sexta-feira, 20 de julho de 2018

A cumplicidade das esquerdas está para ficar


Para um  assumido apoiante da maioria parlamentar, sem perder a identidade socialista de há muitas décadas, foi com satisfação, que li a entrevista de João Oliveira ao «Público», por confirmar o potencial de uma perenização da atual solução  governativa. 
Pode-se contestar a perspetiva revisionista da História, quando ele evoca o período do governo de António Guterres, atribuindo ao então primeiro-ministro a falta de vontade para antecipar em vinte anos a bem sucedida solução atual.
Não duvido da escassa vontade de Guterres numa coligação informal à esquerda tendo em conta que ele representava um PS ainda muito marcado pelo anticomunismo de quem tinha bem presentes os confrontos pós-Revolução. Mas vale a pena lembrar a Oliveira que, sem verdadeira dimensão da concorrência à esquerda (a UDP continuava numa dimensão grupuscular e o PSR nem a tal podia ambicionar!), os comunistas ainda viam os socialistas como inimigos fidalgais, que tinham pretensão em superar eleitoralmente.
Agora que é óbvia a impossibilidade de suceder uma tal inversão da relação de forças nas esquerdas, parece sábia a atitude dos comunistas, quando se afirmam dispostos a manter os acordos com os socialistas depois das próximas eleições, dispensando até a formalidade do papel, que Cavaco exigira a António Costa. Tão só se conjuguem medidas corretivas das desigualdades (ex.: aumento das pensões e do salário mínimo) ou de investimento nos setores da saúde e da educação, que constem dos programas políticos de ambos os partidos, o líder parlamentar comunista não antevê razões para dar às direitas a satisfação de celebrarem o divórcio das esquerdas.

Gente em bicos dos pés e outros que se esforçam por sobreviver


1. Continua intensa a campanha em torno do nome sobre quem comandará a Procuradoria Geral da República, quando a atual titular concluir em breve o seu mandato. Maria José Morgado, que é uma das candidatas, tem-se esforçado por se pôr em bicos dos pés para que não a esqueçam e sabe contar com a simpatia dos setores apostados em ter como plano A, a manutenção de Joana Marques Vidal no cargo. Mesmo que seja tida como uma segunda escolha a Mizé do MRPP de 1975 não parece incomodar-se com tal condição.
A entrevista que, no âmbito da sua pré-campanha, deu ao «Público» é esclarecedora quanto à sua personalidade instável, mesmo que supostamente motivada pela disciplina conservadora. Fosse ela quem, desgraçadamente, viesse a assumir o cargo e o mais certo seria continuarmos com o carácter invariavelmente zarolho das investigações judiciais lançadas sob a sua alçada.
2. Igualmente em bicos dos pés já está o CDS, que começou a ameaçar a segurança rodoviária com a afixação de grandes cartazes com a carantonha de Nuno Melo a apelar à votação para as europeias.
Não sei o que se passará com os demais condutores, mas confrontando-me com tão odiosa publicidade, terei dificuldades em manter a atenção à estrada, tão irresistível me surge o vómito perante tal espécime.
3. Gosto muito de animais domésticos, guardando sentida saudade do Cléo, o gato que nos morreu o ano passado com a vetusta idade de 18 anos, e continuamos a usufruir os caprichos do Laad, também ele a avançar aceleradamente para a terceira idade.
A empatia com os nossos parceiros quotidianos tem-nos feito apreciar as muitas provas da inteligência e dos afetos animais. Daí que não seja preciso aderir ao PAN para congratularmo-nos com a proibição de abate de animais em canis municipais, alvo de uma chacina anual da ordem dos doze mil.
Que se capture e esterilize os que andam à solta, nada contra. Que sejam chacinados, como tem acontecido até aqui, é prática que tem mesmo de acabar...
4. No mesmo dia surgiram notícias contraditórias sobre os polícias, que se portaram vergonhosamente quando se viram chamados para conter a agressão racista de um segurança sobre uma jovem colombiana numa paragem de autocarro da cidade do Porto.
De manhã congratulávamo-nos por os saber a contas com processos disciplinares levantados pelos seus responsáveis. Perspetivava-se a justa expulsão de quem mostrara conivência racista com o agressor, não merecendo pertencer às forças de ordem quem não se mostrar à altura dos valores republicanos, que devem ser os seus. À tarde a PSP desmentia a notícia da manhã, justificando a apreensão sobre se não estará a vigorar a lógica corporativa do costume.
5. No mesmo dia em que fez aprovar no parlamento de Telavive uma legislação, que aproxima Israel de algumas das mais detestáveis práticas segregacionistas do apartheid sul-africano, Netanyahu recebeu um seu dedicado amigo: o húngaro Viktor Orban.
Que importa se o ditador húngaro tem um longo historial de afirmações antissemitas? Para o ainda primeiro-ministro israelita a sua sobrevivência política sobrepõe-se aos princípios, tanto mais que adivinha a forte possibilidade de, tão-só afastado do poder, ir parar à prisão pelas falcatruas sucessivas, que lhe têm vindo a ser atribuídas.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Semana de sessenta horas de trabalho na Áustria


A aprovação pelo parlamento austríaco de uma nova lei, que, a partir de 1 de setembro, prolonga o dia de trabalho até às doze horas e a semana até às sessenta horas, demonstra bem ao que vêm as extremas-direitas, quando abocanham os governos da Europa oriental.
Os sindicatos prometem forte contestação mobilizando para ela a grande maioria dos que deram o ensejo de se ter criado tal situação política: não podemos ignorar que têm sido os operários e quem se situa nos extratos mais baixos das populações desses países a deixarem-se iludir pelos benefícios prometidos pelos populistas, que agora lhes dão tal «benesse».
Como na política também se verifica o efeito da lei de Arquimedes estou otimista quanto à forte resposta que esses governos merecerão por parte dos seus eleitores, tão inesperadamente confrontados com o lado sombrio das suas escolhas idiotas.

Quando faltam incêndios, existe o caso de Tancos sempre à mão


A falta de incêndios, que encham telejornais em época de defeso da política e dos futebóis, e deem o ensejo a selfies e abraços a quem neles se especializou, leva as direitas a andarem num virote quanto ao que possam agarrar para iludirem o seu estado moribundo. Por isso pegam na história do roubo de Tancos, querendo fazer crer que cabe ao ministro da Defesa dar respostas satisfatórias sobre o sucedido.
É claro que sabem de sobra, que o caso está sob investigação do Ministério Público e que será este a encontrar os autores do delito, mas prosseguem numa mistificação suficientemente contraditória para igualmente pouparem das responsabilidades o Comandante Supremo das Forças Armadas, que assume nesta história o papel daqueles emproados titulares de cargos, ufanos em se esticarem todos quando se trata de auferirem as correspondentes honras do cargo, mas se furtam de mansinho, quando devem responder pelos comprometidos fracassos da sua tutelada instituição.

Sinais contraditórios de audições falhadas


A presença de Manuel Pinho nos noticiários desta terça-feira justifica algumas constatações que, nalguns casos, podem parecem contraditórias. Alinhemo-las por agora sem lhes dar um sentido definitivo quanto ao que representam:
- confirma-se a incompetência gritante do Ministério Público e dos atores da Justiça em geral, quando convocam o antigo ministro como arguido e desrespeitam anterior decisão judicial, que impedia os procuradores em causa de o fazerem;
- constata-se a vontade reiterada das direitas em cavalgarem a onda populista suscitada pelas notícias chocantes a respeito do ex-ministro sabendo de antemão, que ele escudar-se-ia legitimamente no segredo de Justiça para a nada responder de substancial;
- existe nalguns setores da vida nacional, representados pelo inquirido em causa, a vontade reiterada de acabar com o serviço público de audiovisual (RTP, RDP) fazendo crer que a sua subsidiação justifica a elevada fatura da eletricidade;
- lamenta-se a vontade de protagonismo de quem há muito justificou perdê-lo - Ana Gomes e João Cravinho - quando se põem em bicos dos pés e se fazem convidados para uma «festa» onde nada justifica a sua presença;
- mantêm-se as fortes suspeitas de, até muito recentemente - e as privatizações de Passos Coelho ainda são fruto dessa cultura -, grandes interesses privados colocarem os seus homens de mão nos governos para daí melhor criarem as condições, que lhes potenciassem maiores e mais obscenos lucros conseguidos à custa do prejuízo da grande maioria dos cidadãos.
Colateralmente houve ainda a audição a um professor do Técnico, Clemente Pedro Nunes, que se limitou a confirmar a existência nessa universidade de um núcleo duro de defensores da tese da inexistência de problemas climáticos («histórias da carochinha», assim as classificou o dito «especialista»), que tornariam absurda a aposta em energias renováveis. Razão para comprovar que não é só na América de Trump que existem estarolas dessa espécie...

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Entre desempregos de longa duração e falhanços sempre piores


Este fim-de-semana, além de ser o da comemoração de mais um aniversário, também foi um daqueles em que ficar em casa se tornou obrigatório pelos incómodos de uma antipática gripe. Agarrado aos lenços para, em vão, desentupir o nariz, vivi acessos lacrimejantes, mormente na altura em que estava a ler a compadecida reportagem do semanário de Balsemão sobre a triste desdita de um desempregado de longa duração a quem, apesar das conhecidas competências, ninguém quererá dar nova oportunidade seja lá onde for. Por momentos tive de operar o exercício introspetivo: será que estou a ser levado pelo tom de fazer chorar as pedrinhas da calçada com que os jornalistas adornam os dias presentes de Zeinal Bava? Feita a análise concluí que (in)suportava por essa altura uma das fases mais gravosas da súbita doença, porque acaso assim não fosse bem teria de arranjar melhor esconjuro...
A leitura do jornal em causa é sempre edificante e não compreendo como há quem dele diga cobras e lagartos, fazendo tenção de não o ler. É que perderia, por exemplo, a confissão angustiada de Ricardo Costa que, na sua crónica, terá por certo presente o resultado da sondagem sobre a satisfação dos portugueses com a atual maioria parlamentar e quer-se convencer a si mesmo, ainda que aparentando ter por objetivo sossegar outros angustiados detratores desta solução governativa, sobre o quão extemporâneo é olhar para tais indicadores e concluir pela inevitabilidade de nova e mais robusta vitória das esquerdas em 2019.
Angustiado também se confessa Marcelo Rebelo de Sousa pela pena da sua oficiosa porta-voz no mesmo semanário - Ângela Silva - que dá conta do seu desagrado a respeito do secessionismo de Santana Lopes a quem pretenderá travar antes de causar pior dano ao seu já combalido campo ideológico. E, porque o que tem de ser tem muita força, Marcelo manda dizer aos prosélitos, que cuidará de António Costa passados dois anos sobre a sua re-vitória eleitoral, tempo por ele considerado necessário para que o campo contrário se organize e o possa enfrentar em eleições antecipadas.
Como de costume está aqui a funcionar o wishful thinking de Marcelo, que joga póquer com cartas sem saber quais terá então na mão. Até porque, nessa altura, já será provável um reanimar da esperança internacional com novo inquilino na Casa Branca - desejavelmente inquilina naquela que é a minha aposta: Elizabeth Warren! - e, sobretudo com o refluxo das extremas-direitas, todas elas a contas com crises difíceis de gerir com as falaciosas soluções, que visivelmente o não são. Como a política é feita de fluxos e refluxos, depois desta moda de sucessos criptofascistas, será altura de um ressurgimento das esquerdas tal qual já se verifica aquém-Pirenéus.
É nessa perspetiva, que se torna anedótico o percurso errático de Santana Lopes. Ele quase imita o guarda-redes francês na forma como propicia golos na própria baliza. Anunciando-se eurocético e populista, julga incontornável a onda reacionária, que varre o resto da Europa e ambiciona cavalgar a onda, que espera ver aqui chegar. Ele é a negação da célebre máxima de Samuel Beckett falhando sempre e cada vez pior...

domingo, 15 de julho de 2018

Para acabar de uma vez por todas com o uso de um chavão da direita


Há um par de anos, num dos debates da Universidade de Verão da Forum Manifesto, Pedro Nuno Santos foi veemente na recusa do termo «geringonça» para qualificar a maioria parlamentar, porque não deveriam ser os defensores da nova solução governativa a deixarem-se contaminar pela forma depreciativa como a eles se tinham referido Vasco Pulido Valente, e, depois, Paulo Portas.
Por concordar em absoluto com o político com quem mais me identifico no meu Partido sempre me tenho escusado a alinhar na referida terminologia. E, por isso mesmo, estou totalmente consonante com J.M. Nobre Correia, que veio recordar no facebook, o que sobre o assunto escreveu no seu livro «Teoria da Informação Jornalística» , recentemente publicado pela editora Almedina:
“[…] Assim, em Portugal, é jornalisticamente inaceitável que jornalistas e média se refiram ao XXI Governo Constitucional, apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda, ou a esta maioria parlamentar, utilizando o termo claramente depreciativo de «geringonça», termo que tem por origem um «comentador» e um líder político pertencentes à área da direita mais conservadora. Recordemos aqui a definição da palavra «geringonça» que nos propõe o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado: «coisa mal feita que se desfaz facilmente; qualquer coisa mal feita, armada no ar». Ou, mais recente, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «coisa mal engendrada, tosca, mal feita e que ameaça partir-se ou dar de si». Ou, mais recente ainda, a do Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «coisa mal feita e que se escangalha facilmente». Definições que põem em evidência as características negativas de tal «coisa». Desde logo, evocar o governo ou a maioria parlamentar utilizando o termo «geringonça» constitui, no mínimo, a prova da ignorância que reina entre muitos profissionais do jornalismo no que diz respeito ao conhecimento da semântica da língua portuguesa, ou é então a prova de uma vontade deliberada de propor uma conotação negativa à experiência política iniciada em novembro de 2015 […]"
Perante tais argumentos ainda fará algum sentido que, entre os defensores desta solução governativa, haja quem continue a citar tão desqualificados spin doctors? É que o respeito começa por o termos por nós mesmos e nestes mais de dois anos e meio a atual maioria parlamentar tem dado sobejas provas de ser muito mais do que essa coisa mal feita que se escangalha facilmente. Não só foi superiormente concebida como mostrará a sua solidez até ao fim da legislatura.

sábado, 14 de julho de 2018

SNS: indicadores não enganam, mas dispensava-se-lhe um vírus!


No debate de ontem sobre o Estado da Nação Jerónimo de Sousa e João Oliveira referiram por duas vezes a conspiração, que as direitas, e os interesses privados que as manipulam, estão a lançar contra o Serviço Nacional de Saúde, contando para tal com as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros e alguns Sindicatos - nomeadamente o SIM -, que estão totalmente controlados por gente dessa área ideológica. Daí as notícias quotidianas sobre disfuncionalidades nos hospitais públicos, destinadas a desmotivar os utentes de os procurarem, indo assim engrossar os lucros significativos dos que pertencem a grandes grupos económicos privados.
E, no entanto, os números não enganam: depois de quatro anos de desinvestimento intencional do governo de Passos Coelho no setor - sem que então os médicos, os enfermeiros e outros contestatários de agora tivessem levantado o pio! - todos os indicadores estão em alta: concretizaram-se mais 302 mil consultas e 19 mil cirurgias; 700 mil utentes passaram a ter médico de família reduzindo-se de 15% para 7% os que ainda o não têm; abriram-se novas 55 Unidades de Saúde Familiar; oito mil novos profissionais foram contratados; e 1,4 mil milhões de euros foram acrescentados no orçamento para reforço dos hospitais-empresa.
Quer isto dizer que está tudo bem na saúde? Claro que não, porque cumpre-se aqui a regra de ser bastante mais rápido destruir algo que existe do que reconstrui-lo depois de anos sucessivos a cumprir o programa das direitas de reduzir o Estado tanto quanto possível, deixando as suas funções entregues a quem as pudesse transformar em negócio. Ademais a população vai envelhecendo, os doentes vão exigindo legitimamente o acesso a medicamentos mais caros, capazes de curar o que ontem era dado como letal, e  as pressões são muitas - nomeadamente da Comissão Europeia! - para que se reduzam os custos com a Saúde, mesmo que isso signifique o aumento dos encargos das famílias.
Continua, igualmente, a ser incompreensível - e o Bloco trouxe o assunto à baila no mesmo debate - porque se entregou a uma lobista desses mesmos interesses privados a definição da nova Lei de Bases, atirando para o caixote do lixo o excelente trabalho feito por João Semedo e António Arnaut. Como pôde o PS desautorizar assim uma das suas mais admiradas personalidades, para sempre lembrado por ter sido um dos principais criadores do SNS?
Para quem - como acontece comigo! - jamais perdoará a Maria de Belém o seu lamentável papel em facilitar o acesso de Marcelo ao Palácio de Belém - essa sinecura indigna justifica sérias apreensões sobre o quanto o seu trabalho permitirá recuperar o SNS ou contribuirá para o secundarizar em proveito dos interesses, que ela tem representado ao longo destas últimas décadas.
Como socialista defendo o trabalho feito até aqui pelo Governo, mas peço que seja melhorado e sobretudo purgado de quem nele aparece como vírus, mais do que como eficaz antibiótico!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Se não se pode exterminá-lo, pode-se ao menos pô-lo a léguas?


A grande vantagem da estratégia comunicacional de Trump em relação à de Obama é que torna bastante mais claro aos europeus os desejos há muito escondidos pelo Pentágono. A mudança de Administração veio revelar com outra crueza o que se suspeitava em relação à nova fase da natureza imperialista de quem manda em Washington: que além-Atlântico existe a intenção de recuperar a situação de 1990, quando o tonto Gorbatchev entregou a Reagan, de mão beijada, a possibilidade de ser a única superpotência a mandar no planeta, fragilizando simultaneamente todos os seus principais concorrentes económicos e financeiros: a Rússia, a China e a União Europeia.
Por arroubos nacionalistas? Nem pensar: há muito que os presidentes norte-americanos só são eleitos se contarem com os importantes apoios financeiros da banca de Wall Street, das multinacionais petrolíferas e do gás natural e do complexo industrial-militar de que falava Eisenhower com confessada inquietação. Não se trata da tentativa de impor uma pax americana, mas de potenciar por seu intermédio os obscenos lucros dos seus «acionistas» e «investidores».
Quando se submete aos Estados Unidos para manter essa coisa absurda chamada NATO, os países europeus estão a pôr-se de cócoras perante quem mais os querem prejudicar no âmbito da distribuição dos rendimentos do comércio mundial. A declaração de guerra que Trump tem continuamente lançado contra o Canadá, o México, a China e a Alemanha deveria levar os líderes europeus a repensarem se são assim tão importantes as suas tão louvadas «cumplicidades» transatlânticas.
Ademais, já não se contentando com 2%, e exigindo que os parceiros europeus aumentem para 4% dos respetivos PIB as despesas militares, Trump mais não faz do que estender aos europeus as exigências já feitas aos japoneses para que reservem mais dinheiro da riqueza produzida para que importem da indústria militar norte-americana os gadgets tecnológicos, que o levam a equiparar a guerra a um qualquer videojogo.
Que esperam os europeus para se distanciarem atempadamente de quem apenas se finge de amigo para melhor os linchar?

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Acabado o espetáculo mediático nada mudou de substantivo na nossa realidade


Teria sido bom que o caso dos miúdos tailandeses, fechados numa gruta com o seu treinador, suscitasse um salto qualitativo no que muito subsiste em falta na comunidade internacional: o sentido da solidariedade. E, aparentemente, até se pode apostar que tal haja sucedido, se ignorarmos a indiferença a que continuam a ser votados os desgraçados mortos diariamente no percurso entre os seus países subsarianos, asiáticos ou do Médio Oriente e uma Europa, que se convenceram assemelhar-se ao El Dorado.
À mesma hora em que milhões se enterneciam com o salvamento dos miúdos, quantos estavam a morrer nas areias do Saara, a serem abatidos como gado pelos traficantes que os escravizam, ou a afogarem-se no Mediterrâneo? Quantos miúdos da mesma idade estavam a ser assassinados para alimentarem o abjeto comércio dos órgãos a serem transplantados nas clínicas ocidentais? E, no entanto, as televisões de todo o mundo embolsaram milhões em publicidade à conta da exploração do sofrimento por que passavam aquelas treze vítimas potenciais alavancado pelas palavras exageradamente emotivas dos que o relatavam?
Vivemos tempos singulares: o capitalismo neoliberal cuidou de criar uma tal individualização, que torna os espectadores televisivos fácil presa de situações talhadas para com elas se identificarem , masturbando-se com a ideia do que fariam se estivessem em tais circunstâncias. A competitividade torna-se tão intensa e focada numa falaciosa versão da meritocracia, que a grande maioria enquadra-se numa tribo própria, a quem são devidos todos os direitos em detrimento dos que não tenham cabimento no seu subgrupo. Aceitando subdividir-se em clãs sem qualquer importância no todo social, distraem-se da pertença ao que pode, efetivamente, gerar a diferença. Um operário conseguirá mais se se unir aos seus iguais ou se gastar energias a defender acefalamente o seu clube de futebol? Um português conseguirá ter mais benefícios das políticas internacionais se pugnar só pelos seus interesses ou se os conjugar com os de outras nacionalidades sujeitas aos mesmos constrangimentos?
É essa lógica de tribalização que leva os europeus a acharem-se no direito de negar o acesso dos pobres do Terceiro Mundo ao seu espaço geográfico, por não serem brancos, nem cristãos, mesmo que oriundos de sítios onde as matérias-primas dali esbulhadas justificaram muita da riqueza com que talharam a sua invejada qualidade de vida.
Mas os exemplos podem ser escalpelizados em muitos outros casos, para redundarem no mais obsceno de quantos assistimos: o enriquecimento ininterrupto da pequena tribo dos muito ricos à escala global, mesmo que à custa do empobrecimento da grande maioria dos que veem como pertencentes a outro universo que não o seu.
O capitalismo tem sido muito eficiente na divisão entre os que se deveriam unir para, em conjunto, virarem do avesso o sistema que os explora e humilha. A Solidariedade, ou a sua sinónima generosidade, foram-se perdendo à medida que se esqueceram as lições fundamentais, ainda há meio século tidas como óbvias. O individualismo com o correspondente egoísmo minou a preocupação genuína com a má sorte alheia, apenas iludida por espetáculos mediáticos como o agora concluído. E, sobretudo, fizeram-nos distrair da necessidade de conjugarmos as vontades das maiorias para tornarmos este planeta mais justo dentro dos constrangimentos definidos por quanto há a implementar para o tornar sustentável para as próximas gerações.

(S) Lucrecia Dalt: «Edge»

Não é a energia renovável que é cara


Tem acontecido ultimamente uma autêntica emissão de poeira para os olhos dos portugueses, pretendendo associar os elevados custos da eletricidade às decisões tomadas por governos socialistas, nomeadamente pelo de José Sócrates na aposta pelas energias renováveis.
No «Público» de ontem, o dirigente bloquista Jorge Costa assina um texto a denunciar um outro, anterior, de Aníbal Fernandes, que integrava o objetivo de manter lucros obscenos para quem vem lucrando com uma situação particularmente da responsabilidade do governo de Passos Coelho.
Em primeiro lugar Costa denuncia a falta de escrúpulos de quem assina um artigo enquanto parte interessada quanto ao que sobre o assunto vier a decidir-se: “Aníbal Fernandes é sócio de Carlos Pimenta no fundo Novenergia, que está a tentar vender a empresa Generg (488MW renováveis em operação em Portugal) a uma estatal chinesa.”
A seguir Jorge Costa desmascara a falácia dos que pretendem denegrir as energias renováveis, que seriam em si mesmas as responsáveis pelos elevados custos que os consumidores pagam pela eletricidade: “se esta energia fosse vendida em Portugal aos preços médios que os produtores como a EDP-R praticam noutros países, os portugueses pagariam menos 400 milhões de euros ao ano (um terço de todo o sobrecusto da produção renovável). O que é caro não é a energia renovável, é mesmo a renda excessiva.” Isto quer dizer que se vigorassem em Portugal os preços espanhóis, a fatura anual diminuiria em média 60 euros.
Significa isto que os subsídios ainda pagos aos donos das centrais de energia renovável decorrem delas ainda não estarem totalmente amortizadas? Mentira! Esse subsídio garante um lucro excessivo, que não há razão para ser mantido. No entanto o governo de Passos Coelho, através do seu ministro Santos Pereira (sim, o dos pastéis de nata!) tomou a decisão de, em 2013, prolongar esse período de subsidiação que, a não ser revertido, implicará um custo adicional aos consumidores de mais de mil milhões de euros entre 2020 e 2027.
O que tem estado em discussão nos dias mais recentes é o da legitimidade das empresas detentoras de centrais de energia renovável usufruírem de elevadíssimas rendas, ou se, pelo contrário, elas devem ser suprimidas como forma de melhorar a competitividade da economia nacional através da redução de um dos seus mais importantes custos de produção e reduzir os encargos dos consumidores.
Como conclui muito justamente Jorge Costa, “que este tema se torne um debate nacional, eis o que realmente preocupa os rentistas.”

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Governar entre as escolhas possíveis e as restrições vindas de Bruxelas


«A divergência europeia» é o título do texto publicado por Sandra Monteiro na edição deste mês do «Le Monde Diplomatique», de que é diretora.  Escrito na sequencia do fracasso do Conselho Europeu do final do mês passado o artigo constata não se terem vislumbrado quaisquer propostas de correção dos desequilíbrios estruturais, que seriam tão necessárias para evitar o que se vai comprovando: o projeto europeu converte-se progressivamente numa má solução para «o desenvolvimento sustentável e socialmente justo, de muitos dos seus países-membros.»
A autora descarta qualquer benefício da eventual aprovação de um orçamento da zona euro se ele continua a obrigar-nos a conter, se não mesmo a reduzir, as despesas com os serviços públicos, nomeadamente na área da saúde. Tanto mais que, paralelamente, existe a pressão do aumento da despesa com o esforço de militarização em curso, e que leva Trump a exigir que os países da NATO dupliquem em média esse contributo.
Para além de não se ver qualquer justificação para continuar a existir uma Aliança militar, que encontrava fundamento na existência da, entretanto dissolvida, estrutura oposta - o Pacto de Varsóvia - seria bom que os países membros da Nato exigissem, no mínimo, ter a capacidade de decisão correspondente ao seu contributo. Ora, os Estados Unidos decidem a seu bel prazer qual a estratégia da organização e ainda vêm exigir que lhes paguemos para lhes servirmos de moços de recados.
O que se está a passar com a União Europeia, mormente com a crise de acolhimento aos refugiados e da sua integração solidária, mais não é do que o prenúncio da fragmentação, que ameaça todo o edifício burocrático e disfuncional, alavancado, sobretudo, pela apressada integração dos países outrora subordinados à influência soviética, e hoje dirigidos por fascistas despudorados.
Quando António Costa alerta para a impossibilidade de, nas escolhas que faz como governante, não haver disponibilidades financeiras para satisfazer todas as exigências, move-se num quadro de condicionalismos restritivos, que tem Bruxelas como indesejável tutor. Por isso mesmo Sandra Monteiro conclui o artigo com este alerta: «quando as escolhas que estão disponíveis são demasiado restritivas, senão trágicas, convém questionar o próprio quadro que as cria, sob pena de se participar ativamente no afunilamento do campo dos possíveis e de se ficar reduzido ao papel de rolo compressor  de expetativas.”