terça-feira, 24 de outubro de 2017

A palavra dos leitores

Nos últimos dias alguns dos textos publicados neste blogue têm merecido de leitores alguns comentários mais desenvolvidos, que seria injusto deixar quase escondidos nessa condição visualmente menos apelativa. Daí que valha a pena dar-lhes a palavra num post autónomo com o antecipado agradecimento de terem dispensado tempo de qualidade para darem conta das suas opiniões.

Desde sempre que o linchamento público é uma das formas mais saudáveis de as sociedades lidarem com momentos difíceis. Nestes momentos, as pessoas não precisam de saber o que aconteceu, o que falhou ou o que tem de ser feito para nunca mais acontecer. Até porque isso é complexo demais para elas. O que as pessoas precisam é de um saco de pancada para descarregarem a raiva, para que as pessoas possam satisfazer os seus instintos mais primários. Será que saber as causas não seria o mais importante? Quem são os criminosos incendiários? Quem os manda? Quem ganha milhões com os incêndios? Não é só a compra da madeira queimada, mas essencialmente os negócios com o material dos bombeiros, das empresas privadas etc etc.
O Presidente da República fez um brutal e desajustado discurso, não o ouvi condenar os terroristas incendiários, nem fazer apelo à justiça para os perseguir e prender, com demissão do governo que ele não teve a coragem de o fazer, teríamos ido para eleições antecipadas, com toda a desgraça que aconteceria ao País durante o tempo, mais de 6 meses em que Portugal ficaria com um governo de gestão e sem orçamento. Gostaria de ver nestas circunstâncias o que diria Marcelo e qual seria a postura e responsabilidade, ou digamos irresponsabilidade, quais as notas que então daria, com a economia estagnada, sem investimentos, com os juros a subir em flecha e Portugal de novo no lixo, gostava mesmo também de ver quais seriam os resultados eleitorais, com esta direita ressabiada e ignóbil, que agora, de forma imbecil, pede a demissão de António Costa, se os portugueses perdoariam a Marcelo e a estes arruaceiros do PSD e CDS o drama de voltarmos a antever os tempos da troika pafiosa nos horizontes de Portugal. Será que após os resultados eleitorais Marcelo se demitia?

Mais uma visão, ou um conjunto delas, todas interessantes e necessárias para que todo o cidadão possa rever também os seus conceitos do que é justo e do que não é, de forma agradável. Agrada-me sobretudo, não encontrar aqui aquele comentário frívolo a raiar o ordinário. Ao longo do tempo vão-se acumulando pequenas dúvidas, pequenos nadas que orientam no sentido da perda de confiança, quanto ao presidente da república que no seu jeito afectivo vai descurando a função de estado, de gestor máximo do bem colectivo, surgindo como hipotético D. Sebastião, vindo das fumaças políticas e industriais, que a ambição engendrou, não na função de salvador, mas de "jornalista", por que viu e ouviu. Portugal e nele os Portugueses todos, não apenas os que têm poder de mando e conta bancária lá fora... esperam e precisam de quem saiba liderar em ambiente de calamidade, em ambiente de profunda necessidade, porque, em clima de paz e de bonança todo o malandro se sai bem na fotografia, como temos visto até aqui. Continua por isso a ser urgente a separação das águas; a competência da inépcia; o compadrio do interesse; a qualidade da quantidade; a previsão a longo prazo, do imediatismo de estilo jornalístico; a justa atribuição de apoios, da força dos diplomas castrantes, etc. É urgente cortar os braços desse "polvo" sugador, que nos acorrenta num clima de mediocridade social e emocional, castradora dos arroubos necessários para que possamos todos manifestar a soberana vontade que nos pertence de querer o melhor deste vasto possível que se desenha no horizonte.


As crenças, os interesses, a resistência à mudança faz da nossa democracia uma estratégia fechada as crenças de ditadores que andam por aí a solta, com uma mente pequena e fechada .A maioria das pessoas vivem só bem a dizer mal da democracia o modelo mais justo, mas que não é bem visto nas mentalidades resistentes e pequenas por isso quem sai da caixa é posto a força dentro da caixa. Muitos, mas muitos, querem é fazer muito pela mudança, mas os obstáculos são o grande problema de quem nas salas de aulas fazem crer uma coisa e depois, um dia num cargo político, anulam tudo o que disseram numa sala de aulas.

Celeste Martins
Quem foi "estrela" não quer que o brilho se dissipe na espuma dos dias. O povo pede um afago mas que traga junto algo de real às vidas tocadas pela tragédia. Nada em Marcelo é feito ao acaso. Isso é apanágio dos espíritos simples. Deseja ser amado, desejado e, às vezes, sai-lhe um desabafo narcisista como aquele de... "então não veio cá ninguém, veio o Presidente, não é bom" ? Fosse o 1º. ministro ou um membro do Governo e os jornais tinham a frase na 1ª. página e a abrir telejornais!
A empatia manter-se-á até que os cidadãos não a sintam como um "olá e até logo" ! A minha aposta é que Marcelo quer desafiar a história com sendo o "melhor, mais popular, mas humano, mais fraterno, mais amigo dos Presidentes. Quererá ser até considerado "santo" e com entrada no "livro dos records" como o mais beijoqueiro no planeta e herói das selfies ". Entretanto está no tempo útil do mandato, dados os dramáticos acontecimentos deste Verão em Portugal. Um 2º. mandato não será um passeio mas uma consistente definição dos seus propósitos e ele, pelo contrário, prefere as manobras entre as várias peças do tabuleiro politico. E ai ...não há Marcelo disponível, pelas incógnitas que isso acarreta ! 

Às vezes o monge é bem melhor do que a capa que veste

O Bloco de Esquerda não terá gostado do nome de Tiago Oliveira como novo líder da estrutura de missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, apontando-lhe a mácula de estar vinculado à antiga Portucel, aonde tem desempenhado cargo responsável na gestão das suas áreas florestais.
Às vezes fico espantado com a imaturidade das posições deste importante parceiro da maioria parlamentar, sobretudo por olhar para o hábito sem ter em conta o monge. Não têm noção de que os melhores técnicos capazes de combaterem a pirataria informática são hackers reconvertidos para essa missão absolutamente contrária ao que vinham fazendo até então? E têm dúvidas quanto à competência técnica de quem, já em 2006, assinara um programa de reforma florestal que não chegou a ser implementado na integra pelo sempiterno argumento da falta de verbas, mas que continha muitas das propostas agora aprovadas no pacote de medidas do governo na sua reunião extraordinária?
Talvez os responsáveis do Bloco tivessem necessidade de ter passado pela minha experiência de há quarenta anos quando conheci uma das pessoas mais excecionais de quantas cruzei até hoje: um oficial da ponte em navios petroleiros, que professava uma fundamentada defesa dos princípios ecológicos numa altura em que os seus paladinos eram vistos como excêntricos. De qualquer modo ele era suficientemente incisivo nas críticas às práticas seguidas naquele tipo de navios para que os imediatos se atrevessem a deitar para o mar o que resultava da lavagem dos tanques quando estávamos mais próximos das zonas costeiras. O Leitão foi o caso mais paradoxal de quem tinha de vestir uma capa que não coincidia verdadeiramente com quem era, mas ninguém se atreveria a contestar-lhe a competência. Infelizmente uma bala perdida numa tentativa de golpe de Estado em São Tomé ceifar-lhe-ia tragicamente a vida precocemente no início dos anos oitenta.

Um primeiro passo, que aguarda por muitos mais

O Estado assumiu a posição de acionista maioritário do SIRESP passando a deter 54% do seu capital. Trata-se de uma decisão justa e acertada, porque coincidente com a perspetiva de fazer regressar ao setor público as áreas mais críticas nas questões da segurança das populações e na capacidade de gerir o país de acordo com os seus pressupostos constitucionais.
Uma das principais obsessões das direitas - tudo privatizar - tem de ser combatida como contrária aos interesses coletivos e, como tal, denunciada nos efeitos perversos a ela inerentes. Áreas como a energia e a sua distribuição, o controlo dos aeroportos e do tráfego aéreo, a exploração e distribuição dos recursos hídricos, os transportes rodoviários, fluviais, ferroviários e aéreos e o banco público - para citar os mais evidentes! - nunca deveriam ter sido transformados, ou passíveis de o virem a ser, em negócios gulosamente abocanhados pelos interesses privados.
Reverter muitas dessas privatizações é financeiramente inexequível a curto ou a médio prazo, mas as esquerdas não poderão demitir-se de considerar esse objetivo como prioritário nos seus programas políticos se querem ser consequentes com o cumprimento dos objetivos desenvolvimentistas e de diminuição das desigualdades sociais, que assumem como seu fundamento ideológico.
É por isso que a notícia da efetiva nacionalização do capital maioritário do SIRESP constitui um sinal encorajador!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Uma merecida tareia anunciada

Agora que o governo já aprovou um ambicioso plano de medidas para prevenir e combater mais eficazmente os fogos florestais, merecedoras dos encómios de Marcelo Rebelo de Sousa e dos parceiros (sê-lo-ão ainda?) do PPD/PSD, e que as manifestações convocadas para todo o país com o alto patrocínio da SIC resultaram em clamorosos fiascos, que restará a Assunção Cristas para defender a oportunidade da sua moção de censura?
Prosápia não lhe faltará quando a justificar na sessão parlamentar, mas como evitará a vergonha por que passará, quando lhe recordarem o oportunismo da iniciativa e, sobretudo, o tê-lo feito no primeiro dia de luto nacional?
Quando era necessário unir todo o país sem olhar a partidos políticos - tal era a dimensão da tragédia! - ela mais do que confirmava estar na política por exclusivo interesse da sua ínfima corte esquecendo-se dos deveres para com toda a nação enlutada. Insistirá Nuno Magalhães em atribuir os mortos de Pedrógão e do fim de semana de 14 e 15 de outubro a António Costa, acusando-o explicitamente de homicídio ou terá a contenção, que já alguns dirigentes centristas andam a demonstrar, criticando a líder por se julgar assim uma espécie de Lucky Luke, apostada em disparar mais rapidamente do que a própria sombra?
O acontecimento clarificador deste momento político foi de facto o sábado de todas as manifestações. Conseguissem os organizadores congregar muitos milhares de ingénuos (a SIC chegou a anunciar 42 mil pessoas para o Terreiro do Paço!) e teríamos uma agudização aprofundada entre as esquerdas de um lado e as direitas do outro. Cristas, e quem colaborava nessa estratégia, antevia a possibilidade de martelar os espectadores dos telejornais com a evidência da «fragilidade» do governo, preparando o terreno para a possibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa dissolver a Assembleia tão só decidida a pugna no seu partido. Bastaria que até ao Congresso laranja essa manipulação das consciências fosse bastante para que o PS infletisse nas sondagens, o verniz estalasse com os partidos à esquerda e o novo líder da oposição visse alavancada a sua relevância como uma espécie de D. Sebastião vindo de Alcácer Quibir para salvar o Quinto Império.
Felizmente que, apesar de diariamente sujeitos à desinformação dos vários canais televisivos, os portugueses não se estão a deixar enganar tão facilmente quanto esperavam os inimigos da maioria parlamentar. E sintoma disso foi a mudança do discurso de Marcelo: muito hábil a interpretar os sinais emitidos pelo eleitorado logo cuidou de se colar às medidas aprovadas pelo governo porque, ciente de continuar sem nada poder contra ele, adota a manhosa atitude de se apresentar como corresponsável do sucesso por elas conseguido no futuro a prazo.
Será, pois, interessante assistir ao debate aprazado para amanhã. E não sobram dúvidas que Cristas sujeitar-se-á a memorável tareia com o PSD a olhar para o lado.

Uma pausa para ceder à turba ululante e depois trabalhar com maior eficácia

A turba parece ter sossegado da exasperação anti governo com o reconhecimento de António Costa sobre o suposto erro na forma como expressara as emoções. Para a direita a coerência mede-se assim: Constança de Sousa era má porque apresentava expressão compungida, mesmo lacrimejante. António Costa é mau porque não tem essa expressão, nem se lhe veem lágrimas (o que até é falso!). É o ser preso por ter cão e por o não ter...
Mas, passado esse momento de cedência ao que tal gente exigia, Costa arregaçou as mangas e voltou a empenhar-se no essencial: resolver os efeitos das tragédias deste verão e neutralizar-lhes as causas de forma a evitar recorrências. No entanto as medidas aprovadas no Conselho de Ministros deste sábado podem vir a ser insuficientes para efeitos meteorológicos extraordinários como o foram os turbilhões de massas quentes de ar, que o furacão Ophelia arrastou do deserto saariano causando ignições simultâneas no fim-de-semana.
Não sei quantas pessoas terão sentido idêntica sensação, mas nós constatámos algo de muito estranho quando, oito dias antes, fomos fazer desporto na baía do Seixal. Se a temperatura mantinha-se em valores elevados, mas que não levantavam suspeitas, o ar quente que nos incidia no rosto não era o habitual. Havia algo de diferente, que nos asfixiava a traqueia e nos exsudava as frontes em demasia. Não o adivinhávamos, mas era o prenúncio da tragédia que, por essa altura, andava a espalhar-se pelo norte do país. E, em circunstâncias daquelas, não existiam corporações de bombeiros, meios aéreos ou batalhões militares, que conseguissem travar a ameaça.
Costa pode, porém, fazer a diferença se, pela primeira vez, avançarem  precauções eficientes na prevenção de incêndios. Nesse sentido José Vítor Malheiros considerava no «Público», que Costa pode vir a conseguir para a floresta, a regeneração, que o Marquês do Pombal concretizou na Baixa alfacinha.

domingo, 22 de outubro de 2017

A excentricidade vs. a racionalidade

No verão dos meus dezasseis anos vi-me sujeito a fortes restrições por conta do relativo fracasso escolar, porquanto passara para o sétimo ano do liceu com chumbos a matemática e a filosofia. A severidade do castigo passava por me ver impedido de ir à praia ou continuar a dar cabo das solas dos sapatos nas peladas com os amigos, obrigando-me a estudar de forma a recuperar o atraso suscitado pela inédita condição de semi-cábula.
Estava-se em 1972 e a alternativa era fechar-me no escritório lá de casa e pôr o transístor em som muito baixo para não suscitar a atenção pidesca da minha mãe. A ordem era para me dedicar aos mistérios da trigonometria ou do cálculo vetorial, sem esquecer o manual de psicologia, que constituía o programa do ano escolar entretanto concluído. As notícias projetavam-me então para um dos grandes acontecimentos desse ano de 1972: na Islândia estava a decorrer o jogo do século entre Bobby Fischer e Boris Spassky.
Como era época de Guerra Fria, uns pendiam para o lado norte-americano, eu e muitos outros desejávamos a vitória do soviético.
Entre 11 de julho e 1 de setembro fui acompanhando as vicissitudes do movimento das peças no tabuleiro, antipatizando com a excentricidade de Fischer e irritando-me com a falta de imaginação de Spassky, aparentemente incapaz de sair da racionalidade dos movimentos canónicos para corresponder eficazmente às originalidades do adversário.
Lembrei-me desse verão de há quarenta e cinco anos atrás a propósito do confronto não declarado, mas óbvio nos bastidores, entre Marcelo e António Costa. É que os jogos de xadrez, como muitos outros, prestam-se a pertinentes metáforas sobre cada momento político.
No discurso de Oliveira do Hospital, Marcelo parece ter posto o primeiro-ministro em xeque. Embora adivinhassem que a jogada muito distava do almejado xeque-mate, as direitas e os comentadores a ela enfeudados regozijaram-se com a perspetiva de verem Costa em dificuldades.
Desconfio, porém, que Marcelo teve, então, o seu momento islandês - não esqueçamos que Fischer e Spassky disputaram as partidas desse campeonato em Reiquiavique - e que a capacidade de se sentir vitorioso quedar-se-á por aqui. Sobretudo, porque se continuar a apostar na excentricidade de ser um Presidente, que deixa a gravitas em casa para andar de terra em terra a distribuir afetos e a tirar selfies, a receita esgotar-se-á perante os três anos, que aí vêm, presumivelmente marcados pelo sucesso das políticas económicas, financeiras e sociais do governo e, sobretudo, com a desejável prevenção de novas tragédias através da implementação das políticas ontem aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário. É que, se Marcelo iguala Fischer no comportamento pouco convencional para a função que representa, António Costa lembra Anatoly Karpov em vez do cinzento Spassky. A racionalidade, a frieza com que encara os problemas e lhes garante as melhores soluções, abrem expectativa para duradoura vida útil dos seus governos ao contrário do «número» habitual de Marcelo cujo efeito de novidade acabará por atingir a sensação de «tudo quanto é demais, também enjoa».
Esta semana ele desmentiu-se a si mesmo, porque deixou em aberto a possibilidade de concorrer a um segundo mandato. Eu não esqueço que, em campanha eleitoral para as presidenciais de 2016, afiançara o contrário. Mas todos conhecemos a sua tendência para a volubilidade, quase tão intrínseca quanto a indissociável obsessão pelos cálculos políticos. Tal como Fischer se recusou a voltar a jogo em 1975, quando anteviu a provável derrota face a Karpov, também não me admiraria que essa venha a ser a opção de um esgotado Marcelo. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Notas Desafinadas (IV): Selminho, abusos laborais e dívida pública

(1) Sem surpresa ficámos a saber que a imobiliária de Rui Moreira e seus familiares reitera a intenção de reivindicar em tribunal a propriedade do terreno na Calçada da Arrábida, com 2260 metros quadrados, na realidade pertencente à Câmara do Porto.
Tendo tido a oportunidade de impedirem a golpada, os eleitores do Porto portaram-se como os de Oeiras: apesar de todas as evidências, elegeram quem aparenta abocanhar cargo público para melhor defender os seus interesses pessoais.
(2) Ciente de existirem patrões que contactam abusivamente os trabalhadores no período de descanso, o Partido Socialista promete inscrever na legislação laboral o direito dos trabalhadores a “desligarem do trabalho”. O problema está nos detalhes: mantém a possibilidade de regulamentos internos em que “exigências imperiosas” imponham a possibilidade desses contactos através de ferramentas digitais.
(3) O Orçamento para 2018 prevê que, no final do ano, a dívida pública desça para 123,5% do PIB, ou seja quase sete pontos percentuais a menos em relação a 2016, quando ascendia a 130,4%. Isso equivale a quase 14 mil milhões de euros.
Comentando algumas afirmações de quem diz que lhe sabe a pouco, Ricardo Paes Mamede riposta: “É importante que as pessoas que querem diminuir a dívida mais rápido digam claramente onde é que  entendem que se pode realizar mais cortes.”  Tenho cá uma desconfiança que vai ter de esperar sentado...

Humildade, ora essa! O que querem impor é Humilhação!

Há uns anos, quando um programa televisivo andou a promover qual seria a figura histórica nacional com maior popularidade, foi com grande mágoa, que muitos de nós, vimos a votação concentrar-se em Salazar. Como era possível que, depois de anos de Democracia, ainda houvessem suficientes portugueses disponíveis para corresponderem aos organizadores de sindicatos de votos, apostados em troçarem de quem sofrera com o fascismo para darem imerecida consagração ao ditador?
Concluía-se que se uma boa parte do país execrava esse passado, subsistia uma outra que não só o desculpabilizava como, sobretudo, perdurava uma cultura de valores dele remanescentes.
Lembro amiúde o aforismo de Alexandre O’Neill  sobre a vigência desses dias sombrios, em que imperava a regra: “neste País em diminutivo, juizinho é que é preciso”. Mas atrás do juizinho vinham outros valores igualmente repelentes: a caridadezinha, o respeitinho, a humildade.
A caridadezinha foi subsistindo ao longo destes últimos 43 anos sob a forma de correspondermos com esmolas, peditórios, subscrições e outras formas de donativos às vitimas de alguma tragédia circunstancial. Ora, como se viu com os dinheiros entregues à Misericórdia de Pedrógão Grande, que têm tardado a chegar a quem era suposto receber (e sobre quem ninguém volta a verificar se cumpriram os fins em vista), deve ser o Estado a centralizar, definir e distribuir esses recursos. Aqueles que quiseram contribuir diretamente para as Instituições de Solidariedade Social têm justos motivos para, a esta hora, desconfiarem se não andaram a encher os gordos cofres de interesses privados encostados a esse tipo de organizações.
À luz dessa ideologia salazarenta, não tivesse Passos Coelho perdido o pote e veríamos os pensionistas, os reformados, os desempregados crónicos e outros setores desfavorecidos a viverem miseravelmente e umas senhoras muito boazinhas a atribuírem-lhes uma sopinha com que mitigassem a fome e umas roupinhas usadas com que tapassem a nudez. A valorização da Segurança Social enquanto polo fundamental da luta contra a pobreza está a constituir uma espinha cravada na garganta de quem apostara na sua menorização, quiçá privatização de acordo com o modelo vislumbrado no filme de Ken Loach, «Eu, Daniel Blake», que demonstrava o que seria tal estratégia de eugenia social.
Quanto ao respeitinho andou a direita anos a fio a tentar que se traduzisse no pressuposto de competir a governação aos partidos do tal «arco», porque os situados à esquerda do PS (ainda assim só tolerado nos períodos em que chegava ao poder e sempre sabotado na sua ação, quando ela não se coadunava com os interesses ideológicos dos herdeiros do antigo regime) não teriam legitimidade para si, porque blá-blá-blá sobre a Nato, blá-blá-blá sobre a União Europeia, blá-blá-blá sobre o euro, blá-blá-blá sobre outra argumentação qualquer.
Mas concentremo-nos na humildade, que tanto temos encontrado esta semana, ora nos lábios de Marcelo Rebelo de Sousa, ora nos dos dirigentes das direitas, ora nos dos comentadores por elas inspirados.
Não conheço outra cultura onde se dê a importância que o salazarismo impôs como idiossincrasia nacional a essa suposta humildade, mas que se traduz mais corretamente pela humilhação. Do pobrezinho humilde, que aceita a parca esmola espera-se um agradecimento servil ao bom coração, que lha estende. Do trabalhador precário a quem se propiciou emprego mal pago e com horas excessivas - tipo «A Padaria Portuguesa» - espera-se que se curve perante o patrão arrogante e lhe beije o chão acabado de pisar. Esse é o tipo de humildade que as direitas tanto prezam, que Marcelo propôs ao governo e, de facto, remanescida herança de um passado tenebroso.
Por isso não aceito que António Costa tivesse de apresentar qualquer pedido de desculpas. Elas só se justificariam se não tivesse feito tudo quanto estivesse ao seu alcance para combater os incêndios de Junho e do passado fim-de-semana. É licito assacarem-se-lhe culpas por décadas de desleixo, por condições climatéricas particularmente agressivas e por causas ainda por apurar que muitos enquadram em equívocas teorias da conspiração?
A um governante exige-se serenidade no meio da tormenta, confiança em dar o seu melhor a cada momento e visão para identificar os problemas e saber-lhes encontrar as melhores soluções a curto, médio e longo prazo. É isso que o governo está a fazer e dará expressão mais ambiciosa a partir das decisões  hoje definidas no Conselho de Ministros extraordinário.
Tem sido lamentável a forma como as direitas cavalgam necrofilamente sobre as tragédias para darem expressão à única estratégia, que lhes resta perante os evidentes sucessos obtidos nestes dois anos nas vertentes políticas, sociais, económicas e financeiras. Humilhadas nas sondagens reais, que foram os votos nas autárquicas, as direitas agarraram-se a esta boia de salvação como única alternativa à sua manifesta incapacidade para pensarem o futuro do país numa formatação distinta da incurável vontade em tudo privatizar e desregular.
Ainda há pouco a Academia Sueca, que atribui os Nobéis consagrou um economista cujos trabalhos têm a ver com a influência dos comportamentos humanos na evolução dos modelos macroeconómicos. Exista otimismo e entusiasmo e os indicadores alavancam-se para além do esperado. Ora é isso que tem sucedido nestes últimos dois anos com as políticas aprovadas pela maioria parlamentar a excederem as previsões mais otimistas de todos os analistas, particularmente dos das instituições internacionais, vocacionados por natureza para desqualificarem os tipos de soluções aqui aplicadas.
Pelo contrário se nos deixamos contaminar pelo medo do Diabo, pela humildade de continuarmos pequeninos e sem ambição - não era Passos quem defendia a competitividade do país através de baixos salários e nenhuns direitos laborais? - entramos em depressão coletiva, quer psicológica, quer económica. É claro que esse é o objetivo das direitas cripto-salazaristas, a que se associou claramente Marcelo Rebelo de Sousa esta semana. Está em todos nós dar a resposta a quem nos quer puxar para baixo, quando tem sido tão sustentada a recuperação do abismo para que nos tinha empurrado a coligação da troika.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

E porque não deveria acreditar?

O texto abaixo é da autoria de Manuel Maria Matos, que o inseriu como comentário ao que intitulara «Eu continuo a confiar, e muito!». Trago-o à página à página principal porque, estou tão de acordo com o seu conteúdo, que o subscrevo na íntegra.
E porque não deveria acreditar?. Por causa de um discurso (ou melhor, um arrazoado de palavras) patético! Morreram cem pessoas que creio, não deve haver ninguém que não lamente a sua morte, mas isso não é razão para um Presidente de um país, o mais alto magistrado, demagogicamente aproveitar a situação para lançar farpas ao governo. Interrogo-me, como reagiria o presidente se o país estivesse em guerra ou sofresse um cataclismo de milhar de mortos.
Um presidente tem que ter uma serenidade acima dos conflitos e ser capaz de passar essa mensagem elevando o moral das pessoas em sofrimento e não, como fez, pondo-se a choramingar ante uma situação menos boa. E isto, dando de barato que o Presidente agiu de boa fé, comovido, perturbado. Só que o Presidente é um político que já nos habituou a muitos malabarismos.
Mas o que gostaria aqui de realçar é que por mais que o Presidente goste ou não goste do governo, tem pouco valor a sua opinião. O que verdadeiramente interessa é a geringonça manter-se unida e dar uma resposta cabal às forças reacionárias que o pretendem derrotar.
Agora que o Presidente deixou cair a máscara e mostrou ser o velho Marcelo dos comentários ácidos acerca de qualquer governo que não fosse PSD, é tempo de mostrar na Assembleia uma coesão a toda a prova, dando uma bofetada com luva na moção da rapariguita e da qual o Presidente, mostrando uma parcialidade inequívoca, se tornou padrinho.
Fica uma palavra de agradecimento ao autor por me possibilitar a utilização das suas palavras numa altura em que todas elas são poucas para reiterar o apoio ao Governo e a crítica a um Presidente cuja máscara caiu a partir do momento em que demonstrou só representar os que se identificam com quem contesta a atual maioria parlamentar. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Eu continuo a confiar, e muito!

Chego agora ao computador e dou com muitos amigos das redes sociais a dizerem coisas, que me deixam atónito. O governo ficou e estará fragilizado? António Costa cedeu à direita? A possibilidade de cumprir o resto da legislatura reduziu-se significativamente?
Francamente, estou banzado, até porque muitos dos que assim se andam a expressar não têm nenhuma aparente simpatia pelo PSD e pelo CDS a quem, no entanto, estão a fazer um favor com este súbito esmorecimento nas suas convicções a respeito da atual maioria parlamentar.
Assim, de um momento para o outro, deixou de ter qualquer importância o que já foi conseguido no crescimento económico, no desemprego, na redução do défice, na reversão dos cortes nos rendimentos de milhões de portugueses ou na inversão total do clima das instituições internacionais a respeito do rumo económico do nosso país?
Quer isto dizer que de governo bestial, passaram a achá-lo um conjunto de bestas quadradas ignorantes quanto ao que andam a fazer?
Haja algum bom senso e, sobretudo, devolva-se a António Costa o crédito de termos andado meses em campanha a proclamarmos que nele confiávamos.
É claro que as direitas andavam fulas com o que isso significava quanto ao projeto de se perenizarem no poder a fim de prosseguirem uma agenda ideológica feita de cortes nos rendimentos dos mais fracos e na privatização de tudo quanto ainda até aí escapara à sua sanha de entregar todas as joias dos dedos aos interesses dos que, depois, lhes assegurariam bons empregos (vide Catroga!).
Agora António Costa, depois de tanto ter conseguido, é dado como ferido na sua legitimidade enquanto primeiro-ministro? Repito: haja bom senso. Ou não o conhecemos suficientemente bem, para sabermos que não são dificuldades a desviarem-no do rumo certo para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos? Não sabemos o quanto ele parece conhecer de fio a pavio o célebre manual de Sun Tzu, que formou gerações milenares de chefes militares, que nele aprenderam quando se deve atacar ou quando se deve mostrar contenção para acumular forças e encontrar melhores circunstâncias para voltar a avançar? Num outro contexto estamos na altura de voltar a ver cumprida a célebre máxima de se saber dar um passo atrás para avançar dois em frente.
A interina direção laranja e Assunção Cristas, que despertou para a política quando o atual primeiro-ministro já nela labutava há muitos anos, revelam-se uns verdadeiros meninos a julgarem-se capazes de se medirem com quem possui uma outra maturidade. Mesmo que se pretendem encher de bazófia com uma moção de censura destinada a abortar logo após a sua gestação…
É por isso mesmo que digo e redigo: Eu confiei, continuo a confiar … e muito!

Ser Presidente é isto?

Dirão os meus amigos marcelistas, que pareço ter uma obsessão pelo inquilino do palácio de Belém não perdendo nenhuma oportunidade para lhe cortar na casaca. Mas, depois da declaração ao país lida esta noite fica alguma dúvida sobre a falta de qualidades do referido titular para se considerar o mais alto magistrado da nação, o presidente de todos os portugueses?
Uma das características exigíveis a um Presidente digno desse nome é ter a gravitas, no que isso significa de contenção na expressão e rigor no que diz. Será que o país merece ter em tal função uma espécie de menino da lágrima, mais preocupado em parecer demonstrar o que lhe vai na alma do que em assumir-se como um homem probo e capaz de se revelar um líder à medida da tragédia por que passa o país? Alguém que finge desconhecer as causas conjunturais e estruturais explicativas do sucedido e contra as quais demorarão anos a amortecer-lhes os efeitos?
Perante a dimensão do sucedido não era hora de exigir a unidade de todas as forças políticas e instituições para que, em conjunto e sem reservas mentais se cuidasse do essencial nesta altura: enterrar os mortos e cuidar dos vivos? Ou, pelo contrário precisamos de um presidente alinhado com uma fação oportunista, que repete o aproveitamento necrófilo das vítimas para, em cima dos seus túmulos, alcançar ganhos políticos?
Marcelo confirma o que, desde início dele se sabe: por muito que tente contornar as tendências no ADN, como dissociar-se de ser filho e afilhado de quem foi? Merece o Portugal de Abril ver-se representado por quem confirma portar-se como o herdeiro de quem o sempre quis asfixiar? Ou esquecemos de que lado ele sempre esteve, quando nos tempos da ditadura os estudantes da sua Universidade enfrentavam os gorilas e os pides?
Com o ultimato ao governo, e a óbvia determinação para que a vontade do CDS seja cumprida, Marcelo demonstrou incontornável parcialidade. Não é que as esquerdas desconhecessem quem teriam de enfrentar, quando com papas e bolos - na sua versão atualizada de abraços e selfies - logrou chegar onde o temos de suportar. Mas seria estúpido se, atempadamente, socialistas, comunistas, verdes e bloquistas não começassem desde já a pensar numa alternativa forte, capaz de o apear do cargo ao fim deste mandato. É que, hoje, ficou bem claro o que faria Marcelo se já contasse à frente do seu partido com quem ajustasse o golpe capaz de devolver as esquerdas para a manietada oposição ao governo do seu agrado. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Operário Letrado continua a fazer perguntas

Uma dúvida pertinente, que as quatro mil páginas do processo da Operação Marquês suscita: terá Passos Coelho amnistiado as dívidas fiscais do grupo Cofina porque o seu pasquim matinal estava a servir de altifalante às fugas de informação, que tanto serviam a sua estratégia política? E já agora seria exigir muito a Joana Marques Vidal que nos desse conta dos custos de uma investigação, que se prolongou por vários anos e muitas dezenas de procuradores, especialistas da Autoridade Fiscal e respetivos assistentes, sem esquecer todo o economato consumido para o efeito? Ou, ainda, que misteriosa razão terá levado Paulo Portas à sede do BES no dia da sua demissão irrevogável e de lá voltou feito cordeirinho amestrado disposto a dar o dito pelo não dito?
Quem coloca outra dúvida, que mereceria resposta, foi o blog «A Estátua de Sal», que, a propósito da afirmação de Marques Mendes sobre a forte probabilidade de não ter havido nenhum processo contra José Sócrates se Pinto Monteiro ainda fosse o procurador-geral da República, questiona se o diminuto comentador se teria escapado tão lestamente das múltiplas suspeitas a que tem sido sujeito nos anos mais recentes se não fosse Joana Marques Vidal a atual titular desse posto.
E, já que estamos em marés de perguntas, coloquemos outra a Marcelo Rebelo de Sousa, que insinuou o desejo de ver a Ministra da Administração Interna demitida ao falar de uma suposta «responsabilidade funcional» do topo da cadeia de comando por quem comete falhas nos escalões hierárquicos abaixo. Na mesma lógica, não deveria Marcelo retirar as mesmas conclusões a respeito de si mesmo a propósito do que quer que tenha acontecido com o armamento de Tancos, já que é o Comandante-Chefe das Forças Armadas? Ou, mais uma vez, ele confirma a lógica de se fazer como diz, e não como faz?

Passos nunca mais

No «Expresso» Nicolau Santos nega o carácter austeritário do orçamento de Estado para 2018 constatando que “foi isto que a receita da troika e do PSD/CDS nunca quis ver: que só com maior crescimento era possível o país sair do buraco em que tinha caído. E quando ao mesmo tempo se deprimia brutalmente a procura interna e a capacidade creditícia da banca que operava no mercado nacional, o resultado só podia ser uma recessão prolongada, que durou três anos e encolheu a riqueza produzida no país em mais de 7%, levando à emigração de meio milhão de pessoas fazendo disparar a taxa de desemprego até aos 17%.”
E, no entanto, não falta quem por aí ande a agradecer a Passos Coelho os «serviços» prestados» como se o seu legado não fosse suficientemente tóxico para só o encararmos com adequada máscara de proteção. Por muito que se lhe tente pegar por alguma ponta menos fétida todas exalam o mesmo odor pútrido de uma ideologia, que fenece sem cura, mas ainda capaz de causar significativos danos.
Daí a necessidade de criarmos uma barreira eficiente se lhe constatarmos a vontade de regresso à ribalta política, algo tão natural quanto ele próprio se vê à beira de ser sucedido por quem já demonstrou terem sido trágicas as anteriores passagem pelo poder - municipal ou nacional - e agora não enjeita encarnar a farsa que um deles já representou nos meses de sucessão a outro malquisto sebastião.
Se a palavra de ordem «Fascismo Nunca Mais» continua plenamente atual - mormente  nestes dias lá para as bandas da Áustria! - a sua adaptação ao mesmo apelo substituindo a primeira palavra por “Passos” também plenamente se justifica. Até porque, vistas bem as coisas, e embora parecendo mais cosmopolita na sua inveterada saloiice, não existe grandes dissemelhanças entre a criatura e a matriz ideológica, que lhe andou sempre na mente.