quarta-feira, 22 de março de 2017

A eficiência e a dignidade de uns vs. a mentira e o nepotismo de outros

1. A rapidez com que as autoridades reagiram ao risco de grave acidente no viaduto de Alcântara demonstra a seriedade com que hoje se encara a prevenção de males maiores.
A paragem do tráfego rodoviário e ferroviário pode causar graves transtornos à circulação num eixo fundamental da cidade, mas constitui uma inflexão digna de elogio em relação à prática de esperar para ver, que tanto norteava a prática do anterior governo.
Já não vivemos tempos em que se empurrem os problemas com a barriga ou see escondem debaixo do tapete, procurando dar-lhes solução atempada.
Exceção à regra? A enorme dívida soberana seriamente agravada nos anos da troika. Mas aí não deixa de ser judicioso aguardar pelo resultado das eleições alemãs. É que cresce a probabilidade de Martin Schultz  empurrar Merkel para a reforma, dando início a uma nova atitude nas políticas europeias.
2. O homem já anda combalido desde a semana passada, quando o seu partido quase foi varrido do parlamento holandês, mas a posição oficial portuguesa de exigir a demissão do presidente do Eurogrupo contrasta com a diplomacia subserviente dos anos passistas.
Sabe bem ter um governo, que não se intimida perante os que se julgam mais fortes, argumentando-lhes com posições de princípio para os remover de onde não merecem estar, quanto mais não seja por não conseguirem disfarçar a boçalidade, que lhes ensombra a mente.
Esperemos que a teimosia de Schäuble não baste para abrir um guarda-chuva protetor a quem dele mais não foi que servil vassalo.
3. Outro subordinado, sobre quem quase ninguém insiste em defender, é Durão Barroso, que se juntou a Santana Lopes no coro dos descontentes com o livro de José Pedro Castanheira sobre os anos da presidência de Jorge Sampaio.
No seu caso não terá gostado da denúncia de só ter avisado o presidente quanto à iminência da cimeira das Lajes a quarenta e oito horas dela acontecer, confrontando-o com o seu facto consumado.
Procurando desculpar-se, o atual serventuário da Goldman Sachs veio afirmar que recebeu o telefonema de Aznar e logo telefonou para quem dependia institucionalmente. O que todos os conhecedores do caso desmentem, havendo quem afiance ter Barroso alinhado na fantochada onze dias antes.
Mas existe outro elemento que confirma a mentira de Barroso: é regra estabelecida que as deslocações dos presidentes americanos no Air Force One exigem setenta e duas horas de preparação, pelo que Bush já se sabia nos Açores com tal antecedência.
A quem pretenderá Barroso ainda enganar?
4. Qual a dose de nepotismo, que os norte-americanos estarão dispostos a tolerar até correrem com Donald Trump da Casa Branca?
Por agora a indignação por genro e filha terem aí gabinetes ainda não justifica a impugnação por que suspiramos (muito embora o vice-presidente seja tão assustador quanto o pato-bravo!), mas o copo vai enchendo. E foi um conhecido chinês que constatou bastar uma faísca para que toda a pradaria se incendeie! 

Figurantes sem espaço na paisagem

Há por aí muita gente que está morta politicamente, mas ainda não deu por isso. Apesar de serem mais do que muitas as evidências nesse sentido.  Um deles é Jeroen Djesselbloem com o qual já não vale a pena gastar mais latim tão viral se tornou a indignação institucional e as das redes sociais contra as infames afirmações com que insultou os países do sul da Europa.  Quando se trata de encontrar explicação para o abrupto desastre dos sociais-democratas holandeses nas eleições da semana transata, basta considera-lo como um dos seus rostos maiores: não são só as vítimas europeias do austericídio de que ele foi um dos principais entusiastas a execrá-lo. Os compatriotas devotaram-lhe idêntico sentimento de rejeição.
Outros zombies a carecerem de golpe de misericórdia são os velhos fascistas do PNR ou a reciclada versão dos que quiseram promover e promover-se à pála de Jaime Nogueira Pinto.  O confronto verbal de ontem na FCSH constituiu o ligeiro sobressalto de um vulcão em vias de extinção. É que, por uma vez em muito tempo, Clara Ferreira Alves acertou em recente crónica, quando lembrou exaustivamente o que significaram os sinistros anos do salazarismo, que tais trogloditas insistem em sacralizar.
Idêntico definhamento conhecem os que, nas direitas, andam sempre à espera de notícias, que lhes aticem a pálida ilusão quanto a recuperarem o «pote». Mas ele vai ficando sempre mais distante, seja porque a descida do desemprego conhece ritmos desconhecidos há quase três décadas seja porque a atividade económica em fevereiro confirma a dinâmica do crescimento dos meses mais recentes. Com tal cenário quem, senão apenas os indefetíveis, acedem a servir de cordeiros à expectável degola de outubro?
Penosa vai sendo a tarefa dos opinadores das direitas nas várias televisões: por mais imaginativos, que queiram ser, não há criatividade bastante para almejarem escamotear os sucessos da maioria parlamentar.

terça-feira, 21 de março de 2017

O novo cavalo de batalha das direitas na CGD

As esquerdas ainda teimam em não aprender as lições que tudo quanto tem sucedido na Caixa Geral de Depósitos nos últimos meses, lhes já deveriam ter facultado.
O novo cavalo de batalha de Passos Coelho e de Assunção Cristas contra o banco público é o de contestarem os balcões, que irão encerrar um pouco por todo o país.
Perante a ladainha das direitas o que deveriam ter feito as esquerdas? Em primeiro lugar denunciarem-na como mais um exemplo de hipocrisia de quem andou anos a forçar a inevitável privatização, acabando por arrastar o maior banco nacional para a hecatombe em que deixaram todo o setor bancário. Depois, sem suscitarem parangonas, teria sido judicioso reunirem com Mário Centeno e Paulo Macedo para garantirem aquilo que eles já se apressaram a confirmar: não só existirão balcões em todos os concelhos do país como não deixarão de existir caixas automáticas nas zonas mais desertificadas. (Não seria má ideia localizarem-nas nas juntas de freguesia, que aí costumam funcionar como centros de apoio aos mais idosos).
A realidade bancária é hoje completamente diferente da que conhecemos até há relativamente pouco tempo. Quantos costumam ainda frequentar as agências se mais rapidamente podem resolver o que precisam nas caixas automáticas?
A mera constatação dessa inevitável evolução e o quanto exige estratégias incontornáveis na gestão do setor bancário deveria ser acolhida pelas esquerdas como elas sempre estariam obrigadas a concetualizar nas suas ações: se existem dinâmicas irreversíveis, é estúpido gastar energias a contrariá-las. O desafio de quem se considera progressista consiste em canalizar essas dinâmicas para a direção mais conveniente para o interesse coletivo. Aquilo que precisamente as direitas não querem nem conseguem entender.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A independência que o poder judicial não tem sabido merecer

Entre mim e Jaime Santos subsiste divergência antiga a respeito da Operação Marquês e do que ela tem significado para a imagem do antigo primeiro-ministro e do próprio Partido Socialista.
Em relação ao post desta madrugada ele comenta através do seguinte texto:
“Não percebo bem a crítica a Sousa Tavares. Nesta matéria do processo de José Sócrates, ele tem consistentemente atacado os sucessivos adiamentos e violações do Segredo de Justiça. Parece-me antes o meu caro que confunde esta investigação com um mero ataque ao PS.
Já disse e repeti isto várias vezes. O julgamento político de José Sócrates foi feito em 2011 e mau grado a eleição de Passos e de Portas, ele não foi brilhante para o ex-PM.
O julgamento moral cabe a cada um, mas pela minha parte, considero que Sócrates não tem uma perna para se segurar, depois das mentiras à imprensa sobre a origem do dinheiro e dos contornos pouco claros de um empréstimo informal que não envolveu bancos, letras de crédito ou quaisquer documentos escritos.
O comportamento de Sócrates deixou-o naturalmente à mercê de suspeitas e de uma investigação que qualquer sistema de Justiça teria necessariamente de conduzir, tratando-se de uma pessoa politicamente exposta.
Pior, Sócrates colocou em cheque todos os que o defenderam e trabalharam com ele e mesmo pessoas da sua intimidade. João Miguel Tavares já esfrega as mãos em preparação para o ataque ao PS que virá depois da mais que provável acusação.
Falta, como bem disse MST, o julgamento judicial (se houver acusação e esta for confirmada depois de uma abertura da instrução), que cabe aos tribunais e que é completamente independente dos dois julgamentos que referi acima.
Existe infelizmente algo em comum entre os detratores incondicionais de Sócrates e os seus fãs incondicionais, que é o de quererem misturar tudo. Os primeiros porque já o condenaram antes mesmo do julgamento e sequer do conhecimento completo das provas e da acusação e que, seja ele culpado ou inocente dos crimes de que é suspeito, desejam que ele sofra na cadeia pela sua condução da política nacional e que por isso não se importam que princípios básicos do Estado de Direito sejam violados. Os segundos, porque parece que assim é mais fácil acreditar que tudo isto não é mais que uma cabala contra o PS…”
Na realidade, entre mim e Jaime Santos não existem grandes divergências  quanto ao tipo de sociedade, que ambos defendemos, muito embora eu teime no socialismo inequivocamente marxista e ele na social-democracia. No entanto move-nos o mesmo desejo de contribuirmos para uma sociedade livre, justa e, tanto quanto possível, igualitária.
Já quanto ao antigo primeiro-ministro a divergência é maior, porque, independentemente dos tais juízos morais que uns fazem e outros não (e mesmo reconhecendo terem existido posições que nele me desagradaram!) não duvido da tese da cabala contra o Partido Socialista. Seja porque os agentes da Justiça deixaram-se inebriar pela possibilidade de virem a ser o poder mais forte neste século XXI (foi-o proclamado por um dos seus principais dirigentes, Rui Cardoso), seja por terem constatado no governo de José Sócrates a vontade política de cercear-lhes algumas das mais obscenas mordomias, a intenção foi clara em convergirem forças com quem manda nos jornais (e sobretudo nos pasquins) para tudo fazerem no sentido de perdurarem as direitas no poder enquanto tal fosse possível.
Mas, se olharmos mais para trás, ainda poderemos encontrar prequelas desse intento conspirativo no fim do guterrismo, quando o caso da pedofilia na Casa Pia deu injustamente cabo do percurso político de um dos mais competentes e talentosos dirigentes socialistas de então, Paulo Pedroso, e chegou a enlamear outros de irrepreensível probidade, como chegou a acontecer com o atual presidente da Assembleia da República.
O que a Operação Marquês tem demonstrado é  uma Justiça suficientemente lenta a investigar os casos que envolvem políticos das direitas (Portas com os submarinos, os cavaquistas com o BPN) para que os indícios de corrupção atinjam o prazo de prescrição, mas assanhada com quem é socialista.
Quer isto dizer que José Sócrates ou Armando Vara que a ele é comummente associado, estão inocentes?  Até que nos provem o contrário sim, pois é esse o princípio de presunção de inocência, que urgiria ser respeitado.
Mas o caso é ainda mais grave quando nem sequer  sobra a mínima dúvida sobre quem passa para os jornais os conteúdos das peças processuais como forma de assegurar o julgamento em praça pública sem o concretizarem na barra dos tribunais. A violação constante do segredo de Justiça é crime, que Joana Marques Vidal não quis investigar nem sancionar, sabendo como estilhaçaria assim todo o edifício pútrido, que ainda lidera.
Não podemos é aceitar um país onde se prenda para investigar, se prometam sucessivos prazos, que nunca se chegarão a cumprir, e se viole ostensivamente o direito ao bom nome sem qualquer prova que o ponha em causa. Ademais com custos, que seria bom conhecermos: quantos milhões de euros já nos custaram as investigações da equipa de Rosário Teixeira ao longo destes anos? Pode a Justiça suportar um tal desperdício de recursos?
Pessoalmente acredito que somos muitos a desejar que o poder executivo e o legislativo ponham na ordem o judicial, que se tem revelado incapaz de merecer a independência, que lhe deveríamos reconhecer.


Notas soltas de um calmo fim-de-semana

1. Na sua edição dominical o «Público» traçou o perfil de Rosário Teixeira procurando dar-lhe uma imagem favorável. Mas a realidade é como é e o jornalista Samuel Silva encontrou quem o diz «mau acusador» nos processos da sua responsabilidade, conseguindo uma taxa muito baixa de condenações.
Há também o pormenor não despiciendo de ter feito carreira à sombra do apadrinhamento de Fernando Negrão, o que explica a aparente sanha antissocialista nas suas investigações. A realidade é que o percurso profissional esteve ascendente sempre que o deputado do PSD estava em condição de o ajudar na Polícia Judiciária ou no Ministério Público, tornando-se irrelevante sempre que perdeu os favores da hierarquia.
Cabe, pois, perguntar se as críticas de Joana Marques Vidal significam ter sido escolhido como elo mais fraco de um processo destinado a saldar-se num clamoroso fracasso?
2. No «Expresso» deste fim-de-semana foi possível detetar o desalinhamento de alguns dos seus principais redatores com o que se vai passando à direita. Se o suplemento de «Economia» continua porta-voz dos teimosos austeritários (com a louvável exceção de Nicolau Santos!), o primeiro caderno já começa a dar sinal de algum distanciamento para com os disparates do seu campo político.
Comece-se por Pedro Santos Guerreiro que ajuíza a escolha de Teresa Leal Coelho para Lisboa como uma “excelente notícia” para o PS e para o CDS. “Passos Coelho pode começar a escrever dois discursos, um de derrota, outro de saída”.
Martim Silva encarrega-se de não poupar um dos mais ridículos “senadores” da direita: “o único problema de Santana é que ao falar do tempo em que foi primeiro-ministro faz-nos lembrar desse período. E o julgamento não é meigo para ele.”
A terminar, e confirmando a sua bipolaridade, Miguel Sousa Tavares retoma a Operação Marquês para questionar os que insistem em culpar José Sócrates antes sequer de ser conhecida qualquer acusação (se é que alguma vez a ela chegaremos!): “Por ora, faço apenas uma pergunta: aqueles que já decidiram de há muito que ele é culpado, se um dia se virem a contas com a Justiça, gostariam de ser tratados da mesma maneira? Pois eu não, Prefiro o conforto daquilo a que nos países civilizados se chama Estado de Direito.”
3. A notícia já tem vários dias, mas vale a pena trazê-la de novo à baila: entre 2005 e 2015 mataram-se 142480 raposas em território nacional.
Tratando-se de admirável animal, para quando ouviremos os partidos políticos, mormente o PAN, a propor legislação a proibir as batidas e outros modelos de caça, que tendem a reduzir a presença da espécie entre nós?
4. A última nota deste texto vai para os apreciadores de roupa barata em lojas, que a importam de países onde os operários são pagos com salários de miséria e obrigados a trabalhar em ambientes infectos e propícios aos acidentes. Na antiga Birmânia, atual Myanmar, os trabalhadores contratados para a produção de peças para a HM estão em luta por condições mais dignas de remuneração e de segurança.  Se forem bem sucedidos, será expectável que a marca sueca cuide de deslocalizar a produção desse país para outro ainda mais miserável, onde os custos diminuam e as suas margens de lucro exponenciem.
Para quando um levantamento ético contra as insígnias que beneficiam com o lado mais perverso da globalização?


sábado, 18 de março de 2017

Marcelo a ver a sua estratégia a andar para trás

Até agora Marcelo tem sido acolhido em festa nos sítios onde se desloca. Hoje, porém,  já não foi assim, quando se confrontou com manifestantes descontentes com a possibilidade de se prospetar petróleo na Costa Algarvia.  Tratando-se de um dos muitos problemas herdados de Passos Coelho, para quem não havia qualquer óbice em estragar tão importante zona turística, conquanto se desse satisfação aos interesses dos que andam a causar terríveis crimes ambientais, sentiu-se em Marcelo o incómodo de já não ver à volta quem dele pretenderia selfies ou abraços.
A semana não está, de facto, a correr bem para o inquilino de São Bento se levarmos em conta o que Ângela Silva, hoje assina no «Expresso».
Jornalista conotada com a direita e habitualmente muito bem informada sobre o que se passa nos seus bastidores, ela dá conta da insatisfação de Marcelo pela escolha de Teresa Leal Coelho para candidata à Câmara de Lisboa. É que, segundo aí se conta, ele ansiaria por dobrar finados por este Governo de maioria de esquerda substituindo-o por outro, conotado com o tal «arco da governação» que António Costa deu como morto e enterrado, mas Marcelo pretenderia ressuscitar como forma de facilitar a vida àqueles por cujos interesses cuidou de conquistar a presidência. Explica-se assim a hipótese por ele explicitada de não enjeitar Passos Coelho como primeiro-ministro na segunda metade do seu mandato.
O projeto passaria, pois, por uma coligação PSD/CDS que, mesmo não conseguindo mais votos do que o PS, fosse suficientemente forte para se impor numa coligação contra as demais esquerdas, novamente marginalizadas para a função de inconsequente oposição.
Uma pugna eleitoral em que veremos  Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho a digladiarem-se para ver quem fica à frente uma da outra, e com Fernando Medina a assistir da varanda do município ao afundamento das adversárias, poderá significar - segundo pensam os círculos próximos de Marcelo - ao defraudar das suas expetativas. Para as quais, segundo  as mesmas fontes, ele até contaria começar 2018 a revelar maior exigência para com o governo de António Costa , minimizando-lhe os bons resultados e sempre apostando na necessidade de bem mais.
Das peças jornalísticas hoje publicadas no semanário em causa, é esse texto de Ângela Silva que deveria merecer leitura atenta. Porque está lá escarrapachado tudo quanto tem justificado o meu reiterado alerta para a malignidade de Marcelo em Belém. Para a qual as esquerdas terão de ser muito inteligentes se não quiserem deitar a perder tudo quanto se recuperou neste último ano.
É que, agora não se trata de lá ter uma múmia putrefacta como a que, anteriormente, assombrava os corredores daquele palácio, Quem agora o habita é alguém que pretende investir a sua superior inteligência e capacidade estratégica em minar o atual governo e estilhaçar a convergência  das esquerdas.
Vale-nos que Passos Coelho lhe tem dificultado a tarefa. Mas as esquerdas deverão fazer todo o possível para, não lhe dando qualquer hipótese de sucesso, o levarem a abdicar da candidatura a um segundo mandato. Para tal será necessário que as direitas continuem a revelar-se tão ineptas que a sua travessia no deserto se revele, se não definitiva, pelo menos muito prolongada. Razão para as esquerdas continuarem a apostar no seu mínimo denominador comum e secundarizarem o que mais as divide.

Quem não se dá ao respeito não merece ser respeitado

O novo adiamento conseguido pelos procuradores há muito apostados em prolongar o mais possível o martírio de José Sócrates na praça pública, trouxe consigo algumas mudanças dignas de registo.
A primeira tem a ver com as críticas de Joana Marques Vidal a Rosário Teixeira e a Paulo Silva, preparando o terreno propício para não se ver chamuscada quando a evidente falta de provas resultar no arquivamento do processo ou na apresentação da inconsistente acusação. Precavem-se do clamoroso repúdio, que nenhuma manchete do «Correio da Manhã» ou do «Sol», calará.
Numa semana em que Assunção Cristas e Passos Coelho andaram a endereçar mimos um ao outro por causa da situação em que deixaram a banca, começa a enfastiar esta tendência dos políticos de direita, ou por ela designados (o caso da srª Procuradora), em eximirem-se às responsabilidades pelos seus atos e omissões.
A segunda tem a ver com a reação cada vez mais indignada de alguns agentes da Justiça -  a atual e a anterior bastonária da Ordem dos Advogados, por exemplo -  face à campanha do Ministério Público contra o ex-primeiro-ministro nomeadamente com a constante entrega aos pasquins de partes convenientemente selecionadas das peças processuais.
No «Expresso da Meia-Noite» uma das jornalistas da SIC revelava, com toda a candura, o que lera no interrogatório a Helder Bataglia para estupefação de João Nabais, que quase não queria acreditar como a criatura não se apercebia da extrema gravidade do que estava a revelar.
Chegámos a um momento em que o ministério público quase conseguiu convencer os portugueses da normalidade de conduzir os processos através dos jornais, violando as regras mais básicas do segredo de Justiça e  negando à defesa o direito à presunção de inocência até ao julgamento.
Há algo, porém, a mudar: mesmo apostados em punirem quem, enquanto chefe do governo, cuidou de lhes cercear alguns dos seus mais escandalosos direitos corporativos (o tempo de férias, por exemplo), os procuradores e os juízes não escaparão ao repúdio que estes sucessivos protelamentos vêm causando em número cada vez maior de cidadãos, dispostos a não aceitarem que se tivesse prendido para investigar, sem existirem provas que o justificassem, ou que se tenham andado anos sucessivos a gastarem-se fortunas pagas pelos contribuintes para nem sequer conseguirem concluir o processo.
Perante o escandaloso comportamento de Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e mais uns quantos personagens, que tanto têm contribuído para o descrédito da Justiça, importará assegurar que eles venham a ser objeto de justa punição. Se nada conseguirem provar contra José Sócrates, um processo disciplinar deveria cuidar de os punir por se revelarem zarolhos, incompetentes, difamadores ou intriguistas.
Não deverá ficar esquecida a contumaz atitude de cerceamento do direito ao bom nome de um cidadão só porque dava jeito a quem lhes encomendou o serviço, que as eleições do ano seguinte tivessem um determinado resultado.
Seria lamentável que intimidada pelo coro hipócrita dos que se atreveriam a vitimizarem-se pelo «despotismo» da maioria parlamentar, esta não legislasse e agisse consequentemente para acabar de vez com os abusos de quem desmerece o respeito, que lhes deveríamos irrepreensivelmente assegurar.


sexta-feira, 17 de março de 2017

A legitimação do desfalque de que fomos vítimas

Hoje há grande foguetório para legitimar a escandalosa decisão de Passos Coelho de entregar o Oceanário aos donos do Pingo Doce. Como se, quem foge com os lucros para paraísos fiscais, tivesse efetiva preocupação em utilizar aquela assombrosa máquina de fazer dinheiro para servir o efetivo interesse nacional.
Marcelo, coerente com a sua ideologia, avalizará a festa, porque não há episódio em que esteja presente a contradição entre os interesses privados e os públicos em que ele não se incline para os primeiros. Vide o que se passa com as PPP’s na saúde em que mobiliza a influência para garantir o lucrativo negócio de alguns dos seus diletos amigos. Se perdeu a guerra de proteção aos colégios privados, tem desde então sido mais habilidoso em garantir que o governo de António Costa não volte a prejudicar quem ele cuida de defender a partir do Palácio de Belém.
A minha mais recente deslocação ao Oceanário, ditado pela intenção de mostrar à neta o que se esconde no mundo marinho foi uma tremenda deceção: porque é mais importante fazer receita do que garantir as adequadas condições de visibilidade a quem o visita, não parece haver controlo do número de entradas. E note-se que, já temendo o  que viria a enfrentar, optei por ali ir em dia-de-semana. O resultado é os adultos condenarem-se a inevitáveis torcicolos para conseguirem ver alguma coisa no meio do emaranhado de cabeças à sua frente, enquanto as crianças pouco aproveitam. No caso da miúda de três anos, que tentávamos interessar pelos assuntos do mar, foi rápida a exigência em sair de tal confusão aproveitando com outro agrado o passeio a pé pela zona exterior adjacente.
É claro que a Fundação do Pingo Doce tentará sempre enganar os tolos com apetitosos bolos. Por isso promoverá bonitos filmes e artigos publicitários (mas omitidos dessa condição) em como financia investigação científica e facilitará entradas às criancinhas dos colégios privados circundantes. Mas, obra pública de grande mérito, pensada numa lógica de servir de instrumento a uma nova política virada para o Mar como a nossa maior riqueza, o Oceanário foi entregue à gula dos merceeiros gananciosos , que tantos elogios fizeram, fazem e continuarão a fazer a quem lhes facilitou a negociata.
Por mim será crível que dificilmente me apanharão ali tão cedo. Se não ponho os pés num supermercado cujos donos fizeram o maior insulto possível ao 1º de Maio enquanto Dia do Trabalhador, também não me disponho a colaborar com mais uns euros para o despudorado desfalque do Oceanário a quem ele efetivamente deve pertencer: aos portugueses. 

A irresponsabilidade dos políticos das direitas

Na «Quadratura do Círculo» Jorge Coelho não quis acreditar como verdadeira a confissão de Assunção Cristas em como nunca discutiu a banca nos conselhos de ministros em que se sentou durante quatro anos. Porque qualquer um perguntar-se-á como terá isso sido possível, sendo a banca o busílis que implicara a vinda da troika.
Temos, pois, uma de duas possibilidades, nenhuma delas aceitável: ou os ministros punham a cabeça na areia para esconderem os problemas fundamentais da governação ou Assunção Cristas está a mentir!
Dado que Lobo Xavier contribui para enterrar Passos Coelho, asseverando-lhe a intenção de atirar todo esse problema para os ombros do Banco de Portugal, de que a reportagem da SIC, «Assalto ao Castelo» deu sobejas provas de negligência e incompetência, podemos concluir que o país esteve quatro anos entregue a um irresponsável cujo objetivo se limitou a implementar as políticas de que os verdadeiros patrões o tinham incumbido, deixando os problemas que não pretenderia resolver para quem viesse a seguir .
Mas de irresponsáveis na governação vamos estando acostumados, porque outro exemplo lapidar desse tipo de personalidade voltou a sair da reforma dourada aonde o alcandoraram para destratar um dos melhores presidentes do pós-25 de abril: Jorge Sampaio.
Não gostando de ser ver retratado como aquilo que foi - um mentecapto que, em poucos meses, pôs de pantanas o início do ano escolar e passou a ideia de agir por impulsos, sem a mínima ideia ou estratégia para dar um rumo ao país -, insultou quem higienicamente o varreu do poder.
Manifestamente os primeiros-ministros que o PSD tem imposto ao país foram sempre homens sem qualidades, de cujo «serviço público» teríamos bem dispensado...

quinta-feira, 16 de março de 2017

Otimista na Razão e na Vontade

Há muito que respeito as análises políticas de Augusto Santos Silva mesmo não concordando com algumas das suas opiniões sobre as outras esquerdas parlamentares. Mas existe sempre a sobreposição da Razão sobre as emoções e os preconceitos, que credibilizam quanto costuma afirmar.
Daí que sinta algum conforto por vê-lo corroborar o meu otimismo sobre o limitado futuro das extremas-direitas europeias. Na entrevista facultada a Bárbara Reis e a Raquel Abecassis («Público» de hoje) ele prevê resultados significativos para essas forças políticas nas eleições francesas ou alemãs deste ano, mas sem a capacidade de virem a governar. Seguindo-se a inevitável decadência ...
Terão sido circunstâncias muito específicas a criarem a tempestade perfeita para elas crescerem e ameaçarem a estabilidade política conhecida no Velho Continente desde a criação da antiga CEE. A seu modo o Brexit, e sobretudo a eleição de Trump, tenderão a criar a vacina, que inibirão tentações perversas.
Como tenho referido a quem me tem pedido a opinião sobre o futuro da maioria das esquerdas aqui ou sobre a exequibilidade de uma Europa dos seus povos, atrevo-me a ir mais além do que Gramsci: sou moderadamente otimista na Razão e exageradamente otimista na vontade.

Só há uma opção para as esquerdas: assumirem-se como tal!

De hoje a um mês voltarei a estar por algumas semanas na Holanda, onde está estabelecida a nossa descendência direta.
Se levasse a sério o que a imprensa portuguesa - e não só! -, vinha dizendo nas últimas semanas, deveria sentir a apreensão de vir a reencontrar um país dominado pelos seus demónios xenófobos. Mas, como dizia uma antiga expressão, os publicitários eram manifestamente exagerados. Mesmo subindo alguma coisa a extrema-direita não constitui perigo imediato numa sociedade onde ela manifesta sinais de ter alcançado o seu patamar mais elevado.
Não esqueço que, no supermercado de Haia onde costumamos fazer as compras para o dia-a-dia, já deparámos com uma ou outra empregada holandesa manifestamente antipática para quem pressentem vir de outras origens, mas a reação tem sido compensada pela simpatia das colegas de cor, bastante mais empáticas nas mesmas circunstâncias. Existe decerto uma camada da população efetivamente racista e xenófoba, que é aquela que vota em Wilders. Mas a grande maioria não tem esse tipo de valores nem  comportamentos.
Mas as eleições holandesas confirmam uma tese, que o Pasok grego já mostrou à saciedade: sempre que se coligam com as direitas ou lhes replicam o discurso político, os partidos sociais-democratas caem a pique junto dos eleitores. Daí que os trabalhistas tenham sofrido justa punição, devolvendo em breve o senhor Djesselbloem ao merecido anonimato.
Para os partidos irmãos dos socialistas portugueses, a opção é clara: ou se assumem verdadeiramente de esquerda, buscando apoios nessa área política e arriscando uma governação contrária aos ditames austeritários, ou condenam-se à irrelevância.
Mas há ainda outra lição a recolher: o Brexit e a eleição de Trump empolaram os receios sobre uma suposta supremacia das extremas-direitas nos países europeus. Ora, o que se passou no país das tulipas mostra bem como, mesmo merecendo alguma atenção, essas forças populistas não justificam que se focalizem nelas as análises políticas sobre o futuro dos respetivos países. Até porque a confirmação do desastre anunciado pela chegada de Trump à Casa Branca tende a intimidar quem possa sentir-se tentado a eleger uma tão débil réplica.
As próximas eleições em França e na própria Alemanha tenderão a confirmar isso mesmo: quer Marine Le Pen, quer a Alternativa pela Alemanha terão resultados mais significativos do que nos escrutínios anteriores, mas conhecerão esse pico a partir do qual começarão a cair. É que torna-se evidente a incapacidade para encontrarem respostas exequíveis para os temores e as ansiedades dos eleitores. E tão só as esquerdas reassumam um discurso esperançoso, logo conseguirão o reconhecimento conseguido por exemplo pelo Partido da Esquerda Verde holandesa, que conseguiu quadruplicar o seu número de deputados no parlamento holandês.
O que explica o sucesso da governação de António Costa é essa coragem em convergir à esquerda abandonando as não-soluções que as direitas insistem em, contra todas as evidências, considerarem como boas.