quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Trump, o depenado «vencedor»

Concluídos os discursos, atirados para o lixo os cartazes e os confettis utilizados para os discursos dos vencedores - ou nem para isso, no caso dos derrotados! - é altura de olhar para as eleições intercalares norte-americanas com racionalidade, sem as emoções de quem as desejou ver traduzidas em resultados melhores para republicanos ou democratas.
É claro que Trump assume-se como vencedor. Tinha de ser, lembrando-me aquele episódio, já aqui contado da minha adolescência, em que perdemos por 64-4 no primeiro jogo oficial de râguebi, mas não contaram os ensaios do adversário, já que o nosso equivaleu a prodigioso sucesso. Nem que o Senado tivesse, igualmente, virado para o lado dos democratas e Beto O’Rourke houvesse ganho o Texas, o pato-bravo de Manhattan nunca deixaria de encontrar o mais estapafúrdio argumento para alegar uma retumbante vitória.
Apesar de sobrarem muitas vozes a considerarem ser mais do que provável a sua reeleição, não apostaria nela um cêntimo. Nestes dois anos até 2020 a demografia continuará a evoluir a favor dos Democratas e as mulheres sentirão uma apetência acrescida para se mobilizarem ao verem como foram determinantes para que haja uma presença feminina mais forte no Congresso. E não me assusta - pelo contrário! - a tendência democrata para uma afirmação mais à esquerda: para radicais do outro lado, importa resposta ainda mais assertiva dos que se lhe opõem.
Num país onde emprego está longe de significar o abandono da pobreza as crescentes desigualdades só poderão dar fôlego à dinâmica anti-Trump, tão só se aprendam nos EUA as lições, que se vão ensaiando na Europa e de que a maioria parlamentar portuguesa constitui inegável detonador.

Os culpados? Obviamente os que mais têm a ganhar. Ou a evitar perderem!



Muito interessante a entrevista concedida pelo Prof. Boaventura Sousa Santos à edição brasileira do «El Pais» em que explica os acontecimentos atuais à luz de uma leitura, que não ´´e nova, mas continua pertinente: há o dedo imperialista em tudo quanto de mais assustador está a ocorrer no mundo. Independentemente de estar Obama ou Trump na Casa Branca vigora em Washington a expetativa de um inevitável confronto entre os Estados Unidos e a China pela primazia económica a nível mundial. Ora, para enfraquecer os possíveis apoios do outro campo, a CIA esteve ativa no sucesso do Brexit, trabalha para que a União Europeia falhe como projeto político e económico e sabota a convergência criada entre os BRICS. Daí o sucedido nas eleições brasileiras com amplo recurso a fake news.
Quem pense ser esta uma perspetiva exagerada do que ocorre nesta altura não deve esquecer o que Snowden denunciou e que irritou tão violentamente o anterior ocupante do Salão Oval. Na perspetiva dos norte-americanos a parte sul do continente terá de ser recuperada como seu quintal das traseiras, não se repetindo a distração dos primeiros anos deste século com a guerra no Iraque, que possibilitou a formação de governos progressistas na Argentina, na Venezuela, no Brasil, na Bolívia, no Equador e no Chile. E não se pense que as agências secretas ao serviço dessa agenda imperialista se intimidem com os meios: basta pensar como Dominique Strauss-Kahn foi apanhado no caso da camareira um mês depois de, enquanto líder do FMI, propor a substituição do dólar por uma cesta de moedas nos negócios mundiais. Ou como Sddam Hussein ou Kadhafi acabaram depois de proporem a transação de petróleo, respetivamente, com euros ou com uma moeda africana semelhante à europeia. Estejam em causa os interesses dos que querem continuar a manter a sua primazia como superpotência dominante e não há escrúpulos quanto aos recursos a investir.
É por tudo isto que o professor de Coimbra conclui a entrevista com a indicação do rumo a tomar para que o projeto imperialista falhe rotundamente: “A distinção entre esquerda e direita nunca foi tão importante. A esquerda muitas vezes apaixona, mas deixa passar oportunidades de ser outra alternativa de vida. A esquerda não pode ter vergonha de defender o Estado, obviamente democrático e não corrupto. Quem mais vai precisar de saúde pública, de mais educação, não serão as classes médias altas, mas sim aquelas que ganham o salário mínimo. É preciso ter a coragem de aumentar os impostos dos mais ricos. Prejudica o investimento, dizia-se em Portugal. Não foi assim, pelo contrário, aumentou. Há muitas mentiras econômicas. Os maiores mentirosos deste século ganharam os prêmios Nobel de Economia.”

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Web Summit, Tancos e o provincianismo desonesto de Rui Moreira



Para além da Web Summit - cujo brilho e importância económica para o país nunca é de mais realçar, a par do engenho e arte de António Costa em tê-la conseguido trazer para Lisboa - as notícias da manhã não trazem outras grandes novidades. É certo que Marcelo continua incomodado com Tancos e adota uma desculpa feia: se os chefes da Casa Civil ou Militar sabiam de alguma coisa do encobrimento - e há motivos para crer que, pelo menos o segundo sabia e por isso se colocou a recato atempadamente antes da borrasca o atingir! - nenhum lhe terá dito o que quer que seja. Como comandante-chefe de uma nave que possa estar à deriva é feio atirar culpas para quem tem por subordinados!
Ora o grande argumento das direitas contra o governo de António Costa têm a ver com uma lógica similar: exigir a um líder de topo, que pague as culpas por quem é seu subordinado. Só que, enquanto Marcelo tinha um vínculo direto com os seus chefes da Casa Civil e Militar, entre o primeiro-ministro e o antigo responsável pela Judiciária Militar a distância hierárquica é muito enviesadamente indireta, com uns quantos elos intermédios. Mas as direitas, cegas no discernimento, pensam mais ou menos assim: se o chefe da Judiciária Militar conhecia esse encobrimento, como o poderia ter escondido do chefe de gabinete do ex-ministro da Defesa, mesmo que esse não o tenha entendido como tal? Se este reconhecia ter recebido uma esdrúxula informação escrita em que, no máximo, se fala de um «informador», como não teria, apesar de irrelevante, tê-la transmitido ao ex-ministro? E se este, recebendo através de tanta intermediação - e sabe-se como quem conta um conto acrescenta-lhe (ou retira-lhe, se ele for comprometedor!) um ponto, como não a teria transmitido ao primeiro-ministro? Está bem de ver que, mesmo com informações em terceira ou quarta mão, que nada terão indiciado esse encobrimento, as  direitas passaram a achar que o primeiro-ministro passava a estar em causa!
Pessoalmente acredito que Azeredo Lopes terá achado tão estapafúrdia a estória de armas que apareciam e reapareciam, que piamente acreditou na possibilidade de nunca ter havido um roubo, como o chegou a asseverar numa Comissão Par(a)lamentar.
A verdade é que as direitas estão sem ideias nem projetos, que possam contrariar as vitórias das esquerdas no ano que vem. Perderem as Europeias, as regionais da Madeira e as legislativas funciona como uma espécie de antecipado horror, só mitigado pela esperança a elas fornecida por Pedro Magalhães há uns dias atrás, quando garantiu que a maioria absoluta do PS ficou comprometida com os incêndios do ano transato. Ao prolongarem a novela de Tancos vivem na esperança dela funcionar como mais um pauzinho a entravar a engrenagem, com precisão de relógio, que devolverá a chefia do próximo governo a António Costa. Usando as Forças Armadas para politiquices indecorosas, julgam alcançar os seus improváveis objetivos.
Vale ainda a pena reter duas outras notícias do dia. A primeira tem a ver com a desonestidade intelectual de Rui Moreira que me fez abrir a boca de espanto ao ouvir-lhe um tremendo disparate, mas também um inaceitável tique populista, ao exigir que se há dinheiro para a Web Summit muito mais deverá haver para a nova ala pediátrica do Hospital de São João.
Compreende-se que o autarca do Porto se roa de inveja por Lisboa estar a viver um evento desta grandeza, e queira ignorar que o investimento nele aplicado tenha um retorno incomparavelmente maior, que beneficia a economia nacional em vertentes, que não se esgotam no seu nível económico. Provinciano na forma de pensar ele ainda não compreendeu que, ao exigir que a Agência Europeia do Medicamento fosse para o Porto e não para Lisboa - que teria razões de sobra para justificar a escolha em detrimento de Amesterdão! - ele foi o culpado-mor de ter privado o país de ser sede de mais uma importante instituição europeia. Ademais, e sobre as crianças a estarem sujeitas a tratamento em contentores, nunca se lhe ouviu uma reclamação sobre tal matéria nos quase cinco anos do governo de Passos Coelho, que nada fez para resolver o assunto.
Conclua-se com existir número crescente de analistas a estranharem a «coincidência» de seis mil hondurenhos terem sido estimulados a integrarem uma caravana a caminho das fronteiras americanas, num percurso equivalente ao de Lisboa até Moscovo, precisamente quando estão a acontecer as eleições norte-americanas para parte do Senado e toda a Câmara dos Representantes. A organização e o timing escolhido deixa sérias reservas sobre este episódio mostrando como multidões podem ser manipuladas eficazmente para criarem factos políticos completamente opostos aos dos seus efetivos interesses.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Os degradantes espetáculos da barbárie dos futuros «doutores»


Denunciadas por algumas das suas vítimas, as práticas cometidas por quem liderou as praxes na Escola de Educação de Coimbra só podem causar a mais viva indignação. Obrigar caloiras e caloiras a despirem-se até à nudez, agredirem-nos, impedirem-nos de interromper a humilhação  a que estavam a ser sujeitos, mesmo com os custos inerentes a assumirem-se contra tais práticas, só confirma a urgência de serem proibidas essas práticas, que uns quantos trogloditas, vestidos com a sua farda carnavalesca, querem impor a colegas da mesma escola a pretexto de lhes «facilitarem» a integração.
Pelos vistos o crime perpetrado na Praia do Meco não bastou para que a sociedade agisse com determinação contra potenciais violadores e assediadores. As praxes são expressões de bullying, que não são toleráveis.  O respeito da pessoa humana tem de ser transversal a todas as idades e a todas as classes sociais, sob pena de mergulharmos na barbárie.
Tardam as leis e os correspondentes controles para que as escolas, desde a pré-primária até aos campus universitários sejam, exclusivamente espaços de partilha de conhecimento entre quem sabe e quem deseja saber. Ponto final.

A complacência injustificada contra excessos policiais


Curiosamente tenho andado a ser contrariado nos argumentos por alguns amigos, que se consideram de esquerda, a propósito da atitude crítica contra alguns comportamentos policiais. Há quem não tenha visto mal nenhum na publicação das fotografias dos três foragidos, capturados em Gondomar, e defenda mão pesada sobre os autores de atos ilícitos numa evidente aproximação ideológica aos adeptos do jagunço brasileiro ou do ex-autarca laranja de Loures.
Diz o ditado que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Ora esses amigos andam a envergar perigosamente as roupas fascistas, quando dissociam o crime das causas que lhe subjazem: este capitalismo em que se agrava a obscena desigualdade entre ricos e pobres e em que, não só se privam as classes mais baixas de ascenderem socialmente através da educação (daí a justeza das políticas deste governo no sentido de reduzir os custos das famílias com propinas e manuais escolares!), como lhes atira para diante dos olhos os gadgets de uma sociedade de consumo, que ambicionam ter, não importando o que se tenha de fazer para os adquirir.
As cenas lamentáveis dos polícias na tentativa da ocupação das escadarias da Assembleia da República (simbolicamente um golpe de Estado!) ou os sete casos, atualmente, em tribunal sobre comportamentos em que terão exorbitado as suas competências, são elucidativas de como algo vai podre nalgumas esquadras, havendo indícios de nelas se terem infiltrado militantes neonazis. Justifica-se, pois, o reparo de Pedro Bacelar de Vasconcelos quando, dias atrás no «Jornal de Notícias», se insurgia com a exagerada complacência que as forças de segurança merecem dos juízes dos nossos tribunais. Pelas responsabilidades de defesa dos valores republicanos com que se comprometem ao vestir a farda, os polícias que os violam merecem severa punição.
Há quem venha alegar com a falta de condições e de meios, que condiciona a sua atividade, mas não é de estranhar que estas «denúncias» só venham a público quando é o Partido Socialista quem está a governar e depois de um esforço orçamental, que já se concretizou na aquisição de mais de duas centenas de novas viaturas? É que não esqueço da reunião convocada para um Hotel da Costa da Caparica em que um dos principais líderes sindicais, agora tão ativo na contestação ao governo, apelava à votação no seu convidado de honra, esse Passos Coelho, que se preparava para substituir Sócrates à frente do governo. E muito menos as comprometedoras fotografias, que mostram outro desses líderes em amena reunião na sede do PNR...

domingo, 4 de novembro de 2018

Estertores tauromáticos


Os paladinos das touradas demoram a entender que são quixotes a brandirem armas contra moinhos de vento. A ridícula contestação à ministra demonstra o quanto se dissociaram da realidade cultural da nossa sociedade. É que revela-se notória a ampla maioria de portugueses, que repudiam o quanto se passa nas arenas do país, olhando para as farpas espetadas nos corpos ensanguentados dos touros como uma barbárie a que importa pôr cobro.
É risível a tentativa de reivindicarem a caução intelectual à conta de Hemingway ou Picasso, quando os valores civilizacionais tanto mudaram desde que ambos desaparecem do mundo dos vivos. Felizmente que os programas de David Attenborough ou da National Geographic muito nos esclareceram sobre a inteligência e os sentimentos dos mais dispares animais. Muito embora prossigam os massacres dos rinocerontes, dos elefantes ou dos tigres de bengala, cresce o clamor internacional sobre a importância de preservar a riqueza da vida selvagem e o quanto perderemos se ela paulatinamente se extinguir.
A tauromaquia insere-se numa cultura de bestialidade em que o touro existe para ser sangrado à vista de todos e uns quantos peralvilhos ostentem a sua falsa valentia. Eu que nasci numa família, que frequentava touradas e visitava ganadeiros - conhecendo-lhes, pois, as idiossincrasias - ainda tenho esperança de viver tempo suficiente para que esse degradante espetáculo seja liminarmente proibido.

Quando as direitas perdem o decoro


No «Público» o historiador Manuel Loff corrobora o que tenho constatado nos últimos tempos: “quando a extrema-direita ganha escala e atrai uma parte tão significativa da direita clássica, esta não hesita em colar-se-lhe.” Por isso mesmo não surpreende que Jaime Nogueira Pinto ou Nobre Guedes de forma entusiástica, e Santana Lopes, ou diversos dirigentes menores do CDS, manifestassem explicito apoio ao jagunço brasileiro.  As nossas direitas só são democráticas na aparência, e enquanto lhes convém. Quando tomam as rédeas do poder ostentam toda a arrogância de que um qualquer fascista é capaz...
Se os partidos institucionais das direitas ainda vão revelando algum recato na expressão do que, efetivamente, pensam, os novos partidos que se estão a criar - desde a Aliança do antigo provedor da Santa Casa ou o Chega do ex-autarca laranja de Loures - procuram dar um passo adiante nessa radicalização, que não hesitará em servir-se da xenofobia e dos preconceitos para conquistarem prosélitos contra todas as causas fraturantes, que se normalizaram, e as que, como a eutanásia, possam perfilar-se como as próximas a ganharem reconhecimento legal. Através dessas disputas ansiarão alcançar o que mais lhes importa:  o poder de, através da liberalização total do mercado nacional, sobretudo nos direitos e garantias de quem trabalha, garantirem o ambiente «facilitador de negócios», que os seus financiadores tanto almejam.
O problema será a escassa aceitação que esses propósitos anticivilizacionais merecem da maioria dos portugueses por muitos recrutas, que contem nas claques de futebol, nos bandos de motards, nas arenas tauromáticas  ou nas acéfalas ovelhas de cultos religiosos vários.

Um ricochete em Marcelo


Dado que discordo de uma imprensa apostada em casos tratados com ligeireza ou farto contributo de falsidades, sinto alguma ambivalência por Marcelo Rebelo de Sousa estar a provar o veneno das notícias tendenciosas sobre Tancos, criadas para dar munições às direitas na propaganda contra o governo, e que ele próprio andava a aproveitar para lhes servir de câmara de ressonância. Depois de meses e meses a dizer que queria saber a verdade toda, doesse a quem doesse, eis que uma reportagem televisiva vem-no pôr ao mesmo nível de suspeição, que os ministros de António Costa.
Perante tais «provas», que irão fazer Rio e Cristas? Convocam, igualmente, Marcelo para comparecer na Comissão Par(a)lamentar? Ou, de uma vez por todas, dão força a quem tem dito o óbvio: tão, ou mais, grave quanto o encobrimento, terá sido o roubo das armas, sobre as quais as direitas manifestaram nenhuma preocupação. Ora deveria ser esse o padrão de exigência a manifestar para com o lento Ministério Público, que levará tempo a libertar-se da «cultura» nele deixada pelo longo consulado da anterior procuradora...

sábado, 3 de novembro de 2018

Sobre o absurdo de se perfilharem paixões clubísticas


A notícia mais enfática da primeira página do «Expresso» tem a ver com a ostracização dos clubes portugueses por quem anda a congeminar a organização de uma grande Liga Europeia com os maiores da Espanha, Inglaterra, França, Itália e Alemanha - muitos dos quais detidos por plutocratas do Médio Oriente - e que abocanhariam a percentagem mais significativa das receitas publicitárias e das transmissões televisivas. Impossibilitados de acederem a tal Liga, a menos que se vissem objeto de interesse de um desses investidores, não restaria ao Benfica, ao Porto ou ao Sporting senão conformarem-se com a sua apagada e vil tristeza, servindo apenas de alfobre de jogadores, onde os outros se limitariam a vir escolher os melhores. No fundo, e sem surpresa, temos o capitalismo selvagem à solta nos estádios europeus!
Temos, pois, o futebol como um fenómeno, que de desportivo tem pouco ou nada. E que torna tão absurda a adesão clubística, quanto se viesse a traduzir por entusiasmo com os confrontos em bolsa entre a Morgan Stanley e a Goldman’s Sachs, ou entre a Shell e a BP.
Explica-se, assim, que me alheie cada vez mais do que se passa nos campos de futebol e denuncie o potencial de alienação de que os exploradores se servem para distrairem os explorados. No fundo os imperadores romanos já a sabiam toda quando davam aos  súbditos os confrontos entre gladiadores...

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Querem-nos levar à certa com os futebóis!


Ontem à noite, antes de acorrermos a compromisso pós-jantar, quisemos informar-nos do rumo dos acontecimentos nacionais e internacionais, pelo que andámos a zappingar pelos três principais canais de informação (o outro, o ligado ao pasquim da Cofina, está num índex pessoal, de que nunca se livrará!!!). Os minutos foram-se sucedendo, desde o início dos telejornais, e a constante manteve-se em todos eles: pelo menos durante um quarto de hora dedicaram as notícias de abertura ao despedimento do treinador do Sporting.
Indignados com uma tão injustificada primazia dada a questão tão secundária, desistimos e transferimos a atenção para assuntos bem mais interessantes. Desconheço, pois, por quanto tempo se prolongou a telenovela, mas ela indicia a persistência de um dos mais aberrantes éfes, que costumávamos verberar nos tempos do salazarismo. E isso é preocupante, porque a secundarização do que deveria ser priorizado nos canais informativos, contribui para a degradação da consciência cívica dos cidadãos. Desviando-os do essencial - as questões políticas e económicas, que possam condicionar o futuro das suas famílias! - essas ferramentas de alienação contribuem para que se tornem presa mais fácil de populistas dispostos a irem-lhes ao encontro de preconceitos enquistados só superados com persistente esforço educativo.
Quando nos queixamos da ascensão de gente infecta como o jagunço brasileiro, o mafioso italiano ou o fascista húngaro não podemos alhear-nos da responsabilidade dos meios de comunicação, que se demitem do imperativo de modificarem as consciências coletivas para direção mais civilizada, e empurrando-as para o trogloditismo inerente às paixões clubísticas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Um mundo só para ricos?


Não é que o mundo tenha parecido particularmente bonançoso em tempos idos, porque em todas as suas épocas históricas sempre abundaram as mais cruéis mortandades de gente indefesa para que os vitoriosos do momento julgassem chegado o tempo da sua livre exploração. Momentos de grande esperança, como o da Revolução de Abril ou, mais para trás, o da celebração do fim da II Guerra Mundial, logo se viram abafados pelo habitual exercício do domínio dos opressores económicos sobre quem sempre lhes tem sido útil ferramenta de acumulação de riqueza.
Quem se arma de um ideário marxista pode sofrer na pele os efeitos de se ver ostracizado e reprimido, mas confia sempre na dialética da luta de classes e em como lá virá o dia em que os derrotados de hoje se afirmarão como os ganhadores de amanhã. Aquele que está vivo não diga nunca NUNCA!, aconselhava o mestre Brecht.
Há, ainda assim, alturas em que seria lícito, que a tendência às avessas da evolução histórica, não parecesse tão forte com gente infecta a comandar atualmente o destino dos norte-americanos, dos turcos, dos húngaros, dos filipinos, dos polacos, dos italianos e, para além de muitos outros povos aqui omitidos, o dos brasileiros.
Contrariando o que seria lícito esperar dos valores em que acreditava, José Saramago costumava ostentar um grande pessimismo sobre o porvir da Humanidade. E o que escreve no seu imprescindível último caderno de Lanzarote, parece ajustar-se que, nem uma luva, ao presente do nosso descontentamento, apesar de ter sido assumido há vinte anos, nesse 1998 em que viria a ser consagrado com o Nobel: “o que está em preparação no planeta azul é um mundo para ricos (a riqueza como uma nova forma de arianismo), um mundo que não podendo, obviamente, dispensar a existência de pobres, só admitirá conservar os que forem estritamente necessários ao sistema.”
No Brasil isso é mais do que evidente, quando sabemos que as classes de rendimentos mais altos e com formação académica superior votou maciçamente no jagunço. Não é por ele lhes ser simpático, nem corresponder ao tipo de pessoa com quem gostam de conviver. Mas sabem-no que, no seu fascismo sem escrúpulos, ele lhes pode facilitar os negócios, fazendo acelerar a destruição da Amazónia para uma maior extensão das áreas dedicadas ao setor agroalimentar, nem que para tal se exterminem os ameríndios ainda aí reduzidos a bolsas de precária sobrevivência. Confiam em que aperte a tal ponto a legislação laboral, que, a exemplo dos sem terra ou dos sem teto, qualquer operário disposto a insurgir-se pela greve, seja legalmente tratado como um terrorista. E esperam que o disparo fácil contra os ladrões acoitados nas favelas se torne tão frequente, que se sintam em maior segurança no recato dos seus condomínios privados.
Saramago previa uma reformatação do modelo capitalista, que o neoliberalismo económico tornasse inevitável o fim das aparências democráticas das classes dominantes. Resta ver como o Brasil evoluirá nos próximos meses viabilizando, ou não, esse modelo. Para já surge a confirmação da notícia de Sérgio Moro  ocupar a pasta da Justiça, algo em que ontem aqui previa não vir a acontecer. Enganei-me, pois! Mas procurando racionalizar o motivo dessa aceitação até é possível compreendê-la: se o mandato do jagunço correr bem, Moro apressar-se-á a colar-se-lhe totalmente para vir a surgir como natural sucessor, repondo a ocupação do poder pelas classes mais altas depois do episódio intermédio do bronco. Se, como tudo aponta para tal,  a crise social tornar-se tão aguda, que a repressão não consiga pôr-lhe travão, Moro poderá sempre sair da carruagem, assumindo-se como público opositor do agora cúmplice, para que mudando alguma coisa, tudo fique exatamente na mesma como agora se prefigura.