sábado, 11 de agosto de 2018

Eles que tirem o cavalinho da chuva


Já aqui o escrevi, e repito-o: a partir do momento em que nomeou Maria de Belém para a Comissão incumbida de rever a Lei de Bases da Saúde, que Adalberto Campos Fernandes merece as minhas mais justificadas dúvidas sobre se será quem melhor defenderá o serviço público por si tutelado. Mas, sendo ele o escolhido por António Costa, que ainda não viu motivos bastantes para o despedir, tenho de o considerar como parte integrante do governo, que apoio, e cuja continuidade defenderei até ao fim da legislatura.
Compreendo, igualmente, que as direitas procurem encontrar sempre um elo mais fraco para, exigindo a sua demissão, que a conseguirem-no, logo pretenderiam alarga-la a todo o demais elenco governativo, a pretexto da sua suposta fragilidade. Daí que, na entrevista ao «Expresso», António Costa tenha sido taxativo: bem podem bastonários e sindicatos dos médicos e enfermeiros fazerem greves e manifestações que, se julgam assim alcançar a demissão do ministro, podem tirar o cavalinho da chuva.
Ademais a situação está muito longe de ser aquela que os contestatários reivindicam e alguns incautos, por eles influenciados, acreditam. Vale a pena voltar por isso a um artigo assinado por Isabel do Carmo numa edição do «Público» do final do mês passado e curiosamente ignorada ostensivamente, não só por quem se sente por ele atingido, mas sobretudo pelos que o deveriam referenciar repetidamente como prova da falsidade do clima de suspeição ainda existente sobre o setor.
Nesse artigo a conhecida médica contava uma experiência pessoal muito elucidativa: «Recentemente, um velho amigo meu francês, de passagem por Lisboa, telefonou-me num fim-de-semana a dizer que estava com uma dor no peito havia duas horas e não sabia se havia de esperar por segunda-feira e procurar um cardiologista. Disse-lhe para tomar um táxi o mais depressa possível e ir à urgência do Hospital de Santa Maria ou do Hospital de S. José. Assim fez e telefonou-me uns dias depois a explicar que tinha tido um infarto cardíaco e tinha posto um stent na coronária. E comentou-me na sua língua: “Cinco estrelas! Afinal, o que se passa com os hospitais não é nada do que vem nos jornais.” (Sabe ler português.)»
Esse desfasamento entre a versão da situação do setor, segundo os jornais, e a realidade identificada por um testemunho tão imparcial tem uma explicação: os interesses privados no setor da saúde estão intrinsecamente ligados com a direita parlamentar e com quem a apoia na comunicação social. Muitos dos que vemos perorar em defesa do Serviço Nacional de Saúde, de que foram opositores constantes desde o momento da sua aprovação (caso de Marcelo Rebelo de Sousa), têm notório conflito de interesses por terem ligação a empresas com fins lucrativos na área. É aliás essa a razão de ser incompreensível a nomeação da antiga candidata presidencial para a comissão, cujo trabalho tarda e, sobretudo, cujo conteúdo, dificilmente corresponderá ao interesse coletivo.
Quando se ouve Assunção Cristas, ou algum dos seus cúmplices, a lamentar a «degradação« do serviço prestado pelos hospitais públicos e unidades de saúde familiar, não esquecemos a sua pertença a um governo que, tão-só tendo tomado posse, logo  reduziu o orçamento para a Saúde, que era em 2010 de 8699 milhões de euros e em 2012 estava em 7525 milhões. E a participação das famílias passou ao seu máximo, 28%. Que entre 2010 e 2015 a despesa corrente com os hospitais públicos desceu de 5508 milhões de euros para apenas 4843, ao mesmo tempo que a despesa do SNS com os hospitais privados subiu de cerca de 391 milhões de euros para 554, ou que o número de funcionários dos vários sectores na Saúde desceu 12%.
Os sindicatos, que marcam sucessivas greves para servirem de idiotas úteis aos donos dos hospitais e clínicas privadas, querem ignorar que, nesse período, o horário de trabalho aumentara para as 40 horas semanais e que grande parte das horas extraordinárias deixaram de ser pagas.
É por tudo isso que Isabel do Carmo conclui que esta campanha «serve (...) interesses privados e é mais do que hipócrita, enganadora. Mas os defensores verdadeiros e coerentes do SNS também não podem demitir-se de estar alerta em relação às derivas e às promessas por cumprir.»

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

E agora, vampiros meus, que tendes para alimentar a insaciável avidez?


O grande incêndio de Monchique está quase esgotado nas televisões, após estas terem-no aproveitado para criar aquele clima de «drama», de «horror» com que se comprazem, não só para ganharem audiências, mas sobretudo para criticarem, mais ou menos explicitamente, o governo de António Costa.
Não tendo acontecido os mortos, que possibilitassem à Judite da TVI voltara falar em direto com um cadáver em plano de fundo, ou para que a brasileira de Pedrógão pudesse ter mais uns minutos de glória a interligar a tragédia do ano transato com o incêndio desta semana, os diretores de informação têm de render-se à inevitabilidade de captarem o regozijo do primeiro-ministro por essa grande vitória que terá sido a inexistência de perda de vidas humanas. E isso, só por si, constitui uma grande vitória para o governo e para a estratégia gizada desde o ano passado sob a coordenação do ministro Eduardo Cabrita.
No rescaldo das cinzas cresce a noção de, a repetirem-se diretos das zonas ardidas, serem sentidas como não-notícias, que justificam o zapping para quem possa, por essa altura, apresentar informações mais apelativas. Até mesmo a tentativa de pôr em causa a ação musculada das forças policiais para forçarem a evacuação de quem estava em risco, priorizando a salvaguarda dos bens em detrimento da própria vida, foi desarticulada pelos constitucionalistas de direita chamados de urgência para comporem o ramalhete dos pivots, que desgraçadamente se viram criticados em direto. Ou essoutro intento de criticar a excessiva importância conferida a precaver a vida das populações em prejuízo das casas e árvores, que as chamas incontroláveis, estimuladas pelos ventos, iam consumindo. Quando José Manuel Mestre e um seu tonto colega da SIC o pressupuseram, logo um ruidoso coro público os desaprovou.
A angústia dos Ricardos Costas ou dos Sérgios Figueredos (nem refiro os da sarjeta da Cofina!) residirá agora em não encontrarem matéria passível de tapar o vazio de não existirem novas estórias que possam cavalgar para porem em xeque o governo. Depois deste sinistro, os do ano transato converteram-se em histórias passadas, e o roubo de Tancos já foi tão explorado, que nem a ajuda de Marcelo conseguirá reaviva-lo. Valem-lhes que tragédias não faltam noutras latitudes, desde vulcões e sismos na Indonésia às cheias em França. Para quem se alimenta das desgraças alheias, há sempre fartos mortos a vampirizar!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Breve exercício de memória insatisfeita


Só para relembrar alguns assuntos em que a nossa comunicação social não mostra o devido afã na investigação para nos esclarecer as dúvidas sobre o que todos eles nos sucitam:
- os subornos relativos à compra dos submarinos;
- a fraude de 6,7 milhões de euros atribuídos por Miguel Relvas à Tecnoforma de Passos Coelho, que levou a União Europeia a exigir a correspondente restituição;
- o «esquecimento» da instituição liderada por Joana Marques Vidal, que admitiu investigar o caso anterior e deixou passar os prazos para o efeito;
- a forma estranha como Cavaco Silva e a filha compraram e depois venderam ações da Sociedade Lusa de Negócios, conseguindo um significativo retorno do investimento;
- o esquecimento em que parece ter caído tudo quanto teve a ver com as sucessivas falências do BPN, do BPP, do Banif e do BES, mormente o extravio de 3 mil milhões de euros neste último depois de ter sido decidida a sua resolução.
Seria tão interessante que os nossos jornalistas conseguissem aclarar as nuvens espessas e escuras, que nos impediram de compreender mais aprofundadamente o que aconteceu em cada um desses casos e quem e quanto com eles lucrou..
Conseguissem esse feito e por certo ajudariam a superar a crise financeira por que passa grande parte da comunicação social, tão significativas seriam as audiências dos telejornais e o aumento da tiragem dos jornais e revistas. Como continuam a investir tempo e espaço mediático com noticiazinhas da treta, andam condenados a ver falirem, um a um, os títulos em que trabalham.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A realidade que a fumaça dos incêndios tende a obnubilar


Não fosse o sabermos que quem manda nas televisões tem uma agenda permanente de combate ao governo e até poderíamos entender a cobertura mediática dos incêndios no Algarve como consequência da silly season, que reduz significativamente os assuntos apelativos, que garantam as audiências. Mas a evidência sobre o oportunismo vampiresco dos diretores de informação  de toda a imprensa é tal, que recorrem a tudo e mais alguma coisa para passarem a mensagem da ineficácia do governo, incapaz de obrigar o deus Eolo a reduzir a força com que sopra ventos em todo o país.
Não há quem elogie a preocupação com a segurança das vidas humanas, que obrigou à evacuação atempada das populações, mesmo quando os fogos pareciam distantes, o que gerou alguns focos de tensão com gente ignara, incapaz de perceber a rapidez com que quilómetros são galgados pelo incontrolável inimigo quando os ventos o fazem propagar com uma rapidez imprevisível.
Os altifalantes dos que se opõem ao governo prendem-se no que parece falhar, e calam-se quanto ao que de muito positivo tem sido a ação de todos os envolvidos em impedir que o sinistro ganhe dimensão ainda mais significativa. Perante as câmaras dos estúdios televisivos vão desfilando «especialistas», tanto melhor recebidos quanto mais ostensivos forem nas críticas ao governo. E ouvem-se atoardas, que dão para pensar se o calor excessivo não tem prejudicado o raciocínio de alguns dos que perguntam a Eduardo Cabrita se se justifica priorizar a salvaguarda das vidas humanas em detrimento dos eucaliptos incandescentes ou aos que acham estranho que quem andou a combater os fogos descanse no chão de um pavilhão (queriam o quê? Lençóis de cetim e havaianas a abanarem folhas de palmeira para os refrescarem?).
Há alguns, mais sérios, a levantarem a questão das excessivas manchas de eucaliptais, que se tornariam ainda mais extensas se Assunção Cristas tivesse durado mais alguns anos à frente do Ministério da Agricultura. Ferreira Fernandes, no «Diário de Notícias», sintetiza muito bem esse problema: «o peso do eucalipto no território português é um potencial perigo de incêndio. E esse perigo, com o aquecimento global, passou a ser uma certeza de verão. (...) O eucalipto mata de mais. E quando não mata é porque se gasta gente de mais, dinheiro de mais e tempo de mais, que não é descontado no que a indústria do eucalipto gosta de apregoar como vantagem nacional (ocultando aquele senão de despesas públicas). O eucalipto como causa de incêndio é um facto. Daqueles factos cuja repetição desobriga de mais explicações, tal como não é preciso ser um doutorado geógrafo para saber que o Sol nasce a leste. O incêndio nasce e nascerá cada verão onde há eucalipto. Muitos dirão que não, mas serão desmentidos pelos factos em cada próximo verão. Porque o aquecimento global - que ainda há pouco também era negado pelos mesmos muitos - nos lembrará essa inevitabilidade.»
Nesse sentido importará que o Governo não autorize as intenções do dono do «Correio da Manhã» em ampliar a fábrica da Celtejo em Vila Velha do Ródão, que além do historial de poluidora do Tejo e de incêndios no seu perímetro, precisará sempre de mais eucaliptos para aumentar o volume dos seus negócios. Ora para que Paulo Fernandes enriqueça e possa prosseguir o afã de manter os vómitos em forma de pasquins, que poluem o nosso quotidiano mediático, a consequência imediata será sempre a de virem a repetir-se megaincêndios como o que agora lavra, com danos em vidas humanas e bens materiais, que ele nunca será chamado a indemnizar.
Temendo, porém, que a novela dos incêndios não baste para manchar a excelente obra em curso concretizada pelo governo, ontem e hoje, têm-se repetido notícias dele não ter conseguido contratar 117 médicos para o Serviço Nacional de Saúde no âmbito do concurso recentemente aberto para o efeito. E, no entanto, justificava-se que tivessem recorrido a grandes parangonas para anunciarem que o mesmo concurso garantiu um aumento de 1117 médicos a acrescentarem-se aos que estão diariamente a trabalhar ao serviço das populações. Podendo anunciar os 90% de sucesso na iniciativa do governo, quiseram prender-se nos 10%, que faltaram para que o êxito fosse total.
O que, porém, incomoda quem tão despudoradamente manipula a realidade, acinzentando-a tanto quanto possível, para que dela se não realcem os aspetos mais coloridos, são os recentes indicadores sobre a redução do desemprego, o aumento do emprego e o aumento do rendimento das famílias. Como salientou João Galamba no facebook «se o desemprego nos 6,7% é uma excelente notícia, é ainda mais relevante a forte aceleração do rendimento médio mensal líquido, que passou de crescimentos abaixo dos 2% para uns expressivos 3,5% no primeiro trimestre de 2018, acelerando ainda mais no segundo trimestre, para 4,2%.»
Fica explicado porque, apesar do permanente matraquear de falsidades contra o Governo, as sondagens continuem a ser o que são.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Detenhamo-nos num outro urubu


O enorme incêndio de Monchique dificilmente poderia ter sido evitado tendo em conta as temperaturas, a força do vento e a orografia, que explicam a sua deflagração, sem esquecer uma cobertura florestal em grande parte constituída por eucaliptos. No entanto, apesar de terem sido destacados meios substanciais para o combaterem, não tardaram a aparecer oportunistas sem escrúpulos, que aproveitam a tragédia para a mais hedionda politiquice.
Em texto anterior já esteve em causa o lamentável protagonismo de Fernando Curto, que preside a uma associação sindical dos bombeiros profissionais. É altura de debruçarmos a nossa atenção sobre outro abjeto personagem cuja natureza mentirosa ficou demonstrada ao longo do dia. Chama-se Emílio Vidigal e tratou de criar uma associação destinada a colher subsídios onde quer que eles pudessem ser requeridos, fazendo-se eleger presidente como forma de também ir colhendo aqui e além o seu quarto de hora de glória me(r)diática.
Ao começo da manhã o Público trazia para a primeira página a sua denúncia em como o incêndio de Monchique nunca teria tido tão grande dimensão se o governo não tivesse congelado há sete meses um seu projeto para o ordenamento florestal na Zona de Intervenção de Perna da Negra. Pouco depois o Secretário de Estado Miguel Freitas veio denunciar que, não só o projeto em causa dizia respeito a um financiamento europeu para o qual a documentação exigida - os estatutos da Associação e a ata da eleição dos seus dirigentes - não estava conforme com o exigido, como a própria proposta era clara na data em que se passaria à sua concretização: fevereiro de 2019.
Acusado de faltar à verdade, Emílio Vidigal veio fazer finca-pé nas mentiras, mas ninguém ignora o seu oportunismo num concelho cuja autarquia laranja anda demasiado calada quanto às responsabilidades, que lhe cabem por não ter agido mais proactivamente na prevenção das condições para evitar o sinistro. Como é próprio do tipo de arrivistas, cujas práticas replica, o Vidigal atua no sentido de alinhar estrategicamente com quem manda no seu município, acreditando ser mais facilmente apoiado nos seus vis intentos.
Nesse Barlavento Algarvio ainda há muita gente que anda com enorme azia relativamente a quem passou a governar o país a partir de 2015, razão porque não foi difícil aos repórteres televisivos encontrarem eleitoras histéricas a dizerem cobras e lagartos de quem lhes estava a salvaguardar as vidas e os pertences.
Não sabemos se o efémero delator virá a receber os subsídios com que promete atirar uns bitaites para um melhor ordenamento do caos florestal de Monchique, mas será bom que o governo dê particular atenção à forma como os dinheiros públicos possam vir a ser despendidos por quem agora demonstrou tão indigna conduta...

Os urubus, que comparecem sempre que deflagram grandes incêndios


É atribuída a Oscar Wilde a expressão «aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo.» E ela veio-me à mente, quando ouvi a esdrúxula intervenção de Fernando Curto, conhecido cacique que fez da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais a coutada preferida para dar satisfação ao seu exagerado ego. Nesse sentido compete com Jaime Marta Soares, que tratou de conseguir paralela sinecura à frente dos Bombeiros Voluntários. Um e outro gostariam de ser chamados a cargos para que se julgariam predestinados, mas nenhum governante lhes encontrou talento bastante para que tais pretensões encontrassem cabimento. Daí que, desrespeitando o tremendo esforço dos que combatem o incêndio de Monchique, consideram tudo mal organizado: se não têm como argumento a falta de meios criticam quem estabelece a estratégia e a implementa, como se fossem capazes de fazer melhor face á imprevisibilidade com que os ventos sopram. E, no caso de Curto,  até se julga suficientemente importante para exigir que Eduardo Cabrita o receba, como se nestes dias o ministro não tivesse mais que fazer do que aturar quem nada lhe vai acrescentar à resolução dos problemas com que se debate. Uma vez mais verá frustrada a ambição de avisar amigos e familiares para que vejam como bem fala para os jornalistas à porta do ministério onde desejaria ser recebido.
Os Curtos e os Soares, que se costumam manifestar nestas ocasiões, e encontram fácil tribuna nas televisões ávidas de sensacionalismo, lembram os urubus, que sobrevoam  as tragédias e delas se alimentam. Com uma diferença: as referidas aves desempenham uma papel primordial na limpeza da Natureza. Ao contrário, os seus émulos humanos apenas  poluem um ambiente mediático já com tão pestilento cheiro a sarjeta, que é exalado de uma imprensa apostada em pôr em causa a performance governamental.

O combate aos efeitos da gentrificação


A gentrificação das grandes cidades europeias tem expulsado para as periferias as camadas sociais médias e pobres, incapazes de suportarem os custos de habitarem onde endinheirados estrangeiros surjam dispostos a pagarem mais para as substituírem. O turismo desenfreado, e sem regras, converte em hotéis e hostels, os prédios até ainda há pouco tempo ocupados por inquilinos com muitos anos de ocupação desses espaços. E os fundos financeiros, apostados em conseguirem retornos substanciais nas suas apostas especulativas, encontraram no setor imobiliário dessas capitais o canal apropriado para canalizarem fluxos de dinheiro anteriormente aplicados na , mas já não conseguindo nela os mesmos rendimentos.
Não admira que, perante essa realidade, os presidentes da Câmara de algumas das principais capitais europeias tenham subscrito um documento comum em que reivindicam dos respetivos governos os meios financeiros para poderem criar um verdadeiro mercado público de habitação. A exemplo do que tanto se reivindica na defesa dos direitos à saúde ou à educação, também o referente a uma habitação condigna completa o triângulo da construção de um autêntico Estado Social. Só assim será possível infletir a tendência para tais metrópoles perderem as características, que as tornaram tão apetecíveis para quem, proveniente de outras culturas, nelas aterram e pretendem, precisamente vivenciar esse «espírito do lugar». O problema é que, a prosseguir tal gentrificação, depressa depararão com a desertificação de espaços anteriormente pujantes de vida, despojados dos fatores de agradabilidade, que haviam justificado a sua mudança.
Trata-se, pois, de dar mais poder ao Estado para que defina a gestão do território e regulamente o mercado, de forma a retomar um controlo, de que jamais deveria ter prescindido.

sábado, 4 de agosto de 2018

As promiscuidades de Marcelo com os especuladores imobiliários


Anteontem estava à espera da resolução de um problema burocrático quando me surpreendi com a confissão pró-marcelista de pessoa amiga, que sei eleitora socialista e cujo primogénito é até militante no mesmo partido. Em pessoas menos definidas politicamente ainda admito, que a ilusão pelo selfieman persista, mas em quem optou por escolha mais à esquerda, é-me difícil aceitá-lo. Daí que a minha reação não tenha tido a diplomacia, que a situação mereceria. No entanto, Marcelo tudo tem feito para ver desmistificada a sua personalidade calculista e perversa, como quando terá vitimado o próprio Paulo Portas, quando este ainda dirigia o «Independente».
No caso do veto à legislação parlamentar, que acautelava o interesse dos inquilinos nos casos da especulação imobiliária, que permite a venda em bloco de edifícios facilitando o inopinado despejo daqueles, Marcelo atuou em consonância com os que, furtivamente, tinham dias antes utilizado o caso Ricardo Robles para criar o clima favorável a este desfecho. Mas agora sabe-se mais: o assessor do presidente, que lhe terá preparado a fundamentação do veto é sócio da sociedade de advogados, que representa a Fidelidade, precisamente a seguradora pertencente aos chineses da Fosun, que se prepara para fazer um negócio chorudo antes que a Assembleia da República tenha tempo bastante para contrariar o veto presidencial e voltar a impor a legislação, que proteja os interesses dos inquilinos.
Nesse sentido caberá perguntar a Joana Marques Vidal se esta promiscuidade entre os serviços da Presidência da República e as empresas diretamente beneficiadas pelo seu veto não merece ser investigada pela vantagem colhida pelos clientes do referido assessor com tal decisão? Ou, uma vez mais, a Procuradoria Geral da República continua a analisar ilícitos quando as suspeitas recaiam sobre quem é de esquerda, continuando a deixar os vigaristas e especuladores das direitas a prosseguirem alegremente as suas negociatas sem que ninguém os incomode?
O «Expresso» traz, igualmente, outra marcelice, que urge ser denunciada. Habitual conviva dos portugueses mais endinheirados, de quem colhia, entre outros benefícios, convites para férias faustosas, Marcelo chegou a Belém com o propósito de abreviar tão rapidamente quanto possível o governo das esquerdas. Precisava para tal de um líder laranja, que lhe servisse de cúmplice, já que Cristas, por mais peixeirada que organize, nunca passa da dimensão de líder de pequeno partido para o qual um pequeno autocarro basta para transportar o seu grupo parlamentar. Deu oxigénio a Passos, porventura a acreditar que o pacto com o Diabo surtisse efeito, mas nem com a ajuda dos incendiários de 2017, a pujança da solução governativa perdeu gás. Rio sempre lhe terá parecido um patinho feio, mas esteve uns meses na posição de «ver para crer», expectante que improváveis fatores influenciassem favoravelmente os seus desígnios. Agora, enquanto foi assumindo para as televisões, que a recandidatura a novo mandato é questão ainda por decidir (lembremo-nos que na campanha eleitoral para as eleições de 2016, ele afirmara bastar-lhe um único!), procura agir ativamente na transformação do seu partido para procurar que António Costa não consiga cumprir mais uma legislatura à frente da renovada maioria parlamentar. Por isso faz avançar Pedro Duarte, o diretor da sua campanha presidencial, e quase por certo o seu lugar-tenente mais próximo, para que corra com Rui Rio, congregue os apoios financeiros das maiores empresas do país, conte com o entusiasmo dos altifalantes disfarçados de jornalistas nas televisões e nos jornais e pareça apresentar uma alternativa nova, que seduza o eleitorado com a facilidade com que ele próprio o ludibriou.
O semanário de Balsemão anuncia esse golpe palaciano em curso com o maior dos entusiasmos. Espero que essa pessoa amiga e outras que se assemelhem não se mostrem tão permeáveis a tão estrondosa manipulação como o demonstraram quando permitiram que o filho e afilhado de figurões da Ditadura viesse sentar-se numa cadeira, que nunca deveria ter sido sua.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Atrás de fraca moita...


Durante uns anos tive por colaborador um esforçado caçador, que voltava ao trabalho às segundas-feiras com relatos coloridos das caminhadas por campos e bosques até regressar ao carro com coelhos suficientes para lautos jantares com a família e os amigos. Uma das frases costumeiras desses solilóquios, animada variação das entediantes discussões futebolísticas, era a de «atrás de fraca moita, se poder encontrar bom coelho».
A expressão passou a ser adotada na empresa para muitas outras ocasiões: quando se contratava algum novo colaborador com currículo aceitável, mas aspeto duvidoso, e ele se revelava um excelente profissional. Ainda que pressionado para melhorar a aparência, desculpava-se-lhe o que parecia perante o excelente desempenho que cumpria. Ou algum dez réis de gente que, quando havia que erguer peças grandes e maciças, o fazia como se fosse atleta olímpico de levantamento de pesos.
Desde então habituei-me a elevar as expetativas do que, à partida, me pareceria periclitante. Explica-se assim o meu irritante otimismo, quiçá capaz de rivalizar com o que o primeiro-ministro sugerira a Marcelo.
Vem isto a propósito da sondagem agora conhecida sobre quais seriam os resultados se os eleitores espanhóis fossem chamados às urnas. Subindo quase dez pontos, o Partido Socialista abeira-se dos 30%, enquanto os dois principais partidos da direita recuam quatro e dois pontos respetivamente, daí resultando 20,4% para ambos: o PP e o Ciudadanos. Ora, como a coligação entre Podemos e comunistas está nos 16%, perspetivar-se-ia uma vida tranquila para uma maioria parlamentar semelhante à do vizinho ibérico.
Subitamente os que prenunciaram vida breve ao executivo liderado por Pedro Sanchez já se calaram, cientes da forte probabilidade de o verem imitar António Costa, a quem o mesmo tipo de zandingas profetizara rápido insucesso e confrontam-se agora com um sucesso, que promete ser duradouro.

O empolamento de pequenos casos por quem mais nada tem!


Quem olha para o universo da comunicação social em Portugal tem de reconhecer o desfasamento da opinião publicada com a exprimida por quem não tem outra forma de se manifestar, que não sejam as redes sociais. A partir do momento em que a propriedade de jornais, rádios e televisões ficou concentrada em grupos económicos, que têm nos partidos de direita os provedores dos seus interesses, assistiu-se ao despedimento dos melhores jornalistas cujo trabalho era reconhecido como sério, objetivo e competente, ficando em seu lugar os que se acomodaram à condição de «vozes do dono».
Compreende-se assim que todas as notícias, que possam parecer desfavoráveis ao atual governo, ou aos partidos que o apoiam, sejam empoladas, comparativamente com todas passíveis de os favorecerem. Quem olha para a realidade do país por quanto possa lê-la nos jornais ou vê-la nas televisões, julga habitar um espaço caótico à beira da rutura social. E, no entanto, esse constante bombardeamento de notícias falsas, ou apresentadas de forma desproporcionada relativamente à sua importância, não consegue infletir o sentimento geral expresso pelos potenciais eleitores nas sondagens, invariavelmente a contracorrente do que desejariam os donos dessa manipuladora comunicação social.
Não tendo matéria substantiva a que se possam agarrar - num ano em que os incêndios faltaram à chamada e os boicotes de enfermeiros ou médicos ao Serviço Nacional de Saúde, ou dos professores ao serviço público de educação, não bastaram para tremelicar a sólida estabilidade do Governo - resta-lhes uma pífia alternativa descrita esta semana por Daniel Oliveira na crónica diária com que se despediu antes de ir de férias. Com a habitual consistência enunciou assim uma das tarefas centrais da comunicação social de hoje: “a de conseguir que, através de um tratamento sempre desproporcionado (seja qual for o alvo) do pequeno escândalo pessoal em relação aos grandes problemas políticos, vivamos todos alheados dos problemas políticos e continuemos a avaliar os eleitos por tudo menos pelo que fazem no cargo.”
Importa denunciar essa tendência para explorar o anedótico ou o mesquinho, em detrimento da abordagem da política com maiúscula, ou seja com rigor e em conformidade com o que se está a mudar para melhor neste país deixado à deriva por uma direita sem visão para encarar os tempos que virão.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Pode alguém ser quem não é?


Há dias perguntava, sem grandes ilusões, se, relativamente ao diploma parlamentar sobre a proteção dos inquilinos em caso de venda dos prédios onde habitam, Marcelo seria escorpião, respeitando a sua natureza facilitando a vida aos ricos prejudicando os mais pobres, se quereria aparentar o que manifestamente não é. A resposta deu-a ontem, vetando o documento e facilitando assim a intenção de especuladores imobiliários apostados em fazerem grandes negócios sem cuidarem de quem possam prejudicar. Para já  o veto vai ao encontro das aspirações dos chineses da Fosun, que continuam a poder financiar-se em Portugal com negócios chorudos, para prosseguirem as traficâncias noutros mercados. Daí a dúvida: se beneficiasse interesses de capitalistas portugueses ainda se poderia compreender, mesmo sabendo-se a facilidade com que eles transferem lucros e dividendos para paraísos fiscais! Mas que levará Marcelo a dar uma tal ajuda a capitalistas chineses?
As direitas, igualmente contraditórias entre o seu propalado patriotismo e a oposta prática política, exultaram por verem reconhecidos os interesses dos proprietários, enquanto as esquerdas prometem voltar a sujeitar a lei ao desígnio de um Presidente, que vai demonstrando sucessivamente por quem está a trabalhar no seu cargo.
Aos meus amigos, que ainda continuam a apreciar as selfies e os abraços de quem nada tem feito pelo povo que tolamente o elegeu, pergunto se ainda precisam de muito mais para entenderem quem apoiam? É que os desafios, que enfrentaremos na próxima década não se compadecem com quem, em Belém, tudo fará para os condicionar de acordo com os interesses dos seus habituais comparsas. Ou ainda há quem duvide do que o motivava quando aceitava as férias propostas por Ricardo Salgado com quem convivia em harmonia até a companhia se revelar incómoda para quem se sentia incumbido de velar pelos bons negócios de outros salgados?

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Pobreza franciscana? Isso queriam eles!


Embora não acompanhe os canais televisivos, que estão a prolongar o caso Robles, mesmo depois dele ter-se tornado pólvora seca para quem o estava a utilizar, é odiosa a tentativa de associarem políticos de esquerda a bens, que supostamente não deveriam ser seus, porque os «denunciantes» - diria mesmo os «bufos» - exigiriam deles uma irrepreensível pobreza franciscana.
Descobriram assim que Catarina Martins é sócia numa empresa de restauro de habitações degradadas a serem reutilizadas em novas unidades de turismo rural. Se assim é só merece o meu aplauso.
O que é inaceitável nesses «jornaleiros de vão de escada» é o quererem impor o pressuposto de só quem está politicamente à direita usufruir de casas, carros e outros bens, que consideram legítimos apenas em quem é de direita.
Nas redes sociais José Gabriel dispõe-se a dar-lhes uma lição sobre o que diferencia quem é de esquerda e quem é de direita, excluindo obviamente o que têm ou deixam de ter: «Ó gente da direita analfabeta, a luta de classes não é entre bons e maus, entre pobrezinhos e ricos, mas o antagonismo entre as classes matriciais de um dado modo de produção que dela decorre e tem reflexos económicos, políticos, ideológicos que em muito determinam as opções dos cidadãos.»
É claro que os putativos alunos não quererão receber a lição ou nem sequer a conseguirão compreender.

O que querem os eleitores de esquerda


Os estudos de opinião sucedem-se e a conclusão vai-se repetindo: os eleitores, que se identificam com esta maioria parlamentar pretendem vê-la reeditada na próxima legislatura.
Desta feita foi o «Jornal de Negócios» a trazer uma «novidade», que o não é. Razão para questionarmos: porque insistem os que  encomendam tais sondagens? Será que anseiam tanto por conclusões contrárias, que vão porfiando nos estudos até verem concretizados os seus desejos? Eles lá saberão!
Para já podemos concluir que 56% dos socialistas desejam tal continuidade, sendo apenas 10% os que se identificam com Assis & Cª na viragem para o Bloco Central. O que conforta a minha condição de militante socialista, há três anos a esta parte consonante com a maioria dos meus camaradas depois do tormentoso desalinhamento durante o já quase esquecido segurismo.