quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ceci n’est pas … du socialisme!

Deveria ser uma evidência, mas pelos vistos não é: quando alguém se define a si mesmo como socialista isso implicaria ter-se incompatibilidade ideológica com o capitalismo. A não ser assim imita-se Passos Coelho, que ostenta a bandeirinha na lapela, mas teve, e tem, recorrente prática política antipatriótica e antinacional.
Vem isto a propósito do entusiasmo manifestado em artigos de opinião por duas socialistas a respeito da conferência de hoje, dada por Robert Reich no ISCTE em que está prometida a abordagem da relação causa-efeito entre a agudização das desigualdades  e o sucesso eleitoral de Donald Trump.
Quer Ana Catarina Mendes (no «JN»), quer Maria Lurdes Rodrigues (no «DN»), revelaram a concordância com os principais pressupostos do referido professor de Princeton, implicitamente defendendo a necessidade de salvar o capitalismo. A segunda até conclui o seu texto com a falácia de associar o florescimento da democracia às economias de mercado, como se a liberdade dos patrões não coincidisse cada vez com a opressão de quem eles exploram, e mesmo a humilhação dos que eles empurram para as margens da precariedade e do desemprego. Por isso diz almejar uma profunda reforma do capitalismo “para que o seu desenvolvimento beneficie a maioria e não apenas os mais poderosos.”
Quer a secretária-geral adjunta do meu partido, quer a antiga ministra da Educação lembram-me aqueles náufragos que, em vez de embarcarem nos salva-vidas, esgotam as forças a tentarem tapar o rombo por onde a água vai afundando mais e mais o navio.
É a ilusão dos que se dizem sociais-democratas e ainda sonham com as irrepetíveis experiências do modelo nórdico entre o pós-guerra e os anos setenta. Ignorando ostensivamente um facto de que nem sequer pretendem ouvir falar: a presença do Estado na economia era então significativa, senão mesmo maioritária, impedindo o patronato de se assumir na força exagerada com que hoje desequilibram o prato da balança de quase todas as decisões políticas, económicas e judiciais a seu favor.
Serão as duas socialistas ingénuas ou acreditam piamente em como volte a ser possível, politicamente, impor limites á apropriação e privatização de bens públicos ou à exploração de patentes, como defende Reich?
Vejam-se as dificuldades do governo socialista em limitar os subsídios às escolas privadas para logo se armar uma guerra de enorme dimensão, que não foi nada fácil vencer. Ainda que os argumentos em defesa de tal política fossem de límpida clareza e irrefutável racionalidade.
Como poderiam os governos contrariar a obscena concentração de capital em monopólios transnacionais, que usam e abusam do seu poder para derrubar governos, promover quem sirva de marionetes dos seus interesses e ocupam todo o espaço mediático com mensagens explicitas ou subliminares tendentes a acentuar os preconceitos e as «certezas», que melhor sirvam os seus interesses?
E, continuando a seguir a cartilha de Reich para reformar o irreformável, como convencer os patrões a acederem aos instrumentos da contratação coletiva e ao fortalecimento dos sindicatos? Se até o atual governo, mesmo com as pressões dos seus parceiros na maioria parlamentar, recusou a possibilidade de pôr termo à indecente caducidade dos contratos, pondo os representantes dos trabalhadores em delicada posição negocial por não poderem partir de uma base de reconhecimento dos direitos adquiridos.
E, finalmente, só mentes ainda mais dadas às utopias do que eu mesmo é que podem acreditar que os patrões, grandes ou pequenos, aceitariam de bom grado políticas distributivas e fiscais, que lhes minguassem os lucros.
Pese embora toda a inaptidão de Nicolas Maduro ou de Dilma Rousseff para concretizarem os programas que tinham em mente, os golpes já concretizados, ou por concretizar no quintal das traseiras dos EUA (e com a CIA por certo bastante ativa!), mostram bem como o patronato é capaz de todos boicotes, sabotagens e subornos para pôr fim a regimes, que procurem recuperar um mínimo de justiça social.
Não! O capitalismo não pode nem deve ser salvo. Ele evolui para o seu definitivo estertor em que não terá mais mercados para conquistar, nem consumidores que lhe possam garantir o crescimento, que constitui a sua identidade. Ele é um touro, que entrou na arena no auge da sua força, mas a que as farpas vão esgotando até desfalecer, exangue, na arena.
Que não será bonito de se ver estamos a comprová-lo: Donald Trump , Erdogan ou Orban mais não são do que desesperadas tentativas de fazer recuar o tempo para as soluções engendradas nos anos 20 e 30 do século passado e que os portugueses tiveram de suportar até 1974. Mas quem cré que a salvação reside noutro modelo mais do que ultrapassado e para o qual já não se encontram as condições macroeconómicas que as tornaram possíveis durante um breve ciclo de trinta anos nos mais desenvolvidos países ocidentais, está a enganar-se a si mesmo.
Pode mudar o nome ao partido, como o fizeram os italianos ou pretendiam Manuel Valls ou François Hollande, mas já não estão intimamente associados ao que impõe o socialismo. Que, como Marx previu, só poderá advir como evolução natural do definitivo esgotamento da receita capitalista.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Complacências, absurdos e esquecimentos históricos

1. Uma das explicações para o sucesso recente dos candidatos de extrema-direita em sucessivas eleições tem sido a complacência, se não mesmo cumplicidade, de muitos jornalistas com as suas mentiras e deturpações.
Ontem no «Diário de Notícias», Ferreira Fernandes lembrava como, há quinze dias, o universo mediático francês foi sacudido pelo «escândalo» Macron. Em causa o ter ido comemorar a passagem à segunda volta no La Rotonde como se, como símbolo, o café por onde andaram Picasso e Hemingway pudesse assemelhar-se ao sofisticado «Fouquet’s», outrora utilizado por Sarkozy No entretanto calavam o facto de, na mesma altura, Marine Le Pen estar a festejar no Chalet du Lac, outrora palácio de verão de Napoleão III.
A cintura de contenção do fascismo também passa - e de que maneira! - pelo jornalismo cuja diferenciação deverá assentar na credibilidade que as redes sociais nem sempre dão, infetadas que estão pelos torpes intentos dos inimigos da Liberdade.
2. No mesmo jornal Fernanda Câncio aborda o fenómeno Fátima como algo de justificado interesse sociológico para o mais empedernido dos ateus, embora não escamoteie “a obscenidade de muito do que ali se passa - do comércio desbragado ao exibicionismo pornográfico e sua incitação institucional (na construção do «joelhómetro», por exemplo), da deliberada exploração da crendice e desespero à inadmissível confusão entre Estado e Igreja Católica patente por exemplo na presença de militares na escolta da imagem”.
A quem olha para tudo aquilo com os olhos desfiltrados dos condicionamentos de uma educação, desde muito cedo apostada em impor os dogmas da fé, causa espanto a lógica absurda, que preside a todo aquele ritual. E a jornalista lembra o quão contraditória é a questão dos milagres santificadores de miúdos  demasiado impressionáveis pelo ambiente em que viviam: como é possível a Igreja glorificar a «cura» de um entre milhares de crentes, que pedem o favor para si, quando a enorme maioria nunca se vê com ele contemplado? Será por considerar que os outros não merecem? Que ainda mais devem porfiar na crença e lavarem-se dos remanescentes pecados? Como diz Fernanda Câncio é “difícil entender que tanta gente pareça comprazer-se na existência de entes com superpoderes que só usam por capricho, numa lotaria tão sem critério como o do acaso”.
Enquanto o negócio prospera a Igreja tem em Fátima o seu cofre-forte, alimentando-se das parcas poupanças de muitos, que mal têm com que sobreviver.
3. Uma referência final para o texto de Nicolau Santos no «Expresso» de ontem em que sintetiza com bastante clareza uma das principais características deste capitalismo neoliberal, que o novo presidente francês quer redourar,  como se fosse possível impedir um astro a cair para o crepuscular desaparecimento no fio do horizonte de voltar a erguer-se, a recuar e a brilhar com a antiga intensidade sobre os céus dos felizes burgueses dos Trinta Gloriosos Anos.
Hoje, ao contrário das empresas, os trabalhadores por conta de outrem não podem pagar impostos em países com regimes fiscais mais favoráveis a não ser que para lá emigrassem. “Assim, não só as empresas pagam menos impostos, como isso obriga dos Estados, que ficam com menos receita fiscal, a sobrecarregar os cidadãos com mais e mais impostos.”
A globalização dos lucros não teve como contrapartida a dos direitos mais avançados dos trabalhadores ocidentais. Pelo contrário! E é essa premissa, que justifica a recuperação de uma velha regra marxista: a da necessidade de união entre os explorados de todos os países. O que contradiz o discurso soberanista de algumas esquerdas esquecidas dos fracassos históricos de, em muitas alturas, terem alinhado, se não mesmo participado ativamente nos discursos  nacionalistas das suas burguesias com as trágicas consequências que as Grandes Guerras revelaram.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A vacina de que andamos precisados

Não havendo uma nova vaga de refugiados provenientes da Turquia, as extremas-direitas europeias terão conseguido o máximo fulgor na eleição presidencial francesa deste fim-de-semana. A partir deste clímax segue-se a decadência.
Na Alemanha o partido, que chegou a assombrar os democratas andam em perda e nem é certo que consigam sequer garantir lugar no Reichtag, por muito que, ali ao lado, na Áustria, o patrão da Red Bull anuncie milhões de investimentos num novo site, que equivalha ao sinistro Breitbart, conhecido pelo papel de relevo na eleição de Donald Trump.
Bem pode Marine Le Pen mudar o nome do partido que a maioria dos franceses não é estúpida o bastante para acreditar que, alterado o rótulo, também se transfiguraria o infecto conteúdo da embalagem.
Fica, no entanto, o mais importante por resolver: as extremas-direitas só proliferaram nos últimos tempos por estarmos numa fase de transição tecnológica, que torna perdedores quem a elas não se mostra resiliente. São esses órfãos de um modelo de sociedade irrepetível e sem ressurreição possível, quem revelam a cólera mediante o voto nos que lhes exploram os medos e inseguranças. E que devem ser tratados como aquilo que são: fascistas! De um novo estilo, mas incontornavelmente fascistas.
Basta ver-lhes os exemplos recentes: Orban na Hungria, Kaczyński na Polónia ou Erdogan na Turquia ascenderam ao poder através do formalismo do voto democrático. Mas tão só consolidados no lugar ei-los a espezinharem todas as liberdades, a prenderem e silenciarem os opositores, a pretenderem eternizar-se nos cargos.
Quem ainda acredita na condição democrática de um regime só porque os seus tiranos se afirmaram através do voto das maiorias (ou nem sequer isso!)?
É tempo de as esquerdas deixarem a lógica estúpida de defender  fascistas em nome dos seus próprios valores. Foi triste ver Vasco Lourenço defender Jaime Nogueira Pinto e Bernie Sanders a imitá-lo a respeito de Anne Coulter, quando universidades prestigiadas escusaram-se a possibilitar-lhes a palavra em conferências organizadas de acordo com as mesmas estratégias e objetivos. O que tende a confirmar a ideia de integrarem um Manual de Instruções distribuído transversalmente vários países para serem implementados com tanto sucesso quanto esperam os promotores.
No pós-25 de abril a vigilância antifascista estava mais desperta e era atuante nesta situações, Nos últimos anos as esquerdas amoleceram e perderam de vista o quanto é virulenta tal gente.
Mas, para além de reintegrarem o discurso antifascista no seu discurso, as esquerdas têm de se revelar  implacáveis com a corrupção, íntegras face às negociatas, resistentes às pressões externas e cumpridoras das promessas com que se terão comprometido.
Só assim se obterá vacina duradoura contra os fantasmas, que os últimos anos fizeram despertar.

Um insistente trampolineiro

Claro que me recuso a ver o anão de Fafe a perorar as suas previsões no jornal da noite da SIC ao domingo. Mas nem a minha conhecida e reiterada decisão em não perder tempo com tão  estrambólica figura me inibe de receber, de várias fontes, a resenha dos disparates, que ele enunciou. Nestas coisas existem sempre umas almas generosas, que se sacrificam para não perdermos pitada das mais suculentas demonstrações de ridículo do tratante.
De coscuvilheiro de serviço, quando Passos ainda era primeiro-ministro, passou a produtor de fake news, única alternativa, que lhe resta para ter alguma coisa para dizer, secas que andam as fontes de informação de que se socorria, quando as tinha perto do poder.
Com o governo socialista o seu papel de adivinhão deve ter-se complicado: quem é que, lá dentro, estaria disposto a servir-lhe de espião?
Resta-lhe atirar uns palpites na expetativa de, confirmadas as previsões lapalassianas, que corresponderiam a triplas no antigo boletim do totobola, as outras, as que o possam desmascarar como aldrabão, possam passar o mais despercebidas possível.
Marques Mendes é um farsante, cujo ridículo vai transformando em risível charlatão...

domingo, 7 de maio de 2017

Ah ça ira, ça ira!

Vi há pouco o Emmanuel Macron a votar e, embora tratando-se do candidato em que apostaria - o fascismo é, de facto, a besta imunda, que importa sempre travar e, tanto quanto possível, esmagar! - não deixo de dar razão ao Daniel Oliveira quando, no «Expresso» deste fim-de-semana diz: “Mesmo que o voto em Macron seja evidente e inevitável, não há qualquer aliança possível com a sua contrarreforma e com o movimento de esmagamento de toda a esquerda, socialistas incluídos, que ele protagoniza”.
Podemos agradecer-lhe o facto de ter desmascarado a  essência fascista de Marine Le Pen durante o debate televisivo desta semana, mas essa qualidade não impede que ignoremos o que disse, o que defende.  E o que gostaria de implementar se contasse com uma maioria parlamentar suficientemente dócil para conduzir ao bom porto a que aspiram os que nele se revêem e apoiam convictamente.
A França chegou a esta eleição presidencial com o mesmo dilema que se colocam, hoje em dia, às sociedades capitalistas mais avançadas: ou procura avançar com a lógica do seu crepuscular esgotamento e agudiza ainda mais as desigualdades (é o resultado previsível do programa  de Macron) ou tenta meter a cabeça debaixo da areia, recusando-se a encarar a realidade mediante a retoma das tradições históricas dos que derrotaram a Comuna de Paris, criaram uma histeria antissemita com o caso Dreyfus, colaboraram com os nazis ou torturaram e assassinaram para manter francesa a Argélia e as demais colónias africanas (é o legado, que inspira a Le Pen junior).
Compreende-se que o Partido Socialista inicie a campanha para as legislativas já na segunda-feira, decidido a contrariar quantos querem acreditar na possibilidade de Macron contar, a partir do Eliseu, com um governo prestável ao seu desígnio pró-financeirização extremista da sociedade francesa.
O facto de uma grande maioria dos que hoje nele votam  reconhecerem que o fazem contra a adversária e não por o terem como suprassumo da barbatana dá razão a quem augura a possibilidade de serem as legislativas a terceira volta da luta de classes vertida em combate eleitoral na França atual.  E aí a escolha voltará a alargar-se, não se restringindo à que hoje implica.
Entre dinâmica de derrota, que porá a Frente Nacional a ajustar contas com a sua líder - algo que o pai já começou e a prima Marion ainda mais execrável, não deixará de prosseguir! -  e a vontade dos eleitores de esquerda em corrigirem o tiro do falhanço desta eleição, há razões para ter esperança!
Ah ça ira, ça ira!

Com quem o Moreira se foi meter!

Será que depois de ver a reação de tocar a reunir por parte dos socialistas na Convenção Autárquica deste sábado, Rui Moreira irá dormir tranquilo na noite agora em curso?
Duvido. Se a forma ostensiva como quis humilhar o parceiro da coligação pareceu, favorece-lo num primeiro momento, a rápida reação da liderança socialista constitui um bom exemplo de como julgando-se hábil a semear ventos, Moreira apresta-se para suportar forte tempestade de que poderá não sair indemne.
Como quem não se sente não é filho de boa gente os socialistas entusiasmaram-se com a possibilidade de devolverem o troco  a quem os pretendera achincalhar, Criaram assim as condições para uma grande unidade em torno da candidatura de Pizarro para vê-lo colher os frutos do excelente trabalho desenvolvido sob tão equívoca subordinação. Porque são muitos os testemunhos alusivos ao facto de ter sido ele o «carregador de pianos» de uma vereação, que depois deixava a sua prima dona colher os louros.
Não é só o facto de estar sob suspeita de conflito de interesses por causa da imobiliária da família, que Moreira pode estar em xeque: o seu discurso antipartidos pode ter eco nalgum eleitorado menos instruído, mas já não colhe tanto apoio quanto há quatro anos, quando o governo das direitas dava razão a esse desfasamento entre as aspirações das populações e o comportamento dos protagonistas políticos de então.
Hoje muitos portuenses sentem que a atual maioria parlamentar contribuiu decisivamente para a melhoria da qualidade de vida e das esperanças quanto a um futuro melhor. Daí que seja provável sucesso mais mitigado de Moreira na sua ambígua argumentação, típica de quem mantém com os valores democráticos uma relação no mínimo suspeita.
Ademais ele esquece-se de pormenor relevante: uma campanha implica o trabalho desinteressado de muitos apoiantes, que raramente se encontram fora dos partidos políticos. Significa isso que Ilda Figueiredo contará com a excelente organização da máquina comunista, João Semedo terá por si o entusiasmo dos militantes bloquistas e até o candidato do PSD terá condições de ter recursos humanos e financeiros mais substanciais para investir na campanha do que o movimento  «independente» conotado com o CDS.
O entusiasmo com que foi hoje acolhida a designação de Manuel Pizarro para encabeçar a lista socialista na conquista da Câmara do Porto faz prever que a sua organização de apoio será a mais participada e entusiasmada, apostando claramente numa expressiva vitória. Tornou-se, assim possível, que o PS acrescente o Porto às capitais de distrito lideradas pelos seus candidatos a partir do próximo outubro. Nessa altura, lambendo as feridas depois de perdido o combate, Rui Moreira apenas poderá queixar-se de si mesmo. 

sábado, 6 de maio de 2017

A conveniente separação de águas no segundo município do país

Nunca fui um entusiasta da solução política defendida por Manuel Pizarro para manter o Partido Socialista na partilha do poder na segunda cidade do país. Porque sempre antipatizei com Rui Moreira em quem não foi difícil identificar, desde início, o carácter de demagogo de direita com as inerentes e frequentes reações do mais descarado populismo.
Não posso, pois, confessar-me surpreendido com a rutura agora anunciada a pretexto de declarações sucessivas de Ana Catarina Mendes.
O que até agora transpirou do caso é muito pouco, mas faço votos para que a secretária-geral-adjunta, ao mesmo tempo que emitia sinais de desconforto com a arrogância crescente do autarca, tenha preparado um plano B pronto a implementar-se e com potencial para o derrotar.
Esplêndida seria a possibilidade aventada hoje pelas redes sociais em que as esquerdas se conjugassem para, unindo-se, darem o passo seguinte que muitos esperam da atual maioria parlamentar: um teste à escala local para a sua tradução em responsabilidades governativas.
Por muito que tivéssemos de aturar o ajuntamento de carpideiras, depressa reunidos em torno de Moreira, chorando com ele as obstruções dos partidos contra as candidaturas ditas «independentes», obter-se-ia uma merecida e fria vingança contra quem tem reiteradamente demonstrado pouca sintonia com os valores inerentes a uma Democracia.
A menos de cinco meses da ida às urnas há muito trabalho à espera dos socialistas portuenses. Façamos votos para que sejam bem sucedidos no desafio,  que hoje lhes foi feito. Moreira é só mais uma dessas «virgens virtuosas», relativamente abundantes na nossa vida pública nos últimos anos, e abundantemente representada por alguns dos candidatos às últimas presidenciais. Gente que, mesmo tendo estado dentro dos partidos, deles dizem o pior, como se fosse possível descartá-los sem por em causa os direitos fundamentais reconhecidos pela nossa Constituição.
Lamente-se, ainda, a reação dos moribundos do segurismo, que julgaram ter aqui matéria para darem mostras do seu incurável despeito por terem sido reduzidos à mais humilhante das irrelevâncias. Infelizmente continuam a ser uma espécie de tumores, na maioria benignos, que insistem em prejudicar o projeto político criado por António Costa com os excelentes resultados, que a realidade se encarrega de demonstrar todos os dias...

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A inconsequência de quem desconhece o sentido da coerência

Quem se deu ao trabalho de ver o debate entre Macron e Le Pen teve a oportunidade de ver um bom exemplo da recente tendência na moda do discurso político, que resultou no Brexit, na vitória de Trump e noutros êxitos relativos da extrema-direita fascista na Áustria ou na Holanda: a candidata fascista levava dos seus coachers a indicação de manter estático um sorriso falso, espécie de escudo para, detrás dele, lançar as maiores mentiras e suspeições sobre o adversário.
Convenhamos que, tão falhos de argumentos quanto ela, Passos e Cristas, muito ainda têm de aprender para lhe chegarem aos calcanhares, porque toda a sua estratégia discursiva, assente no mesmo tipo de incoerências facilmente desmontáveis pelos mais instruídos, ainda não consegue ser proclamada com aquele ar convencido de quem acaba de inventar a pólvora. Até mesmo a líder pêpista fica aquém do objetivo por muito que pareça, às vezes, estar em acelerada preparação para o mester de peixeira.
Neste momento, esgotado o folhetim António Domingues, a nova bête noire das direitas passou a ser Paulo Macedo, apesar de ainda não terem passado dois anos sobre as muitas ocasiões em que todos eles tinham confraternizado à mesa do conselho de ministros.
O atual administrador da CGD deverá estar a passar por grave problema de identidade: ideologicamente homem das direitas, vê-se agora na trincheira contrária e a ser vítima de «fogo amigo». E enquanto os novos amigos o levam nas palminhas, os de antigamente não fazem a coisa por menos: exigem-lhe desculpas ao «povo» ou que se demita.
Claro que as direitas lançariam foguetes se esta administração da Caixa Geral de Depósitos voltasse a cair. O intento de a destruírem para a entregarem por tuta-e-meia aos amigos do costume ainda não se lhes desalojou das cabeças.
Mas, tal como a história dos sms’s já deu o que tinha a dar, também este súbito episódio com epicentro em Almeida seguirá o mesmo rumo. Para desgosto de quem gostaria torná-lo numa pequenina fresta por onde o tal Diabo pudesse passar.
Perspetivam-se mais tempos difíceis a quem mérito não mostra para lhes ser resiliente.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A escolha entre um cancro no pâncreas e uma dor de dentes

Se nos fosse dado a escolher entre um dos mais mortíferos cancros e uma insuportável dor de dentes, claro que preferiríamos não ter nenhuma. Porém, coagidos a optar, todos nós, sensatamente, nos inclinaríamos para a segunda hipótese.
Foi a comparação que fiz enquanto vi a segunda metade do longo debate entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron.
É claro que o ex-especulador do Banco Rothschild merece bem o epíteto de representante da extrema-finança com que foi apodado pelos apoiantes de Mélanchon. Não será o seu programa a infletir a curva descendente da França na relação de forças das economias europeias, quanto mais mundiais, nem com ele será crível uma melhoria significativa na qualidade de vida dos seus compatriotas. Mas Marine Le Pen é o fascismo em estado puro, mesmo que recauchutado para os imperativos mediáticos do nosso tempo. Toda ela é preconceito, é ódio, é ameaça e são tais características do seu discurso que tanto calafrio causa em quem a ouve.
É claro que, na minha perspetiva, Macron ganhou o debate sem margem para dúvidas. Mas qual terá sido a reação dos nove milhões, que nela votaram na primeira volta e querem endeusá-la como salvadora das suas fobias e frustrações?
Vivemos num tempo em que o normal é a subsistência, senão mesmo supremacia, do que outrora era marginalizado como discurso desviante.
Mantenho a confiança em como, no domingo, Macron ganhará com mais de 20 pontos de avanço, mas, logo na segunda-feira, os socialistas franceses em particular, e os democratas em geral, têm de olhar para o futuro muito para além das legislativas de julho. Deverão reinventar-se, identificando as causas para uma tão elevada votação em propostas fascistas, neutralizando-as com a eficaz atração para a normalidade liberal, preferencialmente progressista, dos que delas se afastaram.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A Oeste Nada de Novo

No regresso a este cantinho à beira-mar plantado encontro as coisas tal qual estavam antes desta ausência: as notícias abonatórias da ação deste governo sucedem-se umas às outras enquanto a oposição vai-se revelando patética na sugestão de existir um país muito diferente daquele que a maioria dos cidadãos sente. O hiato entre a realidade e o cenário de ficção descrito por Passos Coelho e Assunção Cristas é tal que somos levados a questionarmo-nos se não existirá algum distúrbio psiquiátrico, ou pelo menos oftalmológico, a condicionar a perspetiva de um e de outro.
Por isso os telejornais vão-se enchendo de notícias típicas de tabloides, ora envolvendo sarampo, cães perigosos e, agora, os primeiros afogados nas praias de norte a sul. Sem notícias palpitantes que, politicamente, captem audiências e rentabilizem os investimentos publicitários, as televisões apelam para o que de mais primário existe na mente dos telespectadores: sangue, morte, crime...
Na política não é grande o sucesso dos telejornalistas em cachas palpitantes: exploraram o mais que puderam a questão da tolerância de ponto do próximo dia 12 de maio sabendo, à partida, que se o governo a desse era notícia pela contradição com a defesa da laicidade pela esquerda mas, se não a desse, também se poderia intrigar por via do escarcéu lançado pelas direitas.
O Conselho de Finanças Públicas é outro assunto que se esgota pela recusa de António Costa em fazer-se interlocutor dos que o questionam sobre a recusa de uma fanática neoliberal. 
Se calhar melhor atenção ganhariam se fizessem notícias sobre a origem desse órgão nada independente, que custa muito dinheiro aos contribuintes para emitir pareceres invariavelmente errados.
Será que os espectadores não ficariam muito mais agarrados aos ecrãs se lhes lembrassem como esse órgão surgiu como chantagem do PSD a José Sócrates para que deixasse passar o Orçamento de 2010? E que a suposta independência dificilmente se comprovaria no facto de, sem outra solução, o então primeiro-ministro socialista ter aceite os nomes que a então oposição de direita lhe impôs, com Teodora Cardoso à cabeça.
O mesmo sucedeu, aliás, com o Banco de Portugal onde o então governo socialista  foi obrigado a, perante as pressões de Cavaco Silva e dos partidos da direita, a nomear Carlos Costa para um cargo onde tem tido o desempenho que sabemos. Que independência é a desse «governador», que Passos Coelho reconfirmou para novo mandato, sabendo-o cúmplice certo da contínua sabotagem das políticas socialistas?
É certo que deixariam de cumprir o papel ideológico para que estão fadadas, mas as televisões poderiam recolher maiores audiências se fossem honestas nas abordagens a essas e outras questões, que, nas versões marteladas até à náusea, já não merecem qualquer crédito.
Há uma alternativa que tomam então em desespero de causa, quando, a nível interno, não encontram argumentos para contrariar o evidente apoio de que goza a atual maioria parlamentar: a política externa. Daí que queiram associar Mélanchon a Marine Le Pen como se fossem faces opostas da mesma moeda e conotando o primeiro com as forças mais radicais da maioria parlamentar. E não desmentem a falácia, mesmo quando Mélanchon dá indicações precisas de nenhum voto dos que o apoiaram vir a transferir-se para a herdeira do fascismo lepeniano. Também aí a verdade vai cerceando credibilidade a quem nada tem feito para a recuperar. Mas esse é outro objetivo tangível dos donos das televisões e dos jornais: se não conseguem virar a opinião pública contra o governo, tentam distrai-la tanto quanto possível com futebóis, crimes e outros assuntos que tais. Esperançados que, em melhor altura para os seus interesses, essa passividade se revele mais permeável para o próximo dom sebastião, que Miguel Relvas ou Dias Loureiro já andarão a preparar para novo ciclo de arriscar a conquista do tão invejado “pote”.