segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sonâmbulos que importa acordar


A efeméride da semana passada referente ao início da crise financeira de 2008, na sequência da falência do banco Lehman Brothers, suscitou um conjunto de peças jornalísticas, algumas das quais de inegável interesse. Numa delas, o então primeiro-ministro britânico Gordon Brown confiou ao «The Guardian» o receio de estar para breve uma réplica ainda mais grave do então sucedido, por terem falhado todas as tentativas de voltar a regulamentar seriamente um setor avesso a qualquer constrangimento e com poder de lobbying suficiente para deixar as coisas tal qual estão. Por isso Brown compara-nos a sonâmbulos a dirigirmo-nos para uma crise futura, com potencial para ser ainda mais grave, por faltarem o que nessas situações se afirma fundamental: líderes mundiais capazes de as enfrentar e lhes corresponderem com respostas, que não se limitem a replicar a célebre frase do príncipe Salinas no «Leopardo»: mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma.
Não é que simpatize com particularmente com essa ideia de líderes providenciais, porque revelam-se quase sempre mais danosos do que benéficos para a evolução da História dos povos. Mas Brown enfatiza o essencial: ou muito rapidamente ocorre um consenso político internacional para restringir a capacidade de influenciação dos poderes financeiros - banca, fundos de investimento, agências de rating, entre outras - ou a Democracia pode ficar seriamente em causa. Urge o ressurgimento de movimentos contestatários do tipo  Occupy Wall Street, que deem massa crítica à ação de políticos apostados em impor uma agenda socialista na governação dos mais influentes países do mundo.

Não vale a pena estarem tão assustados!


Tenho lido por estes dias uns textos muito assustados de quem antecipa uma onda fascista a varrer as democracias - mesmo que só formalmente o sejam - ora na Europa Ocidental, ora no Brasil. As manifestações neonazis à volta de uma estátua de Karl Marx em Chemnitz, as sondagens de Bolsonaro ou as arruaças do pequeno Mussolini italiano criam um pânico injustificado em quem deve olhar objetivamente para as circunstâncias e encontrar as melhores estratégias de as alterar. É que notícias em contrário não faltam: a extrema-direita sueca esteve distante dos 20%, que lhe creditavam as sondagens e, em França, o partido de Marine Le Pen arrisca-se a ter de declarar bancarrota, como resultado da fraude com os dinheiros europeus e com a má gestão financeira nas suas contas.
Que tal gente nem sabe gerir-se a si, quanto mais a um qualquer país, bem o demonstra a História do III Reich que, se vista pelo prisma económico, mais não foi do que uma sucessão de planeamento e execução de pilhagens para conseguir remunerar os fornecedores de matérias-primas de cuja importação dependiam os seus exércitos.
Não fosse a colaboração ativa dos banqueiros suíços a servirem-lhes de elos de ligação com os seus cúmplices internacionais e a guerra nunca teria durado cinco anos. Que outra explicação existe para o facto de, em meados de 1942, a Suíça ser o único país do centro da Europa, que mantinha a sua «independência» face aos exércitos do vizinho alemão? E o que dizer de Salazar que engordou de barras de ouro os cofres do Banco de Portugal ao rececioná-las depois de uma transação intermédia de francos suíços, por conta do volfrâmio com que os fabricantes de armas ao serviço dos nazis asseguravam a construção de blindagens para os seus tanques ou para os motores dos aviões? Que importava a Salazar que quase todo esse ouro proviesse do saque generalizado a que os nazis se entregavam, quando faziam ajoelhar os países, que iam invadindo?
Um exemplo mais atual dessa incompatibilidade dos regimes fascistas com contas públicas minimamente equilibradas é o da Turquia de Erdogan que, por estes dias, passa por apuros significativos devido não só aos ataques de Trump, mas sobretudo ao nepotismo que leva o «sultão» de Ancara a só privilegiar os negócios com os familiares e os amigos mais próximos.
É claro que inquieta essa persistência de gente perigosa acolitada por apoiantes incultos e mesquinhos, senão mesmo psicopatas - vide a reportagem do «Diário de Notícias» sobre milícias búlgaras, que toma os refugiados como alvos das suas caçadas de fim de semana! Acontece, porém, que em contraponto o substituto de Lula está a subir significativamente nas sondagens e poderá chegar ao Palácio do Planalto esmagando eleitoralmente o fascista a soldo da rede Globo. E até surge a novidade de, no Texas, o aparentemente invencível Ted Cruz - um fanático tão perigoso como Trump! - estar em vias de ser derrotado por Robert O’Rourke, um democrata, que tem percorrido todos os condados do Estado em comícios de significativa dimensão replicando Bernie Sanders na ausência de preconceitos quanto aos valores que pretende defender ao virar a relação de forças no Senado a favor do seu partido!
Por muito que os alarmistas clamem em contrário as trombetas do Apocalipse continuam silenciosas!

domingo, 16 de setembro de 2018

Obscenas desigualdades


Há números que justificam plenamente a nossa indignação pelas desigualdades vigentes na nossa sociedade e justificam que exijamos do governo a sua correção, senão acelerada, pelo menos sustentada numa discrepância bem menor entre os percentis de rendimentos mais elevados e os mais pobres.

Podemos considerar um exagero que o PCP pretenda que o Salário Mínimo Nacional seja aumentado para 650 euros já no próximo ano, invocando números do INE, demonstrativos em como, a ter havido correção anual aos valores da inflação do valor inicial aprovado depois do 25 de abril, já andaríamos nos 1267,7 euros - mais de acordo com a média europeia do que os miseráveis 580 euros atuais.
Mas já os administradores das grandes empresas não parecem incomodados por auferirem vencimentos obscenamente acima do que idêntica correção lhes facultaria se fosse levada em conta. É o caso da Jerónimo Martins onde o seu presidente recebe mais de 143 mil euros por mês, que equivale ao que uma sua trabalhadora do Pingo Doce conseguiria ao fim de vinte anos de trabalho. E até mesmo em relação ao salário médio no grupo essa diferença continua desregrada, porque equivale a mais de doze anos de trabalho.
Terá sido devido a esta realidade, que António Costa sinalizou, em recente entrevista, que a governação terá de agir. Importa que dê disso provas tão rapidamente quanto possível...

sábado, 15 de setembro de 2018

Será que o primeiro-ministro vai render-se à campanha da Joana?


Nos últimos dias têm sido conhecidos mais alguns detalhes sobre a investigação a Carlos Santos Silva e a José Sócrates que, “curiosamente”, foram ignorados pelo quase sempre “bem informado” «Correio da Manhã»: o empresário foi investigado anos a fio pelos procuradores sem que estes tivessem garantido a prévia autorização de um qualquer juiz para executarem grande parte das ações em causa, que colidiram com os direitos e garantias reconhecidos constitucionalmente a qualquer cidadão português.
Os procuradores violaram a lei sem qualquer escrúpulo e, num Estado onde a decência impere, devem ser sujeitos a investigação porque, a ser verdade o que a advogada de Santos Silva denunciou, o seu lugar só pode ser atrás das grades.
O mesmo se verificou com a escolha do juiz para o processo Marquês: em vez de se cumprir a lei de fazer-se um sorteio nesse sentido, Carlos Alexandre, com a cumplicidade de uma escrivã, avocou a si  o caso, constituindo-se como cúmplice ativo dos procuradores, escusando-se a ser o representante do respeito dos direitos do acusado, o ex-primeiro-ministro por quem alimentou um doentio ódio de estimação.  Razão igualmente fundamentada para o  colocar como suspeito de um desrespeito grosseiro pelas nossas leis fundamentais.
Numa altura em que as direitas querem manter este tenebroso estado de violação constante pelos direitos constitucionais, mediante a recondução de uma das principais responsáveis por tudo quanto tem ocorrido de maligno na Justiça portuguesa, não quero crer que António Costa se renda e aceda a aceitar passivamente que as coisas continuem a estar como estão. Por muito tacticista, que seja, há valores e princípios com que não se pode transigir. E isso só pode ser garantido com eficiente barrela, que deposite no caixote do lixo da História quem nele merece estar...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Os soundbytes como o novo normal nos meios de comunicação social


Desde que Paulo Portas trocou o Independente pela liderança do CDS, depois de empurrado Manuel Monteiro para a valeta sem grandes delicadezas, a estratégia do partido mais à direita do espetro parlamentar tem assentado na criação de soundbytes mais ou menos vistosos, que podem nada significar, mas parecem suficientemente fortes para ficarem nos ouvidos de quem passivamente os escuta. Há muito que as direitas criaram a moda dos spin doctors, apostados em cuidar das mensagens políticas com os truques da publicidade, sem lhes importar verdadeiramente o conteúdo do que inventam. Consigam aparentar que quem lhes paga lava mais branco do que a concorrência e são-lhes indiferentes os danos suscitados pelas práticas, que caucionam.
Na última semana temos sido matraqueados com a «taxa Robles» como se a proposta do Bloco de Esquerda deva ser desqualificada pela imagem exageradamente negativa, que a imprensa colou ao antigo autarca de Lisboa. Lançado por um deputado do CDS o soundbyte foi adotado por toda a comunicação social como expressão aceitável no que deve ser o tratamento objetivo das notícias, quando de facto insere-se numa intencional estratégia de propaganda política. Ao adotá-la os jornais, as rádios e as televisões assumem-se como altifalantes desse marketing político sem o questionarem, nem desestruturarem. Pior ainda, têm-no agitado em sucessivos debates dentro da lógica de possibilitar uma execução eficaz do dividir para reinar contra a maioria parlamentar, que anseiam derrubar aproveitando, ao mesmo tempo, para alimentar quem, dentro do PSD, tudo faz para atirar Rui Rio ao tapete. Porque a malta do Observador, da SIC ou da RTP já demonstraram que anseiam por um Passos Coelho recauchutado - assuma o fácies de Montenegro ou Hugo Soares - para voltarem ao neoliberalismo puro e duro de que foram fiéis marionetas.
Infelizmente, como socialista, não gostei da forma como António Costa e Carlos César reagiram à proposta, amesquinhando-a a tratos de polé. Não contesto que tenham razão no fundamental, mas o pequeno detalhe da sobranceria com que a aniquilaram dá razão a Daniel Oliveira, quando prevê o termo próximo desta convergência entre as esquerdas por não coincidirem verdadeiramente com o efetivo sentimento da atual liderança socialista. Nesse sentido preocupa-me o afastamento de João Galamba de porta-voz do partido, substituído por quem começou por descrer dos benefícios desta solução política, ou a reação nada subtil de António Costa no Congresso, quando se intimidou com o sucesso do discurso de Pedro Nuno Santos.
A cumprir-se a previsão de Daniel Oliveira será chegada a altura de novo redefinir de águas entre quem no Partido o quer devolver à cinzentude do centrão e quem deseja retomar a sua matriz original, definida pelos fundadores em 1973, e que o dão como orgulhosamente Socialista (com um S bem grande).
Quero confiar que, no momento próprio, uma grande maioria de socialistas, que se têm reconhecido nesta solução governativa, não deixarão de expressar a sua opção.