sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A antipatia de Rio pela maior equidade social

As sondagens continuam a demonstrar a ineficácia dos permanentes esforços da comunicação social, das direitas parlamentares e do selfieman para demolirem o apreço com que o eleitorado vai reconhecendo os esforços do governo para propiciar melhor qualidade de vida à maioria da população. Ao anunciar os resultados do estudo da Eurosondagem Rodrigo Guedes de Carvalho exultava por dissociar o PS da maioria absoluta, mas convenhamos, que essa pressentida satisfação não terá grande fundamento. Salvo se alguma grande catástrofe vier a virar do avesso o atual contentamento dos portugueses com a solução política encontrada neste quadro parlamentar, tudo aponta para a forte possibilidade de os 33,9% que as direitas hoje valem em conjunto ainda mais se apouquem. Porque é o próprio Rui Rio a reconhecer a turbulência interna, que a sua vitória suscitou, mormente no forte apego à irrisória sinecura, que Hugo Soares não quer largar.
Haverá, porém, outro lado por onde se deverá combater as pretensões do ex-autarca do Porto: são os seus mais próximos apaniguados a considerarem fundamental o abandono da lógica redistributiva  ao discutirem-se os investimentos para o pós 20/20. Tudo o que lhes possa cheirar a maior justiça na distribuição de rendimentos será o equivalente ao sulfuroso Demo. O tal por que tantos deles suspiram...

O Populismo tal qual está a exprimir-se entre nós

Artigo perfeito o que Jorge Cordeiro, dirigente do PCP, assina no «Diário de Notícias» de hoje. Nele se escalpeliza o populismo, abordando-o na forma como ele hoje se caracteriza entre nós.
Um texto que merece leitura atenta e a devida atenção:

Brincar com o fogo

Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. O acumulado saber popular da expressão encontra prova na vivência que nos envolve. Deixemos-nos de rodeios. O que se assistiu em torno do financiamento dos Partidos é mais um afloramento de uma perturbante corrente com que se quer impregnar o País: o populismo, enquanto expressão mais vendável de uma dimensão de pensar e de agir antidemocrática que, não tendo coragem de se assumir com os objectivos que transporta, semeia os ingredientes para fazer germinar a desorientação e o desencanto, desvalorizar a acção política organizada ou difamar o próprio sistema partidário. Não se aflorarão neste texto raízes históricas do populismo e do originário pendor liberal de há quase século e meio. Enfrentemos-lo como hoje se assume.
Sejamos claros. A incomodidade que tal provoque vale bem pelo que carrega de prevenção. Tanto mais que, ao invés do que se diz e se vê, o País não está a salvo do populismo. Não há inocentes neste regar de pasto populista. Não são desculpáveis exercícios de dissimulação: os imprudentes que o reproduzem sem pensar; os que o animam e estimulam sabendo ao que andam; os que buscam nele o apoio aos seus projectos porque, pela razão dos seus propósitos, acolhimento não encontrariam - todos, têm o seu quinhão neste perigoso lodaçal à beira do qual se passeiam. Importa pouco como o fazem: se no exercício da actividade partidária; se pela produção de escritos ou crónicas; se a partir de estruturas que, vendendo "transparência", são tão opacas quanto o que escondem sobre os reais objectivos que justificam a sua existência. E sobretudo não vale a pena o esforço de disfarce. Não é por se vestir um pijama às riscas que se passa por zebra.
Não se perca de vista o que o populismo transporta enquanto corrente política, os elementos de que se nutre ou os pressupostos que o norteiam. No populismo mora o que há de mais reprovável para quem se mova por valores e princípios. O seu sucesso é indissociável da exploração de sentimentos primários, do avivamento do preconceito de diversa natureza, do apelo ao irracional e à rejeição da reflexão própria. O populismo amalgama o espaço de cada um no rolo compressor da onda geral da opinião formatada, desincentiva o escrutínio dos factos, soterra na crista do que difunde o que a inteligência, se mobilizada, refutaria e recusaria. Lê-se Eça e o que denunciava sobre o que nos «arrasta para aquela fatalidade que quer que os pequenos espíritos vão irresistivelmente para tudo o que luz e para o que soa (...)» e aí encontramos os ingredientes em que se cozinha o populismo.
Há quem para se desculpar, confundindo efeito com causa, justifique este pendor compulsivo porque, estando o populismo instalado, a apetência para ir ao seu encontro é inevitável. Esclareça-se o que é óbvio: esse caldo de cultura não é congénito nem inato. Rodeia-nos e contamina a democracia porque é metodicamente inculcado pelos que nele vêem as águas em que se querem banhar. Tenha-se a coragem de o enfrentar mesmo que isso seja impopular, exija coragem política e faça perder uns votos e a margem para a sua progressão reduzir-se-á.
O populismo não é uma corrente de pensamento neutra nem pouco estruturada. No primarismo dos seus argumentos subjaz uma indisfarçável componente ideológica, em geral negada mas alimentando-se da contestação que faz à própria ideologia.
Por definição é a antítese da dimensão popular que na política deve ser medida pela participação consciente. Em regra vive do indivíduo, do caudilho, do salvador em contraponto à acção colectiva. Avança tanto mais quanto mais reduzida a consciência social e encontra no isolamento factor de progressão. Projecto político por essência, por mais dissimulado que surja, anatemiza a política mesmo quando utilizado para criar uma formação política. Difundindo a desconfiança sobre as instituições é a democracia que quer atingir. Deposita nos partidos políticos a raíz de todos os males para ilibar o papel do grande capital pelas desigualdades e injustiças sociais, explorando-as para se difundir e iludindo as suas causas com recurso a "bodes expiatórios". E ataca, particularmente, quando os seus habituais instrumentos de dominação política perdem eficácia e se afiguram previsivelmente incapazes de cumprir a função de suporte aos seus interesses.
A história, a nossa e a de tantos outros, está recheada de experiência feita sobre o que está por detrás desta corrente ideológica. Sempre com um preço mais elevado e amplo do que alguns julgam. Para lá dos que sabem ao que vão, aos que no conforto das suas atitudes, por défice de maturidade política ou mera intenção de atingir alguns em particular, se recomenda um retorno a Brecht ou Maiakovski para não esquecermos aqueles que desvalorizando o facto dos primeiros a ser levados serem negros, operários ou comunistas, tarde perceberem que outros se lhes seguiram, católicos, ou não, e compreenderem ter chegado a sua vez.
Jorge Cordeiro, DN, 19/1/2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A verdura tóxica da Quercus

Data de há muito tempo a minha antipatia pela suposta organização ecologista, que dá pelo nome de Quercus. Se a defesa ambiental deverá ser uma prioridade absoluta de todos os decisores políticos, o persistente lobbying assumido por aquela organização, ora é politicamente motivado (quem ignora a correspondência de algumas das suas posições  com as que mais interessam ás direitas?), ora fundamenta-se em argumentações científicas rotundamente falsas. Ou alia as duas possibilidades, como foi agora o caso.
Aconteceu, pois, isto: vendo no incêndio na sede da Associação de Vila Nova da Rainha a oportunidade de lançar um autêntico alarme social, veio a Quercus proclamar os riscos da utilização do poliuretano nos telhados das escolas públicas. Repare-se logo neste pressuposto: para a organização não está em causa a mesma lógica construtiva nas escolas privadas, mas tratando-se das que são públicas, vê uma oportunidade de ouro para atacar o esforço de requalificação das que são tuteladas pelo Ministério da Educação.
Que apresentam sérios riscos de incêndio e suscitam hipóteses cancerígenas nos alunos, diziam.
Está-se mesmo a ver o que pretendiam os responsáveis pela Quercus: de norte a sul do país hordas de pais furiosos poriam cadeados nas entradas das escolas só as voltando a abrir, quando milhões ,não previstos no Orçamento, fossem gastos na substituição das respetivas coberturas.
O tiro saiu-lhes falhado, porque já poucos ligam ao que peroram. Mas os especialistas vieram dar razão ao que o próprio Ministro esclareceu: nenhum estudo científico, nenhum alerta da Organização Mundial de Saúde corrobora, sequer por aproximação, os «receios» da Quercus.
E, no entanto, ainda nada foi feito para beliscar-lhe os apoios públicos - mormente o «Minuto Verde« que a RTP apresenta  e não se entende o porquê - com que os «voluntários» da Quercus vão fazendo pela sua vidinha.

Uma previsível sequência de facadas nas costas

Se a política politiqueira não nos deveria interessar tanto quanto a do aprofundado debate de ideias e projetos de futuro, o facto de estarmos dominados pela lógica mediática, que lhes faz sobrepor os líderes em importância, obriga-nos, necessariamente a tê-los em conta. Daí o interesse, que valerá a pena dedicar ao que ocorrerá no PSD nos próximos dois anos com Rui Rio e a sua equipa a quererem-no fazer regressar à matriz anterior à tomada do partido por Passos Coelho e seus cortesãos. Em vez da obsessão em apoderar-se do pote para distribuir tudo quanto nele possa ter valor por amigos e conhecidos - razão que explica a progressiva deriva populista dos seus mais recentes líderes parlamentares! - pode-se esperar da nova direção laranja a intenção consistente de valorizar a estratégia consentânea com a ideologia, que lhe subjaz: reduzir o peso do Estado na economia (mesmo que à custa das pensões dos reformados, por exemplo), fazendo do equilíbrio das contas públicas e da redução do défice o seu referente cardeal e reduzindo os impostos para os patrões.
Em vez de uma direita abertamente demagógica pode-se prever o advento da que assumirá claramente a sua carga ideológica. Mesmo que não enjeite o regresso aos discursos falaciosos e manipuladores, que perduraram durante muito tempo na nossa imprensa - do tipo «os empresários gerem melhor do que os gestores públicos», «os serviços prestados pela  iniciativa privada são mais baratos e de melhor qualidade do que os providenciados pelo Estado», etc. - e poderão ser recuperados por conta da tese de existir no povo a curta memória.
Para Rio a tarefa tende a ser hercúlea porque nada faz prever que, nestes dois anos que faltam para as próximas legislativas, o governo socialista perca o fôlego, que lhe garantiu tão animadores resultados. Mas, tal qual Churchill alertara um seu correligionário, os piores inimigos  da nova liderança laranja não se situam nas bancadas parlamentares das esquerdas: será nos deputados e autarcas, que estiveram com Passos Coelho e, agora com Santana Lopes, que os golpes baixos se anunciam. Daí a resistência de Hugo Soares em deixar a liderança do grupo parlamentar ou a autoproclamada recusa de Luís Montenegro em se comprometer com a nova direção. Sem esquecer os sempre influentes Miguel Relvas ou Dias Loureiro que, para os seus negócios, carecerão de um regresso tão imediato quanto possível das suas marionetes aos cargos onde se se tomam as decisões relevantes para que continuem a enriquecer sem pinga de escrúpulo. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Fazem tudo para nos assustar, mas as razões objetivas desmentem-nos!

Todos os meses a Associação Gandaia da Costa da Caparica organiza, sob a égide do escritor Reinaldo Ribeiro, um debate sobre um ou mais temas da atualidade. No de ontem, e por ser o primeiro do ano, decidiu-se que ele seria de Mesa Aberta, ou seja, disponibilizando-se o espaço de troca de ideias para aquelas que a assistência entendesse como as mais pertinentes.
Vindo a talhe de foice alguns dos temas de recente atualidade - incêndios vs. indicadores económicos, trumpismo, guerra na Síria, aquecimento global, ameaça nuclear - duas atitudes vieram ao de cima: as mais abertamente otimistas e as depressivamente pessimistas.
Não preciso de me alongar muito em que lado de tais posicionamentos me situei: as ideias que professo levam-me a ir mais além do que a célebre fórmula de Gramsci, assumindo-me como otimista na Razão e muito, mas muito, otimista na vontade.
É verdade que os quotidianos telejornais justificam o temor de muitos quanto à nossa aproximação de um inevitável Apocalipse, seja na forma de um inverno nuclear, seja no de uma fome generalizada, seja no de guerras à escala global motivadas por grandes migrações de populações devastadas por inundações, secas e outros efeitos das alterações climáticas.
Essa atitude leva-me a evocar o terror em que Virginia Woolf ou Stefan Zweig terão vivido os seus derradeiros dias antes de se suicidarem, convencidos da inevitabilidade da vitória nazi, que tenderia a dar-lhes o  mesmo destino, que aos de milhões de seus semelhantes, sujeitos por essa altura a encarneirarem-se para os fornos crematórios.
Socorro-me por isso de um trecho do artigo hoje publicado no «Diário de Notícias» por Viriato Soromenho Marques em que este lembra que “as melhores armas desenvolvidas entre 1939 e 1945, com a exceção da bomba atómica, foram produzidas pela Alemanha. Os melhores submarinos, os melhores carros de combate (como o Tiger e o Panther), os primeiros aviões a jato (Heinkel He 178), os primeiros equipamentos de visão noturna, os primeiros mísseis de cruzeiro (V1), os primeiros mísseis balísticos (V2). Contudo, e apesar das suas pioneiras "armas secretas", a Alemanha perdeu a guerra. Os erros políticos e estratégicos na condução da guerra, multiplicando as frentes, subestimando os inimigos e sobrestimando as forças próprias, esmagaram os ganhos da superioridade tecnológica e do talento militar, esgotaram o espaço de manobra que é uma condição indispensável para a vitória.
É, pois, a própria História a ensinar-nos que, se formos suficientemente inteligentes e determinados no esforço de contrariarmos as ameaças mais intimidantes, elas acabarão por ser vencidas.
Esta lição também é verdadeira para outro dos temas, que temos na ordem do dia: a estratégia inaceitável das grandes empresas - e estamos aqui a falar da EDP e da Galp - para contrariarem a governação socialista escusando-se ao pagamento de impostos. Algo que os grandes operadores de televisão por cabo também andam a teimar como forma de recusarem o seu contributo para o financiamento do cinema nacional.
Aqui nem se compreende a tibieza com que o governo tem tratado este assunto: sendo impostos decididos legitimamente pelos poderes  legislativo e executivo, não pode haver contemplações com quem se quer ufanar de incumprimento das obrigações fiscais. No Parlamento, o ministro da Economia proclamou o óbvio: "Porque não é aceitável que as empresas digam que não querem pagar porque concordam ou não com o Governo, porque concordam ou não com o imposto. Não nos é perguntado a nenhum de nós, e é essa a natureza dos impostos, se concordamos ou não, não é perguntado a quem tem obrigações fiscais. A única resposta que [a EDP e a Galp] têm de dar é cumprir as suas obrigações fiscais". Agora Manuel Caldeira Cabral só tem de ser consequente com tais palavras e fazê-las cumprir. Tanto mais que as reservas agora levantadas pela empresa de Mexia nunca existiram enquanto Passos Coelho foi primeiro-ministro. Se isto não é a tentativa de boicote ao governo atual, não sei que mais será preciso demonstrar.
Mas esse tal capitalismo em pantanas, que se procura eternizar, mesmo já não tendo condições geográficas para se expandir e assegurar o seu imprescindível crescimento - chegado o tempo da globalização para onde pode agora ampliar-se? Para Marte? Para Alfa de Centauro? - vem ensaiando uma nova tática a nível internacional, que mais não constitui do que uma recauchutagem da Terceira Via: quando surgiu na paisagem política francesa, Emmanuel Macron, era tido como um banqueiro próximo dos socialistas (como se essas duas condições não se excluíssem por natureza…).
Candidato ao Eliseu, conseguiu destruir o Partido, que o tinha feito ministro (que acaba agora de vender a sede histórica de Marselha, depois de já o ter feito com a de Paris e ainda mantendo-se abaixo da linha de água a nível financeiro), apresentando-se como um político independente, mas situado na matriz de centro-esquerda, o que tendo em conta a alternativa (Marine le Pen) acabava por representar um mal menor.
A surpresa que muitos dos antigos deputados e outros altos quadros do Partido Socialista, que se mudaram de armas e bagagens para o seu movimento En Marche, é que, quer na emigração, quer nos refugiados, quer sobretudo no indecoroso aumento das desigualdades de rendimentos entre os muito ricos e os demais extratos da população, o banqueiro confirmou a sua natureza. A revisão das leis fiscais, agora  apresentada, não desmerece da de Trump, que consegue exatamente o mesmo: a redução dos impostos para a minoria mais abastada e o agravamento da dos demais. Daí que haja já quem se comece a interrogar se não vendeu a alma ao Diabo. Que, afinal, em vez de andar a iluminar as expetativas dos principais apaniguados do PSD, parece andar à solta por terras gaulesas.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

E o Diabo voltou pela boca de Manuela Ferreira Leite

Se estes dois anos e meio de governação socialista, com beneplácito da demais esquerda parlamentar, tem tido um efeito óbvio é o da melhoria da qualidade de vida da população, antes causticada pelos cortes e pela promessa de contínua austeridade pela coligação das direitas. Muito embora a generalidade da imprensa faça um ruidoso coro para desvalorizar esse facto inequívoco, ou dele distrair as atenções com casos de lana caprina, que se vão repetindo e esgotando, mas enchem o espaço mediático, essa convicção é partilhada por uma grande maioria do eleitorado conforme se deteta em sucessivas sondagens. Por outro lado se o patronato tem mantido incólume a muralha protetora da desequilibrada legislação do Trabalho, que conseguiu impor nos tempos da troika (com redução das indemnizações por despedimento, a facilidade em rescindir contratos de trabalho, a redução do tempo de férias, etc.), viu esfumar-se-lhe a possibilidade de seguir por diante a redução de impostos preparada pela comissão liderada por Lobo Xavier.
A possibilidade de ter as esquerdas a dominar o cenário parlamentar constitui um pesadelo permanente para esse grande patronato. Os senhores da CIP, CAP, CCP e demais associações patronais sabem que, mais tarde ou mais cedo, não só a legislação laboral verá infletida aquilo que já considerava como definitivamente garantido, como aumentarão as pressões regulatórias destinadas a dificultar a evasão fiscal e o branqueamento de capitais.
É esse o contexto em que a vitória de Rui Rio foi tão bem acolhida por quem anseia retomar os sonhos cor-de-rosa prodigalizados pelo governo de Passos Coelho. Se Santana poderia alcançar o objetivo com a brutalidade populista de um Trump seriam significativos os riscos de quaisquer ganhos se revelarem efémeros. Depois da experiência dos últimos anos o patronato já percebeu, que tem de ir puxando de mansinho a corda para o seu lado em vez de o fazer à bruta. Porque a lei de Arquimedes de Siracusa é tão incontornável, que forte ação gera igual reação.
Percebem-se pois os passinhos de lã com que Rui Rio procurará dar satisfação aos interesses de quem é provedor. O primeiro objetivo será sempre afastar o Partido Socialista do PCP e do BE, que o pressionam a ser mais consequente com os seus valores do que alguns no seu seio desejariam - e não é só Francisco Assis a sentir-se incomodado com a presente solução governativa!
As palavras de Manuela Ferreira Leite vêm nesse sentido: vender a alma ao Diabo para afastar a esquerda do poder, significa que, no seu íntimo, pretenderá forçar o Partido Socialista a virar ao centro, voltando a negar aquilo que sempre deveria ter sido. Fazer com que se torne mais social-democrata do que socialista. Ora o eleitorado tem conhecido particular satisfação com esta natureza assumidamente de esquerda do PS, pelo que com ela tem ganho. E não quererá que isso conheça um fim.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Manifestamente contra as diretas nas eleições partidárias

Nunca fui um entusiasta das opiniões de Marina Costa Lobo (MCL), enquanto politóloga, muito embora também nunca lhe tenha detetado posições com que não estivesse particularmente em desacordo. Mas o texto por ela assinado no «Público» de anteontem, intitulado As diretas não aumentam a qualidade da democraciadefende exatamente o que penso de tal método como norma partidária instituída para a escolha dos seus líderes. Muito embora tenha a noção de ser matéria polémica dentro do meu Partido, identifico-me bem mais com as práticas seguidas pelos congéneres mais à esquerda em que os programas decorrem de discussões prévias entre as várias propostas a nível  das secções locais, depois votadas em Congresso, onde também devem ser eleitos os dirigentes dos órgãos principais.
Se no PS as diretas foram introduzidas pelo líder, que mais se identificou com a nefasta Terceira Via (António Guterres) essa «novidade» está de acordo com o que a globalidade das propostas dessa moda de má memória trouxe à generalidade dos Partidos socialistas e sociais-democratas. Como reconhece MCL no seu texto “trata-se de uma americanização da política que mina os partidos por dentro, enfraquecendo-os. Em vez de abordagem séria e ideologicamente coerente da Visão de futuro, que deve estar permanentemente a ser aferida, corresponde a uma cedência à política-espetáculo como se o importante fosse quem dá a cara pela organização em vez de lhe sobrepor a seriedade e adequabilidade das propostas a emitir … e implementar.
E acrescenta MCL: “Essa mediatização excessiva desvirtua o debate político em Portugal, que fica subordinado à imagem dos candidatos e do soundbite, em detrimento de um debate mais aprofundado.
Numa altura em que as esquerdas europeias perderam grande parte da capacidade de atração junto da sua massa social de apoio por terem prescindido das definições ideológicas, é no regresso a estas, convenientemente adaptadas aos tempos de hoje, que podem recuperar a importância perdida. O que pressupõe muito debate interno, coincidente com procurarem amiúde o contacto com os potenciais eleitores (para se fazerem por eles ouvir, mas também auscultando-lhes as aspirações) de forma a reencontrar a empatia de outros tempos entre quem não vive da exploração alheia e quem politicamente os deve representar.
Defender que a solução se limitará a dar voz - de x em x anos - aos militantes através do voto e, quiçá, aos que se afirmam simpatizantes! - é um logro, que não percebo se consciente, se ainda eivado de perceções blairistas, que tiveram tão maus resultados um pouco por todo o continente levando ao desaparecimento efetivo ou à grupusculização, de alguns dos que tinham sido partidos de poder nos respetivos países.

domingo, 14 de janeiro de 2018

O ricochete de uma lei que voltará em breve a Belém

Nas últimas semanas a revisão da lei sobre o financiamento dos partidos serviu para uma lamentável campanha populista, que teve em Cristas e nalguns media, o seu veículo de bombardeamento demagógico. Sobre ela disseram-se mentiras e fizeram-se processos de intenção, que visaram desprestigiar os políticos em geral pretendendo-se, sobretudo, prejudicar os partidos mais à esquerda, sobretudo o PCP impedido de recolher receita com a Festa do Avante e o PS cuja situação financeira é, há uns anos, problemática e depende muito da forma como é resolvida a questão do IVA. Porque, para quem tanto se escandalizou com a suposta devolução desse imposto aos partidos, que desenvolvem atividade política, não existem os mesmos pruridos com a Igreja Católica que, apesar da laicidade do Estado, continua a usufruir de privilégios incompreensíveis a nível fiscal.
Poucos alertaram, igualmente, para a tremenda lata de Cristas, apresentando-se como escandalizada virgem isenta de pecado mas cujo partido vive quase exclusivamente do financiamento dos contribuintes e ocupa uma sede pela qual nem paga renda ao Patriarcado, nem este gasta o que quer que seja com o IMI de tão relevante espaço.
E Marcelo que, por uma vez, tinha a possibilidade de ser bem mais do que Marcelo, exercendo uma pedagogia capaz de devolver a questão ao que a ela diz respeito, acabou por reconhecer nada haver de inconstitucional na lei, mas decidiu-se a vetá-la por considerar-se assim consonante com a escandalizada indignação dos demagogos.
Fico por isso muito satisfeito por ver o Partido Socialista submeter novamente o diploma à Assembleia não lhe alterando sequer uma vírgula. Nesse sentido porta-se com bastante mais inteligência do que o Bloco de Esquerda, uma vez mais na lógica de uma imaturidade política, que parece custar-lhe a superar. Porque tratando-se de uma legislação que, já na altura em que fora revista anteriormente, não disfarçava a intenção de prejudicar o PCP, não merece que seja tida como contestável por outras forças políticas, que não as das direitas, as principais interessadas em mantê-la tal qual está.
Será interessante constatar a a reação do PSD, agora liderado por Rui Rio, perante um diploma, que os seus próprios deputados votaram favoravelmente no mês passado. Mantém a coerência do seu juízo ou rendem-se á demagogia de Cristas e da imprensa tabloide (que é quase toda a que se publica entre nós)? E sentirá Marcelo vontade de confrontar novamente a maioria parlamentar e a própria vontade do Tribunal Constitucional, que emitiu a sua própria reação positiva sobre o seu conteúdo? Ou reconhece que tomar partido pela minoria parlamentar também implica violar o seu dever de respeito pela regra da separação de poderes, em que se conjugam dois deles - o Legislativo e o Judicial - para ver a lei alterada de acordo com o que ficou decidido em tal votação?

Vida dura promete ser a dos passistas durante o consulado de Rui Rio

Para quem gosta de política os próximos tempos prometem ser interessantes para as bandas do PSD. Tivesse sido Santana Lopes o vencedor e deparar-nos-íamos com o nível rasteirinho a que nos habituaram Passos & Cª nestes últimos anos, não enjeitando usar a mentira, a manipulação grosseira e a exploração populista de preconceitos atávicos do eleitorado para porem em causa o rumo definido pela governação de António Costa.
Rui Rio é manifestamente diferente de Santana Lopes. Podemos não gostar do seu projeto para o país - que coincide grosso modo com o patronato, que lhe dará todas as condições possíveis para que seja bem sucedido! - mas tem-no, sabendo muito bem o que quer. Por isso mesmo é mais perigoso, porque se Santana obrigaria a usar os nem sempre eficazes antídotos que o veneno populista exige, Rio retoma a estratégia cavaquista de reduzir o peso do Estado na economia, pondo as empresas a pagar menos impostos, limitando os direitos de quem trabalha e cortando nas pensões de reforma para obviar ao peso da segurança Social nos custos orçamentais. E nós bem sabemos como muitos portugueses dos  estratos mais desfavorecidos gostam de apoiar quem contra eles governaria, conquanto repliquem a ideia austera e prepotente, que herdaram geneticamente do salazarismo.
Provavelmente ver-se-á um grupo parlamentar a agir de modo diferente do que tem sido a sua conduta até aqui, com um senador tipo Marques Guedes ou Fernando Negrão a dar a aparência de querer discutir as questões substantivas do país em vez de explorar apenas os casos mediáticos de lana caprina. Nesse sentido será provável que, mesmo contando com as peixeiradas mal-educadas de Cristas, os debates ganhem outro tipo de dignidade na Assembleia da República.
O interesse não se quedará por aí, porque não sendo Rui Rio um político vocacionado para consensos - ao contrário de António Costa que, logo após a vitória contra Seguro, logo soube trazer para o seu lado muitos dos que haviam estado a militar no campo contrário - encontrará por certo uma oposição cerrada por quem o pretende condenar a um caminho pedregoso, facilitador do regresso à ribalta de quantos se escusaram agora de vir a jogo. Ora Rio já avisou o que se prepara para fazer: o tom ameaçador com que disse aos jornalistas para estarem atentos ao que iria concretizar internamente logo após ganhar as eleições pressupõe que quantos alinharam com Santana Lopes não terão vida fácil nos próximos tempos. Daí que, de fora, seja curioso olharmos para a contínua contagem das espingardas, que se irão fazendo de um e do outro lado, manietando o PSD nas suas lutas fratricidas em vez de o orientar para os problemas do país.
Promete ser calmo o futuro do governo socialista a médio prazo, mesmo para além das eleições de 2019. Porque, mesmo que Rio neutralize as ações projetadas pelos opositores na sombra, poderá encetar novo ciclo político com um grupo parlamentar mais consonante com a sua visão do que deve ser o PSD do que o atual. Mas a dimensão da derrota anunciada poderá precipitar o declínio irreversível de um partido que, dentro do seu campo ideológico, nunca conseguiu ultrapassar a aparência de nem ser carne, nem peixe.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Continuemos a ver Marcelo tal qual ele realmente é!

Sem surpresa os dados da Marktest confirmam que as televisões andam com Marcelo ao colo, e tal como foram fundamentais para lhe assegurarem a imerecida eleição para Belém, continuam a tudo fazer para lhe garantirem largo futuro, senão como corta-fitas, porque Américo Thomaz goza, nesse capítulo, de invejável mas palmarés, pelo menos como protagonista de selfies  e de abraços. Segundo dados agora conhecidos, só em dezembro de 2017, Marcelo esteve presente nas notícias durante dez horas e cinquenta e quatro minutos. De palpável o que contribuiu a sua ação para o crescimento da economia, para a criação de emprego ou para a redução do défice? Obviamente nada!
Já António Costa, que de todos esses excelentes indicadores é o principal responsável, só teve direito a sete horas e quarenta minutos. É preciso acrescentar mais algum comentário a esta comparação?
Surgem, porém, sinais de esmorecimento dos favores populares relativamente ao demagogo, que tem assento em Belém. Não só as famílias das crianças levadas pelos bispos da IURD para o Brasil ou para os EUA vieram dececionadas da audiência com ele (uma coisa é o que se vê na televisão, outra o que se sente ao vivo, confessava uma das mães em causa!) como foi notícia bastante demonstrativa da natureza de Marcelo a sua recusa ao convite das centenas de operárias da fábrica Triumph em Sacavém que, em luta contra o despedimento coletivo, julgaram possível ter na sua visita algum lenitivo. Mas se Marcelo gosta de selfies e de abraços em ambientes favoráveis, quem é que o espera ver numa situação, que poria em causa os patrões dispostos a enviar para o desemprego tantas trabalhadoras ansiosas?

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Despoluições insuficientes, mas mediáticas

Não é que o nível de poluição mediática prometa melhorar substancialmente com o iminente desaparecimento de alguns figurões, que nos têm assombrado com as suas malfeitorias. Mas é sempre bom registar a passagem à clandestinidade - espera-se que definitiva! - de Passos Coelho ou de Steve Bannon.
Embora pareça excessivo associar esses dois nomes, a verdade manda reconhecê-los fraternos na mesma visão fanática daquilo em que acreditam, não enjeitando estratégias sem pinta de escrúpulo para as conseguirem concretizar. Sendo ambos uns incansáveis manipuladores da realidade, transformada numa caricatura do vislumbrado por qualquer observador imparcial, também se terão considerado muito mais inteligentes e poderosos do que, afinal, se revelaram.
Para o primeiro bastou um primeiro-ministro competente e determinado em expô-lo ao fracasso das suas teses austericidas para se desmascarar como um zé-ninguém. Ainda mais achincalhante se revelou a queda do segundo, rapidamente trucidado pelo narcisismo, ainda eficiente, do seu antigo patrão.
Igualmente votada ao ostracismo, a prole de José Eduardo dos Santos ainda estará a travar a desnorteante vertigem que, num ápice, a apeou das grandes alturas a que se havia  alcandorado. Se, meses atrás, a compra de um dispendioso relógio num leilão já desqualificara o benjamin da família, vituperado pelo gesto bufão e obsceno, os manos e manas assumem-se como as principais vítimas de um Presidente disposto a livrar-se das peias em que o antecessor o julgara controlado.
De ilusões desfeitas também andam uns quantos deputados do movimento político de Emmanuel Macron, subitamente despertos para o tipo de fatiota em que se deixaram formatar. Vindos muitos deles do Partido Socialista, que terão ajudado a quase exterminar, veem-se confrontados com a necessidade de virarem o bico ao prego quanto ao que haviam acreditado a respeito dos refugiados e a aceitarem a perspetiva lepenista, que lhes estão a vender como modelo imperioso da nova moda primavera-verão. Alguns andam a considerar que a pastilha é demasiado amarga para a engolirem, mas tarde piam numa altura em que as esquerdas andam reduzidas à sua mínima expressão.