terça-feira, 10 de outubro de 2017

À Procura do Léxico Perdido

Há palavras e expressões, que saíram do léxico comummente utilizado pelo nosso universo mediático e que carecem ser resgatadas do interesseiro esquecimento em que têm caído. «Luta social» (mais ainda «luta de classes), «resistência», «desobediência civil», «rebeldia», «revolução», violência revolucionária». Eis o tema de um texto publicado há cerca de um mês pelo professor Boaventura Sousa Santos no «Jornal de Letras», e que vale a pena trazer aqui a lume. Porque, desde a queda do muro de Berlim,  esses conceitos foram intencionalmente omitidos por quem tem todo o interesse em manipular a generalidade dos cidadãos quanto à realidade social e económica em que vivem de forma a que os suspeitos do costume - os dos corredores de Bruxelas e do FMI, os do Clube de Bildeberg e de outras obscuras e clandestinas organizações de quem se assume como «donos disto tudo» - tudo decidam às costas dos supostos «votos democráticos», que os continuam a aperrear.
Não é que não falte violência nos nossos dias. Basta olhar para os telejornais e ela mostra-se nas mais variadas formas, todas elas despolitizadas: há as que se explicam por razões criminais ou as que estão ligadas às dissensões conjugais. Umas e outras, porém, são sintomas do mal social e económico em que vítimas e culpadas estão inseridos.
Há também a violência terrorista, mas ela é apresentada como forma inaceitável de fazer política. Muitos dos seus perpetradores - vide os do Daesh ou inspirados em fanatismos desse tipo - têm  uma biografia de analfabetismo funcional, que os torna facilmente influenciáveis pelos seus gurus.
Olhando para o exercício da violência política ao longo do último século é fácil constatar, que serviu quase sempre propósitos contrarrevolucionários, fosse protagonizada por nazis, fascistas, colonialistas ou fundamentalistas religiosos
Chegámos, pois a um tempo em que uns não podem esquecer essas formas de violência contra o interesse coletivo e os que não a querem recordar como se a História tivesse começado agora.  São estes últimos os que fomentam o abismo entre o modo como se vive e o que é dito publicamente.  Querem escamotear o facto de as lutas sociais sempre terem existido e, com elas, as lutas de classes.
Hoje importa distinguir entre a Resistência, que define as ações de quantos rejeitam ser vítimas da ordem política existente, podendo divergir entre a estéril rebeldia (que apenas a põe em causa) ou a desobediência civil (que só põe em causa algum aspeto específico, como por exemplo o serviço militar obrigatório) e a Revolução, que a quer substituir por outra totalmente diferente.
Perante as disfunções detetadas nas sociedades ocidentais, e de que, por estes dias, as lutas contra as leis de Emmanuel Macron são sintoma, Boaventura Sousa Santos diz suspeitar que a crise da democracia liberal tende a agudizar-se a tal ponto que “movimentos e protestos fora das instituições podem passar a ser parte da nova normalidade política”.
A menos, acrescento eu, que essa insatisfação ganhe voz orgânica, seja num governo disposto a dar-lhe resposta, mesmo que insuficiente (como sucede atualmente), seja nas esquerdas, que a tenderão a exigir,  mais assertiva e seletivamente, às carências dos mais desfavorecidos.
Comecemos, pois, por recuperar o léxico político, que nos tem sido sonegado nestes últimos vinte cinco anos.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Notas desafinadas (I)

1. Temos por diante dois meses de atenta observação daquela que Pacheco Pereira já prevê vir a ser uma das campanhas mais suja, feita de golpes baixos e muitas fake news, até se definir quem virá a suceder a Passos Coelho: se o «menino-guerreiro» se o promotor de rallies em ambientes urbanos. Curiosa é a saída de cena dos mais intrépidos paladinos da austeridades atroikada, devolvendo o palco a quem o ocupava há nove anos, quando Manuela Ferreira Leite ganhou a Passos Coelho e a Santana Lopes, com Rio de fora por ainda estar à frente da Câmara do Porto.
Se se esperava renovação nas hostes laranjas, está prometido um prato mais do que requentado.
2. O maior problema que pode vir a colocar-se aos que almejam pelo regresso do passismo, mesmo que sob as vestes de Montenegro, é a perda de influência dos que, a nível da União Europeia, defenderam com entusiasmo as «reformas estruturais», que significaram o crescimento exponencial da precariedade do emprego. A comissária de Bruxelas incumbida das questões relativas ao emprego, distancia-se ostensivamente da cultura ali criada pela equipa de Durão Barroso ao reconhecer como, dos 5,5 milhões de empregos criados em todo o espaço europeu desde 2012, quatro em cada cinco foram do tipo temporário ou part-time e extremamente mal pagos.
Infletir essa política, retomando alguma regulamentação às contratações coletivas e à generalidade das legislações laborais, passou a ser um imperativo para que a União não perca competitividade porquanto o que beneficia os bolsos dos patrões não coincide com os benefícios do conjunto das respetivas sociedades. Daí que não se adivinhem dias muito prósperos aos que viram agora partir Schäuble, como se se tratasse do enterro de um pai muito querido. Na realidade é pela sua paixão austeritária, que carpem lágrimas sentidas.
3. No «Diário de Notícias» a jornalista Fernanda Câncio constata que foram muitos os textos, publicados por estes dias nos mais variados jornais, a elogiarem a «coragem» de Passos Coelho e o «serviço» por ele prestado ao país para o resgatar da bancarrota que, com o chumbo do PEC IV, ativamente precipitou.
É um problema que tarda em resolver-se: a nossa imprensa está maioritariamente ocupada por quem foi formada nas Universidades por “gurus” da estirpe de um César das Neves e de um Braga de Macedo, que insistem em ver sinais de recuperação neste moribundo capitalismo.
Os nossos «jornalistas» de economia nem sequer se ajustam á conhecida fórmula de só serem competentes para explicarem porque os resultados práticos das políticas em nada coincidem com as laboriosas previsões em que se terão empenhado. No Segundo Caderno do Expresso ou nos jornais económicos em papel ou online insistem em negar a evidência dos números e apreciá-los como se significassem o contrário do que demonstram.

domingo, 8 de outubro de 2017

Os desejos de uma certa intelligentsia

Não concordando com a visão atlantista de Teresa de Sousa vale a pena ir-lhe acompanhando os textos no «Público» para aferirmos o pensamento de uma corrente da intelligentsia, que se revê particularmente numa visão eurocêntrica e assumidamente capitalista. Em «O PSD tem futuro, o PCP não tem» ela revela a costumeira atitude desse setor de tomar os sonhos por realidades, por muito que estas ganhem uma particular contundência, pondo em causa a exequibilidade daqueles.
Partindo do diagnóstico crítico sobre o atual estado das democracias europeias, ela explica-o em função da crise financeira e do euro, que terá gerado graves problemas identitários na União sedeada em Bruxelas. Curiosamente a autora esquece-se de referir o afluxo de refugiados como uma das causas determinantes no crescimento das extremas-direitas em países onde não existia um Partido Comunista como o nosso, capaz de concentrar em si a maioria dos que contestam o capitalismo e a globalização.
A recente derrocada do PSD é por ela explicada no facto de Passos Coelho ter chegado à liderança como marionete dos setores apostados em romper com o centrão e desejosos de imporem uma orientação definitivamente liberal. Ou neoliberal, para ser mais preciso, pois não era outro o projeto de ir muito para além do imposto pela troika.
Teresa de Sousa parece convencida de que a inflexão laranja para os rumos anteriores a Passos Coelho voltará a dar-lhe a relevância tida noutros tempos, quando competia com o PS quanto ao título de maior partido nacional. Algo que estaremos para comprovar tão desorientados parecem os dirigentes e os militantes laranjas quanto ao trilho por onde pretendem reencaminhar o seu partido.
Quanto ao PCP Teresa de Sousa incorre no habitual erro de lhe anunciar a morte definitiva, quer aja contra o Partido Socialista, quer com ele replique o acordo estabelecido em novembro de 2015. Contrariamente a tal perspetiva, o PCP tem revelado uma notável resiliência aos dissabores dos últimos anos. E ainda bem, porquanto é organização bem mais respeitável e previsível do que os populistas de extrema-direita, que conseguiram chamar a si muitos dos pretéritos votos dos partidos mais à esquerda em França. em Itália, na Alemanha ou em muitos dos antigos países do Bloco Leste.
Fez bem António Costa em minimizar os resultados menos bons do PCP nas eleições da semana passada, direcionando as atenções para os que atingiram o PSD. Ao contrário de Teresa de Sousa espero que o PCP tenha muito mais futuro que o PSD. Porque se um já existe há quase cem anos e cumpriu com brio o desígnio de combater o fascismo, o outro surgiu no pós-25 de abril para, oportunisticamente, cumprir a missão histórica de conter as aspirações dos portugueses a um futuro mais justo e igualitário. Se historicamente devemos muito a um, ao outro só podemos imputar os malefícios da sua polémica existência.

Os representantes locais do grupo de Bilderberg já escolheram

Em definitivo o universo Impresa, através da «Visão», do «Expresso» e da SIC, já escolheu notoriamente o seu novo porto de abrigo junto do PSD: Rui Rio será o seu eleito tendo em conta a acelerada rapidez com que estão a mudar para o seu campo os passistas, ainda há pouco, seus ferozes opositores. A direita dos negócios, a ideologicamente enfeudada ao clube  de Bilderberg, procura utilizar os binóculos que a façam ver mais longe e não duvida de ser o ex-autarca do Porto a merecer-lhe maior confiança na reconquista do espaço perdido com esta maioria parlamentar.
É claro que o «menino guerreiro» diz ainda estar a pensar, mas há demasiada gente a conhecer aquele célebre preceito hegeliano segundo a qual a História repete-se sempre duas vezes, sobretudo no seu corolário marxista, que acrescenta ser a primeira vez em forma de tragédia, a segunda como farsa. Ora, embora a curta passagem de Santana Lopes pela presidência do Conselho de Ministros tenha comportado muitos aspetos de farsa, pode-se considerar ter sido o registo trágico o que melhor retivemos da memória desses dias. Agora desarmada pela incompetência de Passos, os manda-chuvas laranjas pretenderão evitar novo fracasso.
A curiosidade residirá em saber o que irá este quase ex-líder fazer no resto da sua vida ativa. Involuntariamente humorístico, o «Expresso» aventa a possibilidade de o ver a integrar a futura galeria dos presidenciáveis. Mas, mesmo o «jornalista», autor dessa atoarda emitida por Marco António Costa, teve o pudor de assinar esse artigo com as iniciais (FSC) para não ficar associado a tão ridícula possibilidade. De qualquer forma sabemos tratar-se de Filipe Santos Costa, um dos mais virulentos escribas anti-António Costa, que o semanário de Balsemão conta nos seus quadros.
Importa, porém, considerar que nem tudo quanto esse jornal traz é lixo irreciclável. Sabemos que Miguel Sousa Tavares consegue acertar numa de cada dez crónicas, conseguindo ser odioso pelo menos em metade delas, mas no texto desta semana diz o óbvio: as direitas esforçam-se por manter a narrativa de encontrarem o país na bancarrota e terem-no recuperado a partir desse terrível patamar. Mas, lembra MST e devemos nós mesmos não permitir tal mito, que se as direitas tomaram conta do governo foi por haverem conseguido conluiar-se com o PCP e com o Bloco para derrubarem Sócrates, quando este até já conseguira de Merkel a aprovação para o seu PEC IV.
Nunca saberemos se o país teria assim evitado o resgate, que trouxe a troika até nós, mas importaria ter esgotado essa solução até ao fim. E, ansiosos por tomarem conta do pote, Passos & Cª conseguiram aumentar exponencialmente a dívida soberana, apesar de terem privatizado as principais «jóias da coroa» ainda na esfera do setor público, desde a ANA à REN, dos CTT ao que restava da PT, sem esquecer que, por pouco teriam dado igual destino à TAP e à generalidade dos transportes públicos de Lisboa e do Porto.
Por muito que as direitas insistam em tal mistificação cabe-nos, a cada momento, contrariá-las com a verdade dos factos. Porque Passos & Portas, desde que decidiram apossar-se das rédeas do poder, só contribuiram para o empobrecimento e o desespero de uma grande maioria dos portugueses.


sábado, 7 de outubro de 2017

Do sectarismo à angústia dos paladinos ultraliberais

Na edição de hoje do «Público» podemos ler Francisco Louçã a abordar os perigos do sectarismo.
É bom que o faça e seja entendido pelos seus principais destinatários: os comunistas que, por estes dias, andam muito zangados com quem acusam de os terem caluniado, mas se escusam a proceder à devida autocrítica, que os levaria à evidência de terem sido os seus atos e omissões a constituírem as verdadeiras razões para os resultados insatisfatórios colhidos nas autárquicas.
Mas Louçã pode lembrar, igualmente, o ditado sobre o frei Tomás, que mandava olhar para o que dizia e não para o que fazia. É que, no respeitante ao sectarismo, o Bloco também tem uma história que não pode esquecer, mormente na época em que serviu de instrumento à direita para que o governo de José Sócrates visse abreviado o seu fim. Os discursos parlamentares do próprio Louçã serviram, e muito!, de abertura de alas para que Passos & Portas viessem cumprir o desígnio para eles atribuído por quem, a nível interno, cultiva ideário semelhante ao da alt-right norte-americana.
Felizmente, e após a quase cisão entre os que provinham do trotsquismo e os da UDP, o Bloco pareceu ganhar juízo e curar-se daquilo que Lenine designou como característico de uma doença infantil. Ainda que aqui e além se vejam alguns retrocessos momentâneos! Já o PCP deverá regressar aos seus clássicos e perceber como tem sido o seu não declarado frentismo de esquerda, que viu abrir-se o espaço para a resiliência em circunstâncias novas, que desafiam a sua ortodoxia e o impelem para um restyling mais eficiente.
Nas páginas do mesmo matutino também não deixa de ser interessante a pertinente tese de Pacheco Pereira sobre a angústia dessa mesma alt-right nacional, que tem no «Observador» o seu veículo comunicacional mais notório e vê a possibilidade de o PSD fugir-lhe ao controlo.
Existe, de facto, uma organização consistente de gente dessa direita ultraliberal, que ganhou espaço nas universidades, nos meios de comunicação e nas redes sociais, e anseia por virar de pantanas os equilíbrios sociais estabelecidos nestes quarenta e três anos de Democracia, mesmo traduzidos numa distribuição inaceitável de direitos e rendimentos entre a maioria da população e a minoria plutocrática, que tem usado o Estado em seu proveito para, através da banca, abocanhar o quinhão mais significativo da riqueza nacional. Foi essa gente quem andou a criar mitos como os dos privilégios excessivos dos reformados e dos funcionários públicos em comparação com os da maioria dos contribuintes nacionais, sem mostrar a mesma preocupação com quem enriqueceu à conta dos amigos colocados estrategicamente nas administrações dos bancos públicos ou privados.
Essa ultradireita sabe que Rui Rio não poderá satisfazer-lhes os intentos, por muito que, ideologicamente, tenha grandes convergências, sobretudo nas questões (i)morais. Por isso desespera por encontrar quem, a exemplo de Passos Coelho, lhe sirva de eficiente marioneta com que possa contar para futuros combates políticos. 


Um manifesto exagero

Na noite das eleições autárquicas Assunção Cristas festejou como se tivesse  cumprido feito histórico: discursou várias vezes em sucessivos palcos, convencida de que, repetindo tanto quanto possível essa condição de «vencedora», conseguiria criar nos incautos a ideia de um partido efetivamente em crescimento dotado de uma liderança capaz de atirar o líder predecessor para as catacumbas da História.
Podemos admitir que terá sido novidade a ultrapassagem do PSD pelo CDS, mas convenhamos, que tudo se explica mais pelo demérito do ex-parceiro de coligação do que pelos seus efetivos argumentos.
Olham-se mais atentamente os resultados eleitorais e, comparativamente com os homólogos anteriores comprova-se não ter sido apenas o PSD a perder apoio e mandatos no conjunto das autarquias. O mesmo sucedeu com o partido de Assunção Cristas, que iludiu o fracasso com essa aparência de falso sucesso..
Conclui-se, pois, que no papel de publicitária, a «senhora» revelou-se como sempre é essa atividade: manifestamente exagerada.

Um novo ciclo que saiu diferente do esperado

Voltando ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no dia 5 de outubro - que só os partidos das direitas terão apreciado! -, vale a pena recordar que ele previra o surgimento de um novo ciclo político depois destas autárquicas. Emitida há ano e meio essa premonição tinha mais a ver com os desejos do então recém empossado presidente do que com a realidade dos factos: embora acreditasse na resiliência da maioria parlamentar das esquerdas, pressupunha a impossibilidade de a ver subsistir após a agudização das contradições, que entre elas teriam obrigatoriamente de surgir nesse prazo. Marcelo confortava a frustração de suportar um governo bem mais à esquerda do que desejaria com a ilusão de ver reposta a normalidade com um novo centrão mais a seu gosto.
Que se enganou redondamente demonstrou-o no agastamento evidente do discurso em causa. E se as eleições desta semana abriram um novo ciclo político, ele nada tem a ver com a solidez da solução governativa, que se mantém inexpugnável aos contínuos ataques de uma imprensa mais do que adversa. O problema está no principal partido de oposição, que se vê tão condenado a uma longa travessia no deserto, que os seus nomes cimeiros escusam-se a enfrentar Rui Rio, o único a perfilar-se como sucessor da inábil liderança passista. Montenegro ou Rangel adivinham quão impossível é a missão do ex-autarca do Porto e resguardam-se para melhor ocasião. Falta só saber se Santana Lopes vê a sua reflexão terminar de forma diferente de como esse esforço mental lhe costuma resultar: o de também dizer «passo».
Marcelo arrisca-se a passar este mandato como um general sem exército, condenado a passear as dragonas sem justificar o sentido, que julgava encontrar na sua investidura para Belém. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Depois são capazes de vir dizer que exagero!

Muitos dos meus amigos marcelistas costumam criticar a tendência para não descurar nenhuma oportunidade em zurzir no seu bem amado presidente. Admito que a condição de sexagenário me tenha tornado mais rabugento e não me conforme facilmente com a ideia do país ter perdido a oportunidade de contar como seu mais alto magistrado alguém da estatura ética e humanística de António Sampaio da Nóvoa. Se estes dois anos de maioria parlamentar das esquerdas têm sido jubilatórios o que seriam se não existisse a sombra de quem parece acoitado à espera de poder trunfar com o seu joker em circunstâncias, que tudo se vire de pantanas?
Mas ao discurso deste 5 de outubro o que me dirão tais amigos? Quererão negar o azedume de Marcelo pela derrota humilhante do seu partido nas autárquicas de domingo? Pretenderão ignorar a inquietação por ter este mandato condicionado por uma maioria parlamentar, que lhe vira do avesso os vetos, e ainda promete ser mais expressiva daqui a dois anos? Julgarão benevolente essas frequentes caneladas, com que procura acertar no primeiro-ministro debaixo da mesa?
Sei que se tentarão confortar na ideia com a lapalissada de não serem eternos os sucessos, nem definitivos os revezes. Será que nos toma por mentecaptos, que rejeitam os avanços e os recuos da História? Poucos serão os que vivem a inconsciência de os ciclos se sucederem, muitas vezes repetindo-se nos seus erros, não sendo propriamente certo o veredito leninista de se darem dois passos em frente para, depois, se ter de admitir o que para trás nos faz recuar. Às vezes parece o contrário: dão-se dois atrás e só se consegue infletir com um para a frente.
A questão é esta: além de um Presidente que gosta de tirar selfies, também pretendemos quem mais pareça um émulo da dupla dos Dupond & Dupont do Tintin? Porque os lugares comuns são uma das doenças infantis dos políticos, que nada de substantivo têm a dizer. Caso cada vez mais evidente de um Marcelo a contas com um governo com que nada tem a ver na biografia ou nas ideias...
Não é difícil imaginar o que vai na alma torturada do inquilino de Belém: em vez de passar à História como tendo conseguido deixar a marca na definição dos rumos do país, mediante um governo de que desejaria ser o titereiro, fica cingido ao papel daquele tio prazenteiro que, nas festas da família, parece estar sempre na melhor das disposições, embora ninguém o leve a sério.
Sentirá ele pena por lhe estar reservado tão limitado papel na História portuguesa? É que, afável por afável, será Mário Soares a ganhar-lhe a palma com a vantagem de ter contribuído para o fim do fascismo, para a definição do rumo constitucional do país depois do 25 de abril e o ter feito entrar na então Comunidade Económica Europeia.
Presumido por natureza, a Marcelo não convirá que o futuro o recorde como o filho e o afilhado de figuras de proa do regime fascista que, com mais ou menos mergulhos no Tejo, terá iludido os eleitores quanto a ser mais do que sempre foi e é: um político com p pequeno.

As mudanças pressentidas na margem esquerda da foz do Tejo

A recontagem de votos na União das Freguesias da Caparica e da Trafaria pôs a candidata socialista - Sandra Chaíça - a uma unha negra da vitória, que se revelaria de elementar justiça tendo em conta as manifestas deficiências do trabalho autárquico concretizado pela vereação da CDU nos quatro anos anteriores e bem evidenciadas nos muitos eleitores contactados durante a campanha, em grande parte indignados com a letargia de um poder, que demasiado acomodado ao hábito das vitórias, descansara sobre a obra feita em mandatos anteriores.
Na mensagem enviada à equipa, que com ela colaborou nas muitas ações de agitprop das últimas semanas, ela manifesta a intenção de começar desde já um trabalho porfiado no sentido de concretizar o esperado sucesso em 2021. O que significa manter o entusiasmo pelo contacto direto com os eleitores, ouvindo-lhes os muitos motivos de insatisfação e tentando traduzi-los em propostas concretas nas reuniões dos órgãos autárquicos do concelho. Para tal será necessária a criação de um canal ativo de informação no sentido de os eleitores saberem, sempre que o pretenderem, quais  as atividades empreendidas pelos seus representantes socialistas e com eles interagirem de motu próprio sempre que o sentirem justificado.
Ainda mais exigente será o labor de Inês de Medeiros, que parece ter surpreendido muita gente com a sua vitória para a Câmara Municipal. Nas ruas e nos transportes há quem não se conforme com a derrota de quem julgara possível a eternização no poder por quanto sempre sucedera nas quatro décadas anteriores. Esses detratores invocam sobretudo o desconhecimento do concelho como razão bastante para maldizerem a nova edil, replicando a má-língua infundamentada de alguns opinadores políticos, mormente Pedro Marques Lopes no «Eixo do Mal».
Que estão bastante enganados, sei-o pelo que testemunhei nas últimas semanas: foi tão exaustiva a intenção de conhecer cada palmo do território almadense, que a campanha de Inês de Medeiros levou-me a sítios de cuja existência nem sequer suspeitava apesar de nele ter vivido quase toda a vida. Desde a malha urbana mais densa até às quintas e casas mais dela apartadas, a nova Presidente toma posse com uma identificação pormenorizada do desordenamento territorial e danos ambientais a corrigir e das preocupações dos diversos estratos sociais aqui residentes, podendo definir prioridades tendentes a imprimir, desde já, a sua marca na reorientação das dinâmicas da autarquia. Calando atempadamente quem ainda resiste a render-se ao seu valor e competência.
Na apresentação da candidatura, António Costa confessou ter pressentido, desde muito cedo, as aptidões naturais de Inês de Medeiros para se revelar uma excelente autarca. Na altura só não pudera contar com a sua colaboração na Câmara de Lisboa, porque ela ainda não tinha a disponibilidade profissional entretanto garantida. Agora surge a oportunidade de a vermos confirmar essa expetativa enunciada pelo primeiro-ministro. E quem a passou a conhecer melhor tem plena confiança de que assim sucederá... 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A noite das facas longas, mesmo que pouco afiadas

A noite de ontem trouxe a confirmação do que já se adivinhava desde domingo: depois de muito apostar na continuidade à frente do PSD, Passos Coelho conclui não ter condições para continuar. No seu íntimo estará a angústia quanto ao que lhe restará fazer quando, aos 53 anos, não tem grande empregabilidade dado o seu fraco currículo académico e profissional. E se, em tempos idos, Sertório, constatava que Roma não perdoava aos assassinos dos seus generais, a atualidade tem sido fértil em exemplos de ingratidão dos mais ricos por quem se aprestou a servir-lhes de marionete e não soube ser tão eficiente na defesa dos seus interesses, quanto desejariam.
É claro que já se fala na possibilidade de o vermos apainelado no leque de comentadores da SIC (olha a admiração!), mas por quanto tempo haverá mercado para lhe ouvir as sempiternas manifestações de agastamento com a suposta injustiça com que a História o tratará?
Agora é a altura de surgirem os candidatos à liderança das direitas com a curiosidade de ela se ver ameaçada nas canelas pelo atrevimento de Cristas, que facilmente se imaginará com potencial bem maior do que as suas capacidades e competências garantem. Nenhum dos putativos nomes entretanto sugeridos nas notícias gostaria de se chegar agora à frente, porque sabe encontrar todo o aparelho, incluindo o grupo parlamentar armadilhado pelo predecessor. A exemplo das dificuldades sentidas por António Costa até às eleições legislativas de 2015, o futuro líder laranja não terá a tribuna parlamentar para se afirmar. Mas Rui Rio, o mais óbvio, sabe inadiável o desafio, porque a espera de 2019 significaria não ter assento parlamentar até 2023, altura em que a idade, demasiado avançada, o tornaria ainda mais obsoleto do que já é.
Paulo Rangel tem inteligência bastante para adivinhar o risco de vir a ser um mero líder de transição, tão previsível se torna uma grande vitória socialista em 2019, mas também ele sabe quão improvável venha a ser a passagem deste autocarro pela mesma paragem em próximas oportunidades.
Santana Lopes vai repetindo o seu número de se dizer em reflexão para recuar em devido tempo: o lugar de Provedor da Santa Casa é demasiado apetecível para dele prescindir, tanto mais que, à sua pála, encheu a instituição de companheiros de partido cujo futuro ficaria em causa se o lugar viesse a mudar para alguém de cor política diferente. Daí que essa corte o aperreie para que não ponha em causa as situações de conforto em que se instalaram.
Falta Montenegro, mas esse já disse não ir a jogo. Arrivista inteligente, ele sabe o quão cedo ainda é o chegar-se à frente. De avental vestido ele e os confrades esperarão pelo provável estatelanço de 2019 para virem à luz dizerem-se presentes.
Podemos, por ora, descontrair: não será previsível que das direitas venham grandes ameaças à dinâmica da atual maioria parlamentar para continuar a brindar os portugueses com uma política que, maioritariamente, reconhecem ir ao encontro dos seus interesses. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Empafiantes, espigaitados … e Políticos maiúsculos

Das reações dos vencedores e dos vencidos na noite eleitoral de domingo a mais repulsiva foi a de Rui Moreira. Singularmente, na hora da derrota, Passos Coelho conseguiu ser bem mais digno do que o autarca do Porto que, ufano na sua autossuficiência, se pôs a zurzir em tudo e em todos, como se de mais ninguém precisasse nos próximos quatro anos.
Triste destino será o da segunda maior cidade do país entregue a quem não mostra pinga de humildade e inicia o novo mandato em declaração aberta de guerra contra quem poderia dar-lhe ajuda semelhante à que lhe permitiu cumprir o quadriénio anterior com relativa facilidade. Ou alguém no seu juízo acredita que a obra feita muito se deveu a Manuel Pizarro e a outros vereadores, que deram o seu melhor para que ela fosse planeada e executada?
Entregue agora a si mesmo e ao pequeno núcleo de indefetíveis, que o são mais por oportunismo do que por competência, Rui Moreira poderá agora mostrar a sua valia, não sendo descartável a possibilidade de se revelar na metáfora estabelecida pela fábula do sapo, tão desejoso de se assemelhar a um boi, que inchou, inchou, até estoirar.
O discurso de domingo imediatamente nos fez associar Rui Moreira à personagem de Esopo. Para mal dos portuenses, Pizarro e os demais eleitos pela oposição só têm de vê-lo esticar a corda, sem nunca deixarem de demonstrar as alternativas, que seriam as suas. Mais depressa se apanha um vaidoso do que um coxo...
Quem mais se aproximou da atitude destemperada de Moreira, mas sem cometer a indelicadeza de se servir do discurso de vitória para vituperar os adversários, foi Assunção Cristas que não cabia em si de contente com o seu feito. Chegou a 20% em Lisboa, porque muita gente do PSD decidiu apresentar o cartão vermelho a Passos Coelho votando nela, mas a sua irrelevância no poder autárquico resume-se a meia dúzia de câmaras conquistadas e a menos de 3% de votantes a nível nacional. No seu delírio dominical Cristas lembrou aquele jogador de râguebi que, com a equipa a perder 72-0, conseguiu marcar um ensaio e correu desabrido por todo o campo como se o seu feito tivesse equivalido a ganhar o jogo (episódio que vi com estes olhos que o forno crematório um dia reduzirá a cinzas!).
Avulta como contraponto o excelente discurso de Fernando Medina, que deveria servir de quotidiana audição obrigatória a todos os autarcas eleitos, porque soube ser grandioso com humildade, sabendo que a sua visão para o município não se consegue apenas com maiorias mais ou menos absolutas, havendo que contar com as demais forças políticas para a criação de convergências destinadas a mudar de facto a qualidade de vida dos seus concidadãos.
Ser despretensioso na vitória é timbre de Políticos com maiúscula, enquanto os empafiantes e os espigaitados vivem os seus momentos orgásmicos, mas estão condenados à impossibilitados de os repetirem na dura prova de se verem testados com a realidade. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma vitória, que foi a da dignificação da Política com P grande

Os acontecimentos, que abrem os telejornais, podem ter muitas explicações - e para elas concorrem comentadores pagos lautamente pelos diversos canais! - mas a física dos fractais ensina-nos, que pequenos episódios podem clarifica-los com maior eficácia.
A grande vitória socialista nas eleições autárquicas já estava pré-anunciada na semana anterior, quando, em ação de campanha na Trafaria, Inês de Medeiros foi confrontada por uma eleitora, que dizia não acreditar nos políticos, porque eram todos iguais nas promessas e no seu não cumprimento.
Rápida na resposta a candidata logo argumentou não ser nada assim, porque ela podia constatar na prática como António Costa cumprira escrupulosamente nestes dois anos aquilo com que se comprometera na campanha de 2015. A interlocutora acabou por assentir, reconhecendo ser essa a verdade dos factos. E explicou a sua revolta pelo facto de ter sido comerciante no mercado ali em frente e falido durante o período da troika, atribuindo o facto ao planeamento deficiente de quem ali andara a fazer obras de requalificação. Os nove meses de fecho coercivo do mercado levara os habituais clientes a procurarem alternativas para se abastecerem, perdendo as rotinas que os traziam habitualmente ali.
Tendo participado em muitas ações de campanha essa senhora foi a única exceção daquilo que até então vinha constatando: ao contrário de eleições anteriores apareciam a cada paragem muitos eleitores desejosos de comunicarem com os candidatos, expressando-lhes as suas preocupações e necessidades, sem jamais invocarem os epítetos depreciativos dessas pretéritas ocasiões.
Conclui-se que um dos benefícios da governação da atual maioria parlamentar é a credibilização da Política, com P grande, como capaz de se orientar para a concretização do bem coletivo em vez de servir apenas para o beneficio de pequenas, mas gananciosas cortes. É graças à recuperação da credibilidade dos políticos, que a abstenção teve apreciável redução, mesmo sem haver a eliminação dos mortos dos cadernos eleitorais e mantendo-se a impossibilidade de votação dos muitos milhares empurrados por Passos Coelho para a emigração.
Quem esteve a contactar com os eleitores nas mesas eleitorais pode verificar a vontade de cumprimento do dever cívico por muitos que, em ocasiões de desencanto com os «políticos», ficavam em casa por sentirem desnecessário o esforço de se deslocarem ao local de voto.
É essa uma das principais razões que justificam a vitória socialista como um elementar ato de justiça. Além de estar a assegurar as condições para que os portugueses usufruam de melhor qualidade de vida e adquiram as competências e capacidades necessárias para uma mais sustentada empregabilidade, António Costa está a devolver-lhes o prazer pela participação na definição dos destinos das respetivas comunidades locais. E tanto bastou para reconhecer o quanto nos realizou, a mim e à Elza, a participação nas ações, que deram a vitória à Inês de Medeiros, a maioria absoluta ao José Ricardo e o resvés a que a Sandra Chaíça ficou de também comemorar a consagração da sua árdua campanha.

domingo, 1 de outubro de 2017

Votar para prosseguir na dinâmica de transformação desta realidade

Hoje vota-se aqui e na Catalunha. E os resultados, em ambos os casos, comportarão efeitos mais a longo prazo do que no imediato. Porque existem dinâmicas, que estão a manifestar-se, mas cujos impactos só criarão mudanças, quando desequilibrarem de vez  as paridades que subsistem.
Quem poderá ainda alimentar dúvidas sobre a inevitabilidade da vitória catalã depois da forma desajeitada como Rajoy lidou com o problema? Se chegámos a este dia com uma relativa partição igual entre os que pretendiam e os que rejeitavam a independência, a ocupação castelhana terá feito mudar de campo, quem ainda acreditava numa Espanha plurinacional. E, para os que veem nesta dinâmica apenas a vontade de povos mais ricos não pagarem os «luxos» dos mais pobres, é melhor pensarem, porque só 74 anos depois de Portugal ter concretizado a Restauração do seu Estado é que as forças militares castelhanas conseguiram sujeitar a nação rebelde a mais uma longa submissão.
Liberdade de expressão, respeito pelo direito à autodeterminação dos povos, Democracia efetiva e não apenas formal - eis o que o herdeiro de Franco pretende sonegar ao povo rebelde. E a História mostra como costumam acabar estas crises: ou com o esmagamento violento dos revoltados ou com a sua vitória. Ora, numa Europa ainda apostada em dizer-se democrática, a primeira alternativa está rapidamente a impossibilitar-se.
Entre nós a votação não vai pôr nada em causa na maioria parlamentar, mas condicionará seriamente as direitas. Uma liderança legitimar-se-á, a outra confirmará o inevitável declínio. O velho sonho do partido mais pequeno dessa área política sobrepor-se em importância ao putativo aliado, mas também rival, ganhará súbito interesse nos meses que virão. Não será difícil crer que as batalhas dentro das direitas serão bem mais acesas do que entre as esquerdas. O que alicerça a confiança num longo ciclo político orientado para transformações sociais e económicas capazes de reduzirem as obscenas desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres. Alie-se a competência na governação à convergência de valores ditados pela mesma matriz ideológica e poderá aqui criar-se um modelo progressista de sucesso a ser replicado noutras coordenadas geográficas.
Haverá, porém, não incorrer em excessos de confiança: custa muito esforço construir, mas deitar tudo a perder é questão de breve e trágica inabilidade. Os riscos são muitos, tanto mais que coisas esdrúxulas - racismo, xenofobia, sexismo, etc. - ganham relevância em quem está apostado no uso de tais armas como alternativa à incompetência dos seus mais apresentáveis paladinos. O que obriga as forças políticas a incrementarem a proximidade com os cidadãos, desafiando-lhes as inércias de alienação, com que as televisões, as igrejas, os futebóis, os tentam neutralizar.
Sendo um domingo em que importa o exercício do voto, não se pode esquecer que a Democracia está longe de se esgotar nele. A Política com maiúscula tem de ser exigência para amanhã, e depois, e depois, porque se Deus permitiu-se descansar ao sétimo dia, em quem pretende uma sociedade mais justa e próspera não há trégua, que se justifique.