sábado, 18 de fevereiro de 2017

Passarinhos e passarões

1. Uma das notícias mais importantes da semana foi a do anúncio do novo aeroporto no Montijo para o qual Marcelo já sugeriu um nome incontornável: Mário Soares.
Trata-se, porém, de um remendo para solucionar um problema tido como incontornável na época do governo de José Sócrates e para o qual se inventaram mil e um obstáculos para que não fosse por diante. Quem pode esquecer os urubus, muitos dos quais ainda por aí andam como comentadores encartados, que diziam extemporânea essa necessidade, porque a Portela ainda poderia bastar por muitos e bons anos?
Viu-se o resultado: cinco anos depois não há como encaixar nas disponibilidades do atual aeroporto todos os voos potencialmente previstos para nele aterrarem ou dele partirem.
O país não se consegue livrar dos resquícios do salazarismo, que fizeram travar a Ponte sobre o Tejo por décadas e igualam tal feito com o novo Aeroporto. Porque ir-se-ão gastar quase 600 milhões de euros numa obra que mitigará o problema, mas o não resolverá a médio prazo. E quando o  novo aeroporto custaria mil milhões de euros!
Esta última hipótese gorou-se, porque Passos Coelho privatizou a ANA e deu aos franceses da Vinci a gestão de todos os aeroportos nacionais por 50 anos, tornando-os parte fundamental da solução para novas instalações portuárias. Ora esse concessionário cuidará de garantir o mais rapidamente possível o retorno do seu investimento - existem contas a provar que ao fim de dez anos já o terá recuperado, sendo os demais quarenta de lucros líquidos! - e de minimizar todas as intervenções a que está obrigado por contrato. Por isso nem lhes passaria pela cabeça investirem num novo aeroporto se têm uma solução mais baratinha como a agora gizada.
Se isto não comprova o autêntico crime cometido pelo governo anterior contra os interesses nacionais, que mais seria necessário para o comprovar? Mas para quem tiver dúvidas podem-se pegar em todos os demais exemplos - REN, CTT, etc. - que são eloquentes exemplos de como Passos Coelho não tem qualquer razão para usar o pin na lapela, tão antipatrióticas se revelaram as suas políticas!
2. Nunca encontro grandes motivos para elogiar Marcelo Rebelo de Sousa, mas este fim-de-semana encontrei a exceção para confirmar a regra: os comentários venenosos contra Cavaco Silva a propósito do vómito em forma de livro por este apresentado na quinta-feira. Constituem crítica mais contundente do que a defesa da honra intentada por José Sócrates. É que se o texto do principal visado pela prosa cavaquista poderá ter escapado a muitos dos que o condenaram apressadamente sem provas, as palavras de Marcelo terão caído fundo na atenção da maioria dos portugueses.
3. Mas, porque de Marcelo mais vale não deixar latente apenas o elogio, insista-se numa dúvida pertinente: sendo Marques Mendes e Lobo Xavier seus conselheiros, como entendê-lo ilibado da atividade anti-CGD a que eles se vêm dedicando há vários meses?  Que sentido têm a suas afirmações de apoio à  estratégia de recapitalização se os seus diletos amigos insistem em sabotá-la?
4. O último comentário tem Assunção Cristas como protagonista já que o «Expresso» anunciou o seu pedido de audiência a Fernando Medina. Para quê, não se sabe! Mas podemos adivinhar: se há algumas semanas andou a pedir aos munícipes, que lhe dessem ideias arejadas para o seu programa, será que face à indiferença dos destinatários, irá junto do atual edil à procura daquelas que ele tenha de sobra para lhas dispensar de forma a evitar a vergonha de se candidatar sem nada para propor?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Para acabar de uma vez por todas com essa coisa esdrúxula, que nos atanazou as vidas

Está mais do que demonstrada a tese de, sendo a História contada pelos vencedores,  estes dela darão a narrativa mais conveniente. Escolhamos ao calhas uma qualquer época passada e, elencados os seus principais factos, podemos logo indicar quem tratou de a moldar de acordo com tal seleção.
O livro ontem lançado por Cavaco Silva com a presença entusiasmada das várias direitas - da mais extremista, personificada em Passos Coelho, à eanista representada pelo seu criador - vai nesse sentido: apesar de ter vencido quatro eleições por maioria absoluta e ser o político por mais tempo em cargos de poder a nível nacional, o antigo presidente sabe-se um irremediável perdedor. Por isso dedica-se à recriação das memórias, realçando o que lhe convém e omitindo, muito oportunamente, tudo quanto sabe macular-lhe definitivamente o legado.
Perante as reações populares aos funerais de Álvaro Cunhal e Mário Soares, ele sabe de antemão o que se lhe adivinha, quando passar de cadáver adiado a irrevogável defunto. O desprezo ou a indiferença são-lhe inevitáveis. Por isso estica a efabulação por quase seiscentas páginas, a que outras tantas por certo se seguirão.
Como em todos os maus romances, que primam pelo maniqueísmo, arranja um mau da fita em quem concentra todas as culpas sobre os males do país. Tomando-o como único responsável da vinda da troika, não considera sequer a responsabilidade da situação internacional decorrente da crise dos subprimes, a responsabilidade das oposições que inviabilizaram o PEC IV e, sobretudo, não assume as culpas por, durante os dez anos de duração dos seus próprios governos, ter enchido o país de betão e destruído setores económicos por que passavam muitos dos bens transacionáveis, que o país exportava ou consumia.
Não nos admiramos, igualmente, que passe por cima dos seus comprometimentos mais do que suspeitos com quanto sucedeu no BPN e as habilidades que o tornaram num homem rico, quando pouco ainda tinha de seu, quando se tornou deputado.
Porque é crível que a História venha a ser escrita pelos que vierem a superar o austericídio e o exânime neoliberalismo - de que foi empenhado cultor - Cavaco pressente a irrelevância da sua passagem pelas nossas vidas. Daqui a uma ou duas gerações será tão lembrado como um Domingues Pereira ou um António Maria da Silva, que até foram primeiros-ministros por três e quatro vezes há menos de um século. Quem deles hoje se lembra fora do círculo dos especialistas da Primeira República?
Pelo sucesso, que este governo está merecidamente a conquistar, com instituições e publicações internacionais a darem conta crescente de quanto sentem inesperados os resultados de uma estratégia governativa, que julgavam condenada ao fracasso, que clima sentirá o cinzento “escritor”, enquanto compõe o seu título seguinte e o contexto tenda a desmentir-lhe todos os preconceitos de quem viveu em permanente azedume contra quem lhos foi desmascarando?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O regresso das perguntas de um operário letrado

Volto com alguma frequência à personagem imaginada por Brecht sobre um operário letrado apostado em fazer umas quantas perguntas, que o levassem a compreender melhor o mundo.
Aqui vão as que ele hoje faria perante a insistência na novela Centeno:
1, António Domingues não era o tal fulano, que recusava divulgar os seus rendimentos e patrimoniais e está agora a mostrar os seus emails pessoais para que todos os possam conhecer?
2. Esse Lobo Xavier a quem Domingues andou a mostrar os sms, e logo os levou a Marcelo, não foi agora nomeado vice-presidente do BPI e como tal é parte interessada no enfraquecimento da CGD?
3. Esse Marcelo, que anda a vangloriar-se de decidir quanto à continuidade ou não de um ministro, desconhece só o poder exigir mediante a dissolução da Assembleia da República e a convocação de novas eleições? Não está previsto na Constituição, que só o parlamento tem poderes de viabilizar ou derrubar governos? Não é verdade que nem mesmo o Parlamento pode demitir o ministro A ou o secretário de Estado B?
4. Será que Marques Mendes e Lobo Xavier, enquanto conselheiros de Estado nomeados por Marcelo, andam a cumprir uma estratégia deste último para pôr fim à atual maioria parlamentar?
5. Será que o facto de a SIC perder muita audiência no seu telejornal de domingo (quando fala Marques Mendes) em relação a sábado (quando ele não está lá), significa que Balsemão está indiferente à perda de dinheiro, que essa queda pressupõe, conquanto o minorca de Fafe continue a lançar o seu veneno?
6. Será que o PCP tem razão quando diz que uma campanha das direitas como a que estas vêm alimentando contra Centeno, bastaria para derrubar um banco privado se para ele lançassem tal tipo de ataques?
7. Será mesmo verdade que toda esta novela tem a ver com as sondagens, que vêm revelando o desfavor sustentado do eleitorado em relação aos partidos das direitas?
8. Será que toda a campanha tem a ver com o facto do governo ter conseguido um défice histórico na história da Democracia,  e que as direitas sempre disseram impossível de alcançar?
9. Será que também se explica pela aceleração do crescimento da economia, como o vêm demonstrando os números do INE?
10. Outra explicação residirá no facto de os leilões da dívida portuguesa terem batido o record histórico dos juros mais baixos  e, mesmo a 10 anos, voltarem abaixo dos 4%?
Como epílogo fica a questão remanescente sobre Marcelo: neste ziguezague, ora à esquerda, ora à direita, por quanto tempo usufruirá de apreciação positiva nas sondagens? Normalmente quem quer agradar a gregos e a troianos acaba por desagradar a todos. E lá se vai a possibilidade de cumprir um segundo mandato!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Livrai-nos dos escorpiões!

A continuação da novela em torno do que foram, ou não, os compromissos de Mário Centeno com António Domingues e as reações que dela advieram desde a conferência de imprensa de ontem à tarde, justificam-me três comentários:
1. Como tenho reiteradamente dito, e repetido neste blogue, sinto uma enorme estranheza por quem, sendo socialista, comunista, bloquista ou verde tem visto com bastante complacência o comportamento de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo deste ano de mandato.
Posso ser visto como um incorrigível teimoso mas nem votei nele, nem nele alguma vez confiarei: como nos avisa a fábula, um escorpião será sempre um escorpião, que age de acordo com a sua natureza, mesmo quando quem aceitou transportá-lo no dorso se deixou cativar pelas suas melodiosas palavras ou pelas selfies com ele tiradas.
A declaração da presidência da República, na sequência da conversa de Centeno com os jornalistas serviu para atirar um fósforo para um palheiro. Se não quis ser incendiário, não deixou de o parecer!
As esquerdas que não se cuidem, se insistem em julga-lo, se não um aliado, pelo menos neutro quanto à disputa política dos próximos anos!
2. Toda a campanha contra Centeno tem subjacente as sondagens divulgadas na semana passada, mas, sobretudo, os excelentes indicadores sobre o rumo da economia de acordo com o que vem sendo publicado pelo INE. E, naturalmente, as reações positivas do comissário Moscovici e de instituições internacionais, incluindo as agências de notação, que, não querendo dar já o braço a torcer, vêm reconhecendo sinais de clara recuperação no crescimento do PIB, na redução do desemprego e na dinâmica crescente do investimento.
As direitas sabem-se à beira de um limiar em que ficarão com argumentos cada vez mais pífios para criticar uma solução governativa, que funciona. Se. como o próprio Centeno considera possível, o desemprego tender a reduzir-se para menos dos 10%, o crescimento a evoluir e a ultrapassar as previsões mais cautelosas do governo e os fundos estruturais potenciarem investimentos determinantes para a requalificação do nosso tecido produtivo, com que cara conseguem ir Passos Coelho e Assunção Cristas às próximas eleições legislativas? Se o pleno das direitas está atualmente em mínimos históricos para que irrelevante dimensão minguarão?
A única possibilidade de travarem esse previsível definhamento residirá em recorrerem intensivamente à intriga, à coscuvilhice, à mentira descarada, à criação de “factos” a partir do nada. E é isso que visam com a tentativa de derrubarem o principal arquiteto dos excelentes resultados recém-conhecidos, e é o que procurarão através da contínua aposta na divisão entre as esquerdas nos próximos meses, tendo em conta o potencial de divergências nas vésperas das eleições autárquicas.
Façamos votos que, socialistas, comunistas, bloquistas e verdes ajam com lucidez e inteligência desarmando com cautelas o terreno minado em que as direitas os querem ver progredir. A maioria dos portugueses agradece-lhes que não deixem rebentar nenhuma bomba!
3. Disse-o aqui há dias e volto a repeti-lo: isto está mesmo a pedir uma grande manifestação nas principais cidades do país. Sob que palavra-de-ordem? «Contra as tentativas da direita para destruir a CGD». Quem é que poderá estar em desacordo com uma mobilização à pala desse objetivo?

Sermos ou não imortais, eis a questão!

Anuncia-se uma nova evolução tecnológica nas redes sociais: em função dos conteúdos produzidos pelos detentores das respetivas páginas, os algoritmos mágicos serão capazes de eternizar-lhes as presenças mesmo depois de mortos. Isto significa que eu poderia manter um fluxo de textos militantes em prol da causa socialista (aquela que mais me é querida na vertente ideológica!) e adaptados às circunstâncias, que nem sequer imaginaria virem a acontecer. Prosseguiria, assim, o debate com quem costuma interagir nessas páginas, uns a partilharem a ânsia de uma sociedade mais justa e igualitária, outros a serem até acintosos na forma como a repudiam.
Ao contrário dos que contestam esta novidade por perversão da identidade de quem já faleceu, não estou assim tão certo da maldade congénita da invenção. É que a minha identidade, sendo única, resulta do somatório de todas as vivências e influências, que recolhi. Não é uma “alma” como pretendem os cristãos, nem lhe atribuo particulares conotações transcendentais. As doutrinas orientais, que suportariam essa possibilidade, são um logro tão vetusto como qualquer outra crença em inexistentes divindades. Vejo-me mais facilmente como um ser matemático: se um qualquer deus tem substância esconde-se decerto na magia dos números. Por isso um algoritmo sério, blindado contra a possibilidade de ser manipulado e pervertido, até constituiria alternativa a levar em conta para satisfazer o eventual desejo de imortalidade.
A dúvida reside, porém, aí: até que ponto uma liderança totalitária não cuidaria de alterar a gestão dos dados recolhidos do defunto de forma a pô-lo a defender teses opostas às por ele sempre defendidas? Será quase impossível a garantia de ter nos criadores dos algoritmos quem da evolução social possua uma mundividência suficientemente desapaixonada para evitar a inserção de fatores corretivos no modelo desviando-os de acordo com ela. Reside aí o meu ceticismo que só poderia diluir-se se essa criação decorresse da intervenção exclusiva de uma máquina. Mas surgiria então outro receio não menos despiciendo: quem nos garante que o temor suscitado pelo computador de bordo de «2001, Odisseia no Espaço» não tem fundamento?
Por uma questão de prudência mais valerá que se comece por cuidar desses avatares com a reserva reconhecida aos direitos de autor: que cada um disponha da sua disponibilidade ou não para permitir essa existência virtual para além da morte. Que disponha de si, incluindo da identidade virtual, conforme lhe aprouver: quem quiser assim sobreviver além da morte, que o autorize. Quem o rejeitar, que o proíba.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu quero uma manifestação em defesa da Caixa Geral de Depósitos

Marcelo Rebelo de Sousa tem desaprovado os ataques a Mário Centeno. O «Expresso» dá conta de quanto ele consideraria prejudicial ao país a demissão do ministro depois dos sucessos económicos e financeiros do último ano. Aquilo que as direitas vêm exigindo constitui crime de lesa pátria, por propiciarem as desconfianças dos mercados e das instituições internacionais relacionadas com a regulação financeira.
O assassinato ad hominem, que Passos Coelho, Assunção Cristas e Marques Mendes perpetram não tem qualquer perdão. Eles sabem o mal que estão a fazer ao país, potenciar-lhe dificuldades, que seremos todos nós a pagar, e não se coíbem de o fazer, exclusivamente em seu interesse pessoal.  É por isso mesmo, que esse comportamento não  pode ficar impune!
É caso para perguntar se Marcelo ainda mantem a confiança no seu conselheiro, ou se lhe aceita a duplicidade de o ter nessa função, e ao mesmo tempo vê-lo como instigador do violento ataque das direitas ao ministro merecidamente admirado pelo seu desempenho. Não esqueçamos, que toda a novela em torno de Domingos e Mário Centeno teve origem no comentador do canal de Balsemão.
A diatribe deste fim-de-semana não pode constituir mais um episódio sem consequências da contínua atividade de tal chefe de gangue contra o país. Quem é ele para ajuizar a seriedade de outrem? Não pertence a um dos mais importantes escritórios de advogados, publicamente conotado com aquele papel de «Facilitadores» de negócios, muito detalhadamente esmiuçado por Gustavo Sampaio no seu livro desse nome e em que o víamos como um dos principais lobistas dos interesses dos que só pensam nos lucros independentemente dos prejuízos causados ao país? Não está ele envolvido no caso do antigo ministro do Interior de Passos Coelho, que começa a ser julgado esta semana e no qual se ficou a saber dos seus pedidos sigilosamente a alguns dos réus para ver resolvidos problemas do seu exclusivo interesse?
Marques Mendes não é só um homem sem estatura, como chegou a ser gozado por alguns dos seus adversários dentro do PSD. O seu diminuto tamanho, compensou-o em velhacaria, em jogo de cintura, em flexibilidade para ir contornando os obstáculos e aparecer sempre em cima da onda. O facto de ter sido convidado para preencher tempo de antena cativo na estação Povo Livre/SIC tem muito a ver com o reconhecimento das suas “qualidades” por parte dos que não se conformam com a transformação do país em algo de mais decente e menos desigual. E que sabem o quanto podem contar com ele para destilar o veneno mediático capaz de propiciar a vinda do tal Diabo, que a incompetência do líder do PSD foi incapaz de convocar.
É por isso mesmo que não compreendo o que esperam os partidos da maioria parlamentar para convocarem uma grande manifestação nas principais cidades do país em defesa da Caixa Geral de Depósitos e contra as iniciativas contra ela cometidas à conta destas intrigas estéreis, mas extremamente prejudiciais ao país.
Depois da resposta nas ruas dada contra quem pretendia prejudicar o Ensino Público em detrimento dos interesses de uns quantos colégios privados é altura dos partidos que apoiam o governo darem uma prova inequívoca da sua convergência naquilo que mais interessa aos portugueses: um banco público, financeiramente saudável e ao serviço da economia nacional.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Gente minúscula sem lágrimas

1. De manhã, antes que a chuva voltasse, fui num salto à rua para comprar o «Expresso». Tão só regressado, liguei a televisão e apanhei Passos Coelho a dizer barbaridades ainda mais repulsivas do que as do costume. Por um lado acusou o governo de nada ter feito em prol da Caixa Geral de Depósitos durante um ano, como se tivesse sido sua a negociação com as instituições europeias quanto à recapitalização, que, pelo contrário, sempre asseverara impossível de alcançar. Depois, foi capaz de dizer sem se rir, que a «equipa-maravilha» (sic) no Ministério das Finanças, tinha falhado em todas as suas previsões. Como se conseguir um défice abaixo de 2,4% fosse coisa pouca, ademais sem nunca recorrer aos orçamentos retificativos, que ele e Maria Luís nunca tinham conseguido dispensar.
Já não se trata de distorcer a realidade, mas de pura desfaçatez no recurso permanente à mentira como estratégia da retórica política.
Será que Passos Coelho se julga capaz de igualar Trump na capacidade de convencer os indefetíveis quanto à consistência dos seus argumentos? Se assim for está bem enganado: é que, se no ainda inquilino da Casa Branca há um crescente número de observadores a explicarem-lhe o comportamento em função de distúrbios mentais, mais tarde ou mais cedo, justificativos do «impeachment» e do definitivo internamento num hospital para loucos furiosos, em Passos Coelho não se lhe dá a complacência de tal juízo. É apenas um futuro desempregado da política e dos negócios, que se agarra a qualquer prancha disponível para evitar o afogamento depois do naufrágio, que terá para ele representado o sucesso do atual governo.
2. Outra notícia colhida no mesmo canal foi a pretensão de quem explora a central de Almaraz em mantê-la ativa durante mais uns anos, de forma a alcançar sessenta anos de funcionamento. Esse é o novo objetivo dos que têm feito do nuclear um negócio chorudo, mesmo com o prejuízo da ameaça à vida e às populações a viverem em seu torno. Mas, se por agora falam dessa extensão de validade como limite para iniciarem enfim a sua definitiva paragem, existem motivos para crer que, daqui a mais uns anos, os veremos a solicitarem a autorização para continuarem essa atividade até ela se ver comprometida por uma definitiva ... explosão.
3. Durante o dia as televisões também trouxeram Cavaco Silva à colação por causa do livro anunciado para a próxima semana.
Os melhores comentários sobre o regresso de tal zombie, li-os no twitter, onde há quem anuncie a intenção de comprar o livro se souber que nele fica explicado como se pode vir a ser proprietário de uma vistosa moradia algarvia sem gastar um chavo.
Mais a sério não espanta que as direitas e os seus altifalantes promovam o regresso da criatura: desgostados com Marcelo por não lhes fazer as vontades, e tendo a oportunidade de continuarem a fazer de Sócrates o bombo da festa, tudo lhes serve para garantirem tempo de antena a quem se justificaria o anonimato condizente com os seus comprovados deméritos.
É que a História portuguesa desta época reterá a personalidade de Mário Soares como um dos «pais» da democracia e pela ambiciosa política de adesão à CEE. Em contraponto com ele que tem Cavaco para ter direito nem sequer a uma notinha de rodapé em letra minúscula? A destruição de setores inteiros da nossa economia? A entrega a privados de tudo quanto lhes garantisse lucro e futuros empregos para os amigos? Ou sucessivos episódios reveladores da sua mesquinhez e perfídia? 

Uma sondagem esclarecedora

Olhando para a sondagem do «Expresso» desta semana podemos entender melhor o porquê do chinfrim suscitado pelas direitas durante os últimos dias desta semana.
Podemos bem imaginar como isto funcionou: sendo crível que tenham dentro a Eurosondagem quem lhes dê antecipadamente os resultados a publicar, as direitas sentiram a urgência de escamotearem o recuo significativo dos seus apoiantes corroborando uma tendência, que se vem agravando de mês para mês.
Para os estados-maiores da Lapa e do Largo do Caldas as sinetas de alarme devem ter soado particularmente ruidosas. Na exata proporção de imediata barragem sonora lançada para desviarem a atenção dos portugueses da comprovada e crescente admiração dos eleitores pela competência e inteligência com que o governo está a cumprir o seu papel e pelo apoio das outras esquerdas parlamentares em tudo quanto mais importa para a estabilidade política. E a condenação da enorme maioria dos inquiridos a respeito da cambalhota do PSD na questão da TSU, que equivale ao repúdio pela estratégia do vale-tudo em que se esquecem princípios e posições anteriores para apostar no tacticismo da navegação à vista sem clarividência pelo que mais importaria às direitas no médio-longo prazo.
Vivemos tempos interessantes em que as esquerdas andam a aprender a coordenarem-se melhor entre si, e nos darem a satisfação de serem maioritárias por muitos e bons anos, enquanto as direitas recuam à conta da indigência mental de quem as lidera.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Quem são os atuais traidores da Pátria!

Há dias no «Público», Francisco Louçã estranhava como tinham existido tantos economistas a aceitarem trabalhar com modelos de análise que tão divergentes se haveriam de mostrar relativamente à realidade.  “Uma resposta é a religiosa: converteram-se a uma noção transcendente que afirma que os mercados têm sempre razão porque a razão do comportamento humano é o egoísmo ambicioso.”
O que se passa com a nossa imprensa está a atingir uma dimensão inaceitável: os melhores e mais experientes jornalistas foram saneados dos respetivos, jornais, revistas e televisões, só sobrando uma geração doutrinada na Universidade Católica, na AESE, na Faculdade de Economia do sr. Braga de Macedo e noutras instituições igualmente empenhadas em transmitir e promover a mensagem religiosa aludida por Louçã e, por isso, mantendo um ódio visceral contra este governo.
As direitas dos negócios andaram anos a fio a promover e subsidiar cursos, conferências, seminários e publicações, que lhes permitissem chegar, nesta altura, a um totalitarismo comunicacional, que faz das supostas tentativas de Sócrates para controlar a TVI uma mera brincadeira de meninos. O que as direitas fizeram para envenenar a opinião pública com o contínuo matraquear das suas supostas verdades irrefutáveis foi estratégia bem conduzida, melhor aplicada e que muito custará a desminar na sua perfídia.
Prosélitos de um neoliberalismo, cujo desenlace se recusam a antever - apesar dos sinais de rutura dele derivados na ascensão dos populismos - promovem o que é de mais antipatriótico, que possa constatar-se na vida política de hoje: a novela Centeno.
Compreende-se que as direitas façam do Ministro das Finanças o seu alvo preferencial: comprovando a sua qualidade técnica, que tanta sombra fizera a Carlos Costa, quando este o impediu de ter o cargo que, no Banco de Portugal, o seu mérito justificaria, deve-se-lhe  a arquitetura macroeconómica que vem progressivamente melhorando, mês após mês, os indicadores medidos pelo INE. Desemprego, crescimento da economia, volume de exportações: até as agências de rating e a OCDE, mesmo a contragosto, vêm reconhecendo a solidez da mudança em curso.
Que bom seria para o PSD, para o CDS e para as muitas marionetas, comandadas por escondidos titereiros nos ecrãs televisivos que Centeno fosse obrigado a demitir-se! Tanto mais que se lhe deve, ainda, todo o conjunto de decisões governativas, que têm apoiado a recuperação da sustentabilidade da banca portuguesa, depois de ambos os partidos da direita a terem sujeitado a tratos de polé.
Que desaforo o do PSD em passar para o novo pasquim digital de economia a matéria sigilosa para a manchete com que hoje deu pasto à voracidade porcina de uns quantos zésgomesferreiras dos vários canais.
A esta cáfila de vende-pátrias de pouco interessa, que mentiras, como as por si profusamente espalhadas, sirvam de fósforo a quem olha para a economia portuguesa como o pirómano para o capim seco. Se o Diabo não se faz aparecido, eles cuidam de promover missas negras para o convocar.
E que dizer do CDS, o partido do irrevogável Portas, que até de Viena surgiu o Álvaro dos pastéis de nata a lembrar como o episódio da revogabilidade do irrevogável constituíra traição à pátria, sem esquecermos os escândalos com os submarinos e os financiamentos do tal Já-sinto Leite Cá-pelo Rego? Como têm sequer topete para virem chamar de mentiroso quem tanto tem zelado pelo interesse dos portugueses  e nenhuma evidência fica das supostas intrigas em que o querem enlamear?
Em todo este episódio lamentável, só não posso compreender a macia reação do governo, que deveria convocar a imprensa para as oito horas pondo todos os portugueses a ouvirem ao início dos telejornais, que as direitas não estão apenas a fazer o que de pior se pode imaginar da «política politiqueira». Estão a causar prejuízos sérios a todos os portugueses, que se congratulam com uma Caixa Geral de Depósitos cem por cento pública e em recuperação depois de quase ter sido assassinada pelas (não) decisões de Maria Luís Albuquerque. Estão a fazer todas as sabotagens possíveis para que os juros da dívida cresçam, causando maiores dificuldades ao financiamento do país e de muitas das suas principais empresas. Estão a pedir a todos os santinhos que o paralítico alemão vire a atenção para Lisboa, agora que lhe deu para voltar a atacar a Grécia como forma de escamotear os prejuízos do Deutsche Bank
O Álvaro, chamam-me só Álvaro, esqueceu-se de imputar culpas a mais atores da vida política nacional:  é que se o Paulinho das feiras anda a cuidar da vidinha à conta da agenda de contactos obtida durante a vigência do governo anterior, já pouco podendo lesar os interesses nacionais, quem cá deixou no partido para acolitar o despeitado e maligno Passos Coelho, não coloca a questão da traição à Pátria no Passado. Está diariamente a atraiçoá-la no presente e no futuro próximo! E é por isso mesmo que têm de ser vigorosamente desmascarados nos seus intentos!