segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O ódio que uma informação de qualidade suscita!

Será crível que, daqui a uns bons anos, quando os historiadores se debruçarem sobre a História das esquerdas europeias nestes últimos anos, convirjam na conclusão de terem ascendido às respetivas lideranças alguns políticos avessos à matriz marxista - que lhes deveria estar no âmago! -, e deixado tentar por projetos espúrios de gerirem a organização capitalista da economia com maior competência que os habituais figurões das direitas. Se as análises forem objetivas constatarão que todas essas vocações conotadas com a esdrúxula «Terceira Via» terão reduzido drasticamente a influência dessas esquerdas junto dos respetivos eleitorados e contribuído ativamente para prolongadas governações das direitas mais conservadoras.
Porventura - e se a realidade evoluir como desejamos! - enaltecerão a exceção a partir da qual se terá então infletido o rumo das sociedades europeias e ela terá por nome a governação de António Costa à frente de uma maioria parlamentar virada determinadamente à esquerda. E como, pelos seus resultados, terá constituído exemplo paradigmático para que outros, igualmente afoitos, ousassem replicá-lo nos respetivos países.
Se o meu otimismo ganhar substancia poderemos encontrar a formulação de uma viragem histórica através da qual as sociedades europeias poderão ter recuperado o capital de esperança, que já foi o seu, quando prometiam um futuro mais justo e esperançoso aos respetivos povos.
Vem isto a propósito da polémica atualmente em curso em França e que tem tido por protagonista um dos mais pérfidos espécimes daquela «escola de pensamento» criada por Anthony Giddens, Bill Putnam e Mark Lyon e depois implementada por Tony Blair, Felipe Gonzalez, François Mitterrand ou Andreas Papandreou. Manuel Valls, pois é dele que se trata, não se contentou em quase destruir o Partido Socialista francês, como agora aposta na liquidação da agência noticiosa Mediapart, que é uma das poucas alternativas informativas em território gaulês a emancipar-se da tutela ideológica dos grandes grupos económicos. É que, ao contrário do «L«Obs», que manchou todo o passado da publicação outrora dirigida por Jean Daniel ao promover a candidatura de Emmanuel Macron à presidência ou do «Libé», caído nas mãos da sinistra Altice, a proposta informativa do site informativo de Edwy Pinel é uma das poucas garantias de se acederem a conteúdos noticiosos fiáveis. Algo que assusta e faz Valls agir como agente terrorista.
Vale pois ler atentamente um texto publicado na semana transata pelo diretor da Mediapart, que reivindica a importância da sua publicação na conjuntura atual e do qual se propõe a tradução do seguinte extrato:
“A democracia não se cinge ao direito de votar. Uma democracia que a tal se limitasse - o direito de escolher os seus dirigentes - pode produzir uma tirania doce em que o povo designa por intermediação os seus donos antes de retomar a costumada servidão. Porque, se for mantido na cegueira pelas propagandas partidárias e ideológicas dominantes com mentiras dos poderes estatais ou dos poderes económicas, o eleitor pode votar, sem o adivinhar, no seu pior inimigo ou na pior infelicidade que o possa esperar.
Significa isto que uma verdadeira democracia pressupõe o respeito por um direito fundamental: o de saber. Este direito é o de ser informado livremente, seriamente, rigorosamente. Saber tudo quanto caiba no interesse público ou seja tudo quanto é feito em nome do povo soberano, tudo o que influencia o seu quotidiano, tudo o que os interesses privados que gangrenam o interesse público pretendem esconder, tudo o que procuram escamotear os aparelhos partidários que apenas ambicionam o poder pelo poder, ou seja tudo o que nos der, enquanto cidadãos, a liberdade de escolher na maior autonomia das nossas decisões.”
Uma das dificuldades que a atual governação está a conhecer tem a ver com a desinformação da maioria dos órgãos de comunicação social, quase exclusivamente orientados para hostilizarem, continua e ativamente, tudo quanto está a colidir com os interesses de quem deles possui a propriedade. Por isso nos faz tanta falta uma Mediapart em Portugal, porque gente da estirpe de Valls é o que mais abunda no nosso ambiente político-partidário … e «informativo». 

domingo, 19 de novembro de 2017

Um crime ecológico a agravar-se à nossa porta

Sempre que se pretende exemplificar um crime ecológico suscitado pela forma irracional como as sociedades humanas abusam dos recursos naturais, as imagens do árido leito do outrora riquíssimo mar Aral vêm-nos amiúde à mente.
O que uma reportagem elucidativa de Luciano Alvarez dá a ver no «Público» de hoje é algo que se encaminha para tal cenário e tem o Tejo como vítima. A culpa é do projeto de engenharia Tejo-Segura, que desde 1981, anda a desviar as águas do rio para trezentos quilómetros a sul, onde a região de Múrcia foi transformada na «horta de Espanha» e garante anualmente mais de 2,6 milhões de euros ao PIB do país vizinho. A quantidade de água retirada do curso normal do rio leva alguns a dizerem que ele nasce em Albarracim e desagua, não em Lisboa, mas na região murciana. E para que a comparação seja mais explicita basta dizer que essa quantidade equivale ao consumo anual de duas vezes o da capital portuguesa.
Nesta altura muitos dos municípios a jusante do transvase estão a queixar-se com a falta de água de que padecem e está a contribuir para a respetiva desertificação. Aranjuez, por exemplo, é uma das cidades mais afetadas, levando os autarcas socialistas a juntarem-se ao movimento, que exige o fim dessa situação. Há quem diga ao jornalista que “eles estão a matar o rio e sabem que o estão a fazer, mas enquanto houver água no Tejo vão suga-la, transformá-la em euros e têm poder suficiente para mandar abaixo todos os que se atravessarem no caminho”. E, de facto, a reportagem encontrou quem falasse, sob anonimato, porque as represálias dos que classificam como «mafia da água» já prejudicou a vida a muita gente.
No futuro próximo adivinha-se um conflito tenso entre Portugal e a Espanha a este respeito até porque, ao chegar à fronteira portuguesa, o rio vem extremamente poluído por a ele virem calhar todos os detritos que o contaminado Jarama traz de Madrid, onde o tratamento de esgotos dos seus 6,5 milhões de habitantes deixa muito a desejar. A que se soma a gestão economicista das centrais hidroelétricas que, em vez de respeitarem as dinâmicas do rio, atuam exclusivamente na lógica dos seus interesses, ora retendo o máximo de água nas suas represas, ora abrindo-as inopinadamente sem atenderem às consequências de tais decisões nas populações perigosamente afetadas por súbitas cheias.
O que o texto de Luciano Alvarez denuncia é o exemplo lapidar do que é a utilização dos recursos hídricos , que cabem quer a portugueses e a espanhóis, mas que o governo de Rajoy utiliza como se só dissessem respeito aos restritos, mas poderosos interesses, dos industriais e agricultores, que lhe servem de base eleitoral...

sábado, 18 de novembro de 2017

O que defendemos não é salário igual para trabalho igual?

Estava nos livros: abrisse-se a caixa de Pandora para os professores e logo outras classes profissionais - polícias e militares - aproveitariam para vir reclamar tratamento igual, com consequências imprevisíveis para a conflitualidade social e para os rombos nas Finanças Públicas.
Pessoalmente, e tendo vivido experiências profissionais em que existiam cargos hierárquicos a ascender (mas apenas em função da reforma ou da mudança de situação profissional dos que estavam em cargos acima!), tenho grandes reservas em relação a uma progressão apenas considerada em função dos anos de serviço. Sobretudo, porque isso colide necessariamente com o princípio fundamental defendido pelo ideário de esquerda, que é o de «a trabalho igual, salário igual».
Nesse sentido haverá justiça, que um professor com 60 anos - e uma avaliação semelhante - ganhe mais do que outro com 40, apenas por estar há mais tempo na profissão? Cumprindo ambos os mesmos horários, que justiça existe nesse pressuposto?
Podem-se considerar tratamentos diferenciados no sentido em que, porventura, por compreensível perda de capacidades físicas, haja um aligeiramento do horário do mais velho em relação ao mais novo, mas diferença de remuneração, ademais numa lógica de sobrevalorização do primeiro? Onde já se viu isso? Quer na interação com os alunos em salas de aulas, quer na preparação das mesmas, o trabalho não é igual?
Existe, pois, uma contradição de tomo entre as aspirações corporativas - com o que nelas subjaz de um ideário fascizante! - com a suposta defesa dos valores das esquerdas por parte dos sindicatos. Que um diretor de uma escola ganhe mais do que um diretor de turma compreende-se; que um diretor de turma ganhe mais do que um professor sem esse tipo de responsabilidades, idem. Que um comissário de polícia ganhe mais do que um dos seus agentes, idem a dobrar. Que um major ganhe mais do que um sargente, idem a triplicar. Mas que profissionais dos mesmos patamares de desempenho vejam diferenciadas as remunerações em função de terem maior ou menor antiguidade na carreira, não se compreende.
É verdade que na época do salazarismo costumava dizer-se que a antiguidade era um posto, mas tratava-se de tese precisamente da época em causa... 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Aonde começando a falar de incêndios vamos parar à Casa Pia

Agora que os incêndios do verão e do outono já ficaram para trás, e podem ser escalpelizados com outra racionalidade, seria interessante que a Polícia Judiciária e outras autoridades policiais, incumbidas de explicarem a dimensão trágica do sucedido, nos pudessem informar sobre a efetiva percentagem dos sinistros causados por mão humana e, de entre eles, os que se suspeitam de prática criminosa. É que há fundamentadas dúvidas de essa causa ter sido mais frequente no ano em curso, faltando saber até que ponto resultou de iniciativas individuais sem conexão umas com as outras ou se tiveram por trás alguma forma de planeamento de cariz terrorista ou, pelo menos, ideologicamente inspirado por quem detesta o atual governo.
Enquanto o assunto esteve na ordem do dia multiplicaram-se as afirmações num e noutro sentido. Para que não hajam dúvidas sobre Diabos que terão vindo assombrar a Nação ou sobre fenómenos climáticos de extrema severidade, seria bom que nos fosse apresentada a devida conclusão. De forma categórica, científica e sem azo a remanescentes ambiguidades.
Mas se pegarmos num outro exemplo de acontecimentos, que ficaram por esclarecer - e sobre os quais a fúria mediática em busca do escândalo, do que pudesse vender jornais e revistas ou abrir telejornais! - aí está o «Público» a recordar o que assolou a Casa Pia há quinze anos e suscitado por uma manchete de primeira página do «Expresso» (ora por quem haveria de ser?).
Passados todos estes anos, mesmo com condenações e cumprimentos de penas, que, nalguns casos, continuam a suscitar sérias reservas quanto a ter-se feito justiça ou, pelo contrário, criado gritantes casos de injustiça para quem ficou com as vidas completamente destroçadas, há quem lamente seriamente o que se perdeu: uma certa mística  da instituição de que gerações tinham conservado justificado orgulho por a ela terem pertencido.
Pessoalmente, nos meus anos de Marinha Mercante, encontrei muitos e competentíssimos artífices (serralheiros, torneiros, soldadores), que ali tinham sido educados e formados enquanto grande profissionais dos respetivos ofícios.
Não existe, pois perdão possível para gente do quilate de uma sinistra provedora ou de um oportunista, que tanto viria a concorrer a cargos políticos pelo Partido Comunista como por outros de sinal contrário, que viram na gula voyeurista de jornalistas sem escrúpulos e de políticos de direita - que quiseram utilizar o caso como arma de arremesso contra o Partido Socialista  - a oportunidade de porem em causa a imagem da instituição. Com danos sérios para o futuro: havendo ainda milhares de crianças e jovens necessitados do tipo de apoio ali conferido, os casos dúbios e pontuais (porventura replicáveis em muitas outras instituições do género) deixou de se lhes ministrar os cuidados que tinham norteado todo o seu passado. E, nesse sentido, quantas vidas se transviaram por terem deixado de contar com a alternativa educativa, que o «Expresso» e os outros meios de comunicação (ou contaminação?) inviabilizaram?
Quinze anos depois continuamos sem resposta relativamente a ter efetivamente existido ou não uma rede pedófila a ali operar e se a Justiça não terá ido à boleia das condenações sumárias engendradas nos jornais pelos torquemadas de ocasião. Esperemos que, daqui a quinze anos, não andemos a questionar-nos se os incêndios deste prolongadíssimo verão justificaram ou não algumas pertinentes teorias da conspiração...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Vem serenidade! Que seja a deles (ministros deste Governo)!

Tenho que dar razão a Francisco Louçã quanto a notar-se algum nervosismo do governo de António Costa por causa do sucesso das direitas por, através das redes sociais, conseguirem transformar em casos de primeira linha de discussão pública aqueles que nunca deveriam colher maior relevância do que quantos interessam verdadeiramente aos portugueses: os que melhor poderão servir para darem satisfação às suas aspirações.
Ver o Ministro da Saúde pedir desculpa aos portugueses por algo em que não teve qualquer responsabilidade, fragiliza-o de imediato perante todas aquelas quotidianas infeções contraídas em ambientes hospitalares por doentes em quem já não surtem efeito os antibióticos atualmente existentes e que causam mortes cuja contabilização será notícia de primeira página se os donos dos jornais e os seus títereiros quiserem ir por aí.
O Governo tem de ser firme na defesa da sua honra não permitindo que um vil xavier venha indignar-se com o feto, que ele próprio gerou, como se culpado viesse a ser quem com a criança nos braços ficou. Ou que um qualquer adolfo venha indignar-se com o tratamento da memória da Nação, quando pertenceu a um governo, que cuidou de eliminar feriados particularmente significativos para saudar esse passado.
A firmeza do Governo deveria passar pela denúncia das políticas sinistras na área da Cultura e da preservação do Património, que serviram de alibi para a intenção de tudo privatizar, de expulsar o Estado de tudo quanto ainda lhe cabia cuidar. Porque, cultores dos valores das revistas cor-de-rosa, interessava-lhes muito mais a pompa dos eventos para tais espaços organizados do que os sentimentos potencialmente desenvolvidos por uma política séria e consequente de enaltecimento do Património em causa.
Essa tenacidade governativa também deve orientar-se para a confrontação direta das direitas com as suas contradições: que achar de um CDS, que tanto acarinhou o esvaziamento da escola pública em proveito das privadas e  agora, não lhe chegando tudo quanto tem sido investido na Educação nos últimos dois anos, ainda vem vestir-se de hábitos que nunca foram os seus, exigindo imediata gratuitidade dos manuais escolares do ensino secundário?
Que Mário Nogueira e a Fenprof queiram dar prova de vida com uma greve destinada a emitir retórica ruidosa em torno de um caderno reivindicativo irrealista - que em boa verdade nunca tiveram coragem bastante para exigirem ao anterior governo - ainda se percebe. Que as direitas, através dos seus sindicatos, se lhes colem, é apenas sintomático quanto ao que mais agora lhes interessa: queimar o mais possível uma terra, que se adivinha potencialmente verdejante.
Para lidar com uns e com outros será bom que alguns ministros mais canhestros na comunicação serenem-se com urgência: contra quem lhes tenta multiplicar rasteiras convirá que as encarem com frieza para nelas não tropeçarem...

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Porque querem tantos gastos públicos os que exigiam um Estado mínimo?

Tem sido constante a crítica dos partidos da direita quanto aos gastos insuficientes com as funções fundamentais do Estado. Por isso mesmo têm feito das cativações o seu cavalo de batalha, como se pudessem servir de exemplo para o que têm sido os gastos assumidos por este governo, seja na Saúde, na Educação e noutros setores fundamentais para o bem coletivo.
Há quem o venha lembrando, mas nunca é demais acentuar o que é a nossa memória dos anos da mais recente desgovernação das direitas: a palavra de ordem era reduzir o Estado ao mínimo, substituindo essas funções fundamentais por politicas assistencialistas aos mais pobres. Ciente de que reduzir a dimensão do universo do funcionalismo público seria a estratégia mais expedita para quebrar a espinha aos sindicatos, e muito particularmente à CGTP, tudo deveria ser privatizado, a começar pelos transportes públicos. Ou encolhido como seria o caso da Educação com as escolas privadas a colherem um número significativamente maior de contratos com o Estado, ou como o da Saúde com o empurrão progressivo da grande maioria dos que tivessem posses para a pagar a privados e assim lhes garantissem o negócio dos hospitais e clínicas concorrentes do Serviço Nacional previsto pela Constituição.
Mesmo para os tais pobres, cobertos pelas instituições de Solidariedade Social, quase todas comandadas pela Igreja Católica, seriam muitas as pressões para que colhessem, humildemente agradecidos os «favores» prodigalizados e votassem sempre de acordo com as orientações dos curas e bispos. Brincar-se-ia à caridadezinha e ainda se arregimentariam os miseráveis como sua eficaz carne para canhão.
Se o governo de Passos Coelho e Paulo Portas tivesse conseguido prorrogar o prazo de validade para este quadriénio conseguiria construir uma sólida realidade ideológica, que, com a ajuda dos meios de comunicação social devidamente instrumentalizados para esse objetivo (ainda o estão, mesmo que órfãos de quem lhes aproveite a contínua manipulação!), eliminariam do acesso aos órgãos executivos do Estado os partidos de esquerda.
É por isso mesmo que não se compreende como estes insistem em ser tão inábeis na forma como deveriam estar a construir uma sólida alternativa a esse projeto neoliberal em vez de se digladiarem na retórica e na prática com que enjeitaram coligações pós-eleitorais nas autarquias onde teriam mais do que condições para marginalizarem as direitas.
O que divide as esquerdas das direitas nos anos vindouros é essa atitude face ao Estado: há os que querem que ele cumpra o que a Constituição prevê e ganhe maior espaço no cumprimento das suas funções fundamentais e os que pretendem regressar ao tempo em que interesses privados se sobreponham ao interesse público. Custa muito criar uma plataforma de entendimento, que perenize a atual maioria parlamentar muito para além de 2019?
Na maioria dos que contacto ou leio parece evidente que, socialmente, existe um grande consenso em torno da vontade de consolidação da convergência das esquerdas como única alternativa às direitas, que continuam a  ter forças comprometidas no esforço de porem fim a esta experiência política. E isso vale não só para os diretores dos jornais, rádios e televisões, mas também para o ministério público, para o selfieman de Belém e para os senhores da CIP, da CAP e outras confederações patronais, impacientes por se verem novamente brindados com orçamentos e políticas, que os livrem de pagar os impostos e as contribuições sociais devidas.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Já o suspeitávamos, mas na Tecnoforma houve mesmo fraude

Que os Departamentos Centrais de Investigação  e Ação Penal da esfera do Ministério Publico têm tido uma parcialidade partidária mais do que manifesta demonstra-o uma vez mais o caso Tecnoforma, que aqueles organismos nacionais decidiram arquivar por falta de fundamento de provas e o Gabinete Antifraude da Comissão Europeia ajuizou em sentido absolutamente contrário.
Segundo os auditores, mandatados pela Comissão para aferir os factos, Paulo Pereira Coelho (ex-dirigente da JSD e então presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Centro), Miguel Relvas (como secretário de Estado) e Passos Coelho (enquanto consultor e administrador da empresa) agiram fraudulentamente para favorecerem o projeto de formação de pessoal para aeródromos e heliportos. Para tal organizaram um carrocel financeiro de contratações e subcontratações destinado a receberem indevidamente fundos da União Europeia num montante de 6.747.462 euros. Verba que o referido gabinete antifraude propõe que seja devolvida, muito embora saibamos que atempadamente os que embolsaram tal pecúlio já cuidaram de declarar falência das empresas passíveis de virem a responder com os seus ativos por tal vigarice.
Os auditores europeus não tiveram dificuldade em detetar custos indevidos com casas de que a Tecnoforma era proprietária em Angola, bem como “veículos topos de gama, frigoríficos, arcas congeladoras, placas de aquecimento, televisores, geradores, máquinas de lavar roupa, colchões, armários e quadros, etc.”. Tudo evidências que os procuradores do Ministério Público não conseguiram ou não quiseram ver.
E por muito que Passos Coelho venha alguma vez proclamar a sua suposta honestidade - que, em tempos, até conseguiu iludir Mário Soares - estas conclusões agora conhecidas não deverão jamais ser esquecidas, por muito que fique ilibado criminalmente do seu conteúdo, por ele ter prescrito sem jamais se ver incomodado.

Os medos infundados dos que temem distopias assustadoras

A passagem da Web Summit por Lisboa voltou a despertar-nos para a discussão sobre como será o futuro do trabalho, quando a robótica, a automação e outras soluções informáticas eliminarem muitas das atividades ainda cumpridas com recurso à intervenção humana.
Uma das intervenções mais comentadas foi a de Carlos Moedas, que não disfarçava o prazer pela eventualidade de, a curto ou médio prazo, os trabalhadores deixarem de assim se entenderem, para adotarem a presunção de se comportarem como empreendedores. Em vez de se sentirem comprometidos com uma empresa a que se possam sentir vinculados por contrato, deveriam assumir-se como patrões de empresas com um só funcionário e comprando e vendendo serviços de uma forma manifestamente precária.
Filho de conhecido comunista de Beja, Moedas tem as bases ideológicas suficientes para se comprazer com a ideia de uma nova fase de capitalismo sem luta de classes, porque sendo todos patrões, deixariam de fazer sentido as contradições entre exploradores e explorados. A realidade económica seria caracterizada pela concorrência entre milhões de empreendedores individuais dispostos a venderem-se pelo custo mais baixo para que os oligopólios continuassem a aumentar a riqueza dos seus principais acionistas.
No «Jornal de Notícias» o prof. Carvalho da Silva, ex-líder da CGTP, comentava esta narrativa destinada a prolongar tanto quanto possível o iminente ocaso do capitalismo: Os poderes que impõem esta agenda precisam, imperiosamente, de construir uma visão apocalíptica do futuro do trabalho, de eliminar o próprio conceito de trabalho substituindo-o por um conceito vago de atividades associadas, por exemplo, à panaceia do empreendedorismo individual. Não querem discutir as mudanças a introduzir no mundo do trabalho em decorrência dos avanços tecnológicos e científicos, mas sim qualificar como anacrónicas a condição de trabalhador, o direito do trabalho, os instrumentos de regulação e regulamentação e as instituições de mediação que deram dignidade ao trabalho. Tudo substituído pela mentira de que no futuro já não haverá subordinações, de que bastará o querer, a determinação e empenho de cada indivíduo para garantir livre poder de escolha”
Uma das constatações, que os Paradise Papers confirmam, é a da ganância indisfarçável dos principais gigantes empresariais da indústria informática, que usam todos os recursos ao seu alcance para se isentarem do pagamento de impostos e eliminarem quaisquer regulamentações impeditivas de se comportarem o mais selvaticamente possível num mercado sem concorrência digna desse nome.
Uma ação imediata para evitar esse futuro apocalítico em que a grande maioria da população estará condenada ao desemprego é a que Daniel Oliveira propõe no «Expresso»: ”Não sou um ludista pronto para destruir as máquinas. Mas o papel dos políticos ou dos eurocratas que capturaram os seus poderes não é impor novas “narrativas” para que aceitemos como natural a selva que nos reserva o futuro. É criar os instrumentos regulatórios para que a tecnologia sirva para nos libertar e não para nos escravizar. Histórias como as dos Paradise Papers explicam-nos porque não o fazem: não é para nós que trabalham.”
Há, no entanto, o paradoxo que condicionará de forma determinante essa tendência para criar uma economia avessa à participação humana, porque qual seria o sentido de produzirem mercadorias se não existirem consumidores para as adquirir? Carecendo o sistema de um aumento constante da dimensão do mercado, que sentido fazem as perspetivas distópicas, que passariam pela sua reduzidíssima expressão?
Por estes dias deparámo-nos com muita gente a discutir um assunto sério com a frivolidade com que outros em séculos idos se debruçavam sobre a magna questão do sexo dos anjos.

domingo, 12 de novembro de 2017

Um inesperado efeito do aquecimento global

Os cientistas ainda não terão concluído isso, mas estou cá para lhes dar uma ajuda: um dos mais inesperados efeitos do aquecimento global e do estender do verão por este outono sem chuva adentro, tem sido a manifestação quase quotidiana do que dantes associávamos a comportamentos típicos da silly season.
Recordemos ao que estávamos habituados: em tempos idos, menos condicionados pelos humores meteorológicos, chegava-se ao verão, a política metia férias e as capas das revistas mostravam mamocas e escarrapachavam grandes títulos sobre sexo. Mas, porque o tema não conseguia ser assim tão elástico, complementavam-se as reportagens sobre os gigolos algarvios ou as alternadeiras de Trás-os-Montes com aquele tipo de curiosidades, que justificam anualmente os IgNobeis: as razões, que possam justificar a aversão dos pombos por uma determinada estátua no Japão, a explicação porque os estudantes de humanísticas não gostam de couves de bruxelas, a relação da música country com as taxas de suicídio e outras parvoíces do género.
É claro que a bancada do PPD/PSD ajuda muito ao prolongamento da estação das tontices: ter uma das suas estrelas a afiançar da proibição da legionella só nos pode suscitar a gargalhada por muito que nos mereçam consideração os que morreram ou ainda estão hospitalizados por causa da malfadada bactéria. Mas pior ainda é o seu líder parlamentar, que nos faz sempre lembrar aquela tese freudiana em como detestamos sempre no outro, o que mais odiamos em nós: são tantas as vezes em que diz valerem zero os ministros socialistas (incluindo o primeiro), que denota ali a urgência em ser consultado por competente psicanalista. O rapaz tem sérios problemas de autoestima e necessita de um sem fim de sessões para ver se ganha por si mesmo alguma capacidade de concluir por um méritozinho, mesmo que ínfimo, escondido lá nos esconsos do seu limitado cérebrozinho. Muito embora desconfiemos estar ali mais um exemplo do que Robert Musil definiu como o típico homem sem qualidades.
Mas nem sequer Marcelo escapa às tontices inerentes a esta atmosfera estranha: não lembraria a ninguém, que nos quisesse vir impor a Maria Cavaca como madrinha. Uma ideia dessas não nos faz rir, nem sequer sorrir: é de arrepiar tão halloweenesca nos parece a criatura. Não tanto como representação da Bruxa Má do ocidente, nem como Rainha de Copas, mas assim mais do género de uma coisa abstrusa relacionada com Presépios - uma espécie de personagem dos filmes do Mario Bava ou do Dario Argento, mas sem ponta de sensualidade.
É nesta envolvente alucinada, que veio à baila a estória do Panteão com os vilões a quererem sacudir a capa da responsabilidade de terem querido transformar a memória nacional em local para a organização de eventos e até terem criado uma ridícula tabela de preços para o efeito.
Vale-nos a sanidade desta maioria parlamentar - que comemora dois anos de existência - ainda insuficientes para desativar todas as minas e armadilhas deixadas pela pesada herança dos que quiseram-nos convencer de que viveríamos doravante num mundo onde tudo se comercializa, tudo se privatiza.
Esperemos que as chuvas acabem por vir e as patetices laranjas ou do selfieman deem lugar a alguma sensatez.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Uma paranoia contra o que melhor podemos ser como pessoas

Catherine Millet tem-nos habituado a opiniões desassombradas, que colidem, amiúde, com as maioritariamente publicadas no nosso universo mediático. Agora é toda a campanha em torno do assédio sexual em Hollywood, com alcance noutras latitudes, que suscita o seu repúdio.
Em primeiro lugar ela rejeita que as atrizes e modelos vindas a lume por denunciarem as práticas de Harvey Weinstein sejam incensadas como corajosas. De facto, aproveitaram-se do facto do produtor estar com a situação financeira muito comprometida para o virem empurrar ainda mais aceleradamente na direção do abismo, que era já o seu. Esta atitude de só fustigar quem está em queda é prova de uma cobardia, infelizmente muito comum nos dias que correm, embora tenhamos exemplos históricos a demonstrar a sua inequívoca pertença ao que o comportamento humano pode ter de mais execrável nos seus mais sombrios momentos.
A crítica de arte e chefe de redação da Artpress dá como contraponto a atriz Juliette Binoche que desconsiderou as denúncias em causa, porque sempre que se viu pressionada por algum produtor no sentido de assédio atribuído a Weinstein, assumiu a rejeição de qualquer aceitação da sua parte e não foi por isso que viu comprometida a admirável carreira cinematográfica.
Catherine Millet também contesta que esta campanha contribua o que quer que seja para a emancipação das mulheres por conotar a sexualidade com algo que tende a ser interiorizado como algo de inevitavelmente violento, de agressivo. Por isso este tipo de notícias só pode contrariar a sua defesa do flirt como manifestação livre de um possível interesse entre duas pessoas, que possam querer ir mais além no conhecimento que possam iniciar. Às tantas chega-se a uma histeria tal em relação à sexualidade que, antes de chegarem a essa fase da sedução, as pessoas em causa tenham de assinar um documento devidamente carimbado para garantirem o consentimento quanto a tal cumplicidade, que mentes mais tortuosas podem ler como de assédio indecoroso.
A sexualidade deveria ser tratada nos media pelo que pode ter de belo, avesso a este exclusivo tratamento pornográfico das suas manifestações ilegítimas. Desde muito cedo, e com a devida formação escolar, rapazes e raparigas deveriam saber que se pode tratar de algo de mágico, capaz de superlativizar o seu viver. Porque, se deixamo-la entregue aos fanáticos religiosos e aos puritanos (os que Ary dizia terem sido «feitos em ceroulas») pode-se chegar a situações extremas como são os fenómenos das precoces gravidezes de adolescentes, mesmo nos ambientes em que são instadas a manterem-se virgens até ao casamento, com cerimónias a preceito para com esse compromisso, como sucede nos EUA, ou como sucede no Japão onde rapazes e raparigas deixaram de conseguir falar-se com naturalidade, criando-se «namorados de aluguer» ou cursos de formação para que consigam recuperar a perdida naturalidade. E, por paradoxal que pareça, são nesses Estados do sul dos EUA ou no Japão, que a indústria pornográfica conhece maior fulgor. Porque o sexo é aí vivido como um tabu em vez de ser tido como algo de intrínseco ao que de melhor podemos ser como pessoas.

(S) Nina Simone a cantar «I Want A Little Sugar In My Bowl»

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os bons negócios que o governo de Passos Coelho garantia aos amigos

Trocando por miúdos a história conta-se assim: dois dias antes das eleições de 2015 o secretário de Estado do Ambiente, Artur Trindade, tratou de fazer um favor a um correligionário de partido, o antigo ministro Carlos Pimenta, alterando a licença da empresa Generg de modo a que produzisse energia solar fotovoltaica, devidamente subsidiada, em vez da eólica com que se vira brindada por concurso público.
Já que estamos a falar de um Pimenta vale a pena apimentar a estória com a ligação direta do dito com Jorge Moreira da Silva, ministro do Ambiente à data do despacho, no think thank «Plataforma para o Crescimento Sustentável».
Anulada a decisão fica em aberto a possibilidade de a Generg produzir energia solar para a rede pública, mas sem os subsídios que lhe diminuiriam significativamente os custos de produção em 42 milhões de euros. Pagos pelo Orçamento Geral do Estado.
Mas não era só a Generg a sair beneficiada pelo Despacho, porque outros electroprodutores logo quiseram apanhar a boleia e procederem de igual modo: a Soares da Costa logo quis mudar três hidrelétricas algarvias para solares, que implicaria um gasto suplementar para o Estado em 140 milhões de euros. E a Hydrotua, a Enervouga, a Energiacomparada e a Hidro Louzadela mimetizaram-nos na mesma movimentação corporativa. Total de prejuízo previsto para todos os contribuintes: 350 milhões de euros.
Dado que o Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República deu como ilegal e inconstitucional esse despacho, por usurpar a função legislativa e os princípios da concorrência, igualdade de tratamento e transparência em relação aos outros operadores que participaram no concurso público de 2008, só se pode esperar que proceda em conformidade e cuide de analisar a culpabilidade de quem se serviu de função pública para o favorecimento de amigos.  

Ela bem sabe por quem os sinos dobram

Nos últimos tempos tenho tido uma inesperada complacência para com Maria Luís Albuquerque. Vendo-a e ouvindo-a não esqueço o quanto a sua perspetiva do mundo é oposta à minha, mas começo a senti-la como uma náufraga prestes a afogar-se e que tenta agarrar-se ás últimas tábuas ainda a flutuarem à sua volta.
Se for Rui Rio a ganhar poderá dispensar perfeitamente quem dele é apenas uma aproximação, e de menor gabarito. Um e outro são austericidas por natureza, mas o antigo autarca do Porto possui uma tarimba política, que a discípula de Vítor Gaspar nunca poderá alcançar, ela que se limitou a ter uma medíocre carreira académica numa área onde se imbuiu dos preconceitos mais comuns dos neomiltonfriedmanianos e dali não conseguiu passar. Enquanto Rio embrulha esses mesmos conceitos numa visão política com que não concordamos, mas é coerente, Maria Luís limitou-se a receber os livros de instruções ditados por Schäuble & Cª, tratando de as seguir tão zelosamente quanto possível.
Pior fica se for Santana Lopes a vencer: populista por natureza, o antigo provedor da Santa Casa até seria capaz de repetir as perfídias do Ventura de Loures se sentisse ser essa a mensagem marketeira eficaz para cumprir a ambição de regressar à ribalta donde foi tão humilhantemente apeado.
Na liderança da oposição a António Costa, Santana Lopes será mais do género «se o outro diz mata, ele terá que dizer esfola», ou seja, por outras palavras, se o governo projeta x milhões para a Saúde ele quererá o dobro, se os aumentos são y, ele exigirá o triplo e assim por diante. De outra forma, mas não menos perigosa, ele será o populista, que virá dar razão aos comentadores políticos quanto à inevitabilidade de virmos a ter no nosso cantinho à beira-mar plantado o mesmo tipo de gente que forma o movimento do palhaço Grillo em Itália ou o Farage inglês.
Nesse contexto Maria Luís não encontrará lugar, nem sequer para se manter na última fila da Assembleia, que tem sido onde se tem recolhido nesta legislatura. Por isso lamenta que Passos Coelho se tenha demitido, por ser ele o único a julga-la com algum préstimo.
Por isso mesmo  os sinos já dobram pelo enterro político da criatura por muito que um jornal faça ainda dela capa e uma rádio lhe dê espaço para longa entrevista. Porque lidas e ouvidas as suas palavras sente-se que ela não aprendeu nada, mantendo-se cristalizada na cassette que sempre tem sido a sua. É essa condição de fim anunciado, que me leva a já não sentir por ela as emoções de tempos idos, quando não deixaria de, em manifestações, lhe desaprovar a forma de desgovernar o país. E desaprovei totalmente que, na tomada de posse dos novos edis de Almada, a ruidosa assistência comunista a tenha tão veementemente assobiado, desrespeitando o facto dela ali estar não como ex-governante, mas como autarca democraticamente eleita por uma parte não negligenciável dos almadenses. É nesse sentido que me vou sentindo complacente com a sua triste figura...