terça-feira, 23 de outubro de 2018

E depois admiramo-nos do jagunço ganhar?


Ao olharmos para os telejornais destes dias é inevitável constatarmos que temos escassos motivos para nos admirarmos com a quase certa vitória do jagunço brasileiro. Observada de fora essa campanha eleitoral parece concitar o que de mais negativo existe na política, causando estupefação como consegue arrastar em seu apoio uma tão generalizada rendição de quem deveria estar na primeira linha do combate para a derrotar.  De dentro, e sobretudo perante toda a manipulação operada a partir das redes sociais, das igrejas evangélicas ou do empório da Globo torna-se entendível que gente deplorável (como a que Hillary Clinton desqualificara nas eleições norte-americanas) assuma decisões, que só terá razão para vir a dela arrepender-se. Ou não, porque a inteligência da generalidade das pessoas relativamente aos seus atributos de cidadania responsável vem-se revelando muito limitada para não dizer que anda situada nos parâmetros da pura idiotice.
Nos referidos telejornais vemos duas situações, que revelam essa permanência do erro de apreciação coletivo sem que haja o conveniente despertar sobre o seu logro. A primeira tem a ver com os elogios de Marcelo aquando da condecoração atribuída à antiga procuradora-geral da República. Nada nas suas palavras corresponde à verdade, porque a dita cuja nem combateu eficazmente a corrupção, nem primou pela coragem. De facto, e recorrendo a conhecida anedota, ela estendeu um longo pavio de dinamite para tão chocha explosão. Ou questionada de outra forma: quantos casos de corrupção abertos no seu mandato de seis anos se saldaram por efetiva condenação dos investigados? Quantos casos, curiosamente quase todos associados a políticos de direita, foram arquivados, apesar dos indícios mais do que consistentes quando à substância das correspondentes suspeitas? Como foi possível que o país aceitasse contínuas violações ao segredo de justiça e ao desrespeito dos suspeitos quanto à presunção da sua inocência?
Se o país político agisse em conformidade com uma análise objetiva do comportamento da condecorada, ao seu mérito nem deveria caber uma medalha de latão. Pelo contrário deveria estar a ser investigada quanto ao servir-se do cargo para cumprir a agenda política dos que continuam a nela apostar como improvável heroína.
A outra situação tem a ver com o mais recente livro de Cavaco Silva. Pobres árvores que foram abatidas para que o personagem nelas afixasse toda a sua verborreia despeitada. Se as televisões têm tido mérito na divulgação de algumas partes do vómito só lhes devemos reconhecer a possibilidade de vermos mais do que confirmadas todas as péssimas opiniões, que ele nos merece. No entanto, ainda há quem acredite que ele era economista de mérito - coisa que nunca foi! - ou político exemplar—o que ainda menos conseguiu ser. Pelo contrário ele é exemplo lapidar—para utilizarmos o conhecido título do romance de Robert Musi - de homem sem qualidades e com quase todos os defeitos. Cavaco mostrou-se vil para com quem odiou, desde José Saramago a António Costa, oportunista ao surgir no Congresso da Figueira da Foz para liderar o PPD, quando Mário Soares acabava de garantir um fluxo prodigioso de dinheiro europeu para desenvolver o país (quão fácil foi parecer grande político às custas de tal «milagre»), ganancioso como o demonstrou com o negócio da Casa da Coelha ou com as ações do BPN «compradas» e vendidas no tempo certo, e com comportamento de pequeno chefe mafioso capaz de reunir em seu torno uma corte de oportunistas, todos eles vindos de estratos economicamente remediados (a pequena-burguesia que costuma servir de base social aos movimentos fascistas!), e todos eles hoje integráveis no restrito lote dos noventa mil milionários lusos.
Que Joana Marques Vidal e Aníbal Cavaco Silva continuem a ser admirados por tantos mentecaptos só nos ajuda a compreender como é possível que, no Brasil, o palácio do Planalto venha a ser ocupado por um assumido troglodita.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Sintomas de fascismo ordinário entre nós


Nos últimos dias, e refletindo o que já constatámos na Inglaterra do Brexit, nos EUA da eleição de Trump e, agora, com a previsível eleição do jagunço brasileiro, tem-se abordado mais frequentemente o fenómeno das fake news entre nós. Descobriu-se que um empresário têxtil de Santo Tirso alimenta uma fonte de mentiras através de um servidor sedeado no Canadá e tivemos um embofiado «sindicato» (os seus dirigentes e associados deveriam ser condenados por associarem um belo conceito social ao seu indigno comportamento!) a publicar fotografias de meliantes apanhados numa operação, que os devolveu aonde pertencem (atrás de grades!), mas completaram a ignomínia com o acrescento de imagens de idosos violentamente agredidos noutras paragens, mas que quiseram imputá-los às vítimas daquele gang.
O debate verificado nas redes sociais entre quem muito justamente repudiou essa difusão de imagens e os que as defenderam, revelou bem o quão perigosos andam estes tempos com gente aparentemente normal a mostrar-se permeável às estratégias do fascismo mais ordinário (em todos os sentidos da palavra, incluindo o francês!).
É certo que estamos habituados às falsidades nos jornais e canal televisivo do grupo Cofina, Mais ainda ouvimos diariamente a líder do CDS a mentir com todos os dentes, que tem na boca, e a pedir mais alguns emprestados. Mas esses são embustes com um mínimo de sofisticação, que podem enganar quem quer ser ludibriado, mas não escapam ao escrutínio de cidadãos um pouco mais esclarecidos. Por isso mesmo o principal jornal da Cofina só se salvou da bancarrota, porque o governo de Passos Coelho o livrou de enormíssimas dívidas fiscais, já que se o negócio se rentabilizasse à conta dos leitores há muito deveria ter fechado as portas. Do mesmo modo, e apesar da sua quotidiana gritaria, Cristas não consegue subir a dois dígitos nas sondagens, sendo crível que entrará na próxima legislatura com um grupo parlamentar minguado em relação ao que tem nesta altura.
A maior preocupação tem a ver com a existência de pessoas funcionalmente analfabetas, que vivem as frustrações de não acederem aos bens de consumo com que as bombardeiam nas publicidades televisivas ou quando vão percorrer os centros comerciais ao fim-de-semana, mais para ver do que para comprar, porque os porta-moedas andam delas escasseados. Como se constatou em Inglaterra, nos Estados Unidos ou agora no Brasil, são eles os mais permeáveis ao chorrilho de trapaças e calúnias veiculados pelas redes sociais. Precisados que andam de bodes expiatórios estão dispostos a aceitar aqueles que mais frequentemente lhes apontam como os culpados pela sua deplorável condição.
Ora, basta fazermos uma campanha eleitoral nas ruas das nossas cidades e aldeias para encontrarmos esse tipo de eleitores. Falando com eles perguntamo-nos o que ganham com as suas certezas preconceituosas, mas nem nos querem ouvir. Quem os envenenou com patranhas já nos leva grande avanço. Daí a importância de, constantemente, exercermos um combate sem tréguas a quem anseia por impor novos modelos de ditaduras fascistas a coberto de modernas formas de manipulação.

domingo, 21 de outubro de 2018

Valeu a pena, pois!


A exemplo de muitos amigos, que se gabam de dispensar a leitura do «Expresso», gostaria de contar com alternativas menos direcionadas para as direitas e com substância menos diáfana do que as especulações aí frequentes. Mas, helas, enquanto elas não surgem, lá me vejo obrigado a pegar no semanário da família Balsemão, usando luvas nas mãos e máscara protetora do nariz e da boca para me poupar aos odores e a acrescidas contaminações do que por lá se vai lendo.
O interesse reside em saber o que dizem os veículos de manipulação dos inimigos como forma de melhor os conhecermos e deles nos sabermos defender. Vale a pena aqui lembrar a primeira vez que, em 1976, conheci um colega de profissão, que compartilhava comigo o grupo dos Engenheiros Maquinistas do petroleiro «Gerês» da Soponata. Para apanhar o catraeiro, que me levaria ao navio, fundeado em frente a Belém, tive de o esperar na respetiva estação fluvial, onde algumas pessoas entretinham-se na leitura de jornais. Sim! Era uma época em que quase toda a gente os lia na expetativa de compreender todos os meandros das lutas políticas intensas então em causa.
Uma dessas pessoas era um sujeito alto e encorpado, de cabelo louro, e que, sem complexos, lia «O Dia», jornal assumidamente de direita, que ostentava um notório saudosismo pelo Estado Novo.
Pode-se imaginar o que pensei. Normalmente mandava bocas foleiras a quem se atrevia a mostrar dessa forma o seu reacionarismo, sempre pronto para que se passassem das palavras aos atos. Mas olhando para o sujeito em causa, com quase um palmo a mais de altura do que eu, e um corpo de jogador de râguebi, eximi-me de proferir as provocações. A meu exemplo, também ele entrou na pequena embarcação, que nos levou a bordo, e não tardei a compreender que, se eu faria os turnos das 8/12 e 20/24 na Casa das Caldeiras, ele renderia a minha equipa no lado das turbinas nos que se seguiriam.
Nos dias seguintes conheci-o melhor e arrisco até dizer, que ficámos amigos. À exceção de alguns, que nem vale a pena serem recordados por quão escassos de qualidades se revelaram, aquela tripulação tinha nos oficiais um conjunto de pessoas brilhantes, que tornavam as refeições na messe um grande momento de discussão e debate. E esse oficial, que eu julgara fascista, era afinal próximo dos comunistas e dele colhi a lição acima expressa: aos inimigos ideológicos há que os conhecer tão bem quanto possível para melhor estratégia criarmos no sentido de os derrotar.
Como ainda mantemos vínculo pelo facebook, quem aqui lembro decerto se reconhecerá e aqui lhe deixo um abraço com o agradecimento de com ele ter colhido proveitosa lição.
Mas olhemos para o Primeiro Caderno do «Expresso» neste fim-de-semana e, depois de conhecido o Orçamento para 2019, vejamos como os seus comentadores reagiram.
É claro que Pedro Adão e Silva e Daniel de Oliveira, que são alibis de que a família Balsemão se serve para aparentar alguma (falsa) objetividade, só existem palavras positivas e desmistificadoras do pretenso eleitoralismo de que o documento seria portador. “Se eleitoralismo é satisfazer os eleitores, é bom que todos os orçamentos sejam eleitoralistas, sob pena de se frustrar, ainda mais, a confiança no regime”, defende o professor do ISCTE, que argumenta com o que contraria essa tentativa de desqualificação: “um orçamento com contenção nominal da despesa, saldo primário positivo e um défice sem paralelo, num contexto de diminuição da dívida, dificilmente pode ser classificado como eleitoralista de acordo com os padrões de leitura que nos são, literalmente, impostos.”
Daniel Oliveira vai mais longe e mostra como o termo «eleitoralismo» está pervertido no seu verdadeiro significado: “dantes dizia-se que a ‘geringonça’ governava para as clientelas (funcionários públicos e pensionistas), agora diz-se que faz pior: governa para os eleitores. Ou seja, para os cidadãos. Reduzir o preço dos transportes públicos urbanos, a fatura energética, as propinas e o custo com livros escolares é aumentar os salários indiretos da classe média. Aquela que não ganha o suficiente para que estes custos não pesem no seu bolso mas o suficiente para não estar isenta deles. E esta opção é mais progressiva do que baixar impostos ou aumentar deduções.” E dá uma interpretação lógica do que seria para as direitas ir pelo caminho «não eleitoralista»: “governar para os que têm muito poder e poucos votos.”
Estamos, pois, num período difícil para a oposição à maioria parlamentar, que vê escoarem-se os argumentos, que pudessem fazê-la definhar em votos. Conclui Pedro Adão e Silva: a direita não está a conseguir lidar com a aproximação do término da legislatura. Afinal são quatro orçamentos aprovados, sem necessidade de retificativos, nem violações da Constituição — e tudo com um défice estimado de 0,2%
Compreende-se, pois, que os comentadores dessa direita sejam obrigados a revelar a sua rendição argumentativa no meio de textos, que pretendem ser críticos para com o governo. Pedro Santos Guerreiro não consegue evitar o elogio a António Costa: “não é sorte, é habilidade e trabalho, porque Costa concentra toda a gestão política do seu Governo limitando erros, porque controla os fluxos e refluxos no PS, porque usa a graça que tem para desarmadilhar perguntas difíceis, porque sabe usar a força. Incluindo sobre o hiperpopular Marcelo, que nunca foi rottweiler contra o Governo nem nunca pareceu tão dócil como nas últimas semanas.” Por seu lado o Caim da família do primeiro-ministro tem de reconhecer que “o simples facto de a legislatura poder terminar com superavit, com a trajetória da dívida em queda firme e com o ministro das Finanças à frente do Eurogrupo destrói qualquer ideia de insucesso.” E Miguel Sousa Tavares recorda o terror financeiro dos quatro anos de desgovernação de Passos Coelho (“brutais aumentos de impostos, de milhares de falências de empresas, de meio milhão de postos de trabalho destruídos, de 400 mil portugueses, na sua grande maioria jovens, mandados emigrar, e de ruinosas privatizações como a TAP, a ANA, a EDP, os CTT. Sem falar, ao inverso, dos milhões injetados a acorrer ao sistema financeiro, que os banqueiros, o regulador e o Governo deixaram em roda livre e a que acorreram tarde e com desastrosas soluções, que hoje ainda pagamos e pagaremos”) para dar razão à justeza das medidas previstas para o próximo exercício orçamental: “Vai gastar mais 3,8% em despesas sociais — como o embaratecimento do passe social, o aumento do abono de família, das pensões mais baixas, etc. — que são medidas justas, que devem caracterizar um governo de esquerda e que são, afinal, aquilo para que a justiça fiscal existe.”
Digam lá que a leitura - mesmo que, amiúde, indigesta! - não valeu a pena?

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Orçamento para 2019, abstencionismo e (ainda) caso Tancos


1. Quatro dias passados sobre a apresentação do Orçamento Geral do Estado para 2019 caíram por terra os argumentos de «eleitoralismo», que as direitas logo invocaram. Eles eram tão bacocos, desmentidos até pelos comentadores da sua área política, que a alternativa passou a ser a de buscarem motivos para dizerem qualquer coisa no que as políticas ali enunciadas pareçam ser menos claras, como ocorre com a questão das reformas antecipadas (uma vez mais Vieira da Silva a aparentar uma sabotagem ao relacionamento com as demais esquerdas!). De qualquer forma faz sentido o que Daniel Oliveira comentava numa das suas crónicas no «Expresso»:  “Estranho tempo este em que governar para as pessoas sem sequer com isso pôr em causa o futuro e as finanças públicas é, por si só, motivo de crítica. Como se castigar os mais pobres fosse virtuoso e só beneficiar quem tem mais poder fosse realista.”

2. Com o beneplácito marcelista, e da alaranjada Câmara de Cascais, discute-se por estes dias a questão de encontrar formas de reduzir a abstenção nos atos eleitorais. Miguel Pinto Luz, que anda doidinho por se chegar à frente como um dos mais determinados candidatos à sucessão de Rui Rio, encontra nesse autoproclamado Portugal Talks uma forma expedita de se fazer lembrado. E a proposta mais acarinhada seria para os promotores o do voto obrigatório ou feito remotamente pela net, mas eles próprios reconhecem a impossibilidade de levarem por diante essa intenção.  Julgariam assim possível infletir a tendência do eleitorado para se posicionar maioritariamente à esquerda.
O problema está, no entanto, longe de passar por aí. A participação dos portugueses na definição de quem os liderará só conhecerá melhorias óbvias, quando o ensino der à Educação para a Cidadania a importância, que ela mereceria recolher, e quando as televisões limitarem o seu papel na estupidificação das pessoas através daqueles assustadores programas, que gastam horas de emissão com conteúdos ineptos. E os partidos deveriam atrair militantes, não pela possibilidade de lhes oferecerem vantagens profissionais ou de negócios, mas porque importaria que ganhassem a respeitabilidade de constituírem fóruns privilegiados de debates e de comparação de propostas estratégicas , que contribuam para melhorar o futuro coletivo.
3. Com a saída do ministro da Defesa e do Chefe de Estado-Maior do Exército o caso Tancos tende a perder a relevância, que as direitas lhe dedicaram por nele encontrarem matéria, que pudesse aparentar alguma substância aos seus ocos argumentários. De qualquer forma não deixa de ser curiosa a preocupação com o encobrimento do roubo, quando a prioridade teria de ser a da captura de quem roubou as armas e quem estaria incumbido de as negociar. Algo que ainda está por esclarecer...

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Porque foi descabido convocar na entrevista ao juiz Alexandre?


«O General e o seu Labirinto» e «Relato de um Náufrago» são dois romances excelentes de Gabriel Garcia Marquez, de quem poderíamos assinalar uma dezena e meia de títulos, igualmente brilhantes, com «Cem Anos de Solidão» como sua obra maior. Mas se se chama à colação o escritor colombiano é por ter sido indevidamente referenciado na entrevista de ontem com o juiz Carlos Alexandre, quando ele se identifica mais com o náufrago do que com o general a contas com o impasse a que a vida o conduzira.  Ora ele não tem nada a ver, nem com um, nem com o outro. Embora queira fazer o número do pobre desgraçadinho, que veio da província para a capital depois do percurso por um trilho pedregoso, o personagem é muito mais do que o fascista em potência, que lhe adivinhamos sob a pele, émulo de tantos detentores de poder, vindos das classes mais baixas, a fazerem-se tiranos, quando se julgam acima da lei. A História ainda está por clarificar a rede de cumplicidades, que ele terá integrado para condicionar politicamente o rumo do país. E quem, na sombra, terá servido de titereiro de marionetas de um teatro absurdo que tem tido em Joana Marques Vidal, Rosário Teixeira e Alexandre algumas das suas principais marionetas.
Não são os romances de Garcia Marquez a poderem servir de caução intelectual para os enredos do juiz, porque neles não existem confrontos na sombra: a guerra, quando se disputa, é cara-a-cara, sem poses de sacristão. Alexandre poderia mais facilmente associar-se aos personagens de Mário Puzo ou de Dan Brown, em que personagens agem na sombra para controlarem a vida dos demais. E ele, ao invés de se pretender um franco-atirador solitário, mais não é do que um sicário, agindo por conta de interesses, que os jornalistas têm pejo em perguntar-lhe.
Que a vida não lhe está a correr de feição, reflete-o a confissão de contar um a um os dois mil dias, que lhe faltam para a reforma.  No fundo poderá estar intimidado por ter afinado a pontaria, ter disparado contra quem lhe encomendaram, mas o aparente tiro mortal ter embatido num colete antibala, que ameaça fazer-lhe ricochete. Será, provavelmente, por medo das represálias, que se fez convidado da RTP para repetir a já conhecida versão  da invocação de inocência. Sobretudo, porque arrisca-se a que o colega desmascare os vícios de forma e de conteúdo inerentes às decisões anteriormente tomadas contra o antigo primeiro-ministro socialista. Que resultará de uma investigação séria à sua atuação em todo o processo? Ele já vai adiantando que confia na possibilidade de os colegas juízes lhe virem a dar razão. Mas poderia ser outra a alegação de inocência de um putativo culpado?
O escândalo do caso está no papel da RTP, canal público, onde as direitas imperam como se mandassem no país e os meios de comunicação social tenham de ser exclusiva coutada sua, e se converteu, com essa entrevista, num veículo de mera propaganda de um produto com prazo de validade há muito esgotado.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O quanto as direitas odeiam Galamba por ser aquilo que elas não conseguem sequer imitar!


Foi por Freud que tomámos consciência de detestarmos nos outros aquilo que, em nós, mais odiamos. E que gostaríamos de mudar.
Vem isto a propósito da campanha que as direitas andam a fazer em torno da nomeação de João Galamba como secretário de Estado da Energia, sob a argumentação dele nada saber do assunto. Mas será assim? Quem são eles para ajuizar se o ex-deputado sabe, ou não, dos assuntos, que irá tratar?
A razão da campanha é outra: basta atentar nas reações de ódio, que ele suscita nas redes sociais para compreender a raiva que o brilhantismo das suas intervenções no Parlamento ou nas televisões suscita. Nelas Galamba demonstra que as palavras podem ser assassinas na forma como desmonta as argumentações das direitas com dados concretos, colhidos de fontes irrepreensíveis como o INE ou outras entidades vocacionadas para irem traduzindo em números objetivos os efeitos das políticas implementadas pelos governos.
Assista-se a um debate entre Galamba e um qualquer troca-tintas das direitas e quase dá dó o achincalhamento a que este se sujeita, falho de considerandos, que contrariem os do interlocutor. A capacidade de analisar os dados quantitativos de cada vertente da realidade, sobre que se prenuncia, é tal, que as direitas sabem-se sempre vencidas por muito mais do que é um magnifico exercício de retórica.
Os méritos de Galamba não se ficam, porém, por aí. Recordemos que ele integrou o grupo de 15 economistas que prepararam o programa económico com que o Partido Socialista concorreu às legislativas de 2015 e serviu de base para as negociações com os parceiros, que viriam a integrar a maioria parlamentar desta legislatura.
Há, ademais, algo de risível na argumentação das direitas sobre os conhecimentos (ou a falta deles!) de Galamba em relação ao setor, que irá tutelar! É que, nessa matéria, as direitas seguem o provérbio de bom julgador por si se julgar, porque só podem ter presente a incompetência com que um péssimo administrador de empresas, como Passos Coelho era até 2011, presumir-se com capacidades para administrar as políticas do país. A História recolheu dele a réplica do sapateiro, que quis tocar rabecão. E, porque, não há festança, sem convocarmos a Dona Constança, a Cristas também não escapa deste exercício de maldizer: as direitas só podem temer que Galamba seja tão mau governante, quanto ela foi à frente do Ministério da Agricultura em que, não tivesse sido dele despejada, teria aumentado exponencialmente a disseminação dos eucaliptos por todo o território nacional. O problema é que, nem mesmo quando os seus governantes parecem saber muito da matéria, que supostamente tutelam, os resultados são melhores: que dizer de Cavaco Silva, que foi um péssimo primeiro-ministro, cuja incompetência só foi salva pelo facto de ter colhido os frutos dos rios de dinheiro então despejados pela CEE nos nossos cofres e que ele tratava de passar preferencialmente para os amigos, muitos dos quais congregados nessa entidade mafiosa, que se chamou BPN.
O que faz um bom governante não é se sabe muito ou pouco daquilo que tem a decidir. Importa sim se o faz em prol do país e da maioria dos cidadãos, ou se está lá apenas para favorecer os interesses do lobby que representa. Ora Galamba é insuspeito de pertencer a um qualquer grupo de interesses na área da Energia. E essa é condição para desempenhar o cargo com a excelência a que nos habitou enquanto tribuno parlamentar. Tal é o maior receio das direitas: quanto melhor ele governar, tanto pior para elas...

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Custa-lhes muito. É um facto!


Não é fácil ser político de direita em Portugal tendo em conta a sucessão de notícias positivas sobre a governação. Agora veio o Eurostat constatar que não existe comparação entre a eficiência portuguesa em criar empregos por cada unidade de crescimento do PIB e a dos demais países da União Europeia. O gráfico ao lado é explicito quanto à bondade das políticas implementadas pelo atual governo.
Sobre o orçamento para 2019, também as direitas não sabem como o desqualificar: enquanto o PSD opta pelo rótulo de eleitoralista (quem se esquece do de Passos Coelho em 2015, quando tudo prometeu para que pudesse continuar como primeiro-ministro), Cristas mente descaradamente, dizendo, sem que os dentes lhe caiam, que o governo dá com uma mão, e tira com duas. Quem quer ela convencer, quando a maioria dos portugueses tem hoje uma qualidade de vida bem melhor do que a auferida no tempo em que ela era ministra. Até o diretor do «Público», Manuel Carvalho tem de reconhecer que “Portugal respira melhor, elevou o seu rating à categoria de investimento, poupou-se às derivas populistas e abriu a janela a uma ténue confiança no futuro.”
Olhando para os números desta proposta de orçamento, o que nele se constata não justifica o que Rio ou Cristas sobre ele comentam. Há um crescimento sustentado das receitas (4%), acima do que se verificará nas despesas (3%), aproximando o défice do zero (0,2%), objetivo que retira, igualmente, qualquer objeção à Comissão Europeia ou às agências de rating.
A capacidade demonstrada pelo governo de António Costa nestes três anos deveria pôr as direitas a falar em tom pianíssimo, porque nunca, em Democracia, se tinham alcançado indicadores tão positivos, apesar da pesada herança recebida do governo anterior, cujos rombos nos rendimentos das famílias houve que recuperar...

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Artistas, juízes e praxes


1. Nos últimos anos abriram-se novas galerias de exposição em Lisboa, que pressuporiam um mercado pujante  para a arte dos nossos dias.  Erro de cálculo! A grande burguesia, aquela que, quase sempre por empáfia, ia construindo privativas pinacotecas, descobriu-se em perigo com as investigações sobre enriquecimentos ilícitos, mas precavendo-se sobretudo dos riscos crescentes de ver-se denunciada como titular de contas em paraísos fiscais.
Deixou de ser fashion a excessiva ostentação do capital acumulado com a especulação financeira ou imobiliária. Até a autoestrada dos vistos gold, criada por Paulo Portas como alternativa para garantir bons negócios, anda a ganhar má fama ou não tivesse sido denunciada pelas  ONG Transparency International e Global Witness como via ideal para a corrupção. As compras minguaram, ficando em maus lençóis muitos dos que tinham apostado na arte como modo de vida.
A expetativa de solução com a nova ministra da Cultura é condicionada pelos exíguos meios do Estado para substituir-se aos pretéritos colecionadores. Mas convenhamos que, à exceção de Vhils, não se têm conhecido projetos artísticos estimulantes, capazes de nos convencerem dos efetivos méritos de quem os assina. E di-lo quem acompanha com alguma atenção o que consegue transitar dos ateliês para espaços de exposição.
2. Reparo pertinente de Pedro Bacelar de Vasconcelos num artigo de opinião do «Jornal de Notícias» num dos dias da semana transata: “enquanto nos Estados Unidos deparamos com uma despudorada maquinação visando o controlo dos tribunais pelo poder político, no Brasil, inversamente, são os tribunais que intencionalmente interferem na expressão livre da vontade democrática e que promovem, objetivamente, o sucesso do candidato da extrema-direita.”
3. Há uma semana, ao passar de carro pelo topo do Parque Eduardo VII, deparei com o espetáculo degradante de uns quantos rapazes e raparigas, trajados de preto, a humilharem colegas a pretexto da sua «integração« no ambiente académico.
A exemplo do que se passa com as touradas e outras manifestações bárbaras de um certo modo de se ser português - cujo fim anunciado parece sempre iminente, mas vão sobrevivendo por ser inesgotável a estupidez dos seus promotores! - as praxes reduzem-nos a esperança em ver a juventude recuperar o inconformismo de gerações anteriores, quando a vontade de mudar o mundo pressupunha o asco perante a opressão e a solidariedade com todos os oprimidos. Se tantas revoluções, que trouxeram avanços civilizacionais a milhões de seres humanos, tiveram nas juventudes o seu motor, elas tardam em retomar o testemunho dos que nunca desistem de exigir um mundo novo a sério...