quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Quem pode servir de interlocutor a Costa para discutir o que será o futuro do país?

Ontem foi o dia em que, escusando-se a dizê-lo cara-a-cara, Marcelo teve a cobardia de mandar as «fontes de Belém» proclamar o seu desagrado com as palavras de Francisca Van Dunem, que se limitara a repetir o que fora dito por Joana Marques Vidal a respeito do que deve ser a permanência de um Procurador Geral da República no cargo. Se a titular em causa assim o disse e repetiu sem suscitar estados de alma em quem quer que fosse, porque será que as direitas levantaram um coro tonitruante sobre o assunto e Marcelo seguiu-lhes no encalço com a sua manhosa reação?
Enfim! Sobre o carácter (ou a falta dele) do Presidente vamos tendo quase diariamente provas  atrás de provas da sua ambígua natureza.
Melhor seria que Marcelo atinasse no seu discurso de Ano Novo e concluísse não ser o país, quem precisa de se reinventar, porque disso se vai encarregando o Governo e a maioria parlamentar que o apoia. Seria preferível, que ajudasse o seu partido a encontrar melhor solução do que os dois estarolas, que estão a converter a atual campanha interna numa tragicomédia em que os argumentos de um e de outro, ora se revelam risíveis, ora assustam no quanto significam para quem pudesse deles ser vítima: os reformados no caso de Rio, a generalidade da população se fosse Santana a confirmar a total falta de qualidades, que já revelou em 2004.
Como voltei a ter em conta (por quanto tempo?) o que escreve Manuel Carvalho li-lhe no «Público» o suspiro de alívio: "O pesadelo do PSD está quase a chegar ao fim". Só que não sei porquê esse desconsolado bálsamo! Se até agora, com Passos & Cª tudo foi mau de mais para ser verdade, com Rio ou com Santana as melhorias serão poucas ou nenhumas, porque quer um, quer outro, não têm uma Visão de futuro para o país, e por isso condenam-se a viver dos casos levantados pela (des)informação publicada e audiovisual para dela se aproveitarem e fingirem que existem. Bastou ver o último debate parlamentar em que António Costa propunha discutir o que será o futuro do país a médio prazo. Quem da bancada das direitas aceitou o desafio e disse algo que tivesse a ver com tal matéria?
Perante indicadores económicos e sociais, que justificam contínuos aplausos à governação resta às direitas enlearem-se nos labirintos da sua desesperada busca de uma identidade perdida.
A realidade é que até na ida aos mercados  para se financiar a República portuguesa vai conseguindo bater records sucessivos com bancos e fundos de pensões a substituírem-se aos especuladores como maioritariamente interessados em tais operações. E isso cala de vez quem andava a dizer raios e coriscos sobre os investidores estrangeiros acaso as esquerdas convergissem num projeto comum para erradicar ad eternum as direitas do poder! 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Plangências e confirmações

Pelo artigo de opinião, que Manuel Carvalho assina no «Público» de hoje - «Um Partido com medo de existir» - é possível conjeturar a mágoa, que vai em certos setores da direita portuguesa.
Recordemos que, tão-só António Costa conseguiu formar Governo com a atual maioria parlamentar e logo assistimos a inflamados textos do jornalista em causa a desconsidera-lo com a indignação de um qualquer Maomé a quem lhe fosse apresentado um prato de toucinho.
Alguém que até me merecera atenção pelos textos sobre a I Guerra Mundial vivida pelos portugueses em África, conseguia ser de um inopinado sectarismo contra as esquerdas, justificativo de, desde então, só lhe ir percorrendo os textos  na diagonal, e muito rapidamente.
Daí o justificado aprazimento de, hoje, me ter dado ao trabalho de o ler de fio a pavio. Porque, relativamente à pugna entre Rio e Santana ele escreve que nunca como hoje o PSD esteve tão longe da realidade e das expectativas do país como está hoje. A modorra da campanha em curso é a consequência desse fracasso.” E, mais adiante , conclui: quer Santana, quer Rui Rio, têm o que merecem: o desinteresse das pessoas cansadas de táticas políticas, do mais do mesmo, do “são todos iguais”.
É caso para considerar que, se até nem entre os seus, os dois «Murphys» convencem, que dirá a grande generalidade do eleitorado, que lhes dedica a apropriada indiferença?
Mas a designação de «Murphy» (a sugerir o cenário de catástrofe enunciado na lei com o mesmo nome) surge no texto de Francisco Louçã, que refere algo com que estou cada vez mais de acordo: “esta forma de eleições, como é desejada pela doutrina das primárias, é uma forma de subverter os partidos, de destruir a sua vida interna evitando as formas de deliberação coletiva e personalizando o poder, de os submeter aos ditames da oligarquia mediática.
A demonstração ainda não há muito tempo teve uma exemplificação convincente com as primárias do Partido Socialista francês, praticamente destroçado com a vitória de Emmanuel Macron.
As primárias fazem com que o enfoque fique nas pessoas - nos candidatos a líderes! - em vez dos programas e projetos, que deverão ser objeto da escolha dos militantes dos partidos. Daí que nunca houvesse simpatizado com essa ideia, por muito que tenha sido através dela, que António Costa afastou António José Seguro da liderança do Partido. Mas, convirá recordar, que a ideia de primárias foi deste último, pois Costa limitou-se a aceitar as condições propostas por quem nelas julgava vir a ter fácil vantagem.
Dentro do Partido Socialista ainda há um grupo ultraminoritário, que defende esse tipo de eleição. As circunstâncias e os sucessivos exemplos andam a comprovar o total desconchavo em que radica.

Perante uma guerra perdida, as direitas agitam-se em táticas de guerrilha

O dia político de ontem foi norteado pelas réplicas do sismo matinal ocasionado pela ministra da Justiça, quando deu, em entrevista, a sua interpretação sobre a inelegibilidade de Joana Marques Vidal para um novo mandato à frente da Procuradoria Geral da República. No debate quinzenal logo o tonto líder parlamentar laranja espumou de raiva perante a possibilidade de ver as direitas espoliadas de um dos seus mais poderosos seguros de vida dos últimos anos.
Sem nada de substantivo a propor para a melhoria da vida dos portugueses esta é a direita que subjaz à sua degenerescência incurável: defender cada um dos seus derradeiros bastiões com a noção de cada batalha perdida significar a guerra decidida em seu inevitável desfavor.
Resta-lhe a opção pela guerrilha de suposto desgaste do atual governo, consumada pela generalidade da imprensa escrita e audiovisual em conluio com muitas páginas das redes sociais, que tomam os métodos dos trumpistas como modelo e se esforçam por criar sucessivos fake news, mesmo que eles não durem mais do que um par de dias.  Quem ainda perora sobre a Raríssimas? Quanto tempo perdurará o falso assunto dos bilhetes de futebol solicitados por Centeno?
No Expresso, Daniel Oliveira alerta para o quanto essa estratégia das direitas possa ter consequências gravíssimas na nossa Democracia: “Nada chega a ficar realmente na memória, mas fica o incómodo, a sensação de que se está rodeado de iniquidade e corrupção. Uma sensação que não só degrada a democracia, como qualquer possibilidade de vivermos em sociedade.
As direitas contam, igualmente, com Marcelo, mesmo que ele tenha restringido nestes dias o contínuo afã em distribuir afetos e selfies por quem lhe passa ao alcance. No «Público» o investigador António Costa Pinto diz o óbvio: “Marcelo é um Presidente populista-institucionalista, mas se reconhece não existir a vontade em criar um partido à sua imagem e semelhança, não deixa de constatar quanto essa atitude visa reforçar os seus próprios poderes, que a Constituição limita.
Os objetivos das direitas também se procuram cumprir com a cooptação para o seu campo dos que a comunicação social insiste em colocar no dos adversários socialistas. A propósito da indigitação de Luís Amado para um bem remunerado tacho na EDP, quem ainda acredita na sua identificação com o Partido de que terá sido militante e através do qual chegou a ministro?  Desde os tempos em que tanta afinidade revelou com as políticas de Passos Coelho, que a nova marioneta dos interesses chineses em Portugal, nada tem a ver com os anseios dos socialistas.
Uma referência final para o texto de Mariana Mortágua no «Jornal de Notícias» de ontem. Pese embora a forma irritante como Catarina Martins se dirigiu a António Costa sobre o assunto, a sua parceira bloquista tem toda a razão quando escreve: “Nos EUA há 46 milhões de pessoas que não têm um seguro de saúde. Se adoecerem, a solução será vender o que têm, ou endividar-se, para poderem pagar as astronómicas contas do hospital. Se não conseguirem, ninguém as tratará. Há poucas pessoas em Portugal que tenham a coragem de defender o modelo dos EUA. Mas é para lá que nos levam todas as medidas que, ao longo dos anos, foram enfraquecendo o SNS e transferindo cada vez mais competências para os privados.
Daí que façam todo o sentido as propostas agora apresentadas por João Semedo e António Arnaut para devolverem ao SNS a relevância, que chegou a ter antes de se tornar moda a tese de um ex-deputado do CDS para o qual “quer quisesse saúde deveria pagá-la”. Aos que a terão privatizado em seu benefício, entenda-se...

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O início do arejamento da Justiça em Portugal?

Que a Terra se continua a mover, prova-o a confirmação de que Joana Marques Vidal já tem prometidos os patins, que a levarão para fora do cargo em que se mostrou tão particularmente tendenciosa, favorecendo todos os processos que pudessem comprometer socialistas e arquivando, ou protelando tanto quanto possível, os envolvendo os políticos de direita.
Bastará isso para arejar um pouco que seja o cheiro desagradável, que há muito se associa ao exercício da Justiça em Portugal? Seria sonhar demasiado alto, porque são muito os indicadores em como, extirpada a cabeça de um polvo, ali permanecerão demasiados tentáculos a condicionar-lhe a almejada despoluição.
O exemplo do que se passa com o caso do ex-ministro angolano Manuel Vicente é, a esse respeito, eloquente. Mesmo confirmando-se que ele terá corrompido um procurador para que um processo tivesse outro andamento, que não o previsível, será esse um motivo plausível para pôr em causa o relacionamento económico entre Portugal e Angola? É que o presidente João Lourenço só pretende que a parte do processo, que vincula o político angolano seja transferido para Luanda. Por isso mesmo justifica-se que, o que incumbe aos portugueses - julgando e eventualmente condenando esse procurador ocorra cá - mas que se delegue nos angolanos o que queiram decidir sobre o seu compatriota: se ele é corrupto, que o castiguem ou o ilibam, conforme pretendam ou não construir um país mais decente do que o herdado do pesado legado de Zédu.
O argumento da separação de poderes entre o poder judicial e o executivo é uma realidade da nossa Constituição, mas não pode ser vista como um critério absoluto. A Justiça não se pode alhear das consequências colaterais das suas decisões. Daí que tenha de equacionar o custo se se der ao argumento de meter pálas à frente dos olhos para não ver os prejuízos, que possa causar a milhares de portugueses, que vivem e trabalham em Angola ou às muitas empresas, que ali negoceiam parte substantiva da sua produção. A menos que os senhores procuradores e os senhores juízes tenham a intenção não confessada de dificultarem ao máximo a vida deste governo a quem não bastarão os reconhecidos dotes diplomáticos de Augusto Santos Silva para serenar a indignação ao atual poder político em Luanda. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Quando uma farsa se procura repetir, no que resultará?

Uma das razões, porque as direitas exploram  demagogicamente a questão da  remuneração dos políticos é porque, não impedindo que os mais talentosos à esquerda porfiem na realização das suas utopias, já que enriquecerem não constitui propriamente a sua prioridade, os do seu campo ideológico se esquivem para a banca e para a advocacia dos negócios dando o palco aos medíocres que, embeiçados pela satisfação narcísica de chegarem onde as aptidões nunca dos deixariam alçar, melhor sirvam de marionetas de quem realmente os comanda.
O deslumbramento do dono do Pingo Doce, sucessivamente por Cavaco, Durão ou Passos Coelho, tem exclusivamente por motivação o facto de todos eles se terem prestado a facilitarem-lhe a matriz do negocio: a evasão dos capitais para outras paragens e a exploração de quem para ele trabalha e recebe o salário mínimo sem quaisquer outros direitos dignos de nota.
Para impedirem os competentes das esquerdas em chegarem à governação basta-lhes dominar a comunicação social na forma como o fazem atualmente em Portugal onde toda a imprensa escrita e audiovisual alinha pela batuta de quem pretende ver descarrilada a maioria parlamentar. Depois podem sempre contar com um complexado estilo Cavaco, um arrivista sem pontinha de escrúpulo ao jeito de Durão Barroso, um cábula obsequioso com os ricos e arrogante com os pobres como Passos Coelho ou um desnorteado Santana, sempre capaz de defender tudo e o seu contrário, tão só julgue eficiente o ajustamento do seu arrazoado com o que julga pensar o eleitorado. Tão limitados modelos servem-lhes na perfeição para o desígnio de prosseguirem a estratégia do Príncipe Salinas, criado por Lampedusa: fingindo mudar alguma coisa, cuidam de que tudo fique na mesma!
Se a sua passagem pela Faculdade de Direito o tivesse dotado de conhecimentos mínimos do marxismo - mas a História reteve a sua preocupação de  arregimentar  alguns tontos ao seu posicionamento de extrema-direita! - Santana ficaria avisado da tendência histórica para se cumprir uma regra nas remakes do mesmo cenário: se se revela trágico na primeira ocasião em que se testa, logo se transforma em farsa quando intenta repetir-se. O problema que Marx não previu, mas Santana Lopes se apresta a servir-lhe de cobaia, é o que acontece quando, logo á primeira tentativa se revela uma farsa em vez de tragédia, porque, de facto, ao pensarmos naqueles meses de caos desgovernado em 2004,  muito do que, então, se passou lembra uma bufonaria desconcertante.
Um eventual, mesmo que improvável, regresso de Santana Lopes a São Bento no que resultaria? Para além da distribuição da sua ampla corte de amigos e conhecidos por tudo quanto representasse cargos públicos  apetitosos - prática evidenciada com quantos colocou na Santa Casa no período em que foi seu provedor! - poderia Santana exceder-se no desvario que dele não esquecemos?
Rui Rio - mesmo assustando quanto à sua teimosa visão austericida, que faria de Maria Luís uma benigna amostra da vacina que se propõe a aplicar à grande maioria dos portugueses! - tem razão nesse aspeto: torne-se Santana no challenger de António Costa e cá estaremos diariamente disponíveis para lembrar tudo quanto ele já provou ser. Politicamente um zero à direita em capacidade de superar o vazio ideológico da sua área política, incapaz de encontrar cura possível para a recauchutagem do sistema  manifestamente esgotado. Porque querer a redução da despesa do Estado já demonstrou o quão trágico isso pode significar na impossibilidade de o ver responder aos direitos fundamentais dos cidadãos, quer na saúde, quer na educação. Porque propor a contratualização de mais negociatas com o terceiro setor e com quem se possa substituir às funções do Estado (colégios privados, hospitais e clínicas privadas, etc.) só pode significar a transferência indecorosa do dinheiro dos contribuintes para os bolsos sem fundo dos suspeitos do costume.
No fundo Santana revela-se por aquilo que quis fazer na Santa Casa e de que agora se procura eximir: vendo-se com tanto dinheiro, que acharia um escândalo se aplicado aos pobres a quem deveria apoiar, ambicionou a participação na banca, sendo sua a autoria da ideia para que tal estratégia fosse seguida. Pode-se levar a mal que, perante tão óbvia predisposição para diversificar o negócio da instituição, o governo tenha nela visto alternativa para dar uma mãozinha ao Montepio?

sábado, 6 de janeiro de 2018

Uma coisa arrevesada para entretenimento dos tais «deploráveis»

Razões várias têm-me impedido de, nos dias mais recentes, prestar grande atenção a quanto se passa à minha volta. Daí que anteontem à noite, quando me preparava para uma sessão de cinema, tenha  reagido com alguma estupefação à invetiva de pessoa amiga, também ali a comungar do mesmo prazer cinéfilo, mas a questionar-me porque não ficara a ver o debate dessa noite.
Estava tão a leste da sucessão de Passos Coelho no PSD, que julguei referir-se ela a um daqueles painéis de «inteligentes», que costumam esmiuçar todos os pormenores sobre os jogos de futebol dos dias anteriores, e que teriam no Benfica - Sporting muito sobre que parolar. Só depois percebi, que Santana e Rio estariam por essa altura a exibir os limitados dotes perante os masoquistas, que se dispusessem a assistir-lhes ao palavreado.
Pela manhã ainda espreitei nos telejornais a síntese do que se passara e a auscultar nos jornais o que ficava como saldo. Não foi difícil entender que a televisão e o semanário de Balsemão estão rendidos à «eloquência» de Santana e deram-no como vencedor da peleja. Mas, por seu lado David Dinis, no matutino da Sonae, deu como único vencedor o tranquilo António Costa, já que tudo lhe soara ao jeito da RTP Memória (no seu pior).
Por muito que as televisões, as rádios e os jornais torçam pelo que vier a vencer, nem Santana, nem Rio têm argumentos para beliscarem a superioridade intelectual, política e executiva do atual primeiro-ministro á frente dos destinos do país. Mas ambos ensaiam duas estratégias diversas, já gastas ou em vias disso, para tentarem forçar o destino.
Rui Rio busca apoiar-se naquele segmento da população portuguesa,  que nunca conseguiu livrar-se da canga salazarenta de dentro de si, e por isso deu ao ditador de Santa Comba a vitória num lamentável concurso sobre popularidade de personagens históricos e justificou vinte anos de cavaquismo a  azucrinar-nos as mentes … e os bolsos.
Santana olha para fora do país e procura reter os exemplos de Farage, Berlusconi ou Le Pen: insulta o 25 de abril e dirá tudo quanto possa sentir como «popular» para se enquadrar na vaga de demagogos, que tem ocupado espaço político excessivo na cena europeia dos últimos anos. Acaso seja ele o vencedor, Cristas estará em maus lençóis, porque também ela anda a testar esse mesmo tipo de demagogia, e aqueles que, neste cantinho, se adequam ao qualificativo empregue por Hillary Clinton para designar os  apoiantes de Trump - os deploráveis - não são assim tantos, que deem para garantir público bastante para dois «artistas» desse jaez.
No fundo eu tinha razão em sequer me dar ao trabalho de saber quando seria esse debate. Ele acabou por se revelar tão pequenino na relevância, que hoje já ninguém se lembra do que nele sucedeu... 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Os amigos que definem um carácter (ou a falta dele)

Um sábio provérbio popular afiança que “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.
Convenhamos que para Marcelo Rebelo de Sousa o que daí se ajuíza não é particularmente confortável: depois de ver um dos seus melhores amigos, Ricardo Salgado, metido nos apuros que sabemos, é a vez do seu dileto padre, responsável pelas paróquias de Oeiras e de Cascais, ver-se procurado pela Judiciária, depois de terem desaparecido valiosas peças de arte sacra. António Teixeira, assim se chama o religioso em causa até tivera o privilégio de contar com Marcelo a prefaciar-lhe o livro, que lançara meses atrás.
Perante o que da sua personalidade diariamente aquilatamos não espanta que Marcelo não tenha arriscado enviar a revisão da lei de financiamento dos partidos para o Tribunal Constitucional, pois sabia quão facilmente ali seria validada. Assim, e utilizando um tipo de expediente que não fica bem a quem deveria ter a irrepreensível ética de quem é chamado às suas altas funções, limitou-se a vetar o diploma, reenviando-o para  a Assembleia da República, e agindo em conformidade com a onda de demagogia que os jornais e as televisões se encarregaram de difundir nos últimos dias.
Porque sabe que os principais prejudicados com a escusa a essa aprovação são o PCP (que continuará a ter dificuldades em contabilizar todos os donativos auferidos por exemplo com a Festa do Avante) e o Partido Socialista (que não possui os financiadores, com que PSD e CDS contam como paga do trabalho para que estão mandatados pelo patronato e pela Igreja), Marcelo torna-se cúmplice da tentativa de manter a capacidade financeira dos partidos à esquerda limitada, ciente de ela não existir à direita.
A estratégia de Marcelo é óbvia: já que não consegue derrotar a maioria parlamentar nas sondagens e no sucesso dos indicadores económicos, intervêm onde lhe é possível: dificultando-lhes o mais possível o acesso a recursos para executarem a sua atividade política.
Sabe, também, que um dos seus ódiozinhos de estimação - Mário Centeno - está cada vez mais liberto da teia, que chegara a lançar-lhe, quando o chamara a Belém e tivera o «prestável» Lobo Xavier a mostrar-lhe sms, que nunca deveriam ter saído do alcance de quem os tinha recebido ou enviado. Nesse sentido, para além de, como presidente do Eurogrupo, Centeno olhar para Marcelo de cima para baixo, pode começar bem o ano com a acrescida almofada financeira de 350 milhões de euros não utilizados como receitas extraordinárias no exercício orçamental de 2017. Se as perspetivas para 2018 são boas, ainda prometem revelar-se melhores. Como dizia o blogue O Jumento em dia recente: É bom que o aparelho digestivo do Presidente esteja a funcionar bem porque a dieta que vai ter de suportar em 2018 não é das de mais fácil digestão. 


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Um genocídio que não conhece trégua

Com muita frequência, sobretudo por mail (já que no facebook tais «amigos» são prontamente eliminados e bloqueados), chegam-me mensagens que procuram difundir o medo do Outro, sendo este invariavelmente o emigrante negro, proveniente de uma África exaurida pelos monopólios internacionais, ou o refugiado do Médio Oriente, vindo á boleia do alibi das guerras civis a grassarem nos respetivos países.
Essas mensagens ou provêm de ingénuos, que ignoram ou querem esquecer quanto a Humanidade sempre teve estes fenómenos de grandes migrações de populações a abandonarem as terras de origem para buscarem vida mais confortável onde julgam poder encontra-la, ou, pior ainda, são enviadas por quem se identifica com o ódio indisfarçável ao que é a Democracia, uma forma de organização social sempre caracterizada pela inclusão e não pelo seu contrário.
Vem isto a propósito de um excelente documentário produzido na Holanda e que mostra como os governos da União Europeia criaram condições para que a fronteira sul da Europa não funcione nas margens do Mediterrâneo, mas mais a sul, na linha divisória entre o paupérrimo Níger e a caótica Líbia.
Agadez, cidade que foi de encontro das caravanas em tempos dedicadas ao comércio intrassariano, quer no sentido norte sul, quer no oposto, tornou-se base operacional da contenção de quem, vindo de países como a Nigéria, o Senegal ou a Libéria, procura chegar à Europa, ainda tida como espécie de Terra Prometida.
Em tempos a importante cidade do Niger fora cenário preferencial do rali Paris-Dakar, que garantia um afluxo de turistas, que se estendia pelos vários meses do ano e dava sustento aos comerciantes e aos transportadores locais. A insegurança dos últimos anos ditou a necessidade dessa população viver do afluxo de desesperados vindos do Sul e de olhos apontados sempre a norte.
A política repressiva estabelecida a partir de 2015, quando a União Europeia estabeleceu acordos com o regime para que este funcionasse como subcontratado para o controle desse fluxo e, sobretudo para a dissuasão de quem nele apostasse, tem suscitado novo declínio na economia local.
A estratégia de conseguir com que diminuam os pedidos de asilo na Europa, mediante a contratação dos regimes  por onde costumava transitar esse fluxo, está a conhecer consequências humanitárias gravíssimas: inviabilizadas as habituais rotas conhecidas pelos tuaregues, balizadas por poços e oásis com água bastante para garantirem a sobrevivência dos migrantes, leva-os a aventurarem-se por vias alternativas, que correspondem ao seu próprio enterro: hoje, no Saara, encontra-se um número indefinido, mas por certo muito elevado, de jovens, que partiram alimentados pela esperança de um futuro radioso e apenas encontraram a morte.
Mas os perigos, que suscitam terríveis tragédias não se ficam por aí: ao ter apostado no derrube de Khadafi, que conseguia uma eficácia significativa no controle dessas tentativas de chegar à Europa pelo Mediterrâneo, os governos europeus suscitaram um enorme caos na Líbia, causador da distribuição por todo o Sahel da imensa quantidade de armamento armazenada nos paióis do regime. Grande parte foi parar a gangues de bandidos, que assaltam os migrantes, os roubam e os matam, sem que haja governo que lhes trave a  atividade criminosa.
É por isso que se conclui estar em perda o capital político acumulado pela Europa durante décadas, e significando Democracia, Direitos Humanos, apoio ao subdesenvolvimento. Ao cuidar dos fluxos migratórios como exclusiva matéria de Segurança Interna os governos europeus só favorecem as extremas-direitas, que se alimentam precisamente do medo e do ódio a quem é diferente.
Se abordada de forma mais inteligente, nomeadamente, através da criação de condições para o desenvolvimento e a criação de emprego nesses países, não existiriam milhares de jovens, muitos deles saídos das Universidades locais e sem perspetivas de emprego, a aventurarem-se pelas areias saharianas e pelas águas agitadas do Mediterrâneo. Mas isso significaria que a Europa se  reencontrava com o que de melhor continha o projeto original dos seus pais fundadores. Algo de que parece, lamentavelmente, afastada...

Bipolaridades ou manipulações inconsequentes?

O ano de 2018 abre-se sob os melhores auspícios para quem defende a atual maioria parlamentar e confia no trabalho competente do governo: para quase todos os portugueses fica a certeza de verem desde já melhorados os rendimentos, sejam eles provenientes de salários ou de pensões. Para quem sofreu as humilhações e os custos decorrentes da vinda da troika e das políticas por ela inspiradas (ou concretizadas sob o seu chapéu-de chuva protetor!) só pode haver razões para confiar na solução política acordada por António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins em novembro de 2015 e com efeitos inegavelmente positivos desde então. Quantas pastilhas para a azia tiverem de engolir os que esperavam rotundo fracasso ao fim de alguns meses?
Dois artigos agora publicados alertam, porém, para a forma como essas expetativas continuam a ser ativamente sabotadas pela informação publicada. Num deles Daniel Oliveira conclui que nunca se viu um governo tão mal visto pelos jornais e pelas televisões e tão apoiado pela opinião pública. Razão para isso é simples: porque os sucessos do governo têm sido particularmente sugestivos na Economia, os detratores tentam separar esta da Política, como se ambas não exercessem uma na outra um efeito mutuamente condicionador.
Para quem dirige a (des) informação nos jornais, nas rádios e nas televisões, a Política cinge-se aos papéis roubados ou copiados aqui e ali, a conversas telefónicas supostamente enquadráveis no que deveria ser salvaguardado pelo segredo de Justiça e ao diz que disse, que acrescenta um ponto a quem iniciara o conto e garante, em poucos dias, que algo conotável com o oito pareça dimensionar-se pelo oitenta…
No outro texto, assinado por Manuel Carvalho da Silva, alude-se ao quanto as direitas vêm beneficiando da aparente bipolaridade do país, ora exultante com o crescimento económico, ora  esmagado pela dimensão trágica dos incêndios. O que  não tem sido devidamente incutido no imaginário coletivo nacional é que o crescimento económico, responsável pela criação de emprego, pela redução do desemprego e pela melhoria dos rendimentos das famílias resulta das políticas acordadas pelo Partido Socialista com os da demais esquerda parlamentar e muito competentemente implementadas, enquanto os incêndios decorreram de causas vindas de muito longe, com responsabilidades atribuíveis a entidades públicas e privadas, com resolução só possível daqui a uns bons anos.
Se o otimismo se justifica é por não haver indícios fortes quanto à probabilidade de os eleitores se virem a enganar sobre quem verdadeiramente lhes defende os interesses. Por muito que se mantenha organizada uma barragem de fake news e de notícias distorcidas ou maliciosamente apresentadas para o prejudicarem, é sucessivamente demonstrado pelas sondagens, que os «jornaleiros» falam, falam, mas não dizem nada de substantivo. A caravana do governo continua imparável em direção a um futuro mais radioso.