quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A trabalho igual não deve corresponder salário igual?


O que se passou esta manhã em Setúbal com uma trintena de fura-greves a porem em causa a luta dos seus colegas estivadores nada tem a ver com a dos enfermeiros, dos professores, dos juízes ou funcionários dos tribunais. E, por isso mesmo, merece uma consideração, que a dos outros profissionais não contempla.
O que está em causa naquele porto da margem sul é a aceitação, ou não, que o direito ao trabalho seja reconhecido, e não avance a uberização pretendida pelas entidades patronais. Para estas dá muito jeito a continuação de uma espécie de praça da jorna onde candidatos sem grandes meios de reivindicação se sujeitem à paga e à falta de direitos inerente a quem se vê, há muito, precarizado. Por isso mesmo um socialista só pode sentir-se incomodado com a inação de um governo que tem dado provas de ambicionar melhores condições de vida a quem delas tem sido excluído pelas mais vis formas de capitalismo selvagem. Mesmo tendo em conta os prejuízos para o país de uma paralisação, que ameaça parar a dinâmica exportadora da Autoeuropa. Quando os patrões se comportam crapulosamente o Estado tem a obrigação de intervir e atirar-lhes com um veemente aviso de Basta!
Quanto às outras lutas, não por acaso conduzidas em quase todos os casos por sindicatos liderados por dirigentes de direita (e Mário Nogueira tem demonstrado sê-lo, quer na vigência deste governo, quer com a passividade adotada para com o anterior!), não se pode ignorar que, para a maioria dos profissionais nelas envolvidos o governo já desbloqueou congelamentos, que lhes permitiu recuperar parte substantiva do que os serventuários da troika lhes haviam imposto. E que é sempre discutível a criação de carreiras diferenciadas em função dos anos de serviço, se o trabalho a eles solicitado é exatamente o mesmo. Ou será que nos esquecemos de um dos principais valores da esquerda, o de a trabalho igual corresponder salário igual?
A maior parte dessas lutas adota uma lógica de criação de castas, que se revelam tão absurdas quanto as que ainda dividem a sociedade indiana. É que a diferenciação dentro das mesmas classes justifica-se em função do acesso a responsabilidades acrescidas para cargos de chefia e de direção para os quais a antiguidade não justifica ser-se mais habilitado. Na realidade dificilmente os anos de experiência poderão melhorar o desempenho dos maus profissionais, por isso mesmo injustamente remunerados em relação a colegas mais novos, que demonstrem um outro tipo de merecimento.

A fulaninha não se mede?


Esta noite ao regressarmos a casa, logo acendemos a televisão e procurámos o serviço noticioso da RTP para aferirmos se era ou não verdadeira a notícia disseminada pelas redes sociais em como Cristas andava a imputar ao governo de António Costa a responsabilidade pelo sucedido na estrada dos paralelepípedos de Borba.
Apostando na existência de algum pingo de lucidez na cabeça da esdrúxula senhora, eu previa que algum sectário da atual maioria parlamentar tivesse lançado uma irónica fake new, pondo-a a dizer aquilo que ninguém se atrevera a conjeturar até então. Algo muito semelhante a imputar a António Costa a culpabilidade pelos incêndios na Califórnia.
O Orelhas tirou-me, porém, a ilusão sobre essa réstia de discernimento nos neurónios da delambida. De facto ela atrevera-se a tal acusação, quando tem sido mais do que óbvia a responsabilidade dos donos das pedreiras e do executivo da Câmara de Borba no sucedido. Tem sido, aliás, indecorosa a atitude de uns, e de outros, a tentarem sacudir a água do capote, muito embora não se preveja trabalho muito esforçado do ministério público para encontrar os arguidos do crime de homicídio involuntário causado por negligência tão grave.
Tem sido ridícula a alegação dos donos das pedreiras a defenderem-se com o argumento de terem avisado quem deviam quanto à perigosidade daquela via rodoviária, como se não tivessem sido eles a explorar o negócio até ao limite do possível, deixando aquele trecho de estrada reduzido a uma espécie de ponte tendo, por frágil sustentação, a parede cujo desmoronamento era uma questão de aleatória oportunidade. Mais grave ainda a reação dos autarcas de Borba, que se sempre terão julgado acautelados da fatal lei de Murphy, como se ela não tivesse confirmado em múltiplas tragédias.
A autarquia de Borba, liderada por uma lista independente, que quis demonstrar a dispensabilidade dos partidos na gestão do interesse público, veio confirmar o que deveria ser óbvio: a gestão dos territórios, seja a nível nacional, seja local, é assunto demasiado sério para ser entregue ao voluntarismo de uns quantos amadores, que se julgam mais habilitados do que os concorrentes ligados a máquinas partidárias. A incompetência paga-se caro como se viu na forma descuidada como terão evitado analisar o risco evidente de uma tragédia anunciada...

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Crimes absurdos, basbaques, incendiários, boicotes e infantilidades


1. Desconhecia a história relatada por Daniel Oliveira na crónica desta terça-feira, mas uma breve pesquisa na net foi fértil em informações complementares e fotografias a confirmá-la: numa vila mexicana uma turba de justiceiros linchou dois homens apenas porque o WhatsApp aludiu à sua suspeição relativamente a um mito urbano de desaparecimento de várias crianças da região.
É claro que não tinha existido nenhum rapto, mas os criminosos nem sequer ponderaram na possibilidade de estarem a ser comandados por uma tenebrosa fake new. Duas vítimas viram-se, assim, assassinadas com uma extrema violência, quando apenas se tinham dirigido à povoação para adquirirem os materiais necessários à construção de um poço.
Assim se demonstra, uma vez mais, a necessidade de regulamentar as redes sociais, limitando-lhes o mais possível a virulência dos propósitos dos seus mais tortuosos utilizadores.
2. O comportamento das multidões suscita, de facto, as maiores reservas. Wilhelm Reich, um pensador infelizmente esquecido, dedicou-lhes um livro elucidativo em que demonstrava na sua manipulação forma eficaz de propiciar o avanço do fascismo.
Que há gente de inqualificável estupidez ficou novamente revelado naquelas muitas dezenas de basbaques que, contrariando os pedidos das autoridades, deslocaram-se à zona das pedreiras de Borba para assistirem ao que ali se passava, satisfazendo uma morbidez doentia, que careceria ser - mais do que medicamentada! - severamente punida!
3. Na crónica de Francisco Louçã questiona-se a campanha da indústria do papel em prol de alargamento da plantação de eucaliptos um pouco por todo o país, apesar da responsabilidade de tal tipo de árvores na propagação de incêndios. Portugal já é o país do mundo com maior proporção de área eucaliptada e o quarto em valores absolutos, pelo que só pode ser despudorada a proposta para ainda plantar mais. 
4. Há quem recorra ao site Booking para reservar viagens de lazer. Pessoalmente nunca a ela recorri, nem pensarei socorrer-me: basta-me o alerta da Human Rights Watch, que o denuncia como intermediário para o aluguer de alojamentos nos colonatos israelitas da Cisjordânia, ou seja em território internacionalmente reconhecida como ROUBADO aos palestinianos. Boicote merecido, é o que deve ser o tratamento conferido a tal plataforma de negócios na área do turismo.
5. Ridícula a reação de Marcelo Rebelo de Sousa, quando a Rádio Nacional de Angola estava a entrevista-lo e expressou a vontade de receber um convite para ali cumprir uma visita de Estado. Como comentava Vítor Matos, no «Expresso»: “o Chefe de Estado quer ir a uma festa para onde só se vai convidado, no entanto, não só se faz convidado para o banquete como exibe uma ansiedade e um excesso de entusiasmo que talvez devesse moderar.”
A falta de gravitas  continua a ser uma das doenças infantis de Marcelo!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Precários abutres e outros que não tanto...


1 . Que seria da nossa imprensa sem um bom escândalo ou uma lamentável tragédia? Que fariam aos jornalistas em regime de precariedade, que são mandados para as portas dos tribunais ou para os locais onde incêndios ou derrocadas tenham causado perdas de vidas?
Há dias tive de concordar com quem discordo em quase tudo - Luís Pedro Nunes -, quando o vi criticar o espetáculo pornográfico de horas e horas de emissões televisivas por causa do antigo presidente do Sporting. Agora a chusma de abutres mudou-se para a estrada entre Borba e Vila Viçosa repetindo-se na mesma falta de novidades, enquanto uns senhores pomposos, armados em especialistas das mais variadas artes, enchem chouriços em estúdio, só para lhes permitirem comer uma bucha ou ir à casa de banho.
Felizmente que há o zapping para atender a coisas mais interessantes, mas quantos se livram dessa tóxica acomodação a que se sujeita a maioria dos telespetadores do país? E não esquecendo a solução radical, quase sempre mais produtiva de desligar o aparelho e dedicar a atenção ao que de melhor se pode fazer na vida...
2. Cheguei a duvidar que Marcelo fosse à raia alentejana por causa da tragédia do momento. A fraca densidade populacional dá pouco ensejo a beijinhos, a abraços e a selfies e, só muito enviesadamente se podem inventar argumentos para imputar ao governo a responsabilidade do sucedido. Hélas!, a câmara para onde os dedos apontam, até nem sequer é liderada por nenhum dos partidos da maioria parlamentar!
Era esquecer que o inquilino de Belém anda com poucos compromissos de agenda, justificativos do aparecimento nos telejornais. E ei-lo, pois, a tempo de assistir in loco à traslação do primeiro corpo das vítimas do aluimento. Logo à noite não lhe escapa mais um minutinho de fama à hora do jantar dos que adivinha seus potenciais eleitores.
3. Não gosto de Rui Rio, mas reconheço-lhe a frontalidade de dizer o óbvio: os órgãos de soberania não fazem greve por muito que os senhores juízes o queiram esquecer. Mas será coincidência que essa corporação só empreenda formas de luta quando são os socialistas quem lideram os governos?
4. O «Público» traz um dossiê interessante sobre a redução significativa dos casais interessados em adotar crianças albergadas em locais de acolhimento. Mas qual a surpresa? Os cinco anos de entroicamento direitista, que precarizou a vida de tantos portugueses, levaram-nos a tomar acrescidas precauções quanto a assumirem responsabilidades familiares. Os números da natalidade assim o dizem: quando nem para os do próprio sangue se ganha apetência pela criação de novas vidas, que dizer da possibilidade de tomar como suas as que provém sabe-se lá de que traumatizantes tragédias familiares?

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Já a formiga queria ter catarro!


O Governo da Madeira e a Assembleia Regional continuam a dar mostras de incompetência ou de algo bem pior de que nos escusamos de qualificar. Já não bastando que tenham nomeado para Diretora Regional da Economia uma arguida em substantivo processo de fraude com fundos europeus, queriam agora forçar o ministro Pedro Marques a comparecer numa comissão regional sobre o serviço da TAP para as duas ilhas do arquipélago.
Terá sido por má-fé ou desconheciam que um ministro da República só presta contas junto da Assembleia sedeada em São Bento, não estando obrigado a qualquer dever semelhante para com os poderes regionais? E quanto à TAP, não sendo empresa sob tutela regional, também o governo do Funchal, nem a respetiva Assembleia, têm qualquer competência para sobre ela decidir o que quer que seja.
Lamente-se de passagem, que os demais partidos tenham sido arrastados a reboque para este pífio assédio de Miguel Albuquerque ao poder central. Mas, salvo raras exceções, temos assistido a sucessivos tiros nos pés dos que, até aqui, não conseguiram opor-se com eficácia ao laranjal madeirense, mesmo com tão grotesco espécime como foi Alberto João Jardim, ou é agora o seu sucessor.

Fake new no pasquim do costume


A fake new deste fim-de-semana publicada pelo «Correio da Manhã», e logo reproduzida pelo Observador, denota a falta de cuidado do pasquim da Cofina em relação ao que procura disseminar no espaço público. É que terá havido tanta vontade em manter o Ministério da Defesa sob ataque cerrado, que cuidaram de inventar um inquérito ao chefe de gabinete nomeado pelo Embaixador José Gomes Cravinho para o assessorar no seu cargo governamental, dizendo-o a ser investigado pelo ministério público a pretexto de ter utilizado indevidamente dinheiros públicos no processamento de vistos gold na representação diplomática portuguesa em São Paulo.
Ora, a resposta do Ministério não se fez esperar: os vistos gold não são nem nunca foram matéria da área de intervenção dos consulados ou embaixadas.
Lá diz o provérbio popular, que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo, mas à velocidade a que se propagam mentiras, fere-se seriamente a honorabilidade de quem cai numa injustificada teia de suspeição.

domingo, 18 de novembro de 2018

Ter ou não ter a maioria absoluta é a questão


Na sexta-feira, quando um dos canais televisivos dava conta da sondagem, que apontou para a aproximação do Partido Socialista à maioria absoluta, um camarada, com quem jantava na altura, manifestou o contentamento perante tal hipótese se traduzir em votos no dia das próximas legislativas.
Apesar de militante do partido do governo não sinto um particular entusiasmo com essa possibilidade, porque basta ver a desautorização à ministra da Cultura por uma parte do grupo parlamentar socialista para compreender quão heterogéneo é, nele cabendo quer quem se posiciona mais à esquerda e se sente consonante com a atual maioria parlamentar, quer os que a suportam com enfado por terem as mentes mais formatadas à direita. Porque António Costa tende sempre para a congregação das divergências internas em vez de concretizar a separação das de águas entre quem comunga da sua Visão e quem a vai suportando em silêncio, nada impediria de uma maioria absoluta, alicerçada num par de deputados, pender para um centrão, que, por toda a Europa vem significando o definhamento dos seus promotores em detrimento dos populistas de extrema-direita. Até porque, desde o primeiro minuto, os atuais parceiros da maioria parlamentar cuidariam de se colocar numa oposição tenaz, que acrescidos argumentos dariam a essa direita dentro do PS para se fazer maioritária nas propostas aprovadas no parlamento. Apesar de ser um dos defensores das touradas, Manuel Alegre outra coisa não diz na entrevista dada hoje ao «Diário de Notícias»: a solução política concretizada com sucesso nestes últimos três anos deve prolongar-se por muitos mais.
Desejo, pois que Bloco e CDU mantenham ou subam um pouco mais do patamar dos 7% em que atualmente se situam, de preferência à custa dos 33,8% atribuídos aos dois partidos das direitas ou dos quase oito por centro concentrados nas demais opções contempladas pela amostra. Mas não me iludo com o facto de subsistir, numa ou noutra possibilidade, uma oposição firme dos maiores detentores de riqueza a nível nacional, ansiosos pelo dia em que um qualquer Passos Coelho venha a aliviar-lhes as obrigações fiscais ou a eduzir os direitos dos que trabalham nas suas empresas. Para a maioria dos que se sentem agastados com a existência de um governo de maioria de esquerda em Portugal - que procuram desgastar nas suas televisões e jornais ou financiando centrais de fake news - o ideal seria traduzir a toda a atividade laboral a modalidade imposta pela empresa Operestiva no porto de Setúbal. Ter trabalhadores há anos condenados a comparecerem diariamente numa autêntica praça da jorna e pagar-lhes mal em função da precariedade, que lhes impõem, seria o ideal para os senhores da CIP, da CAP e das demais associações patronais.
O que indigna muitos socialistas é ter-se chegado quase ao final da legislatura e nada se ter alterado nas relações laborais agora denunciadas com a paralisação do porto por onde se escoam os carros produzidos na Autoeuropa.

sábado, 17 de novembro de 2018

Generais, sociais-democratas entre aspas, colonizadores africanos e príncipes sem escrúpulos


Ao início da manhã ouço um general a comentar a morte de outro, dizendo que foi uma «enorme perda para o país (...) que lhe sentirá, e muito, a falta!».
Pode ser opinião politicamente incorreta, dado o respeito dos portugueses pelos sucessivos protagonistas da quotidiana necrologia, mas quem continua a proferir este tipo de reações padronizadas não tem consciência de quão ridículas elas se revelam? Que importância ainda poderia ter quem, chegada à condição octogenária, já só cuidava sobreviver à fatal doença, que lhe ia abreviando os dias?
Que revoluções ou contrarrevoluções ainda poderiam ser encabeçadas por um ,general há muito aposentado cujas opiniões mediáticas se iam tornando caducas à medida que o mundo ia mudando e a formatação da mente se desajustava de um qualquer pensamento consistente sobre os fundamentos de tal transformação?
Não é, porém, só o general, que comentava a morte do seu igual, que revela a verborreia do muito que se diz e escreve no dia-a-dia. Por exemplo Sofia Rodrigues assinava uma notícia no «Público» desta sexta-feira em como os «sociais-democratas estariam a suspirar por Passos Coelho». Olha-se para tal título e só se o pode achar estapafúrdio: alguma vez existiu a mínima identificação entre o político de Massamá e o pensamento social-democrata? Daí que se justificasse muito mais um cabeçalho do género: «há quem no PPD suspire por Passos Coelho».
Acendo a televisão e ligo para um programa do canal ARTE onde um documentário apressa-se a elogiar a proximidade de Karen Blixen relativamente aos africanos, que empregava na sua quinta africana. Tal justificaria o elogio de a consagrar como muito mais avançada do que os colonizadores racistas da sua época. Mas como poderia ser de outra forma se nada percebia de agricultura ou de criação de gado e o seu incompetente marido disso sabia tanto quanto ela? Não estava na total dependência dos saberes ancestrais dos seus empregados de cor?
E conclua-se com outra notícia dos noticiários de ontem: a da CIA ter denunciado o príncipe herdeiro da Arábia Saudita como mandante do crime contra o jornalista Khashoggi. Seria motivo para nos surpreendermos, quando vamos acompanhando a progressiva ascensão ao poder de um jovem ambicioso, que não olha a qualquer meio - nem sequer ao genocídio, que mandou executar no Iémen - para alcançar os seus objetivos megalómanos?
O espaço mediático está cheio deste tipo de exemplos: querem-nos embalar com falácias cujos conteúdos apenas intentam distrair-nos das causas verdadeiras do que vamos vivendo e das consequências, que possam estar-lhes subjacentes.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Que faena mais triste!


A imagem acima de um touro morto na praça da Nazaré, e de cujo sofrimento derradeiro existe elucidativo vídeo no youtube, substitui milhentas palavras sobre todas as razões, porque o espetáculo tauromáticos é uma barbárie a extirpar dos nossos usos e costumes, opondo uma minoria ruidosa e profundamente reacionária da ampla maioria, que condena a violência praticada contra os animais.
Faz, pois, todo o sentido a reação do ex-embaixador Seixas da Costa ao lamentável episódio liderado por Carlos César e secundado por alguns deputados socialistas - Helena Roseta, Jorge Lacão, Ascenso Simões, João Paulo Correia, Luís Testa, Pedro Carmo e Sérgio Sousa Pinto  - em que visam diretamente a ministra Graça Fonseca pela sua mais do que justificada defesa do princípio da discriminação negativa das touradas em matéria fiscal. Está a tratar-se de facto de uma faena muito triste!
Nenhum desses deputados é novato em questões políticas para se armarem em virgens inocentes quanto ao óbvio aproveitamento das direitas em relação a tal iniciativa. Terão adormecido tranquilos quanto a terem-se convertido nos idiotas úteis de quem deveriam sempre considerar seus inimigos?
Hoje em dia as touradas distinguem não só as pessoas civilizadas dos trogloditas, que se comprazem com o sofrimento animal, mas também as esquerdas defensoras da progressividade dos valores sociológicos, das direitas, que os tendem congelar num passado em que se sentem ideologicamente melhor enquadradas.
A incompetência de César foi tal que António Costa viu-se obrigado a vir recordar-lhe em frente às câmaras de televisão que, em matérias fiscais, não há legitimidade para a liberdade de voto de quem quer que seja. O que coloca os taurófilos do grupo parlamentar na possível alçada do Conselho de Jurisdição, que averigua e sanciona as faltas graves cometidas contra o interesse do Partido.
Há já algum tempo que sinto reservas quanto à atuação do  antigo presidente regional dos Açores como líder parlamentar do Partido para que pago quotas há mais de trinta anos. Foram diversas as ocasiões em que César manifestou incómodo por ter de conviver com a maioria parlamentar, que apoia o governo, preferindo-lhe outras (más) companhias. Mas não me sentira até agora tão revoltado com a sua forma de «defender» (?) a atual solução política como a que agora decidiu encabeçar, causando um injustificado embaraço ao Primeiro-Ministro e à Ministra da Cultura.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O topete de querer avisar quem passa bem sem tretas dessas!


Pela chinfrineira, que os seus apoiantes terão produzido à porta do tribunal do Barreiro, Bruno de Carvalho contará ainda - no juízo de Marcelo Rebelo de Sousa - com uma apreciável base social de apoio.
No reino das aparências e das selfies em que o titular do cargo de Presidente da República se move, tanto basta para que se seja popular. Que importa se, daqui a umas semanas, mais alguns dos arguidos do caso das agressões de Alcochete deem com a língua nos dentes e ele volte á cadeia, se sai agora como herói da intimação judicial a que foi sujeito?
Marcelo mandou o seu altifalante favorito no «Expresso» (Ângela Silva) «avisar» - e o termo escolhido foi mesmo esse! - António Costa e Rui Rio quanto a terem ou não apoio real junto dos eleitores. Com essa jogada de manipulação mediática ele pretende não só equiparar o primeiro-ministro com o líder da oposição, como pôr-se um degrau acima deles. Marcelo quer-se pôr de cátedra a chumbar os que pretende tratar como alunos, usando a mesma discricionariedade já sua conhecida, quando integrou o painel de examinadores, que chumbou Saldanha Sanches, quando o reconhecido melhor especialista em Direito Fiscal se lhe submeteu na prova de doutoramento. A ignomínia de quem participou nesse nefando chumbo, pouco tempo antes da sua vítima sucumbir a um cancro, nunca foi devidamente denunciada.
Mas existe alguma possibilidade de se equiparar António Costa com Rui Rio ou com o próprio Marcelo? Claro que não!
O primeiro-ministro tem exercido uma governação, que melhorou significativamente a qualidade de vida da grande maioria dos portugueses e lhes deu esperança em melhor futuro, depois de quatro anos de deriva direitista marcada por cortes de rendimentos e de direitos. Ao contrário dele Rio não tem mostrado nem projeto para o país, nem capacidade de apresentação de medidas concretas, que se revelem melhores do que as implementadas. Pelo contrário o universo laranja lembra aquela imagem dos lusitanos que, no dizer de um chefe romano nem se governam, nem se deixam governar.
Marcelo, pelo seu lado, já leva trinta e dois meses de presidência e nada fez de assinalável. Se questionarmos os seus mais entusiásticos apoiantes para que nos apontem uma única decisão que seja, capaz de se revelar emblemática de uma magistratura exemplar, o que têm para nos elucidar? Que deu muitos beijinhos a criancinhas e a velhinhas? Que se fez fotografar um pouco por todo o lado? Que vetou leis, de que ninguém se lembra quais foram e promulgou a grande maioria das que lhe puseram à frente para assinar?
Quem merece uma base social de apoio maioritária entre os eleitores é António Costa e a maioria parlamentar, que lhe tem permitido mudar o país para melhor. Marcelo apenas explora a manipulação e a razão de ser dos jornais e televisões cujos proprietários querem desfazer o que de bom tem sido feito, para alimentar a imagem falsa de ser um político que mereça ser respeitado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Curiosidades lusas


1. É interessante pensar como Luís Filipe Meneses e o filho terão acumulado tantos milhões de euros tendo em conta, que as suas atividades profissionais ou políticas não dão grandes explicações sobre tão significativo milagre. Serão demasiado poupadinhos nos gastos ou há aqui matéria, que o Ministério Público deveria investigar a sério não fosse a tendência zarolha, com que costuma não ver as falcatruas perpetradas à direita?
2– Embora continue a errar ostensivamente em todas as suas análises a dona Teodora e o seu desditoso Conselho continua a perorar como se estivesse incumbida de axiomática cátedra. Os jornais e as televisões continuam a dar-lhe protagonismo e não me admirava que o pseudoeconomista da SIC a voltasse a levar ao ecrã num destes dias.  Mas quem estará ainda disposto a ouvir tão falhada adivinha?

Não se justifica que se atirem foguetes ao ar!


Apesar de todas as críticas justas, que se possam fazer às instituições europeias, a União dos 27 países constitui um avanço civilizacional digno de ser defendido contra todos os populismos e nacionalismos. Mudar a relação de forças em Bruxelas e em Estrasburgo será a condição sine qua non para que a esperança em melhor futuro se substitua ao medo quanto ao advento das mais assustadoras distopias.
Espanta que o Partido Comunista se tenha convertido num acérrimo opositor da transnacionalidade continental, aproximando-se perigosamente dos preconceitos da extrema-direita. É que, tendo presentes os textos de Marx, e sobretudo de Lenine, a Revolução do futuro torna-se mais fácil se concretizada numa escala geográfica e populacional mais ampla. É essa, aliás, a essência do internacionalismo, que costumava ser uma das suas principais bandeiras.
As notícias de hoje estão centradas no suposto acordo entre Bruxelas e Londres para exequibilizar o Brexit. Mas merecem, assim, tanta relevância? Acredito que não será caso para atirar foguetes ao ar, sobretudo porque o consenso anunciado dificilmente será aprovado no parlamento inglês. Ele limita-se a ser a derradeira tentativa de Theresa May para evitar o que já adivinha: a sua passagem à reforma  antes ou depois de eleições, que poderão resultar num corte abrupto entre as ilhas britânicas e o continente, ou na reversão total do processo de separação.
Encaminhe-se para uma ou outra direção, a História reterá o Brexit como o primeiro sinal de uma ascensão nacionalista, que terá conhecido derradeiros lampejos na eleição dos governos de extrema-direita em Itália e no Brasil, mas tenderá a infletir-se à medida que a falsa novidade das propostas dos seus líderes embater com a realidade dando a provar aos eleitores o veneno em que, incautamente, confiaram.
O futuro da Humanidade terá de assentar em bases colaborativas totalmente opostas à competitividade chauvinista dos que alienam os eleitores com prosápias nacionalistas.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A tentativa de silenciar vozes incómodas


Pelos vistos as opiniões, que vou publicando no blogue «Ventos Semeados», e depois traduzidas em posts no Facebook andam a incomodar, como se comprova a informação recolhida junto da rede social segu8ndo a qual uma das minhas publicações  de ontem intitulada «Populismos, Oportunismos e outras canalhices» havia sido retirada por denúncia de quem a entendera ofender as regras previstas na mesma.
Releio o texto de que volto aqui a colocar o link e constato, que nada do que nele afirmo pode ser considerado mais do que a expressão de uma liberdade de opinião. Considerar excessiva a decisão de quem mandou prender Bruno de Carvalho, quando poderia ter esperado pela segunda-feira de manhã para o fazer? Manifestar-me contra o patriotismo e o nacionalismo, feudo de fascistas, que se acoitam nas claques clubísticas, que urge proibir?  Considerar oportunistas as diversas greves, que procuram pôr em causa a governação socialista até às eleições? Em que tais questões podem sair do livre exercício de um pensamento próprio?
Presumo, pois, que há gente sem escrúpulos apostada em inviabilizar quem recorre ao facebook para contrariar o discurso abertamente fascista, que procura tornar-se maioritário nas redes sociais para, através delas, replicar a situação brasileira.
Nesse aspeto é elucidativo o que o «Polígrafo» acaba de denunciar como «fake new» vinda do PNR: na sua página publicitou-se uma afirmação da líder do Bloco de Esquerda em como a cultura islâmica seria superior à ocidental, garantindo-se em poucas horas um elevado número de partilhas dessa mentira, tão falsa, quanto aludia a ter sido publicada no Expresso numa data em que o semanário da Impresa nem sequer havia tido edição.
O aviso do Facebook, relativamente ao qual já reagi com a indignação devida, só mostra que a guerra política transitou decisivamente para as redes sociais e nela devemos batermo-nos arduamente para que as direitas não cumpram os seus intentos.
Nesse sentido podemos lamentar que o próprio Bloco ande ativo na criação de coligações negativas contra o governo esquecendo-se que o inimigo principal contra quem não pode nem deve mostrar a mínima fraqueza, acoita-se precisamente nas bancadas parlamentares onde busca apoios para derrotar políticas tomadas pelo governo de António Costa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Populismos, oportunismos e outras canalhices

1. Não simpatizo nada com Bruno de Carvalho, associando-o a um tipo de populismo, que se aproxima notoriamente dos fenómenos fascistas. Nem tão pouco me deixei sugestionar pelo discurso do coitadinho personificado pelo seu advogado.

Há, no entanto, algo que me incomoda numa operação iniciada num domingo ao fim da tarde. Qual seria a diferença se tivesse avançado nesta segunda-feira de manhã? Não consta que os dois arguidos estivessem em vias de fugir do país ou a eliminarem provas à lufa-lufa.

Põe-se, pois, a questão: ter-se-á justificado só para que os seus intervenientes ganhassem umas horas extraordinárias? Ou para prosseguir com aquela ideia tão acarinhada pela procuradora-geral cessante de fazer da Justiça um espetáculo mediático destinado a impressionar as famílias reunidas em frente aos ecrãs televisivos antes de iniciarem mais uma semana de trabalho?

Não duvido que populistas aparentados a valores fascizantes optassem por esse tipo de falta de escrúpulos. Só que uma sociedade democrática, que se pretenda bem mais civilizada do que trumps, jagunços e Cª, tem de se comportar com uma decência, aqui ausente.

2. Nunca gostei de invocações de orgulho nacionalista, que sempre me fizeram rebuscar a célebre frase de Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”. Daí que uma profissão-de fé de Manuel Alegre quanto a essa índole, que tanto utilizou para venerar Melo Antunes ou saudar o caricato aspirante a herdeiro do trono, como a verberar Cavaco Silva, sempre me causou súbita urticária.

Execro o nacionalismo, que Romain Gary definia como sinónimo de ódio aos Outros, e não subscrevo o patriotismo, definido pelo mesmo escritor como o amor aos nossos. A bandeira e o hino nada me dizem e é-me indiferente se a seleção portuguesa ganha ou perde. Na realidade continuo a considerar que as paixões clubísticas - mero sucedâneo desses fervores irracionais! - são nefastas. Razão acrescida para considerar urgente a mesma política dos ingleses em relação às claques dos clubes de futebol: devem ser pura e simplesmente extintas.

3. Anda, igualmente, a irritar-me a luta empreendida por certos sindicatos - dos professores, dos enfermeiros, dos juízes ou dos polícias - contra o governo. Estou de acordo com o que Joaquim Vassalo de Abreu escreveu ontem ao apodá-los de oportunistas por esquecerem “como que por encantamento, do que foi o seu comportamento, detestável, inacreditável e de impossível esquecimento, durante o governo da sua e deles PAF, das trevas e da Troika!”

Nessa altura portaram-se como uns cordeirinhos perante quem cortava a direito nos direitos e remunerações de quem trabalha ou se reformara. Agora, que muitos desses rendimentos foram repostos e prometem continuar a ser atualizados, vestem pele de lobo?