domingo, 23 de abril de 2017

Quando a ganância substitui as convicções

Há uns meses segui com interesse os episódios da série «Marte» apresentados pelo canal da National Geographic. 
Em grande evidência surgia Elon Musk, o proprietário da empresa SpaceX, que anda a aprimorar a tecnologia de reaproveitamento de foguetões para os enviar ao espaço e pretende alcançar Marte com uma missão tripulada, antes de qualquer concorrente.
Musk é também o dono da Tesla, a empresa de carros elétricos, que corresponderia a uma alternativa interessante à necessidade de nos deslocarmos sem suscitarmos emissões de carbono por parte dos veículos a diesel ou a gasolina, que possamos utilizar.
Pela  importância conferida à Ciência nos seus objetivos Musk teria todas as condições para ser admirado por quantos apostam num planeta apostado em combater as alterações climáticas. Só que ele é um orgulhoso colaborador de Donald Trump de nada valendo a campanha mediática em curso para que imite o inventor da Uber que, temendo a publicidade negativa, já se dissociou de tão nefasta companhia.
Musk procede como o ganancioso financeiro, que procura exercer lobbying junto da Casa Branca de modo a influenciar em favor da sua carteira na legislação a ser emitida em breve, que possa valorizar a indústria tradicional de construção de automóveis em seu desfavor, ou nomear amigos seus para a NASA, como que a privatizando numa fusão com a SpaceX.
Livremo-nos pois de saudar falsos iluminados, muito modernaços, que acabam por só terem em conta  os seus exclusivos interesses, mesmo aceitando servir de adorno a tão desvairada Administração e contra todos os outros empresários vinculados a preocupações ecológicas, que condenam tão nefastas políticas.

Importantes vestígios arqueológicos feitos em cacos

A notícia da destruição de um sítio arqueológico no distrito de Beja pelas máquinas utilizadas na escavação profunda do terreno, a fim de se instalar um sistema de rega destinado à plantação de olival, é um bom exemplo de como continua a existir um total alheamento dos empresários a respeito do que pode enriquecer a memória do Património nacional.
Quando eu era miúdo vi algo de semelhante na quinta do meu avô: escavando o solo para criar um poço no pátio deu de caras com um túnel provavelmente dos tempos dos romanos e onde o meu tio Calisto penetrou até onde foi possível, de lá trazendo pedaços de ânforas e moedas ou medalhões em ouro.
Porque ainda se vivia no tempo de Salazar e o meu avô, quase analfabeto não tinha outra consciência senão o medo de se ver espoliado da propriedade, avançou com o projeto do referido poço, tapando o acesso ao túnel e exigindo silêncio absoluto de todos quantos ficaram guardiões do seu segredo.
Cinquenta anos depois, e por certo salvaguardados os interesses dos que descobrem nas suas terras este tipo de achados, seria crível que tal tipo de atentados à nossa cultura histórica não se repetissem. Mas de um empresário, que quer ver as oliveiras o mais rapidamente possível a dar fruto, sobra em ganância o que deveria prevalecer em sentido cívico. E nada conseguiram aproveitar os arqueólogos enviados ao local pelas autoridades incumbidas de prevenir tais casos...

Diálogos à esquerda

Porque não há Democracia sem contraditório - e embora os textos em causa estejam igualmente disponíveis nas caixas de comentário dos respetivos posts -, importa assegurar maior divulgação aos comentários emitidos pelo nosso leitor Jaime Santos a alguns dos posts aqui emitidos durante esta semana.
O primeiro refere-se ao texto «Regressando aos temas dos vilões e da primeira-ministra troca-tintas». Sobre os constrangimentos, que justificam as atuais políticas do governo apesar dos remoques retóricos do PCP e do BE estamos quase inteiramente de acordo. Só considero que ambos os partidos, que integram a maioria parlamentar sabem bem os limites do que podem propor e assim no-lo demonstra o artigo de Francisco Louçã no «Público» de ontem onde zurze precisamente a pretensão das direitas em que essas esquerdas, ditas mais radicais,  lhes fizessem o favor de abreviar a duração da legislatura. Sobre as eleições inglesas faço votos de que Jaime Santos esteja enganado e seja eu a ver confirmado o vaticínio otimista:
Sobre o meu primeiro comentário, eu compartilho exatamente da sua opinião. As condições objetivas (onde se incluem as relações de força, sendo que Portugal está por ora do lado fraco da corda) devem determinar as políticas aplicadas.
Portugal poderia crescer mais se dispusesse da possibilidade de praticar uma política mais expansionista, onde pelo menos a redução do défice fosse mais ligeira de ano para ano. Mais do que isso, isso permitiria não apenas devolver rendimentos mas aumentá-los àqueles Portugueses que certamente não viveram acima das suas possibilidades e dispor de uma verdadeira política de investimento público.
Só que infelizmente o País está, não há como dizê-lo de outra maneira, efetivamente refém das agências de rating e só pode deixar de o estar quando reduzir a dívida.
Ora, se eu defendo uma renegociação dessa dívida, não me parece que ela se possa fazer sem condições (leia-se austeridade). Daí que a melhor maneira de a conseguir é justamente dispor de fortes argumentos de que os credores têm boas razões para confiar na República.
PCP-PEV e BE não são capazes de fazer uma coisa simples que é admitir que as suas alternativas também têm custos e implicam riscos.
Quanto a Corbyn e May, a segunda diz que não quer mostrar a sua estratégia para o Brexit para não comprometer a posição britânica nas negociações, mas eu pessoalmente não acredito que disponha de facto de uma estratégia. Mas que tem conseguido marcar a agenda e Corbyn mais não tem feito do que ir atrás dela, é uma verdade.
E só agora Corbyn foi capaz de produzir um pequeno conjunto de propostas políticas dignas do maior Partido da Oposição. Para todos os efeitos, o manifesto do Labour ainda é o de 2015.
Corbyn é um ativista e não um líder político. Falta-lhe 'killer instinct' e experiência ministerial, que May dispõe a rodos (de facto, as suas posições enquanto secretária do Interior são de estarrecer). E depois, os tabloides irão fazer a Corbyn o que antes fizeram com Kinnock e Miliband... Prepare-se…”
No comentário ao texto intitulado “os nervos de aço que irritam as direitas” estamos perante maiores discordâncias: mantenho ser João Rodrigues um dos que escrevem sobre a atual realidade, que  leio com particular atenção, mesmo que ainda não dê por inteiramente mortos o euro ou a União Europeia. E também não classificaria de liberal a governação de António Costa, porque não reconheço neles os pressupostos ideológicos da doutrina: segue-lhes a receita nalgumas das políticas implementadas, por compreensíveis motivos táticos, mas adivinho no âmago do nosso primeiro-ministro a convicção … socialista! E que tenha os objetivos definidos por essa filiação ideológica como eixo fundamental da sua orientação futura. Passemos então ao texto de Jaime Santos:
“O João Rodrigues, mau grado o agit-prop e a falta de detalhe relativamente às alternativas, característica das Esquerdas, que se recusam sempre a assumir que essas alternativas têm custos e implicam riscos (e que já foram tentadas e falharam, vezes sem conta), tem pelo menos a virtude da coerência. Ele é um Marxista que considera que o País deve não apenas abandonar o Euro como a UE.
Ao mesmo tempo, julgo que compreende que o PCP e o BE nada têm a ganhar pela interrupção do apoio à presente solução governativa. Como muitos, espera que os desenvolvimentos externos obriguem o PS a dar uma guinada à Esquerda e a 'ver a luz'. Ou seja, tal como Passos Coelho, está à espera do diabo, com objetivos bem distintos, bem entendido.
O meu caro, por seu turno, insiste em tomar a nuvem por Juno. O insuspeito Ricardo Cabral tinha isto a escrever ontem no Público: http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/04/19/pec-2017-2021-ir-para-alem-da-troika-novamente/.
Pessoalmente, acho também que Centeno está a exagerar. Mas, na minha sincera opinião, o principal constrangimento do País não é o Euro, é e será a dívida pelo que é preciso reduzi-la e depressa. Agora, tomar o programa do PS como mais do que algo razoavelmente ortodoxo em termos europeus é deixar-se levar pelo 'wishful-thinking'.
Nas condições presentes, a governação do PS nem sequer é social-democrata, é liberal. E as Esquerdas estão reféns do executivo enquanto as coisas correrem bem. Agora, valia a pena que quem não está refém da ideologia lesse o artigo da tribuna do Le Monde assinado por vários Economistas galardoados com o Nobel, críticos da UEM na sua forma presente. Foi escrito contra o aproveitamento abusivo do pensamento de algumas destas pessoas por Marine Le Pen, mas as críticas que faz vão cair direitinhas no colinho das Esquerdas, João Rodrigues incluído: http://www.lemonde.fr/idees/article/2017/04/18/25-nobel-d-economie-denoncent-les-programmes-anti-europeens_5112711_3232.html.
Cuidado com o que se deseja…”
A concluir fica o comentário ao texto «O capitalismo a morder a própria cauda», em que estamos totalmente consonantes, incluindo nos aspetos acrescentados pelo nosso leitor:
“Um excelente resumo dos nossos males presentes (não posso discordar em tudo), chegando ao fim assinalando aquela que é porventura a única arma que resta aos Governos para pôr cobro a esta situação, ou seja, uma política fiscal mais justa. Claro, em Portugal, o Governo consegue arrecadar mais dinheiro recorrendo ao IVA do que ao IRS, sendo o primeiro bem mais regressivo que o segundo. Também falta implementar verdadeiramente um imposto sobre transações financeiras à escala europeia e cabe lembrar que o RU foi sempre o maior opositor de tal medida... Por isso, haverá seguramente vantagens do Brexit... “
Por certo que prosseguirão estes debates de ideias entre este blogue e Jaime Santos, ficando aqui o desafio para que surjam outras perspetivas alternativas dentro das esquerdas, - quiçá mesmo das direitas, se inteligentes e cordatas! - para que os Ventos Semeados se tornem mais enriquecedores, quer para quem os lê, quer para quem os escreve.

sábado, 22 de abril de 2017

Entre a transparência e a ganância

1. O que já se sabe dos trabalhos da Comissão Eventual para a Transparência no Exercício de Funções Públicas, reportados por Pedro Delgado Alves na edição de hoje do «Público» abre expetativas otimistas para que se tornem objeto de melhor escrutínio a atividade dos deputados e dos lobistas, que junto deles tentam obter benefícios para terceiros.
Uma Democracia só se fortalece com a atuação preventiva junto das situações, que potenciem a corrupção. Tirando designadamente argumentos a populistas do estilo de Paulo Morais, muito lesto a denunciar em tese múltiplos indícios e incapaz de provar o que quer que fosse.
Ao confiarem no escrutínio feito por entidades impolutas aos seus representantes nos diversos patamares das funções públicas, os portugueses estarão habilitados a mais maduras escolhas, livrando-se tanto quanto possível da sinistra influência dos tabloides.
2. Confesso que esperava mais da apreciação da DBRS sobre a economia portuguesa conhecida esta semana. Mas também compreendo que sendo a sua avaliação acima das demais agências de rating, e sendo previsível, que elas se tentem equiparar no veredito, seja mais fácil constatar essa revisão em alta da Moody’s, da Standard and Poor’s ou da Fitch do que da empresa canadiana.
Talvez Marcelo tenha razão quando prevê essa revisão para a avaliação subsequente à saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. É que já não faz qualquer sentido termos a dívida classificada como «lixo».
3. Dias atrás abordei a questão do presidente laranja de Paços de Ferreira se ter tentado intrometer na eleição da Associação do setor do calçado, procurando que a sua nova direção deixasse de ser conotada com a do empresário Fortunato Frederico, conhecido pela sua filiação á esquerda, para ser conquistada pelos que haviam tido em Cavaco Silva um dos seus mais inexplicáveis gurus.
Cumprido o ato eleitoral a vitória de Luis Onofre, que continua a linha estratégica da direção anterior, é a garantia de se prosseguir o excelente trabalho pelo qual o setor se tornou resiliente à mudança dos tempos e se tornou num dos mais dinâmicos de entre os dedicados preferencialmente para a exportação.
Mais uma vez os apaniguados de Passos Coelho ficaram impossibilitados de estragar o que tão positivamente estava a ser feito.
4. David Dinis e Rita Siza foram entrevistar o antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e deram-lhe honras de primeira página e outras três no interior. Lendo as declarações de um dos maiores instigadores ao impeachment de Dilma Roussef conclui-se nada ter ele de substancial a revelar. Apesar do que já se viu entretanto acontecer com o governo golpista de Temer, ele não manifesta arrependimento por ter colaborado num tão veemente corte com a normalidade constitucional.
É um mistério - ou talvez o não seja de facto - a importância, que continua a ser conferida a tão nociva personalidade.
5. O que se ficou a saber do atentado ao autocarro do Borussia Dortmund é eloquente quanto à falta de escrúpulos, que grassa em torno das especulações bolsistas: criar um esquema de enriquecimento à conta da queda da cotação de uma instituição contra a qual se organiza um atentado terrorista diz bem do tipo de comportamentos suscitados por esta fase crepuscular do capitalismo. Mas que, vendo bem as coisas, têm sido prática comum, embora melhor disfarçada pelos grandes especuladores, que enriqueceram à custa do empobrecimento de países, da destruição de empresas e da condenação à miséria de amplas camadas populacionais incapazes de associarem as suas desgraças aos jogos da fortuna e do azar de uns quantos crápulas.

Que São Miguel Relvas no-lo conserve muitos anos

Notícias várias dão Luís Montenegro como o escolhido de Miguel Relvas para assegurar a sucessão de Passos Coelho, ascensão de que ele próprio garantira em 2010. O licenciado que deixou de o ser continua apostado em ter à frente do partido quem melhor lhe possa acolitar os interesses de lobista, atividade em que tem feito não escrutinada fortuna.
Convenhamos que, para as esquerdas, a manutenção de Passos Coelho como líder da oposição tem sido um bálsamo. E convenhamos que o «irmão» da loja Mozart também constituirá uma boa alternativa para assegurar uma merecida e longa travessia do deserto por parte desta direita enclausurada no seu labirinto ideológico mais do que embotado. É que a sua credibilidade andará pelas ruas da amargura ao constituir-se na réplica de Passos sem a sua falsa gravitas.

Até a hierarquia católica já reconhece o óbvio!

O papa está quase a vir a Fátima fazer uma visita de médico e somam-se os testemunhos de altos responsáveis da Igreja Católica a dizer o óbvio, embora até recentemente calado em nome da ortodoxia da fé e do centro comercial em que o santuário se transformou: “Maria não vem do céu por aí abaixo», asseverou agora D. Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano.
Sem querer ofender ninguém nas suas convicções, sempre vou considerando que as “visões” dos pastorinhos só se explicam por viverem num ambiente rural marcado pelo misticismo e encontrarem nessa ilusão a oportunidade para ganharem o protagonismo próprio de quem possuía tão tenra idade.
Que uma igreja católica acossada pelo anticlericalismo dos republicanos visse na falácia a oportunidade para reverter a relação de forças virada do avesso pela revolução de 5 de outubro de 1910, é compreensível se nos ativermos ao que os seus responsáveis andariam estrategicamente a congeminar para utilizarem tão só tivessem oportunidade.
Jacinta, Francisco e Lúcia foram meros instrumentos de uma estratégia de que nem sequer terão compreendido os contornos. Muito oportunamente os dois primeiros sucumbiriam pouco depois à gripe espanhola e a sobrevivente também  seria sujeita à clausura monástica numa ordem donde não conseguiria descair-se nas contradições entre o que efetivamente vira e a lenda profusamente divulgada.
Mantendo a intenção da objetividade podemos questionar-nos o quanto o fascismo pôde prolongar-se até aos 48 anos de efetiva ditadura, graças à catarse das frustrações com a vida terrena através da promessa de redenções paradisíacas no Além.
Não fosse a Igreja Católica tão eficiente a amarrar os crentes aos seus dogmas e quantos se teriam dela libertado para engrossar mais cedo a contestação ao regime? Não foi por acaso que Fátima era um dos efes identificados como pilares de sustentação do regime salazarista-marcelista!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O capitalismo a morder a própria cauda

Desde que publicou «O Capital no século XXI», Thomas Piketty passou a ser considerado um dos mais brilhantes e influentes teóricos de economia da atualidade. A sua tese fundamental pode resumir-se assim: as desigualdades entre os ricos e os pobres continuam a agravar-se e comprometem o futuro do capitalismo ao ponto de conduzir à destruição das nossas sociedades.
Will Hutton, jornalista do «The Observer», constatou que, em todas as sessões da conferência do Institut Of New Economic Thinking em Toronto, a obra de Pikety foi mencionada para justificar os fundamentos dos intervenientes. Ele afiança já não deparar com tão unânime atenção desde que o guru do neoliberalismo da Escola de Chicago, Milton Friedman, conseguiu tornar-se numa vedeta mediática nos anos setenta.
Na época as maiores preocupações advinham da inflação galopante, enquanto atualmente estão na ordem do dia a relevância dos plutocratas e o seu impacto na economia e na sociedade.
Piketty defende a tese segundo a qual os níveis atuais de desigualdade põem em causa o futuro do capitalismo. Só de a ouvir os defensores da interdependência entre ambos ficam de cabelos em pé, porque acham que o capitalismo precisaria das desigualdades para estimular os riscos e o espírito de iniciativa.
Foi motivado por tal preconceito ideológico, que David Cameron e George Osborne, seu ministro da Economia, reduziram os encargos sobre os direitos de sucessão e a carga fiscal sobre os dividendos das empresas.
Estudando dois séculos de dados estatísticos, Piketty condena essas políticas, porque o capital é cego por natureza. Quando o seu rendimento ultrapassa o crescimento real dos salários, o stock de capitais acumula-se bem mais do que o conjunto da produção. Aumentando significativamente as desigualdades entre os que tudo têm e os que ficam com as sobras. No fundo uma situação muito próxima da já descrita por Karl Marx no século XIX e que justificaria a pertinência do seu previsto desiderato.
Tal processo exacerba-se com as heranças familiares e com o aumento dos “superpatrões” tipo António Mexia, pagos principescamente.
Atualmente as desigualdades de rendimentos na Europa e nos EUA já atingiram os níveis anteriores aos da Primeira Grande Guerra, quando a sorte de aceder a uma herança constituía fator determinante de sucesso económico e social.
Na época foi necessária uma guerra e uma Grande Depressão para travar a dinâmica das desigualdades e implementar impostos mais elevados sobre os maiores rendimentos, de forma a garantir a paz social. Hoje voltou a ocorrer um processo de multiplicação acelerada de capital cego em favor de alguns privilegiados, desta feita a uma escala global.
À exceção de um punhado de start ups de Silicon Valley não há quem possa competir com capitais acumulados em grandes fortunas há muito consolidadas. Os dois maiores detentores de riqueza em Inglaterra são o duque de Westminster e o conde de Cadogan, um e outro donos há séculos de Mayfair e de Chelsea, hipervalorizados pela especulação imobiliária, e beneficiando de possibilidades de evasão fiscal, que lhes permitem avantajar continuamente o património.
Se ainda estivéssemos em condições políticas de aplicar o modelo social-democrata do pós-guerra o imposto sobre o património tenderia a devolver algum equilíbrio ao desajustamento progressivo de rendimentos, mas basta lembrarmo-nos da histeria por que passou o país quando se tratou de aumentar a taxação de IMI sobre a totalidade do património dos mais ricos para concluir que é a própria classe média - que nada teria a perder com tal política - a engolir acriticamente os argumentos falaciosos das direitas, coartando a vontade do governo em aplicar uma medida mais do que justa.
Hoje em dia é-se bem mais tentado a ser senhorio do que arriscar investimentos. Os ricos não precisam de apoiar inovações audaciosas, nem seque mesmo investir em produção de mercadorias transacionáveis.
Contra o capitalismo ainda convergem outras contrariedades: porque os ricos estão especializados em esconderem as fortunas nos paraísos fiscais, são os demais contribuintes a arcarem com maior carga fiscal. Daí toda a campanha das direitas contra o Estado Social (educação, saúde, habitação), porque as classes médias estão já demasiado asfixiadas a pagá-lo. Resultado: a degradação dos serviços públicos e das condições de trabalho.
A História ensina-nos que as sociedades reagem a estes desequilíbrios através de revoluções e guerras. Para as evitar seria necessário aumentar significativamente a carga fiscal sobre os mais ricos, mormente através de uma taxa mundial sobre as riquezas rastreadas a nível global. Por agora consideradas utópicas, essa políticas de efetiva redução das desigualdades podem constituir a última estação antes da chegada a males bem maiores...


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os nervos de aço que irritam às direitas

João Rodrigues é um dos mais estimulantes pensadores da nossa realidade, que carece ir sendo analisada por lentes diversas das propostas pelos comentadores mais ou menos enfeudados aos axiomas da Europa dos burocratas.
No post ontem colocado no blogue Ladrões de Bicicletas ele recorre a uma citação eloquente de Amartya Sen - um dos prémios Nobel da Economia, que as direitas execram! - para pôr em causa a bondade do percurso de intransigente subordinação às «políticas europeias» pelo atual governo.
A frase de Sen também explica a apatia dos mais desfavorecidos pelo combate político, mesmo quando a sua qualidade de vida quase só supera o nível da mera sobrevivência: «As pessoas carenciadas tendem a acomodar-se às suas privações por causa da mera necessidade de sobrevivência e podem, como resultado, não ter a coragem de exigir qualquer mudança radical e ajustar mesmo os seus desejos e expectativas ao que, sem ambições, vêem como alcançável».
Essa «preferência adaptativa» foi a que fez sugerir a iminente queda do governo de Passos Coelho e de Paulo Portas aquando da grande manifestação de 15 de setembro de 2012 - exuberante, quase indomável na decisão de mandar lixar a troika! - e, logo na ressaca, resultar na tristeza enlutada dos que, em muito menor número, pretenderam recriar tal clima em 2 de março do ano seguinte.
Seria excelente se os mais desfavorecidos reagissem de acordo com o que dizem os manuais de agitação, bastando-lhes a pobreza e as humilhações para engrossarem o coro dos indignados, mas, infelizmente, quase sempre acomodam-se ao seu «destino». Até porque não faltam por aí padres, bispos, cardeais, pastores ou elders a sugerirem paraísos possíveis no «outro« mundo.
É quando despertam, que as esquerdas não podem deixar de orientar esse acordar para os grandes momentos de mudança qualitativa na realidade política e social.
João Rodrigues utiliza esta constatação para a adaptar às presentes circunstâncias: sentimo-nos tão satisfeitos com os resultados da governação, que queremos esquecer quanto a União Europeia - no seu atual (des)equilíbrio de forças - continua apostada em destruir o que resta do legado social-democrata dos Trinta Gloriosos Anos. Queremos seguir-lhe as orientações, mas utilizamos a mesma «preferência adaptativa» para pormos a cabeça debaixo da areia, quando, na realidade, estamos neste dilema: ou o modelo governativo português ganha réplicas noutros países da União forçando-lhe a revisão dos Tratados, renegociando as dívidas acumuladas e alterando-lhe o paradigma de facilitar o benefício contínuo dos países do Norte à custa dos países do Sul, ou este último acabará por nos dobrar à sua vontade, a exemplo do que continua a suceder com a Grécia.
Tal como João Rodrigues considero que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista têm revelado nervos de aço para ponderarem nos benefícios e nos prejuízos de apoiarem ou não a presente governação. Mesmo nunca deixando de apontar para o carácter assassino das imposições da Comissão Europeia, do Eurogrupo e do Banco Central Europeu ao tal legado social-democrata que, além de irrepetível, só poderá ser lido como o ciclo anterior de um passo por diante, que teve dois largos passos atrás com o thatcherismo. Agora importa dar dois passos para diante, o que significará algo bem mais sustentável na correção das desigualdades e das injustiças acumuladas nos últimos trinta anos.
Daria muito jeito às direitas que esses nervos de aço estoirassem e esta solução governativa fracassasse. Veja-se a hipocrisia do texto ontem assinado no «Público» por Manuel Carvalho exigindo ao BE e ao PCP que, de acordo com os seus programas políticos, deem cabo da atual maioria parlamentar.
Estamos, porém, numa altura em que as esquerdas nacionais estão a ter uma inteligência estratégica, que nunca se verificara desde a Revolução de Abril. O Partido Socialista está a levar por diante o seu programa eleitoral demonstrando como, ao contrário do que os portugueses se tinham habituado, «palavra dada é palavra honrada». E as outras esquerdas que o apoiam, não deixam de exercer o necessário métier de grilo falante, lembrando como continuamos a palmilhar terreno muito instável onde qualquer erro, qualquer percalço, pode deitar tudo a perder.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressando aos temas dos vilões e da primeira-ministra troca-tintas

O debate de ideias com o Jaime Santos, leitor assíduo do que aqui se opina, continua a ser estimulante pelo que de divergente pode subsistir entre pensamentos relativamente próximos nos objetivos, mas divergentes na forma de os alcançar. Os dois últimos posts mereceram respostas do nosso interlocutor, que realçam essas diferenças.
1. Comecemos pelo que tinha Vítor Gaspar como ilustração de um grupo de personagens apostados em nos fazer a vida negra com teorizações em torno das virtudes dum controlo férreo dos orçamentos por parte de instituições supranacionais, que evitariam as tentações despesistas dos povos exprimidas através de eleições. Escreve Jaime Santos a tal respeito:
“Os vilões da Marvel são caricaturas, estes, meu caro, mau grado a postura de quase boneco de Vítor Gaspar, são de carne e osso. A sua força resulta não de uma maldade intrínseca ou da posse de armas temíveis, mas das ideias, algumas das quais, note-se, contaminaram mesmo o pensamento social-democrata. Mas valia a pena prestar atenção a Reinhart e Rogoff, por exemplo. Afinal, quais as soluções apresentadas pela Esquerda para sairmos da crise? Crescimento da dívida. Se assim for, não nos queixemos depois de 'perda de soberania'. É que, como dizia a Doutora Ferreira Leite, quem paga manda. O primeiro propósito da Esquerda seria propor modelos que, em vez de prometerem tudo a todos, tornassem as economias mais resilientes e menos dependentes do 'tenebroso' capital estrangeiro. Divirto-me sempre com a hipocrisia de PCP e BE, cuja eterna solução para livrar Portugal dos ditames de Bruxelas passa por um keynesianismo 'reloaded', onde acabamos sempre de mão estendida. E aí, convenhamos, Thatcher tinha razão. O Socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros…”
Reconhecendo que muitas das ideias austeritárias contaminaram algumas hostes sociais-democratas em que costuma inserir-se, Jaime Santos não propõe nenhuma outra alternativa, limitando-se a questionar as soluções do Bloco ou do PCP quanto ao aumento da despesa, sem terem em conta a inevitável condenação a virem-se, mais cedo ou mais tarde, novamente garroteados pelos credores.
Pessoalmente defendo uma solução, que provavelmente, o Jaime Santos compartilha: consoante as circunstâncias, assim se justificam as políticas. No momento atual, com o país condicionado pela relação de forças ainda favorável ao verdadeiro dono do Eurogrupo (Schauble) e com as mais influentes agências de rating  a classificarem a dívida portuguesa como lixo, Mário Centeno tem conseguido resultados notáveis, muito acima do que seriam expectáveis pela maioria dos que analisam a realidade político-financeira do país.
O que não significa que o governo abdique de criar as condições necessárias e suficientes para que a relação de forças no Eurogrupo se altere drasticamente, mormente com a saída de cena de Dijsselbloem  e de Schäuble. Daí que, procurando enfraquecer o campo inimigo, António Costa tenha feito tanta força para que o holandês venha a ser demitido e proposto um adiamento de qualquer decisão sobre a dívida sem antes ocorrerem as eleições alemãs, onde Martin Schultz possa encabeçar uma maioria no Bundestag semelhante à verificada em Portugal.
Nessa altura podem tornar-se exequíveis dois acontecimentos essenciais para o cumprimento da Agenda para a Década: a renegociação da dívida, que alivie os encargos com juros e permitam alavancar os investimentos públicos e a aposta nestes com estudos rigorosos baseados na garantia de cada um deles significar o devido retorno financeiro num prazo acomodável com os constrangimentos então identificados.
Esta parece ser a estratégia de António Costa e de Mário Centeno, muito diferente dos vilões da Marvel, perfeitamente conciliável com a análise, que reivindico, porque Marx era bem explícito na necessidade de se analisar, momento a momento, o estado das contradições dialéticas entre as forças sociais, defendendo as táticas potencialmente mais ajustadas para novos equilíbrios políticos, sociais e económicos mais próximos do objetivo fundamental enunciado no seu famoso Manifesto.
2. No segundo texto, Jaime Santos manifesta uma leitura da realidade inglesa conforme com a maioria dos comentadores dos nosso espaço mediático, encomendando desde já o funeral político a Jeremy Corbyn:
“Pois, mas May aproveita um momento em que os trabalhistas estão com as calças na mão (Corbyn vai ter que correr muito para apresentar um estratégia consistente, porque até agora, zero), reforça a mão em Bruxelas (até porque não fica dependente da ala mais radical do seu partido, se reforçar a maioria) e não tem que prestar contas até 2022 (como teria em 2020) pelas mais que prováveis dificuldades que surgirão durante as negociações. Quais sabotadores, qual quê (título da capa do Daily Mail), ela conseguiu do Parlamento tudo o que queria! E o meu caro continua a apostar em Corbyn, cujo mal não é tanto ser socialista, é ser completamente incompetente. O Labour vai levar uma abada pior do que no tempo de Michael Foot. Espere e verá... O seu problema é que pensa que a Ideologia basta para convencer um eleitorado. Pois, olhe, desengane-se…”
Nesta matéria estamos, efetivamente, em pólos opostos. Sim, eu acredito que os eleitores têm de ser convencidos com ideias concretas, que correspondam às suas preocupações e lhes deem respostas convincentes. Algo que se aponta como falha de Corbyn, mas também constatável em Theresa May cuja estratégia para levar o Brexit por diante continua por se entender. Sobretudo, porque ter-lhe-ão saído algo frustradas as expetativas de receber de Trump a garantia de lhe aceitar a subserviência neocolonial a troco de um apoio, que vá para além da sua volúvel retórica.
Quero acreditar que é verdadeira a efetiva preparação reclamada pelos trabalhistas para este combate eleitoral, mais do que anunciado apesar da promessa de May em a ele não recorrer antecipadamente. Ora, daqui até às eleições faltam oito semanas que tudo podem alterar. Veja-se como esse tempo foi mais do que o suficiente para que, em França, as certezas relativamente a Le Pen, ou mesmo a Macron, evoluíssem para o cenário de incerteza do próximo domingo.
E há um fator adicional, que não aprofundei no post, mas terá relevância significativa: graças à sua oposição determinada ao Brexit, os liberais-democratas irão desalojar uns quantos conservadores de alguns bastiões nas grandes cidades, aumentando significativamente a representação em Westminster.
Ora, tendo em conta a forma como foram penalizados em 2015 pela sua associação aos conservadores em 2010, é provável que fujam de nova coligação como gato de água fria. Daí a possibilidade de uma receita semelhante à portuguesa com o beneplácito dos nacionalistas escoceses e dos irlandeses católicos, que lance os conservadores para a oposição. Mesmo que à custa da organização de um novo referendo sobre o Brexit.
Será sonhar alto? Porventura, sim! Mas, como diria o outro, I’m not the only one...