quinta-feira, 9 de março de 2017

Um ano de populismo soft

Marcelo tornou-se presidente de todos os portugueses há um ano. De todos? Tenho-o dito e repito: nunca foi nem será o meu, por muito que se multiplique em tentativas de sedução mediática um pouco por todo o lado. 
Não alinho com quem nele não votou e anda derretido com o recurso contínuo da demagogia (mesmo que, reconheça-se!, muito inteligente), em cargo onde se esperaria menos opiniões sobre tudo e mais alguma coisa e alguma gravitas.
É certo que a herança cavaquista fez com que se seja complacente com quem se tem mostrado a sua antítese, mas continuo a confiar no que Sérgio Godinho pôs um dia em forma de canção: «Há-de alguém ser quem não é?»
A pergunta tanto pode ser utilizada para o bem, como pressupunham os versos em causa, como para o mal, que é o caso deste homem católico e de direita, ou seja com dois traços estruturantes do seu carácter de que logo me distancio.
A minha esperança, enquanto cidadão, consiste em que nele se sobreponha a vaidade de ver perdurada a memória de se colar ao sucesso de um governo duradouro  e prestigiado em prol dos interesses da maioria dos cidadãos, em vez de, por preconceito ideológico, tudo fazer para o abortar. Mas isso depende muito mais das capacidades de António Costa e da conjuntura em que vierem a decorrer os próximos três anos do que do próprio Marcelo...
Tenho, igualmente, a curiosidade de ver até quando se deixarão embalar os eleitores por este populismo soft que, utilizado até à náusea, poderá cansar...

Um moribundo em estado crítico

Nem o pai morre, nem a gente almoça!
O provérbio ajusta-se na perfeição ao atual estado da União Europeia em dia de reunião dos principais líderes europeus. A questão é saber se o moribundo consegue evitar o desenlace, que lhe adivinhamos. É certo que António Costa considera extemporânea a desistência do projeto europeu, mas tem-se comprovado o quão insensata foi a decisão de abrir a leste uma organização, que tinha propósitos económicos, pretendia converter-se numa organização política mais ambiciosa, mas deixou-se transformar em quase exclusiva ferramenta de quem pretendia dissociar os antigos países do Pacto de Varsóvia da influência russa.
Essa ampliação geográfica da organização tornou-nos ainda mais periféricos e possibilitou uma viragem ideológica mais à direita, destruidora dos legados democrata-cristão e social-democrata em benefício de um neoliberalismo descontrolado em que as pessoas foram esquecidas em proveito dos lucros dos seus plutocratas e burocratas.
No mesmo dia em que o PCP  lança o livro  “Euro, Dívida, Banca — Romper com os constrangimentos, desenvolver o país”,  que sintetiza as posições, que há muito lhe conhecemos e vêm conquistando progressivo acolhimento em setores cada vez mais alargados do pensamento nacional, confesso-me a fazer a travessia de eurófilo para eurocético. Ainda não em definitivo: aguardo que possa haver de substancial diferença numa Europa com as esquerdas a afastarem as direitas dos governos, tão-só saibam criar os seus próprios modelos de convergência, semelhantes aos que estamos a testar em Portugal.
Quero crer que, com um Schultz na liderança alemã, e líderes de perfil semelhante nos mais influentes membros da União, ainda se possa recuperar a lógica da Europa dos cidadãos. Mas, tendo em conta a improbabilidade de tal cenário nos próximos anos, o mais certo é o moribundo acabar por morrer antes que isso se possa tornar possível.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Fascistas cá, fascistas acolá

1. O pior que poderia acontecer nas eleições francesas seria a vitória de Marine Le Pen ou de François Fillon. Por isso o provável sucesso de Macron constituirá uma espécie de mal menor.
Mas as esquerdas gaulesas muito terão a mudar para que voltem a ser protagonistas de um projeto ganhador. Tal qual Chévenement nas presidenciais em que se teve de votar em Chirac para impedir o acesso do pai Le Pen ao Eliseu, também Mélenchon está condenado a ficar para a História como aquele que, no seu dogmatismo e cegueira antissocialista, impede um candidato de esquerda  em passar à segunda volta à frente de todos os demais.
Se em Portugal as esquerdas já compreenderam a necessidade de convergirem no essencial, secundarizando o acessório, essa lição tarda em ser aprendida para lá dos Pirenéus. É que, aqui ao lado, Pedro Sanchez  prepara-se para  reconquistar a liderança do PSOE pondo como objetivo essencial a colaboração com o Podemos. Donde, igualmente, se começam a ouvir vozes sensatas a orientarem-se no mesmo sentido.
2. Apesar de lembrar um porta-aviões da batalha naval com duas ou três das suas casas já derrubadas, Carlos Costa fez das fraquezas forças e, entre ir a Marcelo queixar-se de Centeno e propor-se a insana bravata na Comissão Parlamentar, também teima em querer a nomeação de um Administrador, relativamente ao qual conta com o veto do governo.
Depois de infernizar a vida a Centeno, quando este era seu subalterno no Banco de Portugal, o ainda governador prova uma amostra do veneno, que então julgava possuir em regime de exclusividade. Até porque Passos Coelho contava com a sua nunca regateada colaboração sempre que convinha ter o regulador do sistema bancário a decidir de acordo com as conveniências ditadas de S. Bento. Algo que o terá levado a acreditar na perdurabilidade dos seus cúmplices à frente do governo.
Constituindo-se em obstáculo para a realização das políticas mais indicadas para o bem comum dos portugueses, Carlos Costa é persona non grata, que se justificaria remover do cargo, se fossem despiciendos os riscos  de reações corporativas de algumas entidades internacionais, que convirá não espicaçar em demasia.
3. A estória da conferência de Jaime Nogueira Pinto anda a provocar algum sururu nas redes sociais e a despertar nalgumas boas almas estranhas solidariedades com um figurão que foi, é e sempre será um empedernido fascista.
Tendo em conta o que dita a Constituição sobre organizações e manifestações coincidentes com a ideologia desse lúgubre passado em que ele exultava nas provocações a quem desafiava a opressão do salazarismo-marcelismo, não me inclino a seguir o preceito voltairiano sobre discordar de tudo o que ele diz, mas defender o direito de se expressar sobre aquilo em que acredita.
Numa altura em que a eleição de Trump nos veio demonstrar como a Democracia, quando não se acautela para defender-se a si mesma, torna-se vulnerável a quem não a respeita, é tempo das esquerdas não se deixarem tomar por parvas e serem boazinhas com quem nunca para elas agiu de igual modo. E bastou ouvir alguns dos energúmenos, que tinham organizado a prédica do figurão para constatar como trazem suásticas e braços estendidos nas (horrorosas) consciências e só merecem ser tratados sem contemplações.
Ao fascismo nunca se deve estender a mão, porque ele logo trata de querer agarrar o braço e, logo de seguida, o corpo todo.

terça-feira, 7 de março de 2017

Sete razões que poderão não bastar

No Parlamento Catarina Martins já questionou António Costa quanto ao número necessário de falhas graves do governador do Banco de Portugal para lhe dar o devido trato. Razão para Nicolau Santos ter sistematizado sete na sua crónica de ontem no «Expresso». Ei-las aqui resumidas:
1. Carlos Costa não foi suficientemente lesto a afastar Ricardo Salgado do BES, quando tinha informações bastantes para tal. Se o Grupo Espírito Santo estava condenado, o seu Banco poderia ter sido salvo.
2. não impediu Ricardo Salgado de lançar a operação de aumento de capital no valor de mil milhões de euros que, dois meses depois, se tinham evaporado;
3. fez perder milhares de clientes ao Novo Banco ao permitir que Comissão Europeia dele se servisse para testar o seu modelo de resolução numa grande instituição financeira da zona euro;
4. deixou-se pressionar por Passos Coelho a decidir-se pela venda rápida do Banco antes das eleições de outubro de 2015, desdizendo-se perante Vítor Bento a quem nomeara com a garantia de lhe dar três anos para o recuperar;
5. anunciou que o Novo Banco iniciava a atividade com um capital de 4900 milhões de euros livre de quaisquer ónus ou créditos duvidosos. Agora já há a somar 3 mil milhões de euros em prejuízos e 2,5 mil milhões em créditos duvidiosos segundo os cálculos da Lone Star;
6. prejudicou seriamente o país, que quase se tornou um pária na imprensa e nos canais financeiros internacionais por ter canalizado para o banco mau as cinco emissões obrigacionistas de dívida sénior.  Essa sua decisão explica a dificuldade do atual governo em conseguir o regresso de grandes investidores internacionais à nossa economia.
7. convenceu Vitor Gaspar a aplicar 1,1 mil milhões de euros no Banif, apesar de o saber inviável, e permitiu o envio para Bruxelas de oito propostas de reestruturação todas chumbadas, mas que serviram a Maria Luís Albuquerque para ir empurrando a resolução do problema para quando já ele não lhe caísse em cima.
É verdade que ninguém acredita na possibilidade de o ver demitido pelo governo, porque ele sabe-se protegido pelos pares do BCE e do FMI. Mas, mesmo tendo de o suportar até ao final da legislatura, o atual governo poderá tê-lo suficientemente fragilidade para que não cause maiores danos.
O que não poderemos deixar de lembrar é a responsabilidade de Passos Coelho em reconduzi-lo, quando nada o justificava. Tanto basta para o fazer conivente das tais faltas graves de que Carlos Costa não se livra por muito que  tente imitar Núncio na pose de angelical criatura injustamente ameaçada de degola.

A nova oportunidade para qualificar quem precisa

Já aqui escrevi sobre a grata experiência de, mediante o Programa das Novas Oportunidades, ter sensibilizado e conseguido que muitos dos meus colaboradores, na empresa onde trabalhei até 2011, recebessem a devida formação para conseguirem os diplomas correspondentes ao 9º e ao 11º ano de escolaridade.
O entusiasmo de adultos, alguns já de meia-idade, em aumentarem as competências e verem reconhecidas as suas capacidades, foi algo que não esquecerei. E sempre me dará motivo de sobra para criticar asperamente o governo de Passos Coelho, que assassinou esse processo, depois de, ainda na oposição, o ter procurado boicotar de todas as formas possíveis e imagináveis.
Para as direitas, que nos desgovernaram, a aposta era conduzir Portugal para a condição de país exportador de mercadorias sem grande valor acrescentado, produzidas a baixíssimo custo por quem pouco teria de saber.
Que satisfação daria a essas direitas perenizarem-se no poder, graças a uma população quase analfabeta e, por isso mesmo, mais facilmente manipulável.
O reinício do processo de formação de adultos, agora sob a nova marca «Qualifica», pretende apostar determinadamente num país mais desenvolvido, capaz de produzir mercadorias resultantes das políticas dedicadas à Investigação e ao Desenvolvimento e concretizadas por trabalhadores bem pagos, sempre mobilizados para a formação contínua.
Assim perdurem tais projetos e o futuro do país será decerto bem melhor...

O caminho está a fazer-se a andar

O meu amigo Fernando é um cético. Em tempos andámos a navegar nas mesmas águas, porque eram elas as percorridas pelos navios cujas tripulações nos integravam. Mas as outras «águas», as políticas, sempre nos distanciaram, porque sempre defendi as esquerdas e ele nunca se quis comprometer nem com elas nem com as que se lhes opunham num sentido mais ideológico.
Nas últimas semanas tenho tido o privilégio de o ver comentar os textos aqui postados, mantendo a atitude de desconfiança quanto ao caminho por que vamos politicamente seguindo. Ao meu inveterado otimismo vai reagindo com um mitigado pessimismo, só suavizado pela assumida expetativa de ver para crer.
A realidade, porém, vai-me dando razão:  não só no-lo dizem os indicadores económicos, mas até jornais internacionais e a Universidade de Harvard, andam a entusiasmar-se com a alternativa representada por esta solução de convergência das esquerdas como antídoto contra os populismos da s extremas-direitas.
Quero crer na possibilidade de haver aqui algo de novo, de pioneiro, passível de vir a ser replicado noutros países onde o conluio dos sociais-democratas com o capital financeiro nos trouxe até ao impasse de que nos começamos a livrar. Até porque, representando Trump um puxão demasiado brusco para a direita, as leis da Física pressupõem a forte possibilidade de igual força aplicada em sentido contrário.

segunda-feira, 6 de março de 2017

A intragável imprensa económica

Os jornais e as revistas económicas é que andaram a promover os zeinalbavas como génios da gestão de empresas. Como o fizeram com os rendeiros, supostamente com toque de midas, mas só capazes de transformarem em proveito próprio os investimentos alheios, porque os prejuízos “delegaram” nos incautos que neles confiaram.
Esses «especialistas» em informações económicas foram cúmplices ativos de autênticos esbulhos enquanto defendiam a inquestionável superioridade da economia de mercado sobre a do setor público.
Eles foram os marketeiros de fraudes, que deixaram aforradores sem parte substancial das respetivas poupanças e tornaram-se culpados objetivos de tudo quanto acabou por justificar a vinda da troika.
Apesar de tanta malfeitoria continuam a escrever em semanários de referência, a perorarem nos telejornais e até a fundarem jornais online com que visam prosseguir as danosas ações.
Quando deles nos livraremos, tendo em conta o prejuízo causado e ainda por causar aos nossos interesses coletivos?
E não se veja aqui um apelo à censura. Apenas que lhes dediquemos indiferença q.b. para os , condenar a vendas e audiências mais baixas, suscetíveis de porem a pensar quem lhes paga as "opiniões": se o que defendem tiver nenhum apreço, que ganharão em mantê-los como pesos mortos nos seus meios de comunicação?

Quando homens sem qualidades insultam quem as tem

Pessoalmente não sinto particular simpatia por Francisco Louçã a quem imputo fortes responsabilidades por termos sofrido quatro anos de entroikada governação. A solução política, fundamentada na atual maioria parlamentar, dificilmente a veria possível se o Bloco não tivesse passado a ser dirigido pela nova geração, que recebeu o testemunho dos fundadores. Mas a polemicazinha (no diminutivo, porque essa é a natureza de quem a quis lançar) desta semana revela bem como as direitas portuguesas estão pejadas de «homens sem qualidades».
Celeste Cardona ou Nuno Fernandes Thomaz são dois casos que logo surgem a talhe de foice como exemplos de quem não possuía currículo justificativo para que o CDS de Nuno Melo os impusesse, anos a fio, como administradores da Caixa Geral de Depósitos. Bastava ao partido a divisão do poder com o PSD e logo garantia esses e outros cargos bem remunerados para algumas das suas mais gradas figuras.
Só pode ser, pois, anedótica a indignação revelada esta semana por aquele deputado europeu quanto à nomeação de Francisco Louçã para consultor do Banco de Portugal.
Quem é Nuno Melo para se considerar habilitado a criticar a indigitação de um prestigiado professor universitário, com obra de referência publicada nas áreas económicas, para o pretender desqualificar em nome da «partidarização»? Para além de andar na política com tiques de hooligan e penteados ridículos, que méritos alguma vez já exibiu quem nessa atividade tem auferido rendimentos escandalosamente acima dos revelados pelos seus méritos?
A história só mereceria a indiferença, que devemos dedicar a tal gente, se não continuasse o efetivo abocanhamento dos principais cargos públicos em favor dos que, provenientes das áreas políticas da oposição, tudo farão para levantarem obstáculos desnecessários às políticas do governo.
Nesse sentido justifica-se a nomeação de Miguel Frasquilho para «chairman» da TAP? Para além de político sem rasgos de brilhantismo ou de quadro influente do universo bancário da família Espírito Santo, que currículo o habilita a tal promoção? O facto de ter andado a publicitar as maravilhas de investir em Portugal, que insuficiente acolhimento recebeu junto dos potenciais potentados estrangeiros? Não se lhe conhecem, também aí, grandes feitos! Como é que ainda pode alguém reclamar quanto à suposta partidarização das administrações públicas? Só a intenção de lançarem areia para os olhos dos mais ingénuos com «factos alternativos» justificarão tais atoardas...

domingo, 5 de março de 2017

Sinais de fim de ciclo

Numa das suas mais recentes emissões John Oliver dava conta de um exemplo prático de como Trump apavora os imigrantes: sempre que liga para casa a avisar que vai chegar mais cedo e está ... excitado!
Numa destas noites a pobre da Melania deve-se ter sentido de folga, porque as preocupações do parceiro terão justificado prolongada insónia em torno de uma questão angustiante: como é que andam a descobrir todos os contactos, que os meus homens de mão andaram a fazer com os russos?
Horas e horas a fazerem-no andar em loop deram, de súbito, lugar à epifania: “só pode ter acontecido porque o Obama mandou pôr escutas nos meus telefones!”
E vai de começar a postar tweets em prodigiosa sucessão ainda os relógios não tinham batido as seis da manhã.
Não lhe passou pela cabeça que seriam os russos a estarem - como sempre estão! - sob a vigilância do FBI, da CIA ou de qualquer outra das muitas agências de espionagem em que os EUA são tão pródigos. E que todos quantos se encontram com esses russos em território americano acabam por vir na rede.
Como estória da carochinha iludirá uma vez mais os indefetíveis, que só veem a Fox News ou seus sucedâneos. A curiosidade residirá em aferirmos por quanto tempo eles continuarão a ser tão numerosos quantos os que em 8 de novembro decidiram eleger tal espécime para a Casa Branca.
Mas um certo ambiente de fim deste ciclo, há tão pouco iniciado, já se sente noutros aspetos da vida norte-americana: porque tem o stock farmacêutico quase a expirar o prazo, o governador do Arkansas decidiu executar a pena de morte em oito prisioneiros no prazo de dez dias.  Ciente de não ter quem lhe venda mais produto para matar os condenados, ele aproveita o que lhe resta para uma “despedida em grande”. É que a rejeição dessa pena capital pelos eleitores norte-americanos está a crescer a olhos vistos e não tardará que os políticos com vocação homicida se vejam privados dos meios de a concretizar.

Um sabotador à solta nos estúdios da SIC

Marcelo já foi bastante assertivo sobre a necessidade de um enorme sucesso na emissão de dívida subordinada, que a Caixa Geral de Depósitos se prepara para lançar no âmbito da sua recapitalização de capital.
O que decidiu, então, fazer José Gomes Ferreira no seu vómito em forma de programa na SIC? Lançar uma campanha, que pretende sabotá-la, classificando-a de ação destinada a  “enganar velhinhas”.
Que se trata de descarada mentira já se apressou a Administração da CGD a clarificar em comunicado: não sendo destinada ao público em geral, serão seus subscritores os investidores institucionais.
Mas nem José Gomes Ferreira, nem o seu chefe, Ricardo Costa, vieram até agora apresentar desculpas por tão clara tentativa de alimentar as campanhas contra o banco público, que as direitas parlamentares têm procurado criar,  seja com desconfianças quanto aos montantes necessários nessa recapitalização, quer mais recentemente com o caso dos sms.
Não se trata de mau jornalismo, mas de autêntico crime económico contra os interesses do Estado e dos cidadãos. E urgiria encontrar forma legal de o penalizar...

sábado, 4 de março de 2017

A sonsice de um proclamado modelo de virtudes

O empréstimo de dez mil euros contraído pelo juiz Carlos Alexandre junto do procurador Orlando Figueira, comprovadamente corrompido pelo vice-presidente angolano Manuel Vicente, é um bom exemplo de constatação há muito tida como lei: são os maiores defensores das virtudes públicas, quem acabam por ser desmascarados nos seus indignos vícios privados. Porque não sendo em si nenhum crime receber um empréstimo de um amigo, o facto de o ter auferido nega-lhe a legitimidade para questionar quem também assim procedeu.

Tendo sido esta a primeira rachadela no telhado de vidro, que o tem acobertado nestes anos de imerecida notoriedade, ficamos expectantes quanto aos demais vícios privados que se podem esconder por trás de tanta virtude proclamada. É que, como vimos com Cavaco Silva, este tipo de caracteres, que muito devem a uma certa salazarenta forma de estar na vida, comportam outras formas de velhacaria: a intriga, a falta de escrúpulos, a ganância, a gula (vide a imagem da comprometedora degustação do bolo-rei), etc.
Havendo sério perigo nas tentativas de beatificação de tal gente, desmascarar-lhes as fraquezas é tarefa de que nunca poderemos abdicar...

Um dispendioso erro de casting

Não é preciso fazer sondagens para aferir a percentagem significativa de portugueses, que consideram injustificada a continuidade de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal.  Ao renovar-lhe o mandato, Passos Coelho só agravou o carácter doloso do conjunto das políticas e decisões com que infernizou a vida dos portugueses durante quatro anos.
O primeiro mandato já lhe denunciara a incompetência, a negligência e o facciosismo com que exercera funções. O estado calamitoso em que o sistema financeiro se ia afundando denunciavam-no como trágico erro de casting. Mas Passos, ele próprio incompetente, negligente e faccioso, fez o que costumam fazer os que avaliam a mediocridade alheia à luz da sua própria. E assim o renomeou como se de génio se tratasse.
Infelizmente não existem mecanismos suficientemente sólidos para justificarem a remoção de tão maligna criatura. Sobretudo, porque de Frankfurt, Draghi trataria de carregar o cenho de desagrado a dar conta de tão drástico ataque corporativo à sua «classe».
Resta ao governo acentuar o que tem feito: através das nomeações dos novos administradores ir retirando o poder a Carlos Costa, impedindo-o de continuar a estragar o que vai sendo reparado.  Que lhe fique o penacho, o lauto ordenado e as regalias que o acompanham, mas se dedique a contar moscas no seu gabinete. Para pior já basta assim...

quinta-feira, 2 de março de 2017

Dos cadáveres adiados aos copinhos-de-leite

Das catacumbas ressurgiu Teodora Cardoso para desvalorizar os resultados conseguidos pelo atual governo e pela maioria que o apoia.
Na véspera Francisco Louçã assinara uma crónica no «Público» a respeito de, para as direitas, «isto  já não ir lá com copinhos-de-leite».
O que queria dizer com isso o novo conselheiro de Carlos Costa no Banco de Portugal? Muito simples: se as direitas tiveram em tempos Vasco Pulido Valente, Fátima Bonifácio ou Paulo Rangel, entre outros, para aparentarem algumas ideias sobre o futuro do país, esgotados tais espécimes, debalde se viraram para uma certa geração mais nova representada por Henrique Raposo, João Miguel Tavares e outros que tais. Se os antecessores tinham estiolado, os copinhos-de-leite ainda mais rapidamente se revelaram fora de prazo.
Para as direitas e para os meios de (des)informação que as conforta, a alternativa está na tenebrosa criatura do dito Conselho de Finanças Públicas: só ela lhes dá alento quanto à possibilidade de, mesmo tarde e a más horas, o Diabo acabar por aparecer.
A oportunidade era conveniente, porque tendo-se esgotado a novela da Caixa Geral de Depósitos, o massacre em torno das fugas de dinheiro para os offshores estava tão intenso, que até José Gomes Ferreira ou Manuel Carvalho tiveram de, a contragosto, alinhar no coro contra Núncio e Marilú Albuquerque.
O problema é que Marcelo não anda mesmo nada a dar para esse peditório: pressentindo a direção donde soprarão os ventos nos próximos tempos, deixa-se ir à bolina na expetativa de ter tempo para atuar de acordo com a sua natureza se a meteorologia mudar. Por agora vai contribuindo na desminagem dos engenhos artesanais, que as direitas vão querendo plantar no vitorioso caminho da governação.
Preveem-se tempos difíceis para Passos, Cristas & Cª: mais um trimestre avança para o fim e nada lhes corre de feição. Que podem argumentar com o crescimento a alavancar, o investimento a florir, o desemprego a descer e o défice a consolidar-se abaixo das obrigações europeias? Que lhes restará para maldizerem as esquerdas se até as agências de notação financeira dão sinais de irem rever as classificações de lixo com que as prendaram nos quatro anos do seu desgoverno?
Decididamente a conjuntura frustra os velhos reacionários e quantos lhes ansiavam suceder. As teodoras bem podem teimar na tentativa de desafinação do coro esperançoso dia-a-dia mais intenso . É que merecem a triste sorte de se verem empurradas para as travessas dos fala-sós das nossas cidades.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Eu vou querer Paulo Núncio como meu advogado

Quase por certo jamais contarei com 10 mil milhões de euros nas contas bancárias. Nem mesmo com cinco ou até um! Mas tomei hoje uma decisão: se os vier a ter e face ao desempenho de Paulo Núncio na Comissão Parlamentar será ele quem contratarei como advogado para  sonegar aqueles muitos milhões num qualquer paraíso fiscal. +E que nem se trata daquela expressão bem portuguesa do “quem o ouve ninguém o leva preso”, que pressupõe alguma possibilidade de inocência para quem é interrogado. Neste caso, ele é culpado, quase mostra orgulho em sê-lo e desafia quem considere que tal facto possa ser censurável.
Ele não negou ter sido de sua lavra a decisão de esconder as estatísticas comprometedoras para quantos andaram alegremente a fugir ao fisco. Manteve-se quase impassível, quando o forçaram a reconhecer a violação das orientações da Comissão Europeia e da OCDE, que obrigariam a essa divulgação. E até cuidou de salvaguardar os interesses dos seus putativos patrões através da tentativa de esvaziar a importância da convocação de Vítor Gaspar ou de Maria Luís Albuquerque para testemunharem sobre o mesmo assunto.
Pode ter violado leis várias. Pode ter sido suspeito amigo de gente envolvida em branqueamento de capitais e de fuga aos impostos. Mas teve o topete de reconhecer as faltas sem lhes dar a devida importância.  Esteve ali sentado à cabeceira de duas filas de deputados com o ar angelical do miúdo apanhado na travessura de ter roubado um dos bolos postos pela cozinheira a arrefecer à janela.
Está, pois, decidido: quando eu próprio quiser cometer falta grave com os meus escassos capitais  aposto nele para a conveniente defesa: não só serei seu beneficiado infrator como conto que dê corpo às balas e me poupe a maiores chatices...