segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Artistas, juízes e praxes


1. Nos últimos anos abriram-se novas galerias de exposição em Lisboa, que pressuporiam um mercado pujante  para a arte dos nossos dias.  Erro de cálculo! A grande burguesia, aquela que, quase sempre por empáfia, ia construindo privativas pinacotecas, descobriu-se em perigo com as investigações sobre enriquecimentos ilícitos, mas precavendo-se sobretudo dos riscos crescentes de ver-se denunciada como titular de contas em paraísos fiscais.
Deixou de ser fashion a excessiva ostentação do capital acumulado com a especulação financeira ou imobiliária. Até a autoestrada dos vistos gold, criada por Paulo Portas como alternativa para garantir bons negócios, anda a ganhar má fama ou não tivesse sido denunciada pelas  ONG Transparency International e Global Witness como via ideal para a corrupção. As compras minguaram, ficando em maus lençóis muitos dos que tinham apostado na arte como modo de vida.
A expetativa de solução com a nova ministra da Cultura é condicionada pelos exíguos meios do Estado para substituir-se aos pretéritos colecionadores. Mas convenhamos que, à exceção de Vhils, não se têm conhecido projetos artísticos estimulantes, capazes de nos convencerem dos efetivos méritos de quem os assina. E di-lo quem acompanha com alguma atenção o que consegue transitar dos ateliês para espaços de exposição.
2. Reparo pertinente de Pedro Bacelar de Vasconcelos num artigo de opinião do «Jornal de Notícias» num dos dias da semana transata: “enquanto nos Estados Unidos deparamos com uma despudorada maquinação visando o controlo dos tribunais pelo poder político, no Brasil, inversamente, são os tribunais que intencionalmente interferem na expressão livre da vontade democrática e que promovem, objetivamente, o sucesso do candidato da extrema-direita.”
3. Há uma semana, ao passar de carro pelo topo do Parque Eduardo VII, deparei com o espetáculo degradante de uns quantos rapazes e raparigas, trajados de preto, a humilharem colegas a pretexto da sua «integração« no ambiente académico.
A exemplo do que se passa com as touradas e outras manifestações bárbaras de um certo modo de se ser português - cujo fim anunciado parece sempre iminente, mas vão sobrevivendo por ser inesgotável a estupidez dos seus promotores! - as praxes reduzem-nos a esperança em ver a juventude recuperar o inconformismo de gerações anteriores, quando a vontade de mudar o mundo pressupunha o asco perante a opressão e a solidariedade com todos os oprimidos. Se tantas revoluções, que trouxeram avanços civilizacionais a milhões de seres humanos, tiveram nas juventudes o seu motor, elas tardam em retomar o testemunho dos que nunca desistem de exigir um mundo novo a sério...

domingo, 14 de outubro de 2018

A peixeirada do costume


É o habitual, mas não desmerece ser zurzido, porque se Cristas não muda de registo, muito menos deveremos alterar o nosso, quando se trata de dela maldizer. Acabavam de ser anunciadas as alterações na composição do governo e logo a tivemos a pôr-se nos bicos dos pés a perorar como se fosse matéria, que fosse do seu foro.
O que tem ela a ver com quem António Costa escolhe para com ele trabalhar? Alguém lhe pediu uma opinião?
Não temos provas de como era Cristas em criança, mas o que denuncia em crescida só fundamenta a ideia daquele tipo de embirrenta, que leva os adultos a sentirem pulsões de esquecer os conselhos dos manuais de psicologia infantil, utilizando-os antes na sua alternativa aplicada. E bem aplicada, convenhamos!
A meio da discursata a dita cuja teve o desplante de dizer fragilizado um governo, que todos os dias ostenta indicadores hiperpositivos e acaba de ver a renitente Moody’s a reconhecer-lhe o mais que merecido mérito! E, logo a seguir, afirmou que nunca António Costa merecera ser primeiro-ministro!
Homessa! Deveria ser ela a tomar-lhe o lugar? Para criar mais legislação que facilitasse o despejo de inquilinos idosos? Ou que fizesse proliferar eucaliptos de norte a sul de Portugal? Ou que, em férias, assinasse sem ler, o que lhe diziam para o fazer?
Vade retro Satanás! Onde é que está o mais volumoso dos manuais de Psicologia, prontinho a ser aplicado?

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Um major que não é flor que se cheire!


1. Desta feita não tive disponibilidade para assistir ao debate quinzenal na Assembleia da República, mas os jornais e as televisões dão-me conta de se ter tratado de mais um passeio para António Costa. A oposição quis explorar o caso das armas roubadas em Tancos, mas ficou tolhida pela falta de credibilidade do major com a história do subaluguer a turistas do Airbnb da casa facultada pelo Exército. Quiseram igualmente lançar lama sobre a nomeação de um deputado do PS para a administração da ERSE e tiveram de ricochete os nomes de todos quantos nomearam durante os seus governos para cargos similares. E quanto aos professores só o PEV ainda se lembrou que existem...
2. Ainda a respeito do major envolvido na encenação para a devolução das armas roubadas cabe fazer uma pergunta com pertinência: tendo tanto sentido de empreendedorismo para ganhar dinheiro fácil, que vantagens terá colhido de ter querido esconder a identidade dos ladrões? E que dizer de Ricardo Sá Fernandes que sem poder questionar a valia das provas contra o seu constituinte, as explica como fruto de contrainformação do Ministério da Defesa. Será que, ao encobrir o roubo de Tancos o major não incorreu num crime como tal sancionável? Será que ao colher benefícios do cargo, alugando uma casa supostamente atribuída ao filho para nela morar, não incorreu num imoral abuso de confiança?
Nesta história não é o ministro ou o Chefe do Estado-Maior do Exército, quem pior se portaram, mas aqueles que, de facto, pelos atos, prevaricaram.
3. Nessa mesma leitura vai a crónica diária no «Expresso», Daniel Oliveira ao alinhar três razões principais para serem desqualificadas as palavras do major Brazão: “A primeira é que um crime é um crime. E não passa a ser menos crime porque se informou um ministro”. (...) “A segunda, é que o poder político se transformou no aterro para onde todos os que falham querem atirar as suas culpas”. (...) “A terceira é que a palavra de alguém que acabou de participar numa manobra para encobrir um crime e enganar a Justiça não tem, à partida, grande valor”.
Será extemporâneo ilibar Azeredo Lopes de todas as culpas, que lhe andam a atribuir os que querem força-lo a demitir-se, mas o que se vai sabendo sobre ele pouco se pode abonar a seu favor.
4. Os donos das rádios e das televisões andam a abusar da nossa paciência: depois de Ricardo Costa ter contratado Manuela Moura Guedes para a SIC, foi a vez da TSF imitá-la com a apresentação da sua nova coqueluche: a brasileira de Pedrógão.
É claro que podemos fazer o que logo decidi: doravante serei tão rigoroso e evitar a visualização ou a audição de um minuto que seja na SIC ou na TSF, quanto me eximi de frequentar o CCB enquanto o odioso Vasco Graça Moura presidiu ao seu Conselho de Administração. E costumava ser assíduo espetador do que se exibia nos respetivos auditórios, tendo até «cartão de amigo»!
Não basta, porém, a promoção desse boicote. Importa denunciá-lo, porque recorrendo aos seus símbolos mais abjetos, as direitas das opiniões audiovisuais só demonstram a exiguidade dos argumentos que as norteiam. Não havendo substância no que discursam, recorrem a mais comezinha peixeirada como sórdida alternativa...


João Galamba no Debate Quinzenal de 10 de outubro de 2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018

As lições que a balsonarização do Brasil nos devem lembrar


Tenho amigos, que me dizem ter sido perfeitamente expectável o sucedido nas eleições brasileiras, levando em conta o comportamento do PT durante os anos de presidência de Lula da Silva e de Dilma Roussef. E, de facto, tenho de reconhecer-lhes alguma razão, mas não propriamente pelos motivos que os levam a proferir tal juízo.
Se existem lições a recolher do fracasso da esquerda brasileira importa alinhá-las antes que um qualquer Ventura (o racista acabado de sair do PSD de Loures com a promessa de criação de um novo partido alinhado com a sua delirante, mas não negligenciável, xenofobia!) ou um qualquer Santana Lopes (não tão diferente do anterior em oportunismo!) se convertam numa réplica lusa de Jair Bolsonaro.
A primeira lição é a de qual deve ser o comportamento da esquerda, quando conquista o poder. Allende já demonstrara no início dos anos 70, que uma verdadeira transformação política e social não pode ser feita sem levar em conta os inimigos, que se concertam na sombra para a impedir. Ora o PT cai pela conjugação de esforços da comunicação social - toda na posse de grandes grupos económicos! - dos juízes e procuradores e das igrejas evangélicas. Não deixando totalmente de lado os militares que, se não têm o poder dos anos sessenta, ainda assombram a tranquilidade dos democratas, que não esquecem o seu papel como assassinos e torturadores.
Olhar para esses inimigos deveria ser uma das principais preocupações da atual maioria parlamentar.  E agir em conformidade.
É aceitável que todas as televisões, rádios e jornais estejam mobilizados para denegrir o mais possível o governo de António Costa e deem privilegiado tempo de antena a um partido cuja verdadeira dimensão política  não anda longe dos tempos em que os seus deputados quase chegariam para a lotação de um táxi? Que esperam os partidos das esquerdas para transformarem a RTP e a RDP em canais de informação digna desse nome, que equilibrem uma balança a pender indevidamente para o lado da oposição? É tempo de se acabarem com os pruridos do tempo em que Sócrates foi acusado de assumir a orientação da TVI, porque o seu fracasso - se é que alguma vez tentou consegui-lo! - só significou que não conseguiu desalojar de lá quem pugna diariamente pelos interesses das direitas.
É aceitável que se mantenha o logro de ter sido irrepreensível o mandato de Joana Marques Vidal, quando foi evidente a parcialidade das investigações, que promoveu, priorizando as que prejudicassem os socialistas e deixando em rédea livre os Dias Loureiros, os Paulos Portas, os Marques Mendes, os Cavacos Silvas, os Miguéis Relvas ou os Passos Coelhos que, em conjunto, terão sido responsáveis por valores de corrupção sem comparação, por excesso, com os que lhe criaram tão boa imprensa? E por quanto tempo se aceita manter Carlos Alexandre como juiz determinante para o que se passa na Justiça, quando sempre demonstrou a iniquidade dos seus atos, validando estratégias ilegítimas do ministério público e nunca defendendo os direitos dos arguidos quanto à presunção da inocência até à efetiva demonstração da sua culpabilidade?
E por quanto tempo mais se aceita a proliferação em Portugal de igrejas evangélicas cujo papel de quintas colunas de interesses políticos ultramontanos se têm demonstrado evidentes, quer em África, quer no Brasil? A exemplo do que a Alemanha decidiu há décadas a respeito da seita da Cientologia, que se espera para as proibir ou, pelo menos, acabar-lhes com as facilidades fiscais  que usufruem à pala de uma imprudente liberdade religiosa consignada na Constituição?
Podemos congratularmo-nos com o facto de António Costa ter-se apoiado pouco nas direitas no que foi decidiu nos últimos três anos, mas a importância conferida à Concertação Social, onde o capital  tem assento maioritário, comparativamente com o devido aos trabalhadores, mal representados pela ambígua UGT e pela dogmática da CGTP, continua a dar fôlego a uma cultura de «colaboração» com as forças, que são sobretudo de bloqueio.
Lula foi obrigado a ceder ainda mais, porque nunca teve maioria para cumprir a sua visão para um Brasil melhor, e iludiu-se com a possibilidade de, nada fazendo para contrariar a corrupção dominante, os inimigos o deixariam sossegar. A ingenuidade sai-lhe cara e está a ser paga com a revoltante condição de preso em Curitiba.
Até agora António Costa não foi obrigado a andar de braço dado com os maiores empresários do país, porque as esquerdas têm-lhe poupado esse perigoso espetáculo. Mas não bastará dizer-se amigo de quem lhe tem propiciado as condições para governar sem sobressaltos nestes três anos. Casar talvez seja excessivo, mas perante cenários economicamente mais desfavoráveis como os aventados por muitos economistas de indubitável seriedade, ver-se-á sujeito à prova: ou opta por assumir que estamos numa guerra (a incontornável luta de classes), com o que isso implica em tomar atempadas medidas, que limitem tempestades futuras, ou põe a cabeça na areia e, quando chegarem os furacões, já não serão os Rios a darem-lhe a mão. Serão os lusos Balsonaros a evidenciarem-lhe a imprudência de não lhes ter cortado o caminho, quando ainda haveria tempo para o fazer.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Atrás de tempos, tempos vêm!


Eu sei da convicção com que nas avenidas largas das grandes cidades se proclamou que FASCISMO NUNCA MAIS!. E, no entanto, mais ou menos disfarçado, ele campeia em países de quase todos os continentes: dos Estados Unidos à Hungria ou à Polónia, da Turquia às Filipinas, vemos as extremas-direitas chegarem ao poder e dele se apossarem como se esperassem detê-lo por mil anos.
O Brasil é só o exemplo, que se segue. Dificilmente Haddad conseguirá vencer o apoio dado pela Globo, pela IURD, pelos grandes empresários e os juízes ao seu adversário. Motivo para desesperarmos? Nenhum! Quem já muito viveu, também a muito assistiu: não faltam ditadores a sério ou de opereta, que acabaram achincalhados por mudanças políticas capazes de lhes legarem para a História a crápula fama de que se fizeram merecedores.
Seria desesperante se soubéssemos que os Trumps, Orbans, Dutertes ou Balsonaros teriam uma varinha mágica com que pudessem resolver os problemas dos seus povos e os tornassem mais felizes. Só que essa magia não lhes está ao alcance e só tenderão a piorar o que já mau se apresenta. Atrás de tempos, vêm tempos, outros tempos hão-de vir, cantava Fausto com todo o sentido. As dinâmicas, que parecem levar os Salvinis cada vez mais alto não tardarão a esgotar-se e a puxá-los no sentido contrário. É a velha lei da Física, segundo a qual toda a ação justifica uma reação. E ela acontecerá por certo, ou a ciência deixaria de valer enquanto tal. Porque como todos os rios, que estão próximos do estertor final, e ganham derradeiro alento num ilusório ressurgimento, também o capitalismo procura adiar a morte definitiva com as soluções de extrema-direita a substituírem-se às que se crismam de liberais (ou neoliberais!). Até porque, tal qual confirma o estudo científico agora apresentado, não há qualquer compatibilidade entre o business as usual  e a obrigatoriedade de cingirmos o aumento global de temperatura a 1,5ºC até 2100 sob pena de virmos a conhecer o apocalipse climático.
Há, pois, que confiar na resiliência humana: os Trumps ou os Balsonaros nada percebem do que estão a querer estragar, mas os tempos correm em seu desfavor. Não faltará muito para que os deitemos no lixo enquanto monstros gelatinosos, que nos assombraram os piores pesadelos, mas não nos terão impedido o despertar nas novas manhãs claras em que tudo nos parecerá bem luminoso...

domingo, 7 de outubro de 2018

Onde (ainda) se escreve sobre Tancos, professores, múmia de Boliqueime e do desventurado André


Do que li no fim de semana vale a pena realçar o texto de Alfredo Barroso a respeito de mais uma campanha de manipulação da informação por parte de alguns órgãos de comunicação social, que usam Tancos como arma de arremesso contra o governo, por interposta propaganda das direitas:  Assunção Cristas, acolitada pela direita "arruaceira" do CDS-PP e pela "ala trauliteira" do PPD-PSD, estarão à beirinha de consumar um autêntico "milagre" político-judicial, que consiste em convencer a opinião publica (tal como a publicada, claro!) de que quem "fanou" aquelas armas e munições obsoletas do paiol de Tancos e encenou a "milagrosa aparição" delas - não em Fátima, nem no regaço da Rainha Santa Isabel, mas na Chamusca - foi o Ministro da Defesa Azeredo Lopes...
Quanto aos militares em geral - e aos oficiais de quem se fala, em especial - nenhum deles fez nada, credo! "It's an injustice" estar a interrogá-los e a prende-los, porque eles é que são os verdadeiros "calimeros" desta cegada, "heroicos" defensores duma Pátria "desarmada" em Tancos. Tudo o que eles fazem é sempre "a bem da Nação". E mai' nada, percebem?! Não percebem? Então vão, mas é, «pentear macacos»...”
Noutro texto interessante, Virgínia da Silva Veiga recorda o exemplo de Professor (com P grande), que foi o de Agostinho da Silva para o comparar com o triste exemplo da trupe arruaceira de Mário Nogueira e Cª. E enaltece a reação de Marcelo perante o ataque de que se viu alvo: “Nogueira levou do Presidente da República a maior bofetada de luva branca de que há memória: “agendamos uma audiência” – foi quanto lhe disse Marcelo, nem mais uma sílaba, frase que é, para bom entendedor, dizer que se não justifica não a ter solicitado, estar ali, e vir ali perturbar uma cerimónia oficial. Foi um “dê-se ao respeito” a quem por ele clamava não o tendo.”
Apesar de convocados por dez sindicatos, os vinte mil manifestantes, que terão estado nas ruas de Lisboa, demonstraram que a sua luta está definitivamente derrotada, porque a maioria dos portugueses já compreendeu o que está em causa: pode não haver disponibilidade financeira para outras classes profissionais merecedoras de idênticas regalias, mas para eles tem de haver, seja lá como for. E perante tal egoísmo corporativo até se arrogam de exigirem que para com eles haja respeito. Ora será que merece respeito quem traz ruído a cerimónias nacionais ou distribui panfletos a turistas como se eles tivessem o que quer que seja com as suas reivindicações? E que dizer da chantagem de quem ameaça não prestar doravante apoio a alunos com dificuldades de linguagem? É isto que prefigura o que deve ser um professor?
Bem pode ameaçar Nogueira quanto à forma como o eleitorado reagirá à sua guerra com o governo, que não é difícil concluir que a grande maioria dos portugueses está contra si e contra quem ainda se deixa arrastar pela forma trauliteira como encara o sindicalismo.
De orelhas a arder pela forma indecorosa como tem agido no espaço mediático, também estará a múmia de Boliqueime, sobre quem Jorge Sampaio referiu a necessidade de os presidentes de ontem e de hoje se deverem respeitar, poupando-se às alarvidades ouvidas a quem constituiu uma nódoa na História dos titulares do cargo em Democracia.
Quem não terá, igualmente, gostado das cerimónias de comemoração da República foi o vereador racista de Loures, que entendeu o discurso de Marcelo como um ataque à sua pessoa. Tendo a Concelhia laranja contra si, Montenegro a recusar servir-lhe de marioneta para o ataque a Rui Rio, o desventurado André tomou juízo e regressou ao anonimato de onde jamais deveria ter emergido.
A concluir importa referenciar um texto de Manuel Loff, particularmente oportuno numa altura em que um indisfarçável fascista ameaça tornar-se presidente do Brasil. Escreve o historiador: O discurso da paranoia securitária, não só culpabiliza minorias étnicas e grupos sociais inteiros (que podem ir dos muçulmanos em países ocidentais aos pobres e favelados no Brasil, suspeitos de parasitarem o Estado e de serem ameaças potenciais de roubo e violência), como justifica suspender, na prática, a democracia. (...) O fascismo nunca triunfa só com fascistas. Os que lhes emprestam credibilidade (e lhes dão o voto) é que são o problema. Um dia acordamos com eles no governo. A criar raízes.”

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Calimerices e sacudidelas de água dos capotes militares


Neste 5 de outubro  as televisões andaram a explorar até à náusea o encobrimento do assalto a Tancos e procuraram escamotear tanto quanto lhes foi possível o notório fracasso da manifestação dos professores.
Sobre o assunto, que leva as direitas a exigirem a demissão do ministro, há dois factos que parecem óbvios: só quando se viram acossados pelo fracasso do seu plano para ilibarem o delator, que os encarreirara para o sítio aonde estavam escondidas as armas, é que os responsáveis da Judiciária Militar se apressaram a procurar a cobertura do poder político, estando em dúvida se este - através do chefe do gabinete do ministro! - foi devidamente inteirado dos contornos obscuros do sucedido. Depois, não deixa de ser curioso que o militar agora chegado de uma missão na Rep. Centro-Africana tenha tomado como estratégia de defesa a clara violação do segredo de Justiça, procurando sacudir do capote a água, que aceitara previamente nele acolher. E não deixa de ser elucidativo que o seu advogado seja Ricardo Sá Fernandes, que encontramos frequentemente a representar causas mais do que ambíguas.
Relativamente aos professores as reportagens televisivas falaram por si, embora os operadores de câmara não arriscassem grandes planos de conjunto para não denunciarem o quão poucos eram a desfilar pelas ruas de Lisboa. Ademais o tom Calimero de Mário Nogueira a falar com Marcelo é bem revelador do desespero de quem arrastou a classe para um beco sem saída e agora teme ver-se confrontado com o fracasso da sua estratégia do tudo ou nada.
Olhando para a oposição vale a pena anotar o incómodo de Luís Montenegro a querer despegar-se da colagem a ele feito pelo vereador racista de Loures. Ciente de que as próximas legislativas estão definidas, e que entrar agora na disputa pela liderança do partido significaria uma derrota definitiva das suas ambições, o antigo líder parlamentar de Passos Coelho muda as agulhas para o dia seguinte a tais eleições, quando Rui Rio se vir forçado a lançar a toalha ao tapete.
Na maioria parlamentar as negociações para o novo Orçamento parecem bem oleadas desiludindo as derradeiras esperanças dos que ansiavam pelo divórcio das esquerdas antes do fim da legislatura. E até uma medida de elementar Justiça - o fim da isenção fiscal dos artistas tauromáticos! - está em vias de se concretizar. Se ainda não significa o fim da barbárie nas arenas, para lá tudo se encaminha.
Quanto a boas notícias vindas de fora sublinhe-se o elogio do Conselho da Europa por Portugal ser dos países, que mais facilitam o acesso dos pobres à máquina da Justiça, sendo claramente superior o apoio a eles facultado em comparação com as práticas da maioria dos demais países europeus.
Não é o país das maravilhas, que a mentirosa Cristas diz que corresponde à expressa por António Costa, mas que, pouco a pouco, as melhorias se vão acelerando, só o podemos ir constatando em notícias positivas a um ritmo quase diário.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Uns estragam, os outros reparam os danos passados


1. A meio do verão as mentes lusas andaram desaustinadas, porque a Web Summit planeara convidar Marine Le Pen para discursar no evento deste ano.
Não faltaram vozes escandalizadas para zurzirem na putativa oradora pedindo ao governo que exigisse a pronta revogação do convite a pretexto da condição de patrocinador ativo. Avisado, António Costa reagiu com o prudente - e inteligente! - comentário de não lhe caber a escolha de quem viria ou não, por ser matéria exclusiva dos organizadores.
Os mais lúcidos adivinharam nessa utilização do nome de Le Pen uma estratégia de Paddy Cosgrove para fundamentar a mudança de ares para cidade disposta a melhorar significativamente o patrocínio à sua organização. Acaso o governo ou a Câmara de Lisboa agissem no sentido de beliscar a autonomia de decisão dos organizadores, logo estes alegariam tal facto para se porem a milhas.
Agora que estão acordados mais dez anos de Lisboa como capital da Web Summit, o mesmo Cosgrove reconhece ao «Expresso» a pressão que Madrid, Valência e Bilbau estavam a fazer na altura para passarem a receber o encontro anual das start ups das novas tecnologias. E como Medina e Costa terão feito tudo quanto estava ao seu alcance para que Portugal não perdesse o estatuto de país particularmente vocacionado para a economia do futuro.
Não seriam necessárias mais demonstrações para confirmarem a superior inteligência de um e de outro face  aos líderes das direitas desavindas, que continuam a prender-se com trivialidades gelatinosas (mas com as quais fazem ruidoso alarido) e não vislumbram nada de substantivo para além da espessa neblina, que só lhes permite olhar para o próprio umbigo.
2. Outro dos grandes políticos com que o Partido Socialista conta para o presente e para o futuro - Pedro Nuno Santos - participou num encontro promovido pela Associação 25 de Abril, e voltou a um dos temas por que tem revelado persistente preocupação: a forma despudorada como as direitas têm pretendido assenhorear-se do vocabulário das esquerdas, mormente da palavra «Liberdade».
Mas a Liberdade reivindicada pelas direitas não é a da comunidade, a do interesse coletivo. É sim a individualista, a egoísta, a que detesta a solidariedade para quem mais precisa. Por isso mesmo a «liberdade» das direitas “serve para que o Estados e vá retirando das suas funções sociais», seja na Saúde, na Educação ou na Segurança Social.
3. Contra as mesmas direitas, sobretudo a do CDS, insurge-se Daniel Oliveira numa crónica em que considera uma pouca vergonha a campanha feita por Cristas & Cª sobre os problemas por que passa o setor ferroviário. Fiquemo-nos com um trecho desse repúdio:  De 2013 a 2017, o presidente da CP, nomeado por Passos Coelho, foi Manuel Queiró, ex-deputado, ex-governante e quadro dirigente do CDS. E é da sua administração o maior desinvestimento, a maior quebra de passageiros e o maior endividamento que a CP conheceu. Não se trata aqui de saber quem foi o pior, trata-se de recordar o óbvio: que o colapso não foi coisa súbita. Resta saber se resultou de falta de estratégia ou do oposto. É que em 2020 teremos a liberalização do transporte ferroviário de passageiros. Longe de mim levantar qualquer dúvida sobre o empenho dos vários partidos, e do CDS em particular, na defesa dos serviços públicos. Aí estão os CTT para provar que só isso os move.
4. E para concluirmos com mais uma constatação da política de terra queimada perpetrada pelos governos das direitas nos últimos quinze anos em Portugal aí está o «Público» a fazer capa com a decisão criminosa de Vítor Gaspar em 2011, quando decidiu integrar os fundos de pensões da Banca no Estado, transferindo para este as responsabilidades pelo pagamento das reformas de 27 mil aposentados. Ora, sete anos depois, mais de metade da verba transferida para iludir o efetivo descalabro nas contas públicas já foi gasta, não tardando o dia em que o orçamento terá de suprir a inexistência de verba para manter essa obrigação.
No fundo Gaspar limitou-se a replicar outra desastrosa decisão de Manuela Ferreira Leite, quando era ministra das Finanças de Durão Barroso e, por idêntica razão, transferira para o Estado o fundo de pensões dos CTT. Sete anos depois já a verba tinha sido gasta e passou a ser o Estado a colmatar essa falta.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Onde se começa a falar de Tancos e se acaba nos mistérios do Amor. Ou do desamor?


As notícias sobre Tancos andam na ordem do dia mas, ao contrário do que pretendiam as direitas, ninguém no governo sai beliscado por quanto a investigação tem produzido como provas. Aliás, sempre surpreendeu a ligeireza com que quiseram pôr em causa o ministro da Defesa por tutelar as Forças Armadas, mas sem nunca questionarem, nem muito menos pedirem a demissão do seu Comandante-Chefe, nada mais, nada menos do que Marcelo Rebelo de Sousa. Ou será que este último esgota as responsabilidades políticas de cada uma das suas áreas de decisão no ato de tirar selfies com quem nelas é relevante ator?
Do que se tem sabido adivinha-se que o ladrão confiava na bagunça do passado (quem estava no governo antes deste Executivo?) para cometer o ato sem que ninguém se manifestasse. Cabe equacionar quantos casos idênticos terão acontecido até então, sem que nada soubéssemos sobre eles? E não constitui esse desejo de atirar o lixo para debaixo do tapete, dando primazia à recuperação do espólio roubado do que ao desmascaramento do ladrão, uma demonstração da cultura de silenciamento do Exército sobre os seus podres?
Uma coisa parece certa: se, apesar de assustado com as repercussões do caso, o ladrão tivesse mantido o produto do roubo na casa da avó, teríamos saga para as direitas zurzirem no governo até se fartarem. O ter decidido corrigir o tiro fez com que o ladrão se denunciasse.
Fica também uma dúvida: quem terá sido o autor da carta anónima, que denunciou o encobrimento do caso, sem que o seu autor - quase por certo um dos atualmente tidos como suspeitos! - se desse a conhecer? O que pretendia, ou pretende?
Se o Exército precisa de uma operação de limpeza interna, as polícias não estão melhor segundo o relatório do Conselho da Europa. O seu relatório alerta para a infiltração de elementos das extremas-direitas nos corpos policiais, daí se explicando alguns episódios de racismo nas esquadras e nas ruas. Embora politicamente valham menos de 1% de votos nas legislativas, as extremas-direitas pretendem alterar a sua irrelevância através da influenciação do comportamento policial.
Essas extremas-direitas estão, igualmente, no «Observador» e noutros órgãos de comunicação social, contra os quais o Daniel Oliveira emitiu prosa elucidativa na sua crónica de ontem. Que concluía assim, tendo como principais emissários Rui Ramos, Helena Matos e João Miguel Tavares: “[a direita populista] alimenta-se de meias-verdades e ressentimentos. Mas não é a nossa liberdade que os ocupa. É a destruição dos limites que subsistem ao poder dos que verdadeiramente mandam.”
Outra crónica de jornal, que vale a pena ser conhecida, é a de Mariana Mortágua no «Jornal de Notícias», ainda na ressaca da forte impressão nela deixada pela representação de uma versão de «Otelo» no Teatro Nacional de São João. Associando o protagonista da peça de Shakespeare aos muitos homens que, anualmente, matam ou agridem as respetivas mulheres e companheiras, ela escreve: “Otelo amava-se apenas a si mesmo. Amava a admiração e a piedade que, segundo ele, Desdémona sentia pelos seus heroicos feitos e provações.”.
Vivemos, de facto, numa sociedade em que o Amor está continuamente publicitado em telenovelas, em canções, em filmes e outros veículos de mensagens para quem as vê, ouve ou lê. Mas, na realidade o Amor continua a ser um sentimento raro, tendo em conta que a maioria dos que dele se dizem cultores não deixam de amar-se sobretudo a si mesmos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O CDS não é amigo das famílias, mas sim de uma minoria de famílias


Assunção Cristas foi ministra ativa num governo que muito mal fez às famílias. Os ministros do CDS estiveram na linha da frente de muitas das decisões, que obrigaram os jovens a partirem para outras latitudes em busca de sobrevivência, eximindo-se, os que ficaram, em constituírem novos núcleos familiares. Com o desgoverno das direitas a taxa de natalidade desceu a valores até então desconhecidos. 
Esperar-se-ia, pois, que as políticas em prol das famílias e da natalidade justificassem que Assunção Cristas enfiasse a cabeça na areia para não ver, ou assobiasse ruidosamente para não ouvir as propostas concertadas e executadas pela atual maioria governamental nos quase três anos de substantivas mudanças em tais matérias. Seria julgar Cristas capaz de um mínimo de vergonha, que não tem. Porque, na semana passada, voltou a fazer um enorme alarido com propostas que João Galamba tratou de desmascarar num discurso incisivo na Assembleia e num artigo hoje publicado no site do «Expresso».
O deputado socialista denunciou que praticamente todas as propostas do CDS iriam beneficiar só as famílias com muitos filhos e mais elevados rendimentos. Ou seja: “O CDS não é amigo das famílias, mas sim de uma minoria de famílias.”
Em contraponto as medidas do Governo e da atual maioria aumentaram diretamente os rendimentos das famílias com filhos, que o CDS prometia apoiar, mas de facto, eram convidadas a acreditarem num logro.
O fim do quociente familiar  - que o CDS tanto contestou - representou uma redução adicional de 400 milhões de euros no IRS pago pelas famílias com filhos. O abono de família, que aumentou para as crianças até 36 meses de idade e foi alargado ao excluído 4º escalão de rendimento, garantiu aumentos  até 1400 euros anuais às famílias beneficiadas.
E que dizer da gratuitidade dos manuais na escola pública, que irá ser alargada até todos os alunos do ensino obrigatório? Ou a cobertura cada vez mais ampla do pré-escolar a todas as crianças a partir dos três anos de idade? Ou a reposição do Rendimento Social de Inserção às famílias que dele dependem para sobreviverem e que o desgoverno de Passos, Portas & Cristas eliminara?
Adotando o que dizia o personagem de Ricardo Araújo Pereira, quando ainda dizia algo de jeito, as direitas falam, falam, mas só destruíram e semearam desesperos. Pelo contrário as esquerdas vão construindo e recuperando a capacidade de ganhar esperança num futuro bem melhor.