quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Ela bem sabe por quem os sinos dobram

Nos últimos tempos tenho tido uma inesperada complacência para com Maria Luís Albuquerque. Vendo-a e ouvindo-a não esqueço o quanto a sua perspetiva do mundo é oposta à minha, mas começo a senti-la como uma náufraga prestes a afogar-se e que tenta agarrar-se ás últimas tábuas ainda a flutuarem à sua volta.
Se for Rui Rio a ganhar poderá dispensar perfeitamente quem dele é apenas uma aproximação, e de menor gabarito. Um e outro são austericidas por natureza, mas o antigo autarca do Porto possui uma tarimba política, que a discípula de Vítor Gaspar nunca poderá alcançar, ela que se limitou a ter uma medíocre carreira académica numa área onde se imbuiu dos preconceitos mais comuns dos neomiltonfriedmanianos e dali não conseguiu passar. Enquanto Rio embrulha esses mesmos conceitos numa visão política com que não concordamos, mas é coerente, Maria Luís limitou-se a receber os livros de instruções ditados por Schäuble & Cª, tratando de as seguir tão zelosamente quanto possível.
Pior fica se for Santana Lopes a vencer: populista por natureza, o antigo provedor da Santa Casa até seria capaz de repetir as perfídias do Ventura de Loures se sentisse ser essa a mensagem marketeira eficaz para cumprir a ambição de regressar à ribalta donde foi tão humilhantemente apeado.
Na liderança da oposição a António Costa, Santana Lopes será mais do género «se o outro diz mata, ele terá que dizer esfola», ou seja, por outras palavras, se o governo projeta x milhões para a Saúde ele quererá o dobro, se os aumentos são y, ele exigirá o triplo e assim por diante. De outra forma, mas não menos perigosa, ele será o populista, que virá dar razão aos comentadores políticos quanto à inevitabilidade de virmos a ter no nosso cantinho à beira-mar plantado o mesmo tipo de gente que forma o movimento do palhaço Grillo em Itália ou o Farage inglês.
Nesse contexto Maria Luís não encontrará lugar, nem sequer para se manter na última fila da Assembleia, que tem sido onde se tem recolhido nesta legislatura. Por isso lamenta que Passos Coelho se tenha demitido, por ser ele o único a julga-la com algum préstimo.
Por isso mesmo  os sinos já dobram pelo enterro político da criatura por muito que um jornal faça ainda dela capa e uma rádio lhe dê espaço para longa entrevista. Porque lidas e ouvidas as suas palavras sente-se que ela não aprendeu nada, mantendo-se cristalizada na cassette que sempre tem sido a sua. É essa condição de fim anunciado, que me leva a já não sentir por ela as emoções de tempos idos, quando não deixaria de, em manifestações, lhe desaprovar a forma de desgovernar o país. E desaprovei totalmente que, na tomada de posse dos novos edis de Almada, a ruidosa assistência comunista a tenha tão veementemente assobiado, desrespeitando o facto dela ali estar não como ex-governante, mas como autarca democraticamente eleita por uma parte não negligenciável dos almadenses. É nesse sentido que me vou sentindo complacente com a sua triste figura...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Um ano de capilaridade alaranjada

Um ano passado sobre a eleição de Trump, o que mais me dececiona é a incapacidade do Partido Democrata em retirar lições da derrota e tardar na preparação da alternativa vencedora nas eleições de 2020. E o livro de Hillary Clinton recém-publicado só confirma que quem a quis impor como vencedora das primárias, quando Bernie Sanders tinha melhores condições para se opor a Trump, é quem maior dificuldade terá em aceitar a evidência da sua responsabilidade na derrota.
Não será pela reiterada sucessão de aleivosias do bufão de cabelo alaranjado, que se garantirá o sucesso da decência e de alguma preocupação social contra os contornos criminosos dos que cavalgaram no tea party e intentam transformar o Partido Republicano no dos suprematistas brancos do KKK. Mas também está a faltar aos democratas a argumentação mais apreciada pelo eleitorado: o agravamento dos indicadores de crescimento da economia e do desemprego, que ainda persistem animadores muito por culpa das políticas de Obama. Se Trump consegue mostrar algum sucesso do seu primeiro ano de governo, fá-lo à conta da dinâmica vinda de trás e que dá já sinais de começar a perder gás.
Só quando os desempregados dos Estados do rust belt se convencerem de terem sido os tolos a quem se estenderam bandejas de bolos, e os efeitos do isolacionismo - que nenhum voluntarismo protecionista conseguirá compensar -, confirmarem que os salários deixaram de conhecer atualizações, arrefecendo toda a atividade baseada no consumo interno em queda é que será crível que os democratas consigam ganhar algum juízo. Porque, como sabemos, a hipótese de ganhar eleições tende a aproximar quem, no mesmo campo, se vai entretendo com querelas fratricidas.
Por ora vamos assistindo ao triste espetáculo de Trump a passear-se por sítios onde o tratam como o tolinho, que saiu do manicómio para surpreender com disparates, que nem os mais hábeis assessores conseguem evitar. Visitar o Japão ou a Coreia do Sul instando-os a comprar armamento norte-americano se se querem sentir seguros contra as bravatas de Kim Jong-un, porque não se lhes continuarão a aceitar excedentes na balança comercial com o Tio Sam, constitui uma ameaça óbvia, que a sensibilidade asiática registará sem aparente crispação, mas que poderá ser sentida como um ultraje. E que esperar do momento palpitante em que, no Vietname, Trump ficará entalado entre Putin e Xi Jinping? Será capaz de se julgar o pistoleiro mais forte, por ter as armas mais sofisticadas, ou terá consciência que, no momento de as utilizar, contará bem mais a inteligência dos que se lhe opõem e compreendem onde mais lestamente o atingir?
Após um ano de Trump não nos chegámos a assustar tanto quanto tememos, porque tem na retaguarda quem lhe pisa os calos sempre que põe o pé na argola. Mas que ficaremos aliviados, quando ele sair de cena, ninguém duvide... 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Uma comemoração por que Putin preferia não passar

Neste dia em que se celebram os cem anos da revolução bolchevique, parece consensual a ideia, dentro e fora da Rússia, que o regime de Vladimir Putin desvalorizou totalmente o sentido da data, nada fazendo para a diferenciar de qualquer outra anódina efeméride. O que se compreende: qualquer semelhança entre a atuação do Kremlin nos dias de hoje e as práticas dos governos soviéticos - mesmo quando moribundos já eram uma caricatura dos valores presentes na sua retórica! -, é uma absurda coincidência.  Da formação académica que teve e na condição de espião na antiga Alemanha de Leste, Putin só terá retido o lado nacionalista, que é precisamente o paradoxo oposto da ideologia, que deveria defender. Os valores, esses, meteu-os num saco, que fechou e enterrou em sítio onde o não pudesse encontrar.
Ao contrário do atual presidente chinês que sabe não ser comunista, mas ter pena, Putin cometeu a heresia de recuperar a importância política e social da Igreja Ortodoxa, cuja idiossincrasia nada evoluiu desde que perdeu toda a influência, quando a Revolução a reprimiu por se tratar de esteio fundamental do poder autocrático dos czares.
Seria, pois, incómodo a Putin assumir-se nalguma linha de continuidade dos que ocuparam há cem anos o Palácio de Inverno. Mesmo sabendo que milhões de compatriotas ainda prezam essa utopia falhada e anseiam de algum modo por recuperá-la devidamente atualizada para as circunstâncias atuais.
Para quem anseia por um mundo novamente estimulado por ideais de justiça social, que opere uma distribuição mais equitativa e responsável da riqueza mundialmente produzida, a Rússia de Putin nada nos tem a ensinar. Respeitamo-la apenas por constituir-se como memória de algo de grandioso, que nunca chegou a concretizar-se nas suas prodigiosas virtualidades. 

A quem cabem as responsabilidades pelo surto de legionella?

Espero que a atual crise com a legionella não suscite nas direitas o habitual coro histérico em que procuram culpar o governo pelas mortes e afetados por tão perigosa bactéria.
Durante toda a minha vida profissional fui responsável por equipas de manutenção, que tinham por objetivo, entre a enorme carga de trabalho quotidiano, garantir que este tipo de situações não se verificasse. Quer a bordo dos muitos navios, mormente os de cruzeiros, em que fui responsável por toda a maquinaria destinada à propulsão e ao conforto de passageiros e tripulantes, quer enquanto diretor de uma empresa incumbida de assegurar essa mesma operacionalidade e bem estar em muitíssimos edifícios, entre os quais emblemáticos centros comerciais, grandes fábricas e salas de cinema por todo o país, a prevenção deste tipo de perigos sempre esteve na primeira linha das preocupações. E assim age a grande maioria dos profissionais de engenharia, que assumem esse tipo de funções.
Para evitar o tipo de problemas como o agora verificado em Lisboa há só um requisito: cumprir um escrupuloso programa de manutenção, que inclui a limpeza de tabuleiros de condensados e das grelhas dos sistemas de refrigeração e ar condicionado. Felizmente, ao longo de todo o meu percurso profissional, nunca tive um único caso de legionella. Mas posso afiançar que fui afortunado, sobretudo porque foram muitas as vezes em que assinei contratos que, no início, recebiam de herança situações calamitosas, que poderiam no hiato entre a receção das instalações e as primeiras intervenções ter causado essas lastimáveis consequências.
Poderão os partidos de direita vir relacionar estes casos de saúde pública com suborçamentos nos custos operacionais dos hospitais? Poderão, mas não cabe ao governo inspecionar as instalações de cada edifício público e assegurar que todos eles cumprem a legislação referente à sua boa manutenção. A culpa cabe às administrações e às direções de cada um desses edifícios que nunca poderão descurar a prioridade que esta sua área de responsabilidade exige. 

Destemperos, clandestinidades e regressos ao passado

Porque não se cala?
É uma regra muito comum nos socialistas: sempre que estão no poder surgem sempre uns quantos desgarrados a servirem de idiotas úteis a quem anseia por os amesquinhar. Desta vez foi Miranda Calha que, porventura agastado com a irrelevância da sua participação no grupo parlamentar, veio defender o fortalecimento dos poderes presidenciais nas áreas da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.
Se Marcelo já usa e abusa dos penachos imagine-se se ainda lhe atribuíam mais uns quantos!
A reversão do nome de Volgogrado
No seu périplo pela Rússia, Manuel Carvalho chegou a Volgogrado e dá conta da grande simpatia, que parte substancial dos seus habitantes da cidade manifesta pelo regresso ao nome de Estalinegrado. A razão está no facto de ter sido sob esse nome, que os exércitos nazis ali se mostraram incapazes de avançar, iniciando-se a inflexão da dinâmica belicista, que acabaria por os derrotar.
Numa mera lógica de branding as vantagens de Estalinegrado sobre Volgogrado são evidentes: já todos ouviram falar da primeira, quase ninguém conhece a segunda. Sendo de somenos importância o que possa ser lido como homenagem ao presidente que, pese embora todos os crimes de que é acusado, foi heroico no combate ao fascismo mobilizando os compatriotas para a missão sagrada de livrar o país dos seus ocupantes.
Como Putin simpatiza com a ideia, os que têm ganho balúrdios a maldizer Estaline vão-se roer de raiva por, apesar dos seus esforços, não conseguirem demover os russos de recuperarem os aspetos positivos de um dos seus mais amados líderes. Como eu próprio comprovei no final da década de setenta quando, em Tuapse, ouvi vários interlocutores elogiarem o mal afamado líder e criticarem asperamente o então inoperante Brejnev.
Aparências que parecem mais do que isso
Que existem - ou existiram? - afinidades eletivas entre os próximos de Donald Trump e os de Vladimir Putin já poucas dúvidas restam. Por isso mesmo nem sequer chega a surpreender a clandestina sociedade entre o multimilionário escolhido pela atual Administração da Casa Branca para secretário de Estado de Comércio e o genro do Presidente russo numa empresa de navegação agora denunciada pelo consórcio de jornalistas do Panama Papers.
A maior curiosidade será a de acompanhar nos tempos vindouros a crescente assumpção dos apoiantes de Trump, normalmente eivados de um anticomunismo fanático, com o envolvimento indisfarçável do seu herói com o campo inimigo por muito que nós saibamos o quão distante está Putin da ideologia soviética. Mas isso são minudências que as cabeças quadradas trumpianas não conseguem apreender…
Quando políticos legitimamente eleitos são aprisionados
Afinal os que se entusiasmavam com a possibilidade de Rajoy ter resolvido a crise catalã à bruta, de acordo com os seus tiques franquistas, já estão a temer a forte probabilidade de os independentistas voltarem a contar com a maioria absoluta no Parlamento eleito a 21 de dezembro só vendo reforçada a legitimidade dos seus intentos. Como escreve a diretora de um jornal catalão, os muitos erros cometidos por Puigdemont nestes dias são sempre compensados pelos que Rajoy e a Justiça (?) castelhana vão acumulando. E já ninguém arrisca quem, no fim, sairá por cima… 

domingo, 5 de novembro de 2017

Uma das heranças de Reagan: um Estado falhado na Ásia Central

Desconhecemos que idades têm, porque os registos de nascimentos deixaram de ter qualquer fiabilidade. Pelo menos fora de Cabul. Mas,com os primeiros pelos a aflorarem-lhes os rostos presumimos, que andarão pelos quinze, dezasseis anos e ocupam os dias a jogarem futebol ou a verem televisão.
Presos ou internados em orfanatos, lembram quando os talibãs os convenceram a explodirem-se em ajuntamentos dos que classificavam de infiéis. As circunstâncias permitiram, que fugissem ou fossem apanhados sem levarem a cabo a missão assassina.
Por terem ganho alguns anos de vida suplementares poderia crer-se que detestariam tais algozes. Afinal esses instigadores não mostravam o mesmo afã em mandarem os próprios filhos a desempenharem as tarefas, que destinaram a eles, órfãos abandonados à sua triste sorte, quando terão visto as famílias dizimadas por bombardeamentos dos invasores. Num mundo demasiado complexo para a sua capacidade de só o conseguirem olhar dividido entre bons e maus, os primeiros continuam a ser os compatriotas, que quiseram deles fazer assassinos, enquanto os outros, os que vieram de longe, são os infiéis cujas mortes consideram mais do que justificáveis.
A passagem da infância para a adolescência fê-los perder o rasto de memórias, que teriam gostado de conservar. Por exemplo os esquecidos rostos dos pais e dos irmãos, que deixaram de existir. Mas a impossibilidade de tais emoções talvez explique as expressões carregadas de quem anseia pelo momento de readquirir a liberdade de movimentos  para reatar as missões que, à primeira tentativa, não tinham conseguido levar até ao fim.
Olhamo-los e lamentamos um Estado falhado, que levará décadas a recuperar o que já foi em tempos: quem imagina hoje possíveis as ruas de Cabul percorridas pelas alegres raparigas em minissaia, tendo por foco de excitação os bailes de fim-de-semana em que poderiam dançar o ié-ié? Ou esse hiato esperançoso de um governo comunista apostado em impor às tribos pashtuns os valores da igualdade e da solidariedade, que pareciam consolidados nas repúblicas soviéticas adjacentes? Como poderia Brejnev imaginar que enviando tropas para a Ásia Central criava as condições para apressar a implosão do regime herdado da Revolução de outubro de 1917?
É este atroz retrocesso civilizacional, que torna mais hediondo o crime de Reagan, o responsável pela utilização de Bin Laden e de outros que tais para erradicar a influência de Moscovo na região.
Quando se criticam tão violentamente os crimes estalinistas, esquecem-se os que, à conta da geopolítica ocidental, têm acumulado vítimas sem conta ao longo das décadas de sinistro imperialismo. Se devidamente contabilizados os mortos do permanente intervencionismo da Casa Branca ultrapassariam em muito os tão frequentemente publicitados pela narrativa anticomunista...

A propósito da coligação com o PSD em Almada

Eu também confesso que não gosto, mas poderia ser de outra forma? Quando andei a fazer campanha por Inês de Medeiros nas diversas freguesias almadenses nunca ponderei sequer que o resultado viesse a obrigar a uma coligação com o PSD, mas o comportamento dos comunistas na sessão de tomada de posse do novo Executivo mostrou como o despeito leva os derrotados de 1 de outubro a reagirem com o coração, que não com a razão.
Atrás de mim havia quem conjeturasse uma rápida desistência da nova edil para que novas eleições a curto prazo devolvessem a vitória ao PCP, por direito adquirido através do que tem sido o seu trabalho autárquico nos últimos quarenta anos. Espantosamente desconhecem ou querem esconder a cabeça de baixo da areia relativamente ao mau trabalho concretizado nos últimos quatro anos e que levaram muitos munícipes a contactarem de motu próprio a campanha de Inês de Medeiros para lhe pedirem urgentes mudanças.
Explica-se assim que, rejeitando acordos que, a nível local, replicassem os firmados na Assembleia da República, os comunistas encarem o mandato socialista como fera a abater contando para tal com a sabotagem interna e permanente dos serviços que, até há pouco controlavam..
Pode-se levar a mal que Inês de Medeiros tivesse assegurado a governabilidade da Câmara mediante acordo com o PSD? Se o PCP colocou-se fora de jogo, como contornar o facto de se contar apenas com a maioria relativa na vereação? Mas não foi isso mesmo que, há quatro anos, fez Bernardino Soares na Câmara de Loures? E quem, então, com ele se indignou? Algum dos que agora critica injustamente a coligação almadense, levantou a voz em protesto contra a facilidade com que, a nível das autarquias, o PCP se coligue com o PSD? 

A recuperação do Serviço Nacional de Saúde na ordem do dia

Que a cumplicidade das esquerdas não se esgota no apoio ao governo de António Costa demonstra-o a mobilização proposta por João Semedo e por António Arnaut para recuperar o elã no Sistema Nacional de Saúde de que o segundo foi o grande criador.
Tomando como ponto de partida o diagnóstico de oitocentos mil portugueses continuarem sem médico de família eles vêm exigir que as unidades do SNS devam ser todas geridas pelo Estado e que o direito à saúde volte a ser completamente gratuito. Sem parcerias público-privadas (PPP) e sem taxas moderadoras.
Pretendem igualmente colmatar a falta de médicos, depois de mais de três mil e quinhentos se terem reformado ou transferido para o setor privado nos anos mais recentes. Este continua apostado em expandir a sua atividade muito para além da atual, estando em curso investimentos de mais de 500 milhões de euros para que oito novos hospitais sejam inaugurados antes de 2020. Se nesta altura um terço das camas de internamento já estão localizadas no setor privado, os ideólogos do «quem quer saúde paga-a» tudo fará para que essa percentagem se torne maioritária.
Para que isso suceda têm contado com a redução constante da despesa pública em Saúde desde 2009, primeiro a pretexto das «exigências» da troika e depois sem se perceber porquê. É que não se justifica ter sido 2016 o ano com o valor mais baixo da despesa do SNS no conjunto do produto interno bruto (4,8%). Não é preciso ser um expert em economia da Saúde para perceber que assim é impossível reabilitar uma das maiores conquistas da Revolução dos Cravos e que os portugueses tanto acarinham.

Foi bonito...

A discussão do Orçamento Geral do Estado para 2018 voltou a mostrar a maioria parlamentar a funcionar como gostamos de a ver agir: sem omitir as diferenças de pontos de vista, mas travando qualquer veleidade das direitas quanto a verem enfraquecido um governo ainda afetado pelos efeitos das tragédias dos últimos meses.
O que mais enervou essas direitas foi a confiança de todos os membros do governo ao explicarem as políticas com que se estão a comprometer e cujos efeitos na qualidade de vida das populações prometem consolidar o que os indicadores de todas as instituições nacionais e internacionais vão confirmando semana após semana: tanto no desemprego como no crescimento, nas exportações como na redução da dívida, as esquerdas vêm denotando uma competência, que as direitas não imaginariam possível. Até porque mantêm-se presas ao guião dos tempos da troika, como se fosse bíblia cujo não acatamento constitui uma heresia. Por isso nem querem ouvir falar de outros cânones alternativos. “Sim, fizemos muito e diferente. Afinal, era possível”, vincou o ministro das Finanças.
As reações mais destemperadas aconteceram quando era o ministro Vieira da Silva a assumir a palavra e a nela incluir a evocação dos 600 milhões de euros, que o governo anterior contava rapinar aos pensionistas e reformados. Pertinente, o deputado bloquista José Soeiro aventou como explicação para o destempero das reações das direitas, o terem acabado de vir do almoço. E, de facto, por muito que o presidente em exercício da Assembleia, Matos Rosa (PSD) não tenha achado graça à sugestão, que outra razão poderia explicar a histeria de Hugo Soares ou a indignação de Cecília Meireles? É que, por muito que lhes custasse, existem documentos elucidativos quanto à crença das direitas nos “cortes virtuosos na tal peste grisalha acostumada a viver muito acima das suas necessidades.”
Seria muito bom que as esquerdas soubessem acautelar para o futuro a cumplicidade, que foi agora possível detetar entre as suas diversas bancadas.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

As arrebatadoras memórias de Varoufakis sobre a sua passagem pelo Eurogrupo

Yánis Varoufakis esteve na linha da frente da crise grega. Entre janeiro e julho de 2015, enquanto foi o ministro das Finanças do governo de Alexis Tsipras, recusou o plano de austeridade que a troika quis impor ao seu país. Depois de demitir-se fundou o Movimento para a Democracia na Europa (o DIEM25), afirmando atualmente que a «versão oficial» segundo a qual a economia grega está a melhorar em nada coincide com a realidade.
O seu recém-publicado «Conversas entre adultos. Nos bastidores secretos da Europa» convida o leitor para os meandros menos óbvios das políticas europeias, descrevendo-os com a loquacidade dos «lançadores de alertas» (os whistleblowers), que denunciam os comportamentos de instituições apostadas em funcionarem contra os interesses do bem coletivo.
Uma das surpresas maiores, que Varoufakis começou por constatar no funcionamento do Eurogrupo foi a ausência de qualquer registo escrito, tipo ata, do que ali se discutia em circuito fechado. Era-lhe evidente que essa conduta tinha muito a ver com os procedimentos típicos de Estados autoritários. Ilegítima e ilógica, a eurozona acabou por ser a verdadeira responsável pela crise financeira que, a partir do fusível disparado do outro lado do Atlântico com os subprimes e a falência do Lehman Brothers, afetou significativamente os Estados do sul do continente.
A bancarrota grega de 2010 começou por suscitar em Angela Merkel e Nicolas Sarkozy a decisão de darem prioridade à salvaguarda dos interesses dos bancos dos respetivos países mais expostos à imprevisibilidade dessas circunstâncias. O empréstimo de uma enorme soma de dinheiro serviu para o pagamento das dívidas a tais bancos, tendo como contraponto a imposição de uma violenta austeridade sobre quem pouco ou nada influíra nessa bancarrota.
Sete anos passados sobre esse despoletar dos acontecimentos, a Grécia continua imersa numa terrível depressão económica.
Na sua denúncia ele considera uma tragédia, que a Europa tenha governos democraticamente eleitos, mas cujas estratégias económicas e financeiras são decididas por um órgão supranacional, em quem ninguém votou e atuando sem qualquer escrutínio de quem quer que seja. Daí que a crise financeira, tenha desembocado numa crise política na qual se agudizou a falta de confiança da maioria dos cidadãos europeus nas instituições sedeadas em Bruxelas ou em Frankfurt.
Num dos exemplos lapidares do tipo de comportamento chantagista de Schäuble ou Dijsselbloem, aconteceu-lhe, ao terceiro dia de reuniões com esses interlocutores, ver-se ameaçado de encerramento compulsivo dos bancos gregos no final desse mês se insistisse em não acatar o programa anteriormente negociado com o governo direitista da Nova Democracia.
Uma das propostas inovadoras, que insere neste livro tem a ver coma  réplica na Europa do sistema de senhas alimentares distribuídas anualmente nos EUA aos seus cidadãos mais pobres e assinadas pela presidente do Banco Federal. Satisfazendo as necessidades básicas de 15% da população norte-americana, esses apoios sociais comportam um custo anual de 61 milhões de dólares.
Daí que, comparando com os 230 mil milhões de euros já «emprestados» à Grécia, algo de semelhante a nível europeu, devidamente validado com a assinatura de Mario Draghi, suscitaria a recuperação do entusiasmo pelos ideais europeístas em quem assim saísse beneficiado na Grécia, na Alemanha, na França, em Portugal e em qualquer outro país da União dos 27. Bastaria a seu ver que o Banco Central Europeu investisse em senhas alimentares os lucros recolhidos com os juros do dinheiro emprestado aos países em dificuldades.
Desassombrado na divulgação das suas opiniões, Varoufakis promete manter-se como um dos mais ativos defensores de políticas alternativas e mais decentes para uma Europa ainda enfeudada aos piores estigmas do mal afamado neoliberalismo.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Que bailem os três, os quatro, até mesmo os cinco!

As direitas andam bastante descoroçoadas  com o que o futuro próximo lhes promete: não sendo Cristas mais do que voluntariosa candidata a puxar o seu partido para algo mais do que a lotação de um táxi e olhando para os dois candidatos à sucessão de Passos Coelho como anunciados perdedores na pugna eleitoral de 2019, nem sequer os afetos presidenciais lhes poderão valer. Para que lhes servirá uma megapopularidade se ela se revelar inútil perante a prossecução da agenda ideológica das esquerdas para a próxima década? O próprio Marcelo deverá sentir-se de mãos atadas perante a inconsequência dos generais com que contaria para passar do frustrante papel de «corta-fitas» para o de um efetivo estratega na definição das políticas económicas e financeiras do país de forma a beneficiarem quem sempre tem estado na origem das suas preocupações - a Igreja e a alta burguesia.
Marina Costa Lobo, uma das diletas comentadoras desse eixo ideológico lamenta que uma eventual vitória de Santana Lopes equivalha à continuação da travessia do deserto, e Rui Rio já cuidou de aterrorizar os próprios apoiantes quando, nas jornadas parlamentares de Braga, afirmou-se disposto a fazer  “igual ou pior” do que Maria Luís Albuquerque acaso se visse em idêntica situação.
Consequência de tudo isso é os jornais afetos a Belém - e muito ativos a maldizerem António Costa nas últimas semanas - voltarem a defender a necessidade da reaproximação entre presidente e primeiro-ministro, assumindo-se na lógica do pau, que vai e vem, mas permite descansar as costas no entretanto.
Bom será que as esquerdas tenham aprendido as lições passadas, quando se viram inapelavelmente derrotadas, sempre que apostaram na postura sectária entre si. É por isso animador que um dos grandes responsáveis pela derrota do PEC IV em 2011 - Francisco Louçã - surja a sugerir aquilo que muito desejam quase todos os eleitores da atual maioria parlamentar: a  consolidação dos acordos de 2015, eventualmente aprofundando-os com uma maior corresponsabilização de forma a garantir uma determinada transformação progressista do país. Porque, se bem sucedida como esperamos, serão todos eles a saírem beneficiados sempre que os portugueses forem a votos.
Na crónica do «Público» diz o antigo líder do Bloco e atual conselheiro de Estado: “Nas próximas legislativas, a haver novo acordo de convergência, ele terá de responder já não à emergência da salvação do país depois da troika, mas antes a um projeto económico e social para o longo prazo em que sejam enfrentadas a ganância dos mercados e as dificuldades europeias. Ora, para isso, será necessário mobilizar todas as forças disponíveis: essa política de que Portugal precisa não pode abdicar do contributo do Bloco e do PCP. Instigar um jogo de um contra o outro seria um tiro no pé. Então, se uma maioria absoluta levaria o PS para a sua velha política, a exclusão de algum dos partidos de esquerda inviabilizaria uma política forte. Se essa for a música, a valsa de 2019 dança-se mesmo a três.”
Que se dance efetivamente a três - ou mesmo a quatro (se considerarmos os Verdes), e até a cinco (se se integrar o PAN) - conquanto o crescimento seja uma realidade capaz de beneficiar os que se viram seriamente preteridos na distribuição da riqueza nacional de há muitos anos a esta parte...

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

As ilusões dos herdeiros de Franco

É consensual a tese de nada ficar resolvido na Catalunha com as eleições de 21 de dezembro, qualquer que venha a ser o bloco vencedor: se os independentistas repetirem a maioria absoluta o governo castelhano manter-se-á agarrado à Constituição e à mais do que parcial Justiça para impedir a vontade maioritária assim manifestada. Se, pelo contrário, forem os espanholistas a conhecerem vitória de Pirro por quanto tempo julgarão possível manter uma situação, que logo voltará a incendiar-se tão só se afirme a sua vontade centralizadora em torno do poder madrileno? A exemplo da Escócia a respeito do Reino Unido tudo será uma questão de tempo por serem insanáveis as fraturas entretanto abertas. E, por muito que custe ao monárquico Marcelo, que logo cuidou de contactar o filipe espanhol a dar-lhe conta da submissão lusa à sua ilegítima ocupação, lá virá o tempo de cumprimento da Constituição, que manda respeitar o direito á autodeterminação dos povos. Algo que o «constitucionalista» de Belém quis oportunamente esquecer...