segunda-feira, 10 de abril de 2017

De papões a patéticos estarolas

Os resultados nas eleições municipais na Finlândia confirmaram a quebra dos eurocéticos de extrema-direita. Os Verdadeiros Finlandeses, conhecidos pela xenofobia para com os refugiados e para com os povos do sul da Europa, perderam metade do anterior eleitorado, quedando-se pelos 8%, enquanto conservadores e sociais-democratas se equipararam nos 19/20%.
A grande subida dos Verdes confirma o que as eleições holandesas tinham anunciado, com o ressurgimentos dos que manifestam grandes preocupações com a sustentabilidade do planeta numa altura em que a Casa Branca contraria essa tendência.
Tenho-o dito e redito: ao contrário do que muitos comentadores têm defendido nos últimos meses, o Brexit e a eleição de Trump constituíram o pico de uma forma de fazer política condenada a mergulhar na sua descredibilização. Os entusiasmos nacionalistas vão sendo refreados pelo desconcerto dos que abocanharam o poder em Londres ou em Washington e parecem baratas-tontas sem saberem propriamente o que com ele fazer.
Tal como o pai, Marine Le Pen assustará nas eleições das próximas semanas, mas conhecerá uma derrota humilhante nas legislativas do verão. A sua émula alemã dificilmente conseguirá alcançar o patamar necessário para ter representantes no Bundestag. E, quer na Hungria, quer na Polónia, quer na Turquia, os ditadores de serviço tenderão a ser ruidosamente contestados nas ruas, perdendo aquele fulgor vitorioso, que pareceria irreversível, e afinal vai conhecendo os seus reveses.
Saibam os socialistas encontrar no exemplo português o modelo bem sucedido, que possa atirar par ao lixo os de cariz austeritários, e a Europa dos burocratas ainda poderá ser corrigida para a dos seus cidadãos...

sábado, 8 de abril de 2017

Muita fumaça, pouco discernimento

Não gostei de ver Augusto Santos Silva mostrar compreensão pelo ataque ilegal dos Estados Unidos à Síria, mesmo enquadrando o seu comentário na lógica dos compromissos de Portugal enquanto membro ativo da Nato.
Por um lado já sabemos bem demais o que significam as «provas», em que os regimes ocidentais costumam querer acreditar, quando se trata de derrubar algum dirigente laico do Médio Oriente a quem qualificam de pária. Sucedeu com Saddam Hussein, está a repetir-se com Assad.
Por outro qualquer leitor de policiais, e muito particularmente de Agatha Christie, sabe bem que a mão criminosa é a que tem mais a lucrar com o resultado desse ilícito. Ora, numa altura em que estão a ser militarmente derrotados, são os «rebeldes», muitos dos quais jihadistas, os que beneficiam com o suposto ataque químico causador de dezenas de vítimas. Tanto mais que sabem montado o esquema aprimorado pela CIA de pôr governos e meios de comunicação ocidentais a imputar as culpas ao habitual «mau da fita».
Havendo nas suas hostes gente do mesmo calibre dos que abriram valas comuns para enterrar milhares de reféns dos seus atos terroristas em Mossul e outros locais da região, não custa a crer que tenham providenciado um paiol com produtos químicos intencionalmente localizados em sítio oportuno para causarem uma tragédia como a desta semana.
Ademais os próprios responsáveis pelo Pentágono tiveram bem a noção disso mesmo ao visarem uma base, que no dia seguinte já estava plenamente operacional, e com pré-aviso para quem ali estava se pôr a recato. Em tempos idos, quanto se tratava de visar Khadafi ou Mislosevic, o Pentágono não tinha pejo em bombardear os palácios ou residências onde os presumiam estar. O que não esteve agora em questão...
Resultado de tudo isto: a figura patética de Hollande e de outros estarolas europeus a entusiasmarem-se com uma iniciativa com muitas zonas cinzentas. Porque Trump aproveita para aparentar um falso distanciamento para com Putin e gastar quase noventa milhões de dólares em armamento em vias de se tornar obsoleto, arranjando fundamento para aumentar os lucros da respetiva indústria de cujos interesses é fiel defensor na Casa Branca, e imediatamente convidada a substitui-lo.
Não me admiraria nada que, em resposta, o envolvimento russo na Síria se acelere nos próximos dias e os tais «rebeldes» venham a pagar as favas da sua tentativa de comprometimento do regime num crime da sua exclusiva responsabilidade.
Aspeto colateral não negligenciável também o da futura reação chinesa ao desaforo de tal ataque - acompanhado de ameaça direta ao vizinho norte-coreano -, ter acontecido no decorrer da viagem de Xi Jinping aos Estados Unidos. O seu silêncio foi assaz ruidoso e mostrou como a Administração Trump não têm em conta a sensibilidade sui generis do regime de Pequim. 

Um exemplo a precisar de ampla generalização

Não é preciso ser particularmente sagaz para compreender que não passará muito tempo para que se multipliquem os exemplos de Helen Beristain. Vivendo no Estado de Indiana foi aí uma das mais entusiásticas apoiantes de Donald Trump em quem via uma espécie de salvador das classes remediadas da sua região. Mesmo sem que a realidade o justificasse, aceitou o discurso em prol de uma maior segurança à custa de novos muros impeditivos das vagas de emigrantes a sul do Rio Grande.
É certo que o marido, Roberto, viera a salto do México há quase vinte anos, mas que importava se o futuro presidente só prometia deportar para o México os «bad guys»?
Pelo contrário Roberto era um exemplo na sua comunidade: cuidando do restaurante da família e tido como um homem simpático sem mácula no cadastro. Nem sequer uma multa de estacionamento se lhe podia apontar.
Quando foi apanhado na rede dos polícias, incentivados a caçarem clandestinos, Roberto terá julgado tratar-se de um equívoco. Helen apareceu na CNN  a defender a política de segurança do presidente, não querendo acreditar que ele ousasse separar as famílias. Ora, além dela, Roberto era o responsável pela educação dos três filhos adolescentes.
Hoje sente-se completamente traída, arrependida com a sua militância: apesar dos esforços dos advogados, Roberto foi colocado do outro lado da fronteira, na perigosa Ciudad Juarez, proibido de voltar.
De alguma maneira, Helen está a provar do veneno, que quis aplicar aos outros, àqueles que ela achava indignos de pertencerem à sua comunidade. De uma forma perversa faz-se justiça. Mas quantos eleitores terão de sentir a mesma amargura para compreenderem o logro em que quiseram cair?
Numa altura em que os Republicanos estão a alterar leis com décadas de existência para criarem a sua própria ditadura este é apenas um exemplo de como terão de ser os cidadãos a indignarem-se e a cuidarem da reversão deste estado das coisas.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Entrando na cabeça de Passos Coelho

Foi o veredito de quase todos os comentadores e amigos a quem ouvi: a entrevista da SIC a Passos Coelho foi confrangedora pela total falta de novidades, que comportou. Se alguém quis acentuar algum aspeto menos desinteressante lá conseguiu deslindar a crítica a Marcelo, por não ter defendido Teodora Cardoso, ou o não pretender demitir-se mesmo derrotado nas autárquicas. E é aqui que vale a pena determo-nos: porque será que o ainda líder da oposição está tão agarrado ao lugar? Que semelhança existe entre ele e o ainda presidente do Eurogrupo, o holandês Dijsselbloem ?
A razão é só uma: longe vai o tempo em que um político apeado do seu cargo encontrava facilmente colocação num banco ou num qualquer outro grupo privado. Usufruía aí o elevado salário, que a passagem pela política apenas se limitara a alavancar.
As coisas começaram a mudar depois da crise financeira de 2008: não só as oportunidades passaram a escassear como os contratadores tornaram-se mais criteriosos sobre quem contratam. Compreende-se, por isso, que Paulo Portas tenha tido uma enorme facilidade em conseguir colocações depois de sair do governo, porque desde a sua revogada irrevogabilidade, o único intuito foi o de viajar muito, conhecer muitas pessoas em nome do que apodou de «diplomacia económica», imitando assim Miguel Relvas na constituição de uma boa agenda de contactos e números de telefone. Algo que os patrões ingleses de Maria Luís Albuquerque também contavam ter e, a esta hora, devem-se considerar mais do que ludibriados.
Conhecendo Passos Coelho, no seu estilo fechado sobre si mesmo, não se lhe adivinha a capacidade de ter feito grandes amigos ao longo da vida. Os que tinha (Ângelo Correia, o citado Relvas) já deram às de vila-diogo. Quem agora o poderia contratar e para fazer o quê? Sobretudo tendo em conta que, academicamente, foi aluno tosco e, enquanto gestor de pequenas empresas, não revelou competências relevantes?
Não conhecendo tão bem o ministro holandês pode-se imaginá-lo com características semelhantes. E com as mesmas dificuldades em encontrar emprego compatível com as suas (escassas) competências e capacidades tão-só saia do governo.
Tentando imaginar o que vai na cabeça de Passos Coelho talvez não arrisquemos muito conjeturar que pensará mais ou menos isto: “estou com 52 anos, ainda me faltam treze ou catorze para a reforma e não sei como ter algum emprego até lá. Se nas eleições de 2019  ainda for líder do PSD tenho garantidos mais quatro anos como deputado, mesmo que na última fila da bancada.”
Nesta altura não lhe importará muito que a derrota do PSD nas próximas legislativas seja maior ou menor, conquanto ele e o seu grupo cada vez mais estreito de fiéis estiquem o mais possível os seus dramas profissionais. Conseguirem-no até 2024 já lhes dá um intervalo de tempo para sacudirem a prometida asfixia e prepararem soluções, que agora não vislumbram.
Convenhamos que as esquerdas só agradecem esta incapacidades das direitas em produzirem líderes mais credíveis e, sobretudo, com ideias, que estes manifestamente não têm.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Quando, mesmo havendo cores, a realidade era cinzenta

É a historiadora Irene Pimentel quem diz inevitável a memória do Estado Novo a preto-e-branco, mesmo sabendo as cores então existentes pelo facto de haver sol ou praia. Mas quem viveu o suficiente para guardar recordações desse passado será difícil esquecer o quão nos pareceu limpo o dia da revolução dos cravos, clara a manhã do dia seguinte.
O tempo da outra senhora era o da ameaça de ir para a guerra colonial, passar pelos calabouços da Pide ou sujeitar-se às cargas da polícia de choque. Era o ter atenção a quem estava à volta, porque as palavras proibidas iriam ganhar espaço nas fichas meticulosas dos que as registavam para aproveitamento futuro. Era a precaução de esconder as capas dos livros comprados às escondidas ou trazidos clandestinamente de outras paragens. Era o desenvolvimento da capacidade de discernir o pouco de verdade,  que se escondia por trás das mentiras desfiadas nos jornais, na rádio, na televisão.
Tudo isso tornava cinzenta a realidade, que se abstinha da beleza das cores. Amar era difícil, porque, perguntava a poesia vertida em canção, como amar perdidamente com tanto amigo na prisão.
Olhando para as fotografias da época os cenhos estão carregados, porque as inquietações eram demasiadas para lhes facultar alguma descontração. E os que a pátria madrasta promovia a heróis tinham pés de barro, que os não sustinham na verticalidade da nossa admiração. Essa ia para os outros, os que iludiam o medo e ousavam dizer não, mesmo que à custa de agressões sem fim.
Não admira que, quarenta e três anos depois, os meses de setenta e quatro e setenta e cinco tenham sido, para a maioria dos que os viveram, os mais memoráveis das suas existências. Porque, de súbito,  tudo pareceu tornar-se possível. Até a consciência de o nunca ter deixado de ser pensado, de ser dito...

Em solução ganhadora não se mexe

Sou dos que há muito desejavam uma solução governamental como a que António Costa gizou na sequência das últimas legislativas. Defendo que as esquerdas devem ser plurais nas divergências, mas solidárias no que as possa unir. Ora, tudo o que as direitas representam são o exato contrário do que qualquer socialista, comunista, bloquista ou verde apoiam.
Só posso, pois, ter-me sentido particularmente agradado com o momento da entrevista à Renascença em que António Costa assume as vantagens de manter esta sintonia das esquerdas na próxima legislatura, mesmo que, por hipótese, o Partido Socialista chegasse à maioria absoluta.
Nem poderia ser de outra maneira: o retrocesso a que sucessivos governos sujeitaram quem trabalha foi tal, que demorará anos a reequilibrar a balança relativamente ao capital. E contra a reação deste último só as esquerdas unidas poderão prevalecer...

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Um logro que é-o cada vez menos

É bem sabido que, se Bashar al Assad não é nenhum menino de coro, muito menos o são os fanáticos que o combatem há vários anos em nome de uma suposta «democracia», em que só os tolos ingénuos das manifestações organizadas pela CIA acreditaram, e de que seriam as primeiras vítimas, se o derrube do regime tivesse dado espaço a mais um governo jihadista.
Mas a metodologia ensinada pelos especialistas de Langley está bem aprendida e, de vez em quando, lá vem mais uma campanha sobre supostos bombardeamentos com armas químicas.
Na iminência da sua derrota militar os apaniguados da Al Qaeda, do Daesh e de outras coisas igualmente repulsivas, adivinham o sucesso de se vitimizarem com tais acusações ao adversário. Por isso mesmo faz sentido a suspeita russa em como esses químicos estavam armazenados em edifícios da zona rebelde prontos a serem utilizados tão só surgisse uma oportunidade como esta.
Já é tempo de deixarmos de nos iludir com esses «aliados», que a NATO tanto tem prezado.  Tivessem eles sucesso e lá voltaríamos a uma repetição do ocorrido no Afeganistão, onde o Ocidente favoreceu a vitória dos talibãs e, depois, teve de investir milhões para de Cabul os desalojar…
O logro que foram as sucessivas «primaveras árabes», terá  sido a primeira parte de um episódio que a CIA ambicionou contagiar até Moscovo. Falhando rotundamente...

O escândalo que o PSD anda a querer esconder atrás de uma cortina de fumo

Bem pode o PSD fazer um banzé de todo o tamanho por causa do Novo Banco ou da Comissão do Orçamento, que não consegue escamotear o maior escândalo dos dias mais recentes: o arquivo da investigação do Ministério Público às atividades do BPN, apesar de serem mais do que óbvias as suspeitas que incidiam sobre os seus principais responsáveis, todos provenientes do cavaquismo. 
Uma vez mais os par(a)lamentares do PSD adivinham os danos que a concentração das atenções nos seus seniores significaria e tratam de lançar a mais densa cortina de fumo de que são capazes. Utilizaram assim em seu proveito a inexcedível capacidade de Leitão Amaro em bufar nos corredores de São Bento.
Ironicamente Carlos Matos Gomes caracterizaria assim o sucedido: Um grupo de pobres ex-políticos entra em palco com uma cartola e um balão vazio. Enchem-no até estoirar, deixando pelo chão e sobre os espectadores farrapos e destroços. Cai a cortina dos mistérios e os ex-pobres políticos surgem à boca de cena gordos como nababos, de cartola e smoking, a fumar charutos, rodeados de belas mulheres. 
O público, estupefacto, vê o compère do circo cumprimentá-los e dar-lhes os parabéns pelo êxito do espectáculo!”
Outra forma de ver as coisas é esta: se o Ministério Público tivesse investido neste caso 1/10 do que já gastou com as suspeitas contra José Sócrates teria por certo encontrado matéria mais do que suficiente para incriminar a trupe de Dias Loureiro. Os sinais exteriores de riqueza de tais suspeitos são tão conhecidos, que qualquer procurador inexperiente, mas com vontade suficiente para deslindar a verdade, a ela chegaria facilmente.
 Mas já estamos mais do que elucidados sobre o tipo de prioridades seguido por Joana Marques Vidal e quem dela hierarquicamente depende. Culpados de corrupção e crimes afins só os políticos oriundos dos partidos de esquerda. Quanto aos das direitas, estamos conversados: após ficarem em hibernação no fundo da pilha dos casos a investigar, arquivam-se por “falta de provas” … 

Abaixo dois dos três éfes

Passados dois ou três dias sobre os incidentes num jogo de futebol entre o Rio Tinto e o Canelas, as televisões continuam a encher horas de programação com a repetição até à náusea das imagens em causa e à multiplicação dos comentadores a dizerem sempre o mesmo.
O episódio demonstra que, dos vários éfes a alienarem os portugueses dos seus verdadeiros problemas, o futebol é o mais nocivo, porque mobiliza o que de pior tem o inconsciente coletivo sob a forma de comportamentos bárbaros para com os «outros» destinados a serem ofendidos, agredidos, quiçá exterminados.
Não é por acaso que as claques dos principais clubes estão infiltradas por biltres da extrema-direita, que vão exercitando nos confrontos com os adversários e com os polícias, os atos a praticarem noutras condições políticas mais propícias aos seus ignóbeis valores. Essas organizações de fomento da delinquência são o ninho onde a serpente fascista vai sendo chocada para eclodir em momento mais propício para quem as desenvolve.
Numa sociedade de tolerância as paixões futebolísticas deverão ser denunciadas como estéreis, injustificáveis, porque faz algum sentido andar a discutir os méritos e deméritos de vinte e dois tipos em calções a correrem atrás de uma bola num qualquer estádio? Justifica-se que liguemos o televisor e o zapping nos direcione invariavelmente para quem perde tempo a falar nesse tema? Não há nada de mais importante a discutir?
Em tempos muito remotos acreditei que existia Deus, mas curei-me depressa passando a adolescência e a juventude a avançar aceleradamente para o meu impenitente ateísmo. Com o futebol aconteceu algo de semelhante: andei anos a entusiasmar-me com as suas vicissitudes até me começar a interrogar se fazia algum sentido dizer-me do clube A ou do clube B, ou se, na minha postura internacionalista, não estaria a alimentar remoques xenófobos ao alinhar na manipulação com bandeiras, hinos e equipamentos “nacionais” nos jogos da seleção?
Salvaguardando o fado como único éfe com sentido, execro cada vez mais tudo quanto tem a ver com Fátima ou futebol. Não há paciência para assistir a tão indigente maneira de alguns se sentirem pertença a algo maior do ponto de vista coletivo. Porque só significa que, a seu modo, reconhecem a mediocridade da sua personalidade, incapaz de se revelar única e inteligente... 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Um indicador que envergonha o país

Durante um par de anos estive na Comissão de Trabalhadores de uma das grandes empresas nacionais e pertenço há vários anos à direção do meu Sindicato. Se por um lado posso ser suspeito pelo que irei aqui escrever, por outro lado essa condição de membro ativo em organizações representativas dos trabalhadores dão-me particular conhecimento da importância que possa existir na sua participação na vida das empresas, como ocorre nos países nórdicos.
O estudo agora divulgado, que coloca Portugal na cauda da Europa quanto ao reconhecimento desse diálogo permanente entre o patronato e os trabalhadores constitui motivo de vergonha, sinónimo do nosso subdesenvolvimento social. Sobretudo tendo em conta como a situação era a oposta nos finais dos anos 70, inícios dos anos 80. E explica, igualmente, porque se atingiram tais níveis de precariedade e a negação quase total de direitos fundamentais dos que vendem a sua força de trabalho.
A participação dos trabalhadores na vida das empresas não tem apenas a ver com a discussão dos salários e regalias, mas também com a Higiene e a Segurança dos ambientes laborais ou a formação contínua mais ajustada para produzir efeitos positivos na rentabilidade da empresa. E  caso contássemos com empresários inteligentes, poderia significar importante fator de motivação e de inovação, com resultados significativos na produtividade e competitividade das empresas. Muitas vezes as melhores ideias para a otimização dos recursos investidos nos processos produtivos são sugeridas por quem com eles lida no dia-a-dia.
Pagamos, pois, o preço da guerra intensa que os patrões têm desenvolvido contra os sindicatos e outras estruturas representativas de quem trabalha e de que se constituíram procuradores quase todos os governos nos últimos quarenta anos. Não só como vingança dos sustos que sentiram em 1974 e 1975, quando foram saneados e viram as suas empresas nacionalizadas, mas também por ser nesse clima de hostilização e opressão de quem trabalha que entendem aplicar o método mais eficiente para manter as confederações sindicais no estado lamentável em que elas se converteram, ora servindo de mera ferramenta a um partido político, ora vivendo das lentilhas propiciadas pela função de sempre comprometerem os objetivos das lutas de quem trabalha. Tivessem sido desafiadas para uma permanente discussão em torno da contratação coletiva e da legislação laboral, seria possível à CGTP e à UGT cristalizarem-se na indigência de estratégias, que têm revelado há tantos anos?
Nos próximos anos precisamos que os patrões aprendam alguma coisa com os seus parceiros europeus quanto à necessidade de tornar democráticos os ambientes laborais. E que as organizações sindicais e as comissões de trabalhadores tenham por objetivo a defesa dos postos de trabalho e a maximização das regalias e remunerações, que os não ponham em causa.
Quanto às confederações deveriam estar particularmente ativas no estudo das soluções inerentes a uma redução previsível do volume dos empregos numa sociedade em que os robôs e os algoritmos vão ganhando uma importância crescente na produção das mercadorias e  serviços transacionáveis...

Populismo (ainda) tem poucas hipóteses em Portugal

Paulo Pena foi entrevistar Susana Salgado, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e co-coordenadora deo estudo «Populist Political Communication in Europe». O resultado veio ontem inserido na edição em papel do «Público».
Para a entrevistada o populismo sempre existiu na Europa desde o século XIX, quer na forma de movimentos, quer de partidos políticos. O que explica o sucesso recente é a maior facilidade de difusão das suas mensagens simples através das redes sociais, muito embora os meios de comunicação social tradicionais não sejam isentos de crítica. Não podemos esquecer que Donald Trump começou a posicionar-se para a Casa Branca através do seu reality show na NBC. Ou que Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Belém graças às suas colaborações semanais na TVI, primeiro, e na SIC depois.
A facilidade com que as forças populistas europeias viram crescer o apoio eleitoral nos últimos anos deve-se a quatro fatores principais: à crise do euro, à crise dos refugiados, aos escândalos de corrupção e às ligações excessivas entre o poder político e os interesses financeiros.
De repente passámos a ter uns manipuladores a dirigirem-se a quem mais tem sido esquecido pela crise geral do capitalismo decorrente da falência do Lehman Brothers e dos efeitos de deslocalização de muitos empregos para outras latitudes. O discurso tem sido sempre o mesmo: existimos “nós”, os que temos legitimidade em cá estar e sobram os “outros”, os que para cá querem vir para colherem os apoios sociais, demasiado escassos para quem deles está a precisar.
É um discurso emotivo, que apela à pertença legítima a um “espaço nacional”, e rejeita quem nele não nasceu. Indo mais além na exclusão, tendem-se a diabolizar os que, mesmo aqui tendo nascido, não têm os mesmos valores (entenda-se como os inerentes a uma definição estrita do catolicismo), nem a alva cor.
Esses populistas revelam-se muito hábeis a perscrutar o que esse universo eleitoral pretende ouvir, não enjeitando o recurso às mais descaradas mentiras para lhes cativar o apoio.
Não admira que os mineiros do carvão da Pensilvânia rejeitem ver quão injustificada será a reabertura das galerias do subsolo, tornadas obsoletas não só ambientalmente, mas sobretudo por razões económicas. Se há quem lhes diga que elas voltarão a proporcionar-lhes o perdido emprego, não se furtam a servir de figurantes a uma grotesca cerimónia na Casa Branca.
O mesmo com os agricultores franceses - em grande parte apoiantes de Marine Le Pen - que gostariam de receber os lautos subsídios de Bruxelas, mas que os viram cortados, porque já não conseguem ser competitivos com os produtos vindos de outras paragens. Querem acreditar que, fechando-se as fronteiras, conseguiriam superar a presente miséria obrigando os compatriotas a pagar o leite, a carne, os frutos ou os produtos hortícolas pelo valor com que pudessem regressar aos lucros.
Felizmente que, entre nós os populistas esforçam-se por ser ouvidos, mas não conseguem grande sucesso.  No entanto só nas últimas presidenciais poderíamos englobar nessas características Paulo Morais, Tino de Rans ou Henrique Neto. Sem esquecer uns quantos anónimos, que ainda menos votos tiveram do que estes três. Mas, segundo  Susana Salgado os partidos representados na Assembleia da República têm conseguido manter-se em comunicação com os eleitores para que eles não se sintam tentados a experimentar rumos mais duvidosos. Esperemos que assim continue a acontecer... 

domingo, 2 de abril de 2017

Até já chateia tanta cabazada!

1. Escrever sobre política portuguesa está a tornar-se uma sensaboria.  Lembra aqueles jogos de futebol em que são sempre os mesmos a ganhar e cada vez por maiores cabazadas. Ver por um lado António Costa cheio de confiança a assumir o negócio do Novo Banco e, em contraponto, Assunção Cristas a acusá-lo de ter feito tudo mal ou Passos Coelho a pedir mais explicações sobre o assunto, só pode suscitar constrangimento pela figura patética (ou pateta!) dos líderes da oposição. Como se não soubéssemos a pêpista capaz de assinar de cruz um negócio bancário sem o conhecer e recebendo dele notícia por email, ou o pêpêdista a empurrar tudo quanto lhe cheirasse a banca para debaixo do tapete da instituição confiada a Carlos Costa. Como podem ainda acreditar na suposta credibilidade de que se julgam portadores, eles que integraram um desgoverno capaz de tratar estes problemas com os pés?
Perante tal cenário nem vale a pena gastar mais latim com tão ruins defuntos. Politicamente estão moribundos e com a extrema-unção já garantida.
2. Nunca nos deveremos poupar nas homenagens a Mariano Gago, o excelente ministro da Ciência com que os portugueses puderam contar em sucessivos governos socialistas.
Se o país vier a mudar a prazo o seu paradigma, substituindo as exportações de produtos sem grande valor acrescentado, baseados em baixos custos de mão-de-obra pouco qualificada, para outros sustentados na aplicação às indústrias de contributos dos laboratórios e institutos de investigação nacionais,  supera-se finalmente a condição de continuarmos a ser um país pobre e atrasado.
Os investimentos suportados nas políticas visionárias do antigo ministro socialista explicam que Portugal seja reconhecido como um dos quatro países com maior evolução na produção de ciência entre 2005 e 2015. Enquanto em 1995 os nossos cientistas assinavam 2404 papers anuais, em 2005 já tinham triplicado para 7400, chegando a 2015 com 21 mil. Felizmente que a súbita travagem verificada nas políticas de Investigação e Desenvolvimento entre 2011 e 2015 - bem visível no estudo agora conhecido como Carlos Fiolhais não deixou de enfatizar! - não conseguiram prejudicar seriamente uma dinâmica de aceleração, que vinha de trás.
Se o nosso indicador de publicações por milhão de habitantes ainda não consegue aproximar-se do dos países nórdicos, Portugal já está acima da Alemanha e é, dos países do sul da Europa, o que ocupa a vanguarda.
Pode-se concluir que a haver homenagens a quem muito fez pelo futuro do país, Mariano Gago mereceria bem mais do que um qualquer habilidoso a dar toques numa bola de futebol…
3. Para os que andam a levar sucessivas cabazadas políticas a nível nacional, os últimos dados do Eurobarómetro são devastadores: depois de atingirem picos negativos no outono de 2015, em vésperas das mais recentes legislativas, a confiança dos portugueses no Governo e na Assembleia da República está a conhecer subidas significativas e com as respetivas curvas em tendência ascendente.
O Diabo parece mesmo ter-se esquecido destas paragens...

sábado, 1 de abril de 2017

A natureza predatória da Nestlé

Há muitas multinacionais detestáveis na vocação predadora das riquezas naturais  que, legitimamente, deveriam pertencer a toda a Humanidade. Abocanhando-as em nome dos seus obscenos lucros, privam as populações do usufruto coletivo do que lhes pertenceria por direito.
A Nestlé é um exemplo paradigmático dessa falta de escrúpulos ao empenhar-se na desenfreada exploração das nascentes de aquíferos de todos os continentes com o objetivo de os engarrafar e vendê-los como se se tratassem de mercadorias como quaisquer outras.
A filosofia de tal estratégia partiu de um dos administradores da empresa, Helmut Maucher, que atribuía a organizações “extremistas” a tese de ser a água um bem coletivo. Nos últimos anos os efeitos da usurpação desse recurso natural em vários locais do planeta revelam bem o carácter extorsionário da multinacional.
Por exemplo em Chaffee County, nas Montanhas Rochosas, onde os recursos hídricos já eram escassos para o consumo das populações e a rega das explorações agrícolas, a Nestlé comprou uma quinta estrategicamente situada por cima do lençol freático, começando a bombeá-lo para as suas instalações de engarrafamento e rotulagem. Gastando 2 cêntimos pela extração de cada galão de água, a Nestlé consegue-o vender por 10 dólares, obtendo um lucro descomunal. Ao mesmo tempo, a região onde passou a sugar essa riqueza, viu agravada a aridez do solo, o definhamento da agricultura e a falta de água nas torneiras.
A sinistra Fox News apresentou o modelo empresarial da Nestlé como admirável, incensando o presidente da filial norte-americana, Kim Jeffery, como autêntico herói empresarial, por conseguir resultados de gestão inigualáveis. Não admira que os principais porta-vozes de Trump se sintam tão encantados com esta forma de ter sucesso nos negócios.
Na África do Sul uma grande parte da população não tem acesso a água potável nem a saneamento básico. Em 2011 a Nestlé instalou-se em Doornkloof, perto de Pretória, para explorar a nascente do seu subsolo, podendo dela retirar 103 milhões de litros por ano até 2031.  E, no entanto, as populações ali residentes, e até seus próprios funcionários, não têm acesso a tal recurso, a que por direito deveriam aceder sem custos.
No Brasil o parque de São Lourenço em Minas Gerais é outro bom exemplo de predação da Nestlé, que já reduziu significativamente a dimensão do lençol freático, anteriormente ao serviço da população. Agora os lagos de cujas nascentes a multinacional continua a sugar a água com que enche as garrafas apresenta-se poluído, contaminado, com uma quantidade preocupante de matérias fecais.
Existe ainda outra vertente da atividade da Nestlé, que não pode ser esquecida: recentemente foi declarada culpada no tribunal de Lausanne por espionagem da atividade de Frederick Franklin, um militante da ATTAC particularmente empenhado em denunciar as práticas da empresa. Esse tipo de comportamento mafioso estende-se a outros países, como o Brasil ou a Colômbia, onde os seus inimigos incorrem em sério risco de vida, porque a facilidade com que aí se contratam assassinos a soldo facilita a eliminação de quem lute para que a água seja um recurso de todos e para todos.
Há muito se sabe que, a caminho do esgotamento de muitos outros recursos naturais, a água passará a estar na mira das multinacionais, que louvam os méritos da sua privatização.  O combate contra essa perspetiva estará na linha da frente das reivindicações das esquerdas por um mundo melhor.