segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Os impostores que pairam por ai


Quando constatamos que cerca de 30% de inquiridos pelos institutos de sondagens confessam a predisposição para votarem por um dos partidos da direita, questionamo-nos se um em cada três portugueses beneficiou com as políticas austericidas implementadas á boleia do alibi da troika ou se muitos deles continuam vítimas da impostura de um discurso, que contraria os seus verdadeiros interesses?
E que dizer dos que iludem as mentes dos italianos, fazendo-lhes crer que todos os seus males derivam da excessiva presença de emigrantes e que tudo melhorará se os expulsarem. Vivemos numa sociedade de impostores, seja a coberto de discursos nacionalistas, populistas ou abertamente fascistas.
Cada sociedade tem os impostores que merece, porque é-lhes natural apresentarem-se como mártires da comédia social. Eles são verdadeiras esponjas vivas, que absorvem os valores, que organizam o drama social. A forma como hoje se calibram os comportamentos favorece as estratégias de camuflagem ligadas à impostura.
 Jean François Lyotard costumava dizer que hoje vivemos numa realidade em que importa não perder tempo. Ora, tendo em conta que pensar acarreta isso mesmo, o importante parece ser dispensarmo-nos de o fazer. Hoje todos os dispositivos de iniciação social, entre os quais a educação, estão concebidos para que economize o tempo dedicado ao pensamento. Tanto mais que ele acarreta angústia e incerteza. Porque decidir significa renunciar a algo e detesta-se renunciar. Hoje os discursos dominantes, que formatam a opinião pública, abandonaram as grandes narrativas, fossem elas políticas ou religiosas, para se centrarem nos indicadores quantitativos definidos pelas agências de notação financeira. Só conta o que se puder financeirizar, transformar em receita monetária.
Estamos ligados a uma cadeia de produção de comportamentos num sistema definidor do lugar que devemos ocupar para desempenharmos um papel funcional e que nos não obrigue a pensar. O grande problema das nossas sociedades tecnologicamente avançadas é mesmo esse: o de sermos «poupados» a conjeturar o que quer que seja, porque se espera de nós o mero cumprimento das rotinas e dos comportamentos correspondentes a esse enquadramento social e profissional. A técnica só nos exige uma execução.
Hoje continuamos sem viver numa verdadeira Democracia, porque confiamos o cumprimento das nossas aspirações a «especialistas»: os políticos eleitos para decidirem em nosso nome. Funcionamos em função das pressões dos lobbies, que se apoderam das opiniões públicas e transformam as eleições em meras sondagens periódicas sem conexão verdadeira com a participação efetiva de todos os cidadãos nas decisões coletivas.
As nossas sociedades tornam-se cada vez mais normativas, controladas, fazendo de cada um de nós uma peça na  produção coletiva. Guy Debord dizia que vivemos numa sociedade do espetáculo, que é o exato oposto dessoutra que era, ou podia ser, a do diálogo permanente.
O impostor é aquele que sabe adaptar-se às expetativas dos outros. Consoante as épocas, vão alterando os discursos com que iludem as vítimas. Respondem a uma espécie de encomenda inconsciente daqueles que o ouvem. Na sociedade de adaptação, que é a nossa, o impostor move-se como o peixe na água.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os efeitos da globalização na Austrália


Em 1948 o governo australiano promoveu a criação de uma marca automóvel, a Holden, que se tornaria num dos símbolos identitários do país. Desde então famílias inteiras, de avós a netos, trabalharam na fábrica de Adelaide e alimentaram um enorme orgulho por constituírem uma espécie de aristocracia operária na região.
Setenta anos depois, a General Motors, que comprara entretanto a marca, decidiu fechar a fábrica, no âmbito de uma decisão economicista tomada à boleia da campanha de Trump para dar preferência à produção nos Estados Unidos.  De um dia para o outro houve, para os que se viram subitamente no desemprego, a sensação de se verem despojados de algo de fundamental em si.
O fecho da fábrica Holden aconteceu ao mesmo tempo do que a da Toyota, o que significou o fim da produção de automóveis na Austrália. Algo que não incomoda o governo de direita, que aceita sem qualquer reação o efeito perverso da globalização: se no Vietname, na Tailândia ou na China, se produzem carros mais baratos para quê produzi-los na Austrália?  Mesmo que a indústria em si não se limitasse nos efeitos do que se produzia nas suas fábricas, porque muitos outros empregos se tinham criado a montante, com o fornecimento de componentes, ou a jusante, com todos os comércios viabilizados pelo consumo de tantas famílias.
Não admira que, virando costas aos dois partidos principais, o eleitorado tenda a deixar-se seduzir por réplicas locais do atual inquilino da Casa Branca, que adaptam o discurso para algo do género «A Austrália em primeiro lugar». E para isso invocam a circunstância de se reduzir cada vez mais o peso dos produtos manufacturados nas exportações de um país, que passou a se limitar à venda de recursos minerais ao exterior.
Por ora há quem se surpreenda com a passividade dos operários da Holden ao terem-se deixado cair no desemprego sem sequer contestarem. Mas, num país onde o desemprego ainda não chega aos 6%, a revolta relativa à falta de oportunidades ainda não é significativa. Ademais, tendo sempre adotado uma pose arrogante em relação aos operários de outras atividades, os da Holden eram por eles invejados, vistos com rancor. Como contar então com eles para reivindicarem do governo a preservação de direitos e regalias, que durante décadas tinham sido exclusivamente seus?

A África do Sul, trinta e três anos depois


Há trinta e três anos a repórter francesa Martine Laroche-Joubert foi fazer uma reportagem na África do Sul, acompanhando as mulheres brancas de uma organização muito ativa na luta contra o apartheid. A peça, então transmitida na televisão francesa, mostrava a odiosa violência cometida pelas autoridades policiais contra miúdos de 12 e de 14 anos, que haviam sido encarcerados por participarem em manifestações contra o regime.
Agora Martine regressou a Capetown ao encontro de uma das militantes de então, que lhe serviu de guia para ir ao encontro das antigas companheiras e dos miúdos então entrevistados.  Todos eles adultos, é com emoção que recordam como eram nesse tempo longínquo em que era quotidiana a repressão musculada contra a população dos bairros onde viviam. E festejam o reencontro com as mulheres, cuja coragem e determinação, lhes demonstrava que, mais do que uma questão de cor, o que efetivamente os oprimia era uma forma de encarar a organização da sociedade.
As feridas, porém, tardam em cicatrizar: subsiste um enorme fosso entre os que têm tudo e os que nada possuem, a começar pelo emprego, bem escasso, só acessível a uma parcela insuficiente da população. Daí a violência decorrente de, para muitos, não existir outra forma de angariarem sustento. Mas, em brancos e negros, converge a esperança na liderança de Cyril Ramaphosa como provável futuro presidente do país, pondo fim à repulsiva corrupção de Jacob Zuma, que tarda em ceder o cargo a quem o cumpra com outra competência e transparência.
É um dos mistérios que não tem explicação: porque será que Mandela escolheu para sucessor o ineficaz Thabo Mbeki em vez de Ramaphosa, já então tido como o mais indicado para lhe suceder? Dá ideia que, só em breve, a África do Sul poderá reatar com as expetativas de esperança, que o fim do apartheid chegou a suscitar em quase todos quantos o receberam com alegria.

Os disparates que também vêm de outras paragens


Para mitigarmos a desconfiança quanto a vivermos num país dado ao anedotário, tendo em conta a simpatia presidencial pelas torradeiras e a conceção cardinalícia sobre a sexualidade dos recasados, podemos olhar lá para fora e compensarmo-nos com os exemplos alheios. Por exemplo, nesta sexta-feira entrou em vigor uma nova lei na Rússia, que interdita aos polícias a possibilidade de pararem, obrigarem a testes de alcoolémia ou passarem multas a juízes. De facto o direito civil do país de Putin permitirá que, doravante, os juízes possam conduzir completamente bêbedos sem temerem quaisquer problemas legais.
Quando julgávamos que os nossos juízes já dispõem de demasiado poder, o exemplo russo demonstra-nos que os carlosalexandres desta vida ainda poderão sonhar com mais umas quantas regalias, que nem lhes passaria pela cabeça exigir.
De outro tipo é a história em torno de Todd Rogers, o até há pouco recordista mundial do jogo Dragster a quem se homologara o tempo de 5,51 segundos para percorrer a pista. Segundo o que se sabia esse desempenho ocorrera em 1982 e nunca mais ninguém se lhe conseguira igualar. O problema foi ter aparecido quem, agora, desconfiando da veracidade de tal resultado, tivesse virado toda a programação do jogo do avesso concluindo que é humanamente impossível fazer melhor do que 5,57 segundos.
Analisadas as circunstâncias em que o record fora alcançado - apenas na presença de um amigo do «campeão» -, concluiu-se ter sido um exemplo clássico de fraude.
Bem mais sinistra é a proposta da Amazon, que começou a comercializar um tipo de pulseira destinada às entidades empregadoras, que queiram ter uma vigilância contínua sobre os seus empregados. Segundo o «New York Times», podem assim controlar o tempo por eles «desperdiçado» na casa de banho ou noutro qualquer tipo de pausa.
A escravatura moderna vai atualizando métodos bem conhecidos nos aplicados séculos atrás, quando a civilização negreira andava no seu auge.
Mas concluamos com uma estória engraçada e passada há mais de meio século, quando um jornalista procurou do primeiro-ministro chinês Chou En-lai o que pensaria se, em vez de John Kennedy, tivesse sido Nikita Kruschev a ser assassinado.
O austero marxista Chou não acreditava que meros acontecimentos pessoais alterassem a História. Por isso redarguiu com uma bem humorada ironia: "Bem, penso que dificilmente Aristóteles Onassis teria casado com a senhora Khrushchev." 
Adivinha-se a cara de espanto do entrevistador perante a forma como Chou correspondera com tão perspicaz inteligência a uma pergunta estúpida.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Mas temos mesmo de os aturar?


Gostava de ser mais novo, mas a idade já me é suficiente para ainda ter passado pelo indesejado «privilégio» de ter assistido a um discurso ao vivo do «venerável» presidente Américo Thomaz. Foi na abertura do ano escolar 1973 na Escola Náutica Infante D. Henrique, com os pides no fundo da sala a espreitar o comportamento dos alunos para impedirem que algum ousasse algo semelhante ao que, anos antes, Alberto Martins tinha pretendido fazer na Universidade de Coimbra.
Os mais sagazes de entre nós aproveitaram a oportunidade para escalpelizar as palavras lidas pelo orador na expetativa de nelas encontrar algum disparate, que se acrescentasse à comprometedora antologia de que ele era autor. O risco de dar a palavra ao último presidente do Estado Novo era que, sem a rede de proteção da que constasse no discurso escrito, ele saísse com uma daquelas involuntárias boutades, que constituíam absurdas anedotas.
Se julgávamos que, com fatias de bolo-rei de permeio, a sucessão de Thomaz tinha sido garantida por Cavaco Silva, o atual titular do cargo tem andado a mostrar-se perigoso concorrente do antecessor, ameaçando ultrapassá-lo pelo número de vezes e pela qualidade das anedotas de que começa a ser repetido criador. Caso para perguntar se, apesar de comprovadamente bom cirurgião, Eduardo Barroso não terá mexido em algo de mental, quando cuidou da hérnia do seu mais dileto paciente.
Se o discurso aos economistas da COTEC pareceu cingir-se a uma miopia política, que o levava a atribuir louros pela atual situação económica a quem, na realidade, os não merecia (Passos & Cª), a ideia peregrina de propor a um sem abrigo, que se abastecesse em pão no balcão em que repetia mais um dos seus números clownescos, raiou o absurdo thomaziano ao aludir-lhe a possibilidade de o poder utilizar na torradeira.
A anedota presidencial é risível, mas tem a ver com a sua desqualificação absoluta para o cargo a que ascendeu à conta de anos e anos de autopropaganda nas televisões privadas. Apesar de ter andado a distribuir beijos, abraços e selfies na campanha presidencial, ele não chegou a conhecer verdadeiramente o país. Porque como interpretar doutra maneira a sua surpresa por existirem muitos mais sem-abrigo do que julgava? Em que país julgava viver? Que efeitos imagina terem sido suscitados pelo governo de Passos Coelho, apesar de lhe continuar a louvaminhar os «méritos»?
Mas os disparates thomazianos não se ficam pela mais alta figura na hierarquia do Estado. Também a da igreja nacional, lhe compete no dislate: a sugestão de abstinência formulada por D. Manuel Clemente para os casais recasados só pode ser explicada pela idiotice de quem a formula. Porque, se não fosse para colherem o melhor da relação conjugal, para que esses casais se consorciavam?
Estamos a viver tempos estranhos em que, a par da inteligência de alguns dos nossos protagonistas políticos - com António Costa a liderá-los - também nos vemos incomodados com a lerdice de uns quantos outros.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Ambientes poluídos


Do «Correio da Manhã» conhecemos a criminosa falta de escrúpulos, que norteia a sua atividade desinformativa a que, muito justamente, José Sócrates qualificou de «jornalismo de sarjeta». Poderíamos, por isso mesmo, supor que os negócios do seu dono, Paulo Fernandes, teriam o mesmo tipo de característica. Pois se ele consente nos despautérios de Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso sem lhes exigir um mínimo de decência, está-se mesmo a ver que os serventuários apenas replicam o «modus faciendi» de quem lhes paga e cobre os costados.
O sucedido com a Celtejo tende a confirmar isso mesmo. Empresa pertencente ao grupo Cofina, ela é a mais que certa responsável pela poluição, que matou a fauna num trecho importante do Tejo a jusante de Vila Velha do Ródão, com uma descarga que, quem a fez, julgou facilmente diluível no abundante curso do rio, esquecendo-se que a seca denunciou o que antes disfarçava. E, porque a recolha de provas poderia demonstrar essa responsabilidade, sem possibilidade de refutação em Tribunal, mão clandestina incumbiu-se de, durante três dias seguidos, sabotar a operação, obrigando a repeti-la depois já com cobertura policial.
Quem pretendeu omitir essas provas terá esperado que os resultados da tardia amostra já possam facilitar-lhe a contestação, que não deixará de alimentar enquanto for possível. A água entretanto chegada de montante terá reduzido significativamente a dimensão da poluição ali verificada anteriormente. Mas se o «Correio da Manhã» é tão lesto a tornar culpado quem nenhum tribunal comprovou sê-lo, nós podemos também imitá-lo na convicção de ter sido, efetivamente, a Celtejo a fazer a descarga culposa. Até porque as análises às outras empresas de celulose da zona - que, ao contrário das da Celtejo, não desapareceram por «artes mágicas» - demonstrou-as a funcionarem de acordo com os padrões regulamentares.
Esperemos, pois, que os magistrados, enviados para investigar o crime de sonegação de provas, sejam eficientes e mostrem-se isentos tendo em conta as fundamentadas suspeitas de muitos sobre as relações de promiscuidade entre o jornal de Paulo Fernandes e a Procuradoria-Geral da República.
Positiva é, para já, a unanimidade verificada no Parlamento com todos os partidos a convergirem na urgência de medidas urgentes para a redução da carga poluidora no Tejo, seja através da revisão das licenças ambientais para nele operarem, seja numa maior fiscalização da sua atividade. Esperemos que isso baste para que o rio volte a ter a riqueza piscícola de outros tempos e permita nele nadar sem riscos para a saúde.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

«Historiadores» da treta e as contínuas provocações dos magistrados

Nos anos mais recentes apareceram na praça pública uns «historiadores» execráveis, que publicações como o «Expresso» ou o «Observador» se incumbiram de promover como se fossem luminárias, mas mais não se têm revelado do que execráveis manipuladores da História para que ela lhes sirva de caução à ideologia profundamente reacionária de que estão imbuídos. Rui Ramos, Maria Fátima Bonifácio e Helena Matos são os ponta-de-lança de uma escola de pensamento, cujos escritos, além de constituírem veementes insultos à inteligência de quem os lê, estão eivados de um ódio descontrolado contra a atual maioria parlamentar.
Num vómito hoje inserido no «Público», a Bonifácia não só consegue branquear a provocação do Ministério Público contra Mário Centeno, como desenvolve uma soez catilinária contra o deputado socialista Porfírio Silva, que falsamente se insurgira contra Joana Marques Vidal, pois limitara-se a partilhar um texto assinado por um conhecido jurista em que, de facto, essa posição era transmitida.
A megera - que quase faz de João Miguel Tavares, ideologicamente na mesma área de extrema-direita, um gentleman - cuida assim garantir que o mandato da ainda procuradora será renovado. É caso para considerar que são tantas as razões para que a criatura leve um pontapé no dito cujo e seja devolvida ao anonimato de onde nunca deveria ter saído, que argumentos complementares pareceriam desnecessários. Mas se a Bonifácia a quer, que a leve consigo para onde quer que seja, conquanto uma e outra nos deixem de assombrar a tranquila existência a que tivemos direito desde que esta maioria parlamentar fez de Passos Coelho um merecido “has been”.
Mas que o Ministério Público ainda continua a revelar-se virulento na conduta, prosseguindo atividade manifestamente provocadora em relação aos interesses dos portugueses, revela-o o mandato de captura contra o ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente, numa altura em que os nossos diplomatas tentam tratar do caso com justificados caldos de galinha. Os riscos impostos pelos magistrados em causa aos nossos compatriotas, que trabalham em Angola, ou ali têm negócios, revela bem como os subordinados da D. Joana não têm qualquer escrúpulo em repetirem provas de força, mesmo que pondo em causa os superiores interesses da Nação. Os tais que Marcelo prometeu defender, quando tomou posse, mas para os quais parece alhear-se como se lhe fosse possível assobiar para o lado e disfarçar quanto à sua existência.
Estas semanas confirmam a urgência em higienizar a Procuradoria-Geral da República, impedindo-a de se pretender interveniente de peso na política nacional.  E Marcelo continua a confirmar o que nele desde início prevíramos: um presidente sem as qualidades necessárias para exercer seriamente o seu cargo. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Negócios privados e públicas decisões

1. Desminado o terreno, que o Ministério Público quis impor ao governo através de uma investigação, que nunca deveria ter sequer pensado em abrir, tudo regressa ao normal: notícias sobre criação de emprego neste período de vigência da atual maioria parlamentar como já não se via desde 1998 e a redução progressiva da dívida do Estado, mesmo que apresentadas no meio de outras, que as façam passar despercebidas, porque dar trunfos ao governo é coisa que os jornais e as televisões tentam evitar. Como passa quase sem se dar por ele o processo de infração levantado pela Comissão Europeia  pela encomenda que Aguiar Branco deu à Martifer para a construção de dois navios-patrulha nos Estaleiros de Viana e que violou as regras comunitárias sobre contratos públicos.  Mas a passagem do conhecido advogado laranja pelo governo correspondeu a uma sucessão de atos duvidosos que, curiosamente, os subordinados da D. Joana se escusam de investigar. Porque seria, no mínimo, justificável, que se procedesse a uma séria indagação das circunstâncias em que a importante unidade de construção naval foi sabotada durante anos como forma de justificar a sua privatização.  Logo seguida da garantia de negociata com a Marinha de Guerra como forma de dar rápidos lucros a ganhar a quem lhe servira de cúmplice.
Agora será o governo de António Costa a justificar-se perante Bruxelas pelas decisões suspeitas do que o antecedeu, sendo interessante acompanhar a forma como irá descalçar tão esfarrapada bota.
2. Para quem muito admira Sampaio da Nóvoa, e lamenta o quanto o país tem perdido ao não tê-lo como seu presidente, constitui motivo de satisfação a sua nomeação para a representação portuguesa na Unesco, numa altura em que o país ocupa uma das suas vice-presidências.
Seria difícil encontrar personalidade com um currículo académico e profissional tão rico para desempenhar o cargo com grande competência. Daí que se saúde a decisão do governo em enriquecer tão substancialmente o seu corpo diplomático. E, como o mandato irá até 2021, não sendo passível de recondução por ter então mais de 65 anos, será esse o momento de cessar funções e vir a tempo de se apresentar às eleições presidenciais, que ocorrerão precisamente nessa altura.
Não é que o professor já se tenha disponibilizado para tal, mas quem trabalhou intensamente em prol do Tempo Novo, que consubstanciava a sua campanha, já está a aquecer os motores para pôr o projeto novamente a carburar.
3. Imaginemos agora que, apesar de todo a popularidade de que, ainda, dispõe, Marcelo Rebelo de Sousa propunha um dos netos para se ver brindado com a Ordem do Infante D. Henrique.
Presumo que, nem os mais entusiastas apoiantes do Presidente aceitariam a petulância de considerar um dos seus descendentes merecedor de tal honra só por ser-lhe portador do ADN.
Aqui ao lado, porém, o Bourbon ainda sentado no trono da ilegítima monarquia, quotidiana ofensa aos sentimentos republicanos de uma ampla percentagem de espanhóis - na Catalunha sabemo-los ainda em maior número - teve o desaforo de atribuir à filha de 12 anos a condição de cavaleira do Tosão de Ouro. É preciso muito mais para justificar o regresso do regime que, ilegitimamente o fascista Franco, derrubou com a ajuda de Hitler, de Mussolini e de Salazar? Faltará muito para que o Palácio do Oriente conheça a sua versão do sucedido há cem anos no Palácio de Inverno de Petrogrado?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O que eu pensaria se fosse mal intencionado!

Se eu quisesse ser mal intencionado poderia pensar que alguém no Ministério Público estaria a encarar com grande preocupação a provável substituição de Joana Marques Vidal por quem se revele menos zarolho nas investigações passíveis de gerarem capas do «Correio da Manhã» e decidiu enviar um recado ao governo sob a forma da investigação sobre os bilhetes para o futebol do ministro Mário Centeno. Algo do género: «atrevam-se a mexer no nosso arranjinho, que nem o presidente do Eurogrupo escapa!» É que, não só a ministra da Justiça se descaíra a prever a mudança de rosto à frente da Procuradoria-Geral da República, como vem crescendo em volume o intenso clamor pela urgente substituição de quem tem mostrado uma tão explicita passividade face à facilidade com que tem sido violado o segredo de Justiça nos processos confiados aos seus subordinados.
Se o mandato de Joana tivesse acabado em vésperas do final da anterior legislatura, Passos Coelho repetiria o que fez com o Banco de Portugal, conseguindo ter mais um dos «seus» em funções durante os quatro anos da governação socialista. Para azar dos que têm garantido neste seis anos de mandato da Procuradora uma contínua parcialidade a seu favor, está na hora de mudar o rumo no comportamento do Ministério Público, tornando-o efetivamente respeitador da legalidade democrática - não só salvaguardando o referido segredo de Justiça, mas também investigando e condenando quem o viola (desde as fontes internas  até quem as publica!), só assim se cumprindo o principio da presunção de inocência dos arguidos desde a fase instrutória dos processos até ao fim do seu julgamento).
É claro que a campanha dos «da Joana» vai tendo várias vertentes: esta semana até regressou à boca de cena um magistrado - conhecido por organizar um Congresso da sua classe com o alto patrocínio do Grupo Espírito Santo -, a pretexto de um livro em que defende a tese absurda de nunca a Justiça ter estado tão afetada na sua independência relativamente ao poder político como terá sucedido quando Pinto Monteiro era o Procurador e José Sócrates o primeiro-ministro. Está visto que aquele sobre quem o anterior Procurador comentou que o facto de ter chegado onde chegou só denota a mediocridade que hoje grassa no Ministério Público, quer-nos tomar por tolos. Algo que manifestamente não somos.
Apesar dos danos suscitados durante uns dias à irrepreensível reputação do ministro - inclusive com repercussões internacionais! - quem terá tido a peregrina ideia de lançar esta lebre a coberto de uma manchete do «Correio da Manhã», logo secundada pelo «Observador» e pelo «Expresso», deve estar arrependido de o ter feito. Porque a investigação revelava-se tão coxa, tão desconchavada, que acabou por ser criticada pelos próprios tenores da direita comentarista nos diversos jornais e canais de televisão, deixando sem rede de proteção - a não ser no anonimato com que estas coisas são escondidas - o clandestino autor. Depois do sucedido ficou ainda mais demonstrado - se ainda mais provas fossem necessárias! - que já ontem era tarde para que Joana Marques Vidal seja substituída.
No meio disto tudo o nosso selfieman, que tanto gosta de comentar tudo e mais alguma coisa, procedeu para com esta ignomínia com a mesma «distração», que dedicou ao caso Tecnoforma ou à luta das operárias da Triumph. Assobiou para o lado, tirou mais um boneco, deu mais um abraço … e seguiu em frente como se fosse algo com que não tivesse a haver...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O protagonismo dos homens de mão da D. Joana e por onde andará Paulo Portas?

1. Noticiário da SIC a respeito da tomada de posse do novo Conselho de Administração da TAP. Sobre Miguel Frasquilho e a polémica sobre o que comprovadamente recebeu do saco azul do BES nada se diz. Sobre outros administradores empossados, igualmente nada. Mas lá surge a insidiosa alfinetada a propósito de Diogo Lacerda de Machado, referenciado como «amigo do primeiro-ministro».
Que importa ser ele um dos consultores com maior conhecimento sobre o mundo da aeronáutica civil, só por si razão mais do que bastante para a nomeação? Ser amigo de António Costa constitui um estigma, que justifica a crapulosa insinuação de constituir um tratamento de favor. Só falta a D. Joana mandar um procurador investigar se não se tratará de algo, se não enquadrável na lei, pelo menos com substância bastante para alimentar mais umas manchetes do «Correio da Manhã». Mesmo que depois se esboroe na sua absoluta nulidade.
2. A propósito da patifaria congeminada por um dos subordinados da D. Joana para manchar a honorabilidade de Mário Centeno sob a suspeita da solicitação de bilhetes para um jogo de futebol e que prontamente justificou um ataque do PPE com a abordagem do assunto no Parlamento Europeu, Paulo Rangel quis-se armar em santo beatificado dizendo-se em desacordo com a decisão dos pares. Mas alguém no seu juízo pode acreditar que o grupo parlamentar a que pertence avança com tal iniciativa  sem o assentimento de um dos seus principais vice-presidentes?
Para as direitas lusas entrincheiradas no Ministério Público não existem limites à sua velhacaria, mesmo pondo em causa a posição do ministro português enquanto recém-eleito Presidente do Eurogrupo. Haverá maior demonstração do seu rasteiro antipatriotismo? Mas o deputado europeu do PSD julga que nos toma a todos por tolos ao querer passar-se por aquilo que não é...
3. Alguém no facebook coloca uma questão pertinente, que seria adequada para se pôr publicamente à D. Joana: o que terá tido mais custos para o Estado, os livros e revistas que José Magalhães e Conde Rodrigues terão adquirido com o cartão de crédito de governantes, e provavelmente indispensáveis ao seu cargo de então, ou as 60 mil cópias confessadamente fotocopiadas por Paulo Portas para as levar consigo, quando saiu do governo de Santana Lopes? Muito embora o caso já seja matéria prescrita, seria bom que a ainda procuradora-geral da República respondesse, mesmo que numa base académica, se também mandaria investigar e julgar o ai-jesus da sua amiga Cristas.
4. Mas, se essa possa ser matéria prescrita - menos dispendiosa para os meus bolsos de contribuinte do que as comissões relacionadas com os submarinos ou a origem dos donativos de Jacinto Leite Capelo Rego - porque será que o nome de Portas como consultor da plutocracia angolana não aparece na Operação Fizz tendo em conta a relevância de Álvaro Sobrinho - eminente testa de ferro de tal seita! -  como um dos principais suspeitos dos atos agora em investigação? E, porque será que, a respeito de Rangel, os noticiários relevem as suas decisões casuais sobre a Operação Marquês em vez de incidirem sobretudo sobre as matérias de facto, que afetam outros arguidos no processo. Nomeadamente esse mesmo conhecido acionista do Sporting que comprou alguns dos nossos principais jornais especificamente para neles imprimir um cunho acentuadamente direitista na sua linha editorial?