quinta-feira, 23 de agosto de 2018

E pur si muove - 23 de agosto de 2018


1. Embora os números indiciem que existem mais queixas sobre situações de racismo e xenofobia no ano em curso do que no transato, essa constatação pode ser positiva por corresponder a uma maior propensão das vítimas em exercerem o direito a serem defendidas de energúmenos que, antes da aprovação da atual lei, escapavam mais facilmente às consequências dos atos e se ufanavam da sua impunidade.
Porque queremos um país mais justo só podemos congratularmo-nos com essa tendência para as vítimas de atos hediondos não calarem as humilhações ou as agressões a que se sujeitam, exigindo a devida punição dos trogloditas, que as terão provocado.
2.  Com a aprovação da lei de proibição de abate de animais nos canis públicos, a Assembleia da República definiu um período de moratória de dois anos para que as autarquias em causa  preparassem  a concretização do cumprimento do então decidido.
Acreditando que ainda estamos no tempo em que as leis são aprovadas, mas não significam que devam ser cumpridas, muitas dessas autarquias nada fizeram no sentido de recolher e esterilizar os cães e gatos sem dono, alheando-se do que pudesse vir a acontecer.
Agora barafustam, porque imaginam os munícipes atacados por matilhas de animais sem dono, que tentarão saciar a fome mediante comportamentos agressivos. E ficam escandalizados, porque, muito corretamente, os deputados não lhes prolongam ad eternum a moratória de termo quase concluído.
3. Há um coronel reformado, de nome Tinoco Faria que, de quando em quando, tem sido notícia pelas piores razões, porque representa a continuidade da Brigada do Reumático no tempo de Marcelo Caetano.
Sempre que vê motivos para organizar almoços ou jantares de desagravo contra supostas afrontas a militares fascistoides aí o temos na primeira linha, invariavelmente com o discurso hipócrita de tais eventos não significarem o que são.
O pretexto mais recente tem a ver com o afastamento de um coronel do Regimento dos Comandos, sob cuja responsabilidade foram feitos os exercícios que provocaram a morte dos jovens recrutas.
Como a desculpabilização do presumível motivador de tais mortes não lhe chega, o Tinoco também decidiu homenagear o fundador da Associação de Comandos, um tal Vitor Ribeiro, que, além de ter participado no contragolpe fascista do 25 de novembro de 1975 - depois «moderado» por Ramalho Eanes e pelo Grupo dos Nove - foi determinante para dar a muitos dos que pertenceram àquele corpo militar, conhecido pelos piores crimes na Guerra Colonial, uma saída profissional sob a forma de musculados seguranças em salas de divertimento noturno da capital com o que isso implicaou de ligação direta ao crime organizado.
O país dispensa bem estes Tinocos que, se nunca foram confrontados com a vertente criminosa do ideário político, bem merecem continuar a ser vigiados, porque a Democracia é sempre algo que lhes provoca uma fétida azia. Nós não precisamos de Balsonaros de sotaque luso...

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

E pur si muove - 22 de agosto de 2018


1. A dois meses do processo de escolha do novo procurador-Geral da República, o Ventinhas que lidera o sindicato dos magistrados revela-se nervoso, porque não tem garantido que seja um seu apaniguado a ser bafejado com a escolha do governo e a bênção de Marcelo. A realidade política atual não corre de feição a quem tem feito da instituição um centro de contrapoder contra o Partido Socialista recorrendo aos jornais para avançar teorias, que depois não consegue demonstrar como sendo verdadeiras. Fica a suspeição, que é parte importante do objetivo, mas não suficiente para devolver o poder às direitas, que têm visto os seus casos de corrupção passearem alegremente até à prescrição, sem que os seus autores cheguem a conhecer - salvo raríssimas exceções - o opróbrio da prisão.
2. Sem qualquer sentido de pudor Assunção Cristas andou ontem a fazer campanha contra o governo nos comboios da Linha do Oeste, que até poderiam já nem existir se se tivesse concretizado a intenção do Executivo de que fez parte em extingui-los.  Não consta que tenha havido quem lho lembrasse com a «assertividade», que a situação careceria.
3. Prossegue a contínua redução dos inscritos nos centros de emprego, sendo comparativamente menos 20% do que em julho do ano passado. Ao mesmo tempo, e continuando na lista das boas notícias para o governo, o Banco de Portugal reconheceu um crescimento de  13,9% nas receitas das atividades turísticas no primeiro semestre.
4. Nas novidades da cena política internacional avulta a intenção do governo socialista espanhol em contornar a oposição da família do ditador Franco à exumação das suas ossadas do sinistro Vale dos Caídos e o isolamento acrescido de Trump, a quem o anterior advogado atribuiu responsabilidades em situações ilícitas, que podem justificar o lançamento do processo de impugnação. Na Ásia a ilha de Taiwan vai sentindo um isolamento internacional cada vez mais notório com El Salvador a juntar-se a outros cinco países que, nos últimos dois anos, romperam ligações com o seu governo e passaram a reconhecer a legitimidade da pretensão de Pequim em recuperar a soberania sobre todo o território chinês.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Os sonhos utópicos da Cavaca


O que me comovi com a explicação dada por Ana Rita Cavaco para explicar a razão de se ter aumentado para 5000 euros ilíquidos. É que a coitada da bastonária só leva para casa 2800 líquidos ao fim do mês. Quase podemos compreender-lhe o provável entusiasmo com a proposta de Santana Lopes em reduzir significativamente os impostos para lhe possibilitarem um padrão de vida mais de acordo com o seu gosto pelos trapinhos.
É claro que em vez de um Serviço Nacional de Saúde com limitações significativas de recursos - que lhe motivam tão histéricas «denúncias»! -, teríamos só hospitais e clínicas privadas.  Mas não é esse o seu sonho mais grato, aquele em que os «investidores» nos males e dores alheias, a premiariam pela ajuda inestimável dada ao cumprimento do velho sonho de um antigo ministro das direitas, que proclamava aos sete ventos a naturalidade de se exigir a quem saúde desejasse, que a pagasse... e bem?

Lamentável, de facto!


Consigo compreender Mário Centeno, mas não concordo em nada com aquilo que disse na intervenção destinada a saudar o povo grego pelo «fim» do programa de assistência. Por isso subscrevo por inteiro a opinião de João Galamba: foi lamentável!
Não tenhamos ilusões: acaso não tivesse sido bloqueado por Carlos Costa no acesso ao cargo do Banco de Portugal, que deveria ser o seu por mérito e curriculum, dificilmente o Partido Socialista teria contado com a sua colaboração. Porque, tendo presentes os trabalhos teóricos de Centeno antes de ganhar pública notoriedade, todos eles apontavam para orientações ideológicas muito mais à direita do que as assumidas no atual governo. Terá sido a possibilidade de dar ao banqueiro Costa uma lição, que este estaria longe de imaginar possível, a razão de ser do alinhamento com o PS.
Gabe-se a inteligência de outro Costa, o primeiro-ministro, em aproveitar a inesperada competência do seu ministro das Finanças para tornar possível a quadratura do círculo, que devolveu à precedência o Demo convocado por Passos Coelho e calou os resmungos do paralítico alemão. Mas Centeno não consegue ser diferente de si mesmo e do que pensa. Por isso mesmo conseguiu o lugar no Eurogrupo, que não serviu para que António Costa cumprisse o plano de mudar as instituições europeias a partir de dentro e, pelo contrário, o fez render-se aos encantos austericidas dos seus émulos da Europa do Norte.
Se fosse diferente de quem é Centeno teria feito os possíveis para dar à União Europeia a arma mais poderosa para contrariar a ascensão das extremas-direitas: o reconhecimento de quão errada foi a imposição da austeridade aos países mediterrânicos e ao do canto ocidental do continente, porque a boa solução teria sido a efetiva coesão entre os mais ricos e os que deles ainda muito distam na qualidade de vida. Em vez de uma União Europeia apostada na solidariedade e na entreajuda, os protestantes do Norte impuseram aos «madraços» do sul o duro castigo pela sua essência pecadora. Impuseram o egoísmo e a arrogância onde seria mais eficaz a magnanimidade e a humildade..
Quando alguém terá lembrado a Centeno a necessidade de se dirigir aos gregos e saudá-los pela sua «vitória» o resultado nunca poderia dar certo: ou mantinha a narrativa sobre os méritos da austeridade ou denunciava-a como a origem das piores ameaças que se colocaram à ideia mais utópica da Europa unida do Atlântico aos Urais. A escolha que fez trouxe-lhe as reações a que fez jus.
Se terá havido alguns iludidos com a hipótese de Centeno pôr fim a uma maldição, a realidade encarrega-se de demonstrar que tomou-o o sortilégio, que tende a transformá-lo no aprendiz de feiticeiro por que suspirava Wolfgang Schäuble para se ver substituído como Mago-mor do neoliberalismo ainda dominante.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A História que ainda está por contar!


Num artigo, que acompanha a imprescindível reportagem assinada este domingo no «Diário de Notícias», Fernanda Câncio considera que, longe de nos deixarmos sossegar, devemo-nos sentir aterrorizados pela ausência de notícias sobre abusos sexuais cometidos por padres, bispos e cardeais portugueses, que os tornaria aparentemente diferentes dos seus pares norte-americanos, irlandeses, australianos, franceses ou chilenos sobre os quais não faltam revelações, que põem em causa toda a instituição católica. Incluindo o próprio Papa, que chegou a pôr em causa mais uma inequívoca demonstração da falência de uma cultura religiosa muito moralista nas palavras, mas irresistivelmente libidinosa na prática dos seus prosélitos.
Quantas mentiras se ocultam nas sacristias das nossas igrejas? O que se terão as vítimas revelado nos confessionários, porventura ainda sentindo-se culpadas por, na sua inocência ultrajada, terem estimulado os pecados dos supostos mentores espirituais?
Há um enorme silêncio sobre as práticas sexuais do clero português nas últimas décadas, mas, a exemplo do sucedido em apenas seis dioceses da Pensilvânia durante sete décadas, se traduzida em palavras essa verdadeira história ainda por contar chegaria por certo a milhares de páginas...

domingo, 19 de agosto de 2018

Parvoíces sazonais


Silly season! Estamos mesmo nas semanas em que se manifestam todas as parvoíces. E já não bastando as cenas caricatas de Bruno de Carvalho, cujo desenlace será para ele uma provável tragédia, subsequente a tão grotesca farsa (invertendo a ordem da célebre constatação de Marx), temos Santana Lopes armado em Noé, ansioso por comandar a nau da Aliança. Até ver nem acontece Dilúvio - o outro estava obcecado com o Diabo! -, que lhe desse razão de ser, como parecem poucos os animais aliciados por nela entrarem. Os bípedes, mais espertos!, adivinham fútil o aliciamento, mas ele contaria sobretudo com os quadrúpedes, pois sobram muitos na área política em que anseia ter, senão uma palavra a dizer (algo difícil a alguém com tanta inocuidade mental!), pelo menos um lugarzinho ao sol, onde sinta compensada a neurose narcísica.
É paradoxal como, numa e noutra história, estão em causa egos atormentados pelo desajuste entre o medíocre talento e a vontade de protagonismo. A um interessa-lhe a tribuna no mundo dos futebóis, liderando hordas de destemperados hooligans. Ao outro importa ser mais do que um risível «presidente da junta» ao estilo do que Herman ilustrou num dos seus gags.
O programa político agora apresentado é uma colagem requentada de coisas que as direitas andaram a propor nas décadas mais recentes e nenhuma delas dando outro resultado, que não a desgraça das maiorias: cheque-ensino para acabar com o ensino público e dar fôlego aos colégios privados; seguros de saúde para acabar com hospitais e centros de saúde estatais para que o negócio da saúde seja rentável para os empreendedores, que com ele querem enriquecer; e, sobretudo, reduzir impostos para que acabem as veleidades constitucionais de estarem garantidos os direitos fundamentais trazidos pela Revolução de Abril e traduzidos na Lei Fundamental.