisão sobre as vacinas a inserir no Plano Nacional.
Os médicos e enfermeiros já justificam outra leitura: tanto quanto se sabe não é nos grandes grupos privados, que conseguem melhores remunerações ou direitos a elas acessórios. Andam, pois, a deixarem-se manipular por direções sindicais e ordens profissionais, que se eximem da defesa da grande maioria dos seus associados para se fazerem instrumentos fundamentais dos grandes grupos privados do setor.
A capacidade de lobbying desses interesses foi suficientemente forte para porem uma das suas principais figuras, Maria de Belém Roseira, a liderar o grupo de consultores nomeado pelo anterior ministro para estudar a revisão da Lei de Bases da Saúde.
Do que desse trabalho se foi sabendo os aspetos mais vantajosos para esses interesses foram sendo condicionados depois de ponderados como virtuosos para o Sistema. 
No entretanto o ministério mudou de titular e o nervosismo cresceu nos que pretendiam ver a Lei enviesar-se a seu favor. Agora que, nem o Conselho de Ministros, nem muito menos a Assembleia da República, ainda apreciaram a proposta subscrita pelo grupo em causa, veio o Conselho Consultivo da Entidade Reguladora da Saúde - claramente dominado pelos lobbystas em causa - alertar para os tsunamis que virão se o resultado for o da perda da gestão dos hospitais e das unidades de saúde por quem os tem visto alavancas para os seus lucros.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Jonet, a descarada mentirosa


Desconheço se a ação deste fim-de-semana em benefício do Banco Alimentar, e sobretudo dos hipermercados, que viram multiplicar-se os lucros à conta desta ação de «caridadezinha», foi ou não bem sucedida. Nos últimos anos, quando dei alguma atenção aos volumes reivindicados por Isabel Jonet, detetava-se uma quebra sistemática como resultados da sua militância em prol das direitas e da inesquecível boutade sobre o direito dos pobres a comerem ou não bifes.
Confesso que, se nos primeiros anos, ainda fui levado na onda dos que acrescentavam uns quantos produtos alimentares aos carrinhos postos à minha frente pelos escuteiros, nos anos mais recentes escusei-me a esse tipo de «generosidade». Retomara a atitude assumida antes do 25 de abril, quando foi moda  a canção sobre brincar à caridadezinha, assassina satiriza àquelas senhoras que, segundo o poema de Gedeão, nunca mais (oh! nunca mais!), e compensavam as íntimas carências cuidando de pobrezinhos.
Não sei se Jonet é senhora de não sei quem, mas de uma qualificação não escapa: é uma descarada mentirosa. Agora para promover o negócio deu uma entrevista em que incentivava às dadivas por alegar existirem muito mais famílias em estado de carência do que anteriormente. (Ai as saudades que tem do governo anterior!).
Se olharmos para os gráficos ao lado comprova-se que, se lhe caíssem os dentes por cada mentira, lá a teríamos na via sacra da colocação de implantes. É que o INE acaba de publicar evidências em como a taxa de privação severa baixou 4% em outros tantos anos e os  indicadores da própria instituição jonetiana aponta para menos cinquenta mil pessoas por ela «apoiadas» no mesmo período.
Que Marcelo tenha aproveitado para aparecer nas televisões a dar-se ares de beatífico apoio a este logro só confirma tudo quanto dele já registámos. Há peditórios para os quais dar o que quer que seja equivale a fazer figura de lorpa...

sábado, 1 de dezembro de 2018

As lutas do momento: umas são injustificadas, as outras não!


Das lutas sociais, que têm estado nas notícias dos últimos dias, avultam duas particularmente repelentes por demonstrarem o modus operandi das direitas, que não enjeitam o recurso a organizações ditas sindicais para concretizarem os objetivos de porem em causa o governo da atual maioria parlamentar.
No caso dos juízes causa perplexidade, que aspirem a melhor remuneração, quando já ganham mais do que os seus colegas franceses, belgas, luxemburgueses, finlandeses, suecos, noruegueses, suíços ou alemães. Tendo em conta a regularidade com que só revelam vontade reivindicativa, quando são os socialistas no governo, a sua luta - e absurda greve, inaceitável num órgão, que pretende ser reconhecido como de soberania! - assume contornos políticos óbvios, replicando as intenções dos seus émulos brasileiros, sem cuja cumplicidade teria sido bem mais complicada a atual ascensão fascista.
No caso dos enfermeiros chega-se ao ponto de pôr em perigo a saúde de muitos portugueses, cujas operações têm de ser adiadas por intervenção terrorista dos piquetes de greve. E, no entanto, é sabido que os enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde usufruem de direitos e pagamentos superiores aos dos seus colegas dos hospitais e clínicas privadas sem que os mesmos sindicatos mostrem o mesmo zelo em reivindicarem a melhoria das suas condições de trabalho.
Se, como muitos suspeitam, o interesse dos grevistas seria o de transferirem para os hospitais privados as cirurgias inviabilizadas no serviço público, a ministra da Saúde tratou de lhes trocar as voltas, mandando remarcar as que não puderam ser concretizadas. Mas presume-se que, salvo se houver um levantamento coletivo contra estas manobras, os figurões prosseguirão impunes na estratégia de acabarem com o SNS para benefício dos que defendem o velho princípio, enunciado por um deputado do CDS na Assembleia da República, que quem quiser saúde tem de a pagar.
Em contraponto estes dias têm sido, igualmente, eloquentes em exemplos da desigualdade de meios de quem trabalha contra a atitude prepotente dos patrões, que se julgam imunes ao respeito pelas leis da República e revelam a mais sombria faceta da sempiterna luta de classes: em Setúbal, e apostando nas consequências para a economia nacional, os administradores da empresa turca de estiva insiste em não finalizar o acordo com as mais do que justas pretensões dos seus precários colaboradores. Em Santa Maria da Feira a Corticeira Fernando Couto prossegue  a reiterada pressão sobre Cristina Sampaio, uma trabalhadora cuja vida se infernizou, quando rejeitou a injustificada decisão da empresa em extinguir o seu posto de trabalho. Apesar de já multada em 31 mil euros pela conduta indigna, a empresa reitera-a sem que a Democracia faça vingar os seus valores dentro do perímetro da fábrica.

Impostos, desemprego, risco de pobreza - os números que assustam as direitas


Tem sido frequente o argumento das direitas, sobretudo de Cristas, em como estamos a pagar impostos como nunca antes sucedera. A desonestidade da dita cuja assume tal dimensão que refere-se ao volume total de receitas do Estado, perfeitamente natural, quando muitos dos antigos desempregados passaram a ter emprego, pagando os respetivos impostos, tal qual o fazem as suas entidades patronais. Havendo muitos mais trabalhadores a aumentarem o produto interno bruto e as quotizações para a Segurança Social, só nos podemos congratular pelo correspondente efeito nas contas do Estado. Por outro lado se o consumo cresce, as receitas provenientes do IVA acompanham essa tendência e fortalecem os cofres estatais. Mas se dúvidas existissem aí estão os números agora conhecidos do Eurostat, que demonstram ser significativamente inferior a percentagem do PIB português proveniente de impostos e quotizações sociais - 36,9% - em comparação com os países do euro (41,4%) ou os da União Europeia no seu todo (40,2%).
Se houvesse um pingo de vergonha na mente da criatura melhor faria se ficasse calada!
O índice de desemprego tem sido, igualmente, um número que as direitas, e os meios de comunicação social, seus empenhados altifalantes, vão olhando com atenção, esperançadas em poderem dizer finalmente, que ele voltou a subir. Lá vem um mês - e isso sucedeu em setembro - em que os 6,7% pareciam indiciar um termo na sua contínua descida e já alguns embandeiravam em títulos segundo os quais o desemprego parara de crescer, revelando a incapacidade do governo em manter o bom desempenho revelado até aqui. Mas lá têm de se desiludir, porque, aferido o indicador, lá vem o INE com nova descida em mais um décimo.
Poderíamos pensar que a evidência os calaria? Qual quê! No «Expresso« deste fim-de-semana, e sem qualquer comprovativo em que se sustente, já aparece quem preveja uma inflexão para outubro. Infelizmente os leitores costumam ter memória curta e esquecem facilmente os embustes que, continuamente, lhes vão servindo.
As boas notícias não se esgotam aí: o mesmo INE acaba de revelar que a taxa de risco de pobreza desceu para 17,3%, que é o valor mais baixo verificado desde 2003. O que, associado, ao fim da dívida ao FMI  anunciado por António Costa durante a discussão do Orçamento para 2019, só confirma como continuamos a singrar na boa direção rumo a um futuro mais bonançoso para a grande maioria dos portugueses.